Iuli Osipovich Tsederbaum (; Constantinopla, 24 de novembro de 1873 – Schömberg, 4 de abril de 1923), mas conhecido pelos seus pseudônimos, Julius Martov, L. Martov, ou simplesmente Martov, foi um teórico marxista, revolucionário e líder dos mencheviques, a facção minoritária do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR).

Nascido em uma família de classe média judaica, Martov se tornou um militante marxista na Rússia a partir da última década do século XIX. Fundou, junto com outros sociais-democratas russos, incluindo Lênin, a Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora em 1895. Foi preso e condenado ao exílio na Sibéria naquele ano. Depois do exílio, Martov fundou o jornal Iskra junto a Lênin, que se tornou o principal periódico socialista russo. Em 1903, na ocasião do Segundo Congresso do POSDR, Martov entrou em conflito com Lênin sobre quem deveria ser considerado filiado ao partido: a proposta de Martov foi vencedora porém, quando da definição do Comitê Central do partido, a facção de Lênin acabou sendo majoritária, levando à divisão entre bolcheviques (majoritários) e mencheviques (minoritários).

Como líder dos mencheviques, Martov desenvolveu uma teoria política radicalmente distinta daquela de Lênin, defendendo que a Rússia deveria passar primeiro por uma revolução burguesa antes de uma revolução proletária. Durante a Revolução Russa de 1905, Martov avaliava ser prematura a tomada do poder pelos socialistas, uma vez que inexistiam na Rússia Imperial os pré-requisitos econômicos e sociais teorizados por Karl Marx para a implantação do socialismo. Para Martov, a oposição revolucionária deveria se organizar gradualmente em dumas provincianas, sovietes e cooperativas, grêmios e sindicatos de trabalhadores, até que a revolução popular substituísse espontaneamente o governo autocrático. Em 1912, as duas facções se tornaram partidos políticos separados.

Permaneceu um internacionalista ferrenho durante a Primeira Guerra Mundial, participando da Conferência de Zimmerwald. Após a Revolução de Fevereiro, que derrubou o tsarismo na Rússia, defendeu que os mencheviques não deveriam se aliar ao governo provisório e criticou ferrenhamente os mencheviques que o fizeram, formando a facção internacionalista do partido menchevique e defendendo a formação de um governo único dos partidos socialistas. Após a Revolução de Outubro, Martov se tornou o líder da oposição legal ao governo bolchevique. Nessa posição ele denunciou a violência do Terror Vermelho, a dissolução da Assembleia Constituinte Russa, a repressão aos direitos democráticos enquanto se opunha à intervenção estrangeira e ao Movimento Branco durante a Guerra Civil. Saiu da Rússia em 1920 onde fundou, no exílio, o jornal Mensageiro Socialista em Berlim, que continuou sendo uma publicação dos mencheviques exilados por décadas. Sofrendo de uma tuberculose crônica desde o seu exílio na Sibéria, faleceu na Alemanha em 1923.

Primeiros anos

Família e infância miniaturadaimagem|Alexander Osipovich Tsederbaum, avô paterno de Martov, em fotografia de 1885.|alt=Uma fotografia em tons de sépia do busto de um homem idoso. Ele é calvo em toda a sua fronte, com um recuo dos cabelos de sua testa até quase o meio da cabeça. Ele tem barba grande que, assim como o cabelo, é encaracolado, quase crespo. Ele tem o nariz em formato de gancho e olhos com as pálpebras caídas. Ele veste um terno com uma gravata borboleta no pescoço. Martov nasceu Iuli Osipovich Tsederbaum em 24 de novembro de 1873 na cidade de Constantinopla, então capital do Império Otomano. A família de Tsederbaum, durante boa parte do século XIX, havia feito parte do movimento intelectual judaico conhecido como Haskalá (), popularmente denominado como o Iluminismo judaico: o avô de Iuli, Alexander Tsederbaum, havia sido o fundador dos primeiros jornais escritos em hebraico e em iídiche na Rússia e havia sido um defensor, durante as décadas de 1870 e 1880, de que a comunidade judaica da Rússia deveria se emancipar através da educação e procurar uma conciliação com o regime tsarista. Ao final da vida, Alexander, desiludido com o antissemitismo do governo russo mesmo frente às tentativas de aproximação por parte dos judeus, se tornou sionista e ortodoxo.

O pai de Iuli, por sua vez, Osip Tsederbaum, também era fruto da Haskalá, sendo versado em várias línguas e trabalhando como jornalista correspondente de diversos jornais russos na Turquia, além de ser secretário-geral da Companhia Russa de Navegação. Osip era um judeu assimilado e se declarava um liberal democrata. Dos oito filhos e filhas do casal, sete se envolveriam em atividades revolucionárias na Rússia entre o final do século XIX e o início do século XX.

Juventude Quando Iuli tinha quatro anos de idade, Osip e a família se mudaram para Odesa, na atual Ucrânia, onde presenciaram o pogrom de 1881, parte de uma grande onda de violência antissemita após o assassinato do tsar Alexandre II. Durante toda sua juventude, Iuli seria sujeito a constantes atos de violência antissemita. Alguns meses após o pogrom, Osip e sua família se mudaram para São Petersburgo. Em 1887, mudaram-se novamente, dessa vez para Tsarkoye Selo – atual município de Pushkin – e, em 1889, de volta para São Petersburgo, onde quase foram expulsos devido a dispositivos legais da Rússia que restringiam o direito de judeus viverem em determinados locais. Foram nesses anos que Iuli entrou em contato, pela primeira vez, com obras de literatura revolucionária e, também, com os atos terroristas do grupo Narodnaia volia (). No último ano do ginásio, Iuli entrou em um grupo de estudos composto por alunos democratas, onde entraria em contato pela primeira vez com tratados políticos proibidos na Rússia, como os trabalhos de Ferdinand Lassale, Friedrich Engels e Karl Marx, particularmente o Manifesto do Partido Comunista, que lhe causou forte impressão. miniaturadaimagem|Iuli Tsederabum em fotografia tirada pela polícia após ser preso pela primeira vez em 1892.|alt=Uma fotografia em preto e branco de um homem jovem. Ele está virado de frente para a câmera, com os olhos olhando diretamente a frete. Ele tem uma franja escura que cai sobre sua testa e quase nenhum pelo facial além de um quase imperceptível bigode. Ele veste um uniforme parecido com um traje militar, com uma gola alta mais clara que o corpo da roupa e botões dos dois lados do peito. O tecido da roupa é escuro. Em 1891, Iuli prestou o exame admissional para a entrada na Universidade Imperial de São Petersburgo e obteve boas notas. Contudo, sua entrada na universidade só foi permitida após os apelos de seu avô ao Ministério da Educação Pública, já que a sua entrada violaria o numerus clausus de judeus permitidos em universidades na Rússia. Apesar de estar em contato, nesse momento, com grupos marxistas e populistas, Tsederbaum ainda não se considerava pertencente a nenhum dos dois campos, acreditando mais na possibilidade de uma repetição da revolução francesa na Rússia. Em fevereiro de 1892, Iuli foi preso com mais quatro colegas por estar distribuindo literatura revolucionária a trabalhadores. Alguns meses depois ele foi expulso da universidade.

Enquanto aguardava sua sentença solto sob fiança paga por seu avô, Iuli entrou em contato com a tradução francesa d'O Capital de Karl Marx e passou a se declarar marxista e social-democrata. Nesse período, fundou com seus amigos o "Grupo para a Emancipação do Trabalho de São Petersburgo", no qual Iuli escreveu o seu primeiro trabalho publicado: um prefácio para a obra "Coletivismo" de Jules Guesde. Entretanto, em 1893, antes que essa edição com o prefácio do grupo pudesse ser publicada, entretanto, Iuli foi preso novamente, tendo sido condenado a cinco meses de confinamento solitário. Após esse período, foi sentenciado administrativamente ao banimento por dois anos das duas capitais da Rússia – Moscou e São Petersburgo – e de todas as cidades que hospedassem uma universidade. Antes de partir para o exílio, entretanto, pode permanecer um mês em São Petersburgo, período que aproveitou para redigir uma mensagem ao Congresso da Segunda Internacional que estava acontecendo em Zurique naquele momento. Assinado pelo Grupo para a Emancipação do Trabalho, esse foi o primeiro comunicado recebido pela Internacional por um grupo social-democrata da Rússia.

Primeiro exílio e volta para São Petersburgo

Exílio em Vilno

Em maio de 1893, Iuli partiu para o exílio na cidade de Vilno – atual Vilnius, capital da Lituânia então parte do Império Russo localizada na "Zona de Assentamento", região onde era permitida a residência dos judeus –. Ali continuou suas atividades revolucionárias, se encontrando com outros sociais-democratas integrantes da comunidade judaica. Em 1894, Iuli Tsederbaum e seus companheiros decidiram começar a reunir esforços para a criação de um partido de massas destinado à agitação da classe proletária, para esse propósito, em 1894 co-autorou com Arkadi Kremer o panfleto "Sobre a Agitação", o primeiro texto de Iuli a atingir grande sucesso no Império Russo. Nesse texto, Kremer e Tsederbaum defendem que a ação dos agitadores será mais útil para a emancipação da classe trabalhadora do que a do mero propagandista enquanto essa ação servir como base para a formação de uma consciência coletiva dessa classe.

Em um discurso proferido no Dia do Trabalho de 1895, em Vilno, Iuli defendeu que o proletariado judaico – apesar de dever colaborar com o proletariado de outras etnias e nacionalidades para a derrubada do tsarismo e da exploração pela burguesia – deveria manter sua independência e lutar, no plano imediato, pela emancipação do povo judeu e o fim da discriminação racial. Posteriormente, essas ideias seriam fundadoras da União Judaica Trabalhista da Lituânia, Polônia e Rússia, movimento socialista mais conhecido como "Bund" (), ao ponto que seriam publicadas pela Bund sob o título "Um ponto de virada da história do Movimento de Trabalhadores Judeus".

Volta para São Petersburgo miniaturadaimagem|Membros da Liga de Luta pela Emancipação da Classe Trabalhadora de São Petersburgo, em fotografia de 1897. Iuli Tsederbaum é o último sentado da esquerda para a direita. Ao seu lado, também sentado, está Vladimir Ulianov – futuro Lênin.|alt=Fotografia em preto e branco de sete homens adultos vestindo ternos. Três deles estão de pé ao fundo e quatro sentados à frente. Dos homens em pé, o primeiro, da esquerda para a direita, tem a mão repousada ligeiramente a frente de seu corpo; o segundo está com os braços colocados atrás das costas enquanto o terceiro está com um dos braços repousando sobre uma pequena pilastra. Dos homens sentados, o primeiro, da esquerda para a direita, está sentado ao contrário em uma cadeira com os braços cruzados; o segundo, também com os braços cruzados e pernas cruzadas, está apoiando um deles sobre uma pequena mesa com dois livros sobre ela; o terceiro e o quarto homem estão fazendo a mesma coisa. O exílio administrativo de Iuli terminou em 1895, ocasião na qual ele voltou para São Petersburgo. Ao chegar na capital, reuniu-se com os remanescentes do Grupo para a Emancipação do Trabalho de São Petersburgo, que havia fundado antes do exílio, e recomendou que deixassem de ser um grupo meramente propagandístico e passassem a adotar os métodos propostos no panfleto "Sobre a Agitação". Mais tarde, esse grupo seria fundido com outros grupos que mantinham um contato mais estreito com círculos de trabalhadores para formar a "Liga de Luta pela Emancipação da Classe Operária de São Petersburgo". Entre os fundadores dessa liga, além de Martov, estava Vladimir Ilitch Ulianov – que mais tarde assumiria o pseudônimo "Lênin". Logo de partida foram estabelecidos três comitês em três regiões industriais da cidade e também foi fundado o periódico oficial da Liga, denominado "Rabochee delo" ("Рабочее дело"; ).