François-Dominique Toussaint L'Ouverture (Cabo Haitiano, 20 de maio de 1743 — La Cluse-et-Mijoux, 7 de abril de 1803) foi o líder da Revolução Haitiana e, em seguida, governador de Saint Domingue, como era chamado o Haiti na época. Traduzindo do francês, o nome desse líder significa "o despertar de todos os santos" ou "a elevação de todas as almas".
L'Ouverture foi um revolucionário negro das Américas, o qual é reconhecido por muitos pesquisadores, dentre eles C. L. R. James em "Os Jacobinos Negros", Jeremy Popkin em "A Concise History of the Haitian Revolution" e Laurent Dubois em "Avengers of the New World", como o maior comandante, depois de Napoleão Bonaparte, no período de 1793 a 1814. Ele carregava consigo conhecimentos e estratégias, tinha uma personalidade de guerrilheiro e era capaz de aumentar cada vez mais um exército. Foi um líder que organizou na ilha de Saint Domingue, com cerca de meio milhão de escravizados, a chamada Revolução do Haiti, onde mesmo depois de sua morte o seu legado continuou dando vigor para a construção de um novo território, dotado de liberdade e igualdade. Legado miniaturadaimagem|Bust de Toussaint Louverture (1743-1803) por Dominique Dennery (2017). Parque Toussaint-Louverture, Montréal. Foto de 14 2017. O seu legado tem imperado até os dias atuais do século XXI em 2024. Encontramos espalhados pelo mundo estátuas em sua homenagem, até um hospital já levou o seu nome, o L'Ouverture Hospital, além de filmes, peças e minisséries que foram criadas com o intuito de mostrar a vida deste personagem icônico da história. Por exemplo o filme "Toussaint L'Ouverture" (2012),TOUSSAINT LOUVERTURE. Direção: Philippe Niang. França: Eloa Prod, 2012. 180 min. dirigido por Philippe Niang, que explora a vida de Toussaint e aborda sobre o seu papel na Revolução Haitiana. Também é possível citar o livro de C. L. R. James, "Toussaint L'Ouverture: The Story of the Only Succesful Slave Revolt In History" (1936), que mais uma vez narra os eventos da Revolução Haitiana e é centrado na figura de Toussaint.
A casa de Toussaint L'Ouverture e sua família era vista pela população como uma morada beneficente e hospitaleira. Logo após a captura de L'Ouverture, soldados franceses receberam ordens de apreender toda a família do líder, soldados estes que foram recebidos à vizinhança com hostilidade e revolta, sendo barrados pela própria população inconformada pela situação. Toussaint deixa um legado em sua terra mesmo antes de sua morte, levando àqueles que sabiam de sua condição à sentimentos revoltosos para com os franceses, causando grande movimentação entre o povo. Conforme a notícia se espalhava internamente e pelo exterior, um descontentamento - por vezes secreto, mas certamente profundo - começou a prevalecer e a anunciar consigo uma certa turbulência - ou até mesmo um desastre.
No livro de John Relly Beard (1800-1876), "The Life of Toussaint Loverture: The Negro Patriot of Hayti" (1853), é narrado que ao observar pela última vez as montanhas, cenários de suas façanhas, L'Ouverture afima: "Eles apenas derrubaram o tronco da árvore [da liberdade dos negros]; galhos brotarão, pois as raízes são numerosas e profundas" - ("They have only felled the trunk of the tree (of the freedom of the blacks); branches will sprout, for the roots are numerous and deep"). Sendo esta narrativa verdadeira ou não, Toussaint abriu caminhos e fortaleceu as bases de uma grande revolução, tornando sua luta e sua erudição seu maior legado.
Família e juventude esquerda|miniaturadaimagem|347x347px|Louverture conforme retratado em uma gravura francesa de 1802 L'Ouverture veio de uma família africana aladá, um povo que se encontra no Oeste Africano, no atual Benin. O seu avô é dito como um rei do povo aladá, Gaou Guinou. Seu pai, Hippolyte, após ser capturado na África no fim dos anos 1730, foi levado para Saint-Domingue. O escravagista que o comprou, Conde Panteleón de Bréda era detentor de terras na ilha e tinha uma plantation de açúcar, que contava com 150 escravizados. Conde Bréda, por não passar muito tempo nas terras, deixava-as sob administração de pessoas confiáveis. Uma dessas pessoas era Béagé, que via Hippolyte como um homem respeitável e que detinha certa autoridade. Ele percebeu uma capacidade fora do comum em Hippolyte, e mesmo não sendo comum entre os colonos, deu para ele certos privilégios dos quais Toussaint também usufruiu. Na plantation de Bredá, Hippolyte casou-se com uma mulher chamada Pauline, de origem também aladá, o casal teve cinco filhos e Toussaint foi o mais velho deles.
Toussaint L'Ouverture nasceu e foi criado na plantation de Bréda pelos seus pais. De acordo com o Code noir, o filho de uma pessoa escravizada herdaria deste o status de pessoa escravizada,Le Code Noir (Paris, 1685), p. 5 e assim foi com Toussaint, tendo no início de sua vida recebido o nome de Toussaint de Bréda, mostrando que era propriedade do Conde Pantaleón de Bréda. Toussaint desde cedo se mostrava um jovem com ótimas aptidões físicas, sendo um ótimo nadador.Saint-Rémy, Vie de Toussaint (Paris: Moquet, 1850) p. 8. Ainda adolescente aprendeu e dominou as técnicas da equitação, que viriam a ser úteis no futuro como militar. Passou a maior parte da sua vida adolescente como um cuidador de animais na propriedade de Bréda, e aprendeu diversas técnicas do herbalismo tradicional com seu pai, colocando em prática seus conhecimentos quando foi médico do exército, o que lhe rendeu o título de “doutor das folhas”.
Após a morte de seu pai, uma figura importante em sua vida seria Pierre-Baptiste, um negro de origem aladá alforriado que trabalhava na plantation. Este que foi educado por jesuítas, tinha um conhecimento incomum e muitas vezes restritos para negros. Pierre-Baptiste tornou-se padrinho de Toussaint, ensinando história, geografia e álgebra. Além do creóle, língua falada pelos negros escravizados, aprendeu também o francês. Por ter sido alfabetizado durante sua juventude, Toussaint L'Ouverture conseguiu ter contato com a literatura francesa sobre o Iluminismo, estabelecer uma relação muito próxima com o catolicismo e tornar-se um ótimo cavaleiro. Por conta disso foi um católico fervoroso e membro da alta hierarquia da Loja Maçônica de Saint-Domingue.
No tempo em que foi escravizado, Toussaint L'Ouverture realizou diferentes tipos de trabalhos, atuando como tratador de gado, domador de cavalo, curandeiro, cocheiro e administrador. A sua inteligência e perspicácia eram visíveis e isso fez com que ele se tornasse o braço direito de um importante colono branco da época, o Bayon de Libertat.
Entre 1761 e 1777, L'Ouverture conheceu e se casou com sua primeira esposa, Cécile. O casal teve dois filhos, Toussaint Jr. e Gabrielle-Toussaint, além de uma filha, a Marie-Marthe. Durante esse período, L'Ouverture comprou vários pessoas escravizadas, embora esse fosse um meio de aumentar a oferta de mão de obra explorável, era um dos métodos legais disponíveis para libertar os membros restantes da família extensa e do círculo social do ex-escravizado. L'Ouverture acabou comprando a liberdade de Cécile, seus filhos, sua irmã Marie-Jean, os irmãos de sua esposa e um escravizado chamado Jean Baptiste, libertando-o para que pudesse se casar legalmente.
Em 1782, Toussaint L'Ouverture foi legalmente alforriado e com trinta e três anos se casou com Suzanne Simone Baptiste L'Ouverture. Desse casamento eles tiveram três filhos, juntos tiveram Isaac L'Ouverture e Saint Jean L'Ouverture. Mas L'Ouverture também adotou Seraphin, o primeiro filho de Suzanne, que mais tarde passou a ser conhecido como Placide L'Ouverture.
Revolução Haitiana esquerda|miniaturadaimagem|281x281px|O comandante britânico Thomas Maitland se reúne com Louverture para negociarA Revolução para Independência do Haiti iniciou-se em 1791, tendo à frente o líder negro Toussaint L'Ouverture e, como pano de fundo, os incêndios nos canaviais. Em 1794, quando o governo aboliu a escravidão nas colônias, os haitianos já tinham conquistado sua liberdade. Toussaint, porém, manteve a região ligada à França. Em 1801, o líder haitiano libertou os escravizados da porção espanhola da ilha (a atual República Dominicana).
A característica peculiar do processo de Independência do Haiti foi a participação maciça dos negros, que defendiam a liberdade, a igualdade e o direito à propriedade de terras. Toussaint em pouco tempo passou a ser conhecido pelos negros, pois apresentava um exército com ótimo treinamento e dialogava com todos os negros, além dos quilombolas que já viviam nas montanhas sem a interferência de um senhor. Essas pessoas se juntavam cada vez mais ao exército do líder L'Ouverture.
L'Ouverture era correto e prudente nas suas decisões, conduzia até as suas terras os melhores combatentes para treinar seu exército, mesmo que brancos ou espanhóis, ele ainda recrutava-os, pois defendia a reconciliação e acreditava que os negros podiam aperfeiçoar suas técnicas militares com os ensinamentos dos europeus, haja vista que muitos deles foram educados e treinados na França. E os resultados eram visíveis, a qualidade aumentava cada vez mais e o território ao seu domínio também. O território em que situava-se expandia mais e mais, tanto para o norte, quanto para o sul, mesmo ele estando sob ordens do dono da fazenda. Isso porque o senhor da fazenda estava muito longe e quando ficava fora da colônia deixava sua terra sob controle de Toussaint. Mesmo com protestos de outros proprietários de terra, o território e o exército de L'Ouverture só cresciam, com a visão desse líder como estrategista militar, a qual é comprovada ao longo de anos de lutas pela abolição da escravidão, pela expulsão de ingleses e espanhóis e pela independência.
Em 1793, a França e a Espanha entraram na guerra de Revolução de Saint-Domingue e no primeiro momento Toussaint se juntou aos espanhóis. Porém, em 1794 ele passou para o lado dos franceses, quando a Convenção Nacional Francesa proclamou a liberdade de todos os escravizados. Como líder da Revolução Haitiana, L'Ouverture gradualmente estabeleceu o controle sobre toda a ilha e usou sua influencia política e militar para ganhar domínio com os seus rivais. Ao longo de seus anos no poder, Toussaint trabalhou para equilibrar a economia e a segurança de Saint-Domingue. Preocupado com a economia que havia estagnado, ele restaurou o sistema de plantação utilizando mão de obra remunerada, negociou acordos comerciais com o Reino Unido e os Estados Unidos, além disso manteve um exército grande e bem treinado. Logo, os ex-escravizados voltaram a trabalhar nos engenhos, mas sendo naquele momento legalmente livres, iguais, assalariados e compartilhando dos lucros produzidos pelos engenhos recuperados.
L'Ouverture estabeleceu seu próprio sistema de governo e foi responsável por elaborar a Constituição do protetorado francês, que o nomeava como Governador-Geral Vitalício mas ao mesmo jurava lealdade a França. Ele criou códigos de trabalho para recuperar a prosperidade econômica de Saint-Domingue. A revolução, no entanto, não agradou Napoleão, já que a libertação dos escravizados diminuiu os lucros com o que era outrora a mais lucrativa colônia francesa. Mas Toussaint se empenhou para convencer Napoleão Bonaparte de sua lealdade, porém o Imperador francês considerava-o um obstáculo para a restauração de Saint-Domingue como uma colônia lucrativa e escravocata.