Este artigo busca esclarecer as principais diferenças entre as línguas Esperanto e Ido, as quais têm um tronco comum, embora tenham evoluído de forma separada. O Ido foi desenvolvido no início do século XX, após uma cisão entre os que acreditavam que o Esperanto tinha falhas inerentes que o impediam de se tornar uma língua auxiliar internacional apropriada, e aqueles que achavam que o Esperanto era eficiente do jeito que era, e que o interminável filosofar a respeito da língua apenas a enfraqueceria.

As duas línguas se mantêm próximas, e de certa forma são mutuamente inteligíveis. Uma peça teatral em italiano que foi escrita com diálogos em dois diferentes dialetos foi traduzida com o Esperanto e o Ido representando estes dois dialetos. Da mesma forma que os dialetos frequentemente servem como fontes para novas palavras na literatura de línguas dos povos, o Ido também contribuiu com muitos neologismos para o Esperanto (especialmente nas substituições poéticas para palavras longas que usam o prefixo mal-).

Comparação lingüística O Esperanto se baseia no livro Fundamento de Esperanto escrito por L. L. Zamenhof, enquanto a gramática do Ido está detalhadamente explicada no livro Kompleta Gramatiko Detaloza.

Morfologia É na Morfologia que estão as maiores diferenças entre as duas línguas. Ambas têm as mesmas regras gramaticais no tocante aos substantivos (terminados com -o), adjetivos (terminados com -a) e muitos outros aspectos. No entanto, a relação entre substantivos, verbos e adjetivos passou por várias mudanças com o Ido, baseadas no princípio da reversibilidade. Nas duas línguas se pode notar uma relação direta entre as palavras multa "muito" e multo "uma grande quantidade" simplesmente trocando o sufixo adjetival -a pelo sufixo nominal -o, ou vice-versa.

Algumas pequenas diferenças incluem a perda da concordância do adjetivo e a mudança na forma do plural com a retirada do -j aglutinado ao sufixo, e a substituição do sufixo terminal -o por um -i. Desta forma, em Esperanto belaj hundoj ("belos cães") se torna em Ido simplesmente bela hundi. O Ido também eliminou o objeto direto final -n de frases onde o sujeito precede o objeto, assim a frase em Esperanto mi amas la belajn hundojn ("Eu amo os cachorros bonitos") se torna em Ido me amas la bela hundi.

No entanto, os Esperantistas afirmam que a concordância do adjetivo com o nome torna possível uma maior liberdade na organização das palavras, e de certa forma uma redundância maior. Em alguns casos, o inglês e o Esperanto de fato têm a mesma quantidade de redundância, o inglês por sua conjugação verbal em terceira pessoa, e o Esperanto por causa da concordância nome-adjetivo. Já o Ido, que não tem nenhuma destas, não tem aquela redundância.

Diferenças maiores aparecem, no entanto, com a derivação de muitas palavras. Por exemplo, em Esperanto, a palavra krono significa "coroa", e substituindo o sufixo nominal o pelo verbal i se obtém por derivação o verbo kroni "coroar". Entretanto, se alguém começar com o verbo kroni, "coroar", e substituir o sufixo verbal i pelo nominal o para criar um substantivo, o resultante não seria a palavra "coroação", mas sim o original "coroa". Isto é porque o radical kron- é inerentemente um nome: com o sufixo nominal -o a palavra simplesmente significa a coisa em si, enquanto o sufixo verbal -i significa uma ação feita com a coisa. Para obter a palavra que significa a execução da ação "coroar" ("coroação") é necessário usar o sufixo -ado, que retém a ideia verbal, de ação, embora se deva reconhecer que este sufixo, que fundamentalmente indica ação repetida ou prolongada, perde aqui o seu significado fundamental, visto que uma coroação não é necessariamente um ato prolongado ou repetido. Assim, é necessário saber qual é a raiz de cada uma das palavras em Esperanto.

O Ido introduziu alguns sufixos na tentativa de tornar mais clara a morfologia de uma dada palavra, de tal forma que não se tornasse necessário memorizar sua raiz. No caso da palavra krono "coroa", o sufixo -izar "cobrir com" é acrescido para criar o verbo kronizar "coroar". Deste verbo é possível remover o sufixo verbal -ar e o substituir com o nominal -o, criando a palavra kronizo "coroação". Ao não permitir que um nome seja usado diretamente como verbo, tal como permite o Esperanto, as raízes verbais do Ido podem ser reconhecidas sem a necessidade de memorizá-las.

Entretanto esta solução é apenas parcial, e com outras derivações ainda faz-se necessário saber as palavras em Ido que servem como raízes. A principal diferença é que o Ido corresponde de forma mais aproximada ao que se espera das línguas românicas, enquanto o Esperanto parece mais influenciado pela semântica eslava. Este aspecto do Esperanto foi simplesmente assumido desta forma por seu inventor, e não foi explicitado quando o Ido surgiu.

Vocabulário Apesar de tanto o Esperanto quanto o Ido compartilharem um vasto vocabulário, há muitas diferenças importantes. O Ido usa o alfabeto latino com 26 letras ao todo, sem nenhum acento ou diacrítico especial. De modo oposto, o Esperanto elimina as letras "q", "w", "x" e "y"; e acrescenta "ĉ", "ĝ", "ĥ, "ĵ", "ŝ" e "ŭ". Deixando de lado estas pequenas diferenças de grafia, o Ido consegue corrigir aquelas que foram percebidas como deficiências do Esperanto.

Entretanto, o Ido não consegue ter a plena correspondência de "uma letra, um fonema" que o Esperanto tem, e usa três dígrafos qu, sh e ch. A correspondência "uma letra, um fonema" tem sido usada por quase todas as línguas planejadas visando facilitar o aprendizado. Os falantes de Esperanto, entretanto, podem usar "cx", "gx", "hx, "jx", "sx" e "ux" como dígrafos, que não estão previstos no Fundamento, apesar de preferirem não usá-los quando assim é possível. O Dr. Zamenhof usava "ch", "gh", "hh", "jh", "sh" e "u". Foi o advento dos computadores que substituiu a letra "x", uma vez que ela não existe em Esperanto.

Internacionalmente Os criadores do Ido achavam que muito do Esperanto era ou internacionalmente irreconhecível, ou desnecessariamente deformado. O Ido busca corrigir isto com radicais de palavras considerados mais "internacionais" ou mais "corretos". Isto pode se dar algumas vezes às custas dos processos de construção simplificados do Esperanto. A seguir temos alguns exemplos, primeiramente em Esperanto e em seguida em Ido, com os sinônimos em inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e português para comparação:

EsperantoIdoInglêsFrancêsAlemãoItalianoEspanholPortuguêsbubalobufalobuffalobuffleBüffelbufalobúfalobúfaloĉelocelulocellcellule Zelle cellulacélulacélulaĉirkaŭcirkumaroundautour de ungefähr/circa circaalrededorcerca dedediĉidedikarto dedicate dédier widmen dedicarededicardedicaredzospoz(ul)ohusband épouxEhemann sposoesposoesposoelastaelastikaelasticélastique elastisch elasticoelásticoelásticoestontecofuturofuturefutur Zukunft futurofuturofuturokaje(d)andet und e(d)y/eelernejoskoloschoolécole Schule scuolaescuelaescolalimolimitolimitlimite Limit limitelímitelimitemaĉimastikarto chewmâcher kauen masticaremasticarmastigarmenciimencionarto mention mentionner erwähnenmenzionaremencionarmencionarnacionaciononation nation Nation nazionenaciónnaçãopentirepentarto repent repentir bereuenpentirsiarrepentirsearrepender-seŝiponavoshipbateau/navire Schiff barcabarco/nave/naviobarco/naviotaĉmentodetachmentodetachment détachement Trennung distaccamentodestacamentodestacamentovipuroviperoviper vipère Viper viperavíboravíbora

Note que 5 das línguas escolhidas neste comparativo são línguas românicas e que o inglês também possui muitas influências do francês e do latim. Em comparação, o Esperanto é de certo modo mais influenciado pelo vocabulário germânico e pela semântica eslava, e dá prioridade à composição de novas palavras com o acréscimo de afixos.

Afixos O Ido postula que o prefixo mal- (criando uma palavra com o significado diametralmente oposto à palavra-raiz) no Esperanto é excessivamente utilizado, e que isto pode ser inapropriado uma vez que ele possui significados negativos, depreciativos, em muitas línguas, e propõe des- como alternativa em alguns casos. O Ido também usa uma série de palavras opostas no lugar de um prefixo. Por exemplo, ao invés de malbona ("ruim", o oposto de bona, "bom"), o Ido usa mala; ou ao invés de mallonga ("curto", o oposto de longa, "longo/a"), kurta. Uma das razões apresentadas para isto é tornar a fala mais inteligível: o primeiro livro de gramática do Ido afirma que uma das razões para adotar a palavra de origem latina sinistra para "esquerdo" ao invés de maldextra (mal- somado à palavra dextra, ou dekstra, para "direito") é que freqüentemente apenas a última ou as duas últimas sílabas são escutadas e entendidas quando se grita uma palavra.

O Ido não diferencia o gênero masculino em uma palavra. Por exemplo, frato significa "irmão do sexo masculino" em Esperanto, porém "irmão" (independente do gênero, masculino ou feminino) em Ido. O Ido usa os sufixos -ino ("feminino", usado como no Esperanto) e -ulo ("masculino", porém não deve ser confundido com o mesmo sufixo em Esperanto que significa "pessoa"). Assim, "irmã" fica fratino (da mesma forma que em Esperanto), porém irmão é fratulo. Para alguns grupos há três palavras separadas: patro ("pai"), matro ("mãe"), e genitoro ("genitor/a"). Compare isto com o Esperanto patro, patrino e gepatroj, respectivamente. A última é especialmente difícil em Esperanto, uma vez que o prefixo ge- significa "os dois gêneros juntos" e é intrinsecamente um plural, significando assim "genitores" ao invés de "genitor". Pode-se dizer unu el la gepatroj, "um dos pais/genitores". No entanto há um sufixo não oficial em Esperanto que significa "masculino": -iĉo-, mas que é raramente utilizado.

Correlativos O Ido não usa a tabela regular de correlativos tal como o Esperanto, porém usa radicais derivados do Latim. Desta forma, a palavra em Esperanto kio equivale à palavra em Ido quo, "o que", "o qual". Em Esperanto tie, tem o equivalente em Ido ibe, "ali", etc.

Nomes próprios O Esperanto pode ou não "Esperantizar" nomes próprios e prenomes, dependendo de vários fatores. A maioria dos nomes próprios de origem européia tem equivalentes em Esperanto, assim como o nome da maioria das cidades e de todos os países. O Ido, por outro lado, trata a maioria dos nomes próprios como palavras estrangeiras, e não as converte ou traduz ao Ido.

Nomes padrão Tal como dissemos anteriormente, a maioria dos prenomes europeus têm equivalentes em Esperanto: "John"/"João"/"Giovanni" é Johano, "Alexander"/"Alexandre"/"Alessandro" é Aleksandro, etc. Como em algumas culturas o sobrenome antecede o prenome, e em outras é o oposto, é prática entre vários escritores em Esperanto escrever os sobrenomes em letra maiúscula, apesar disso não ser comum em publicações. "John Smith" seria assim grafado "John SMITH" ou "Johano SMITH". A maioria dos nomes não ocidentais não têm equivalentes e são transcritos de forma mais próxima possível da ortografia em Esperanto.

O Ido, por outro lado, simplesmente deixa o nome como ele é: "John Smith" é "John Smith" também em Ido. Nomes próprios de línguas que não usam o alfabeto latino são transcritos o mais foneticamente possível. O Ido não usa caixa alta para nomes próprios.

Nomes de lugares