A língua xipaia é uma língua da família juruna, do tronco Tupi, utilizado atualmente por parte da etnia Xipaya. Essa família linguística abrange três línguas: Manitsawa (já extinta), Juruna e Xipaia.
A língua chegou a ser considerada extinta até 1980, com Maria Xipaya sendo a última falante conhecida. Isso foi resultado do processo de aculturação e do intenso contato com a sociedade envolvente, que fez com que os Xipaias deixassem de lado seus costumes e língua materna com o passar do tempo. Assim, até o começo da década de 90, grande parte dos Xipaias viviam em área urbana, concentrados na cidade brasileira Altamira no estado do Pará, que foi uma antiga aldeia Xipaia e falavam somente o português, sendo apenas alguns idosos que ainda sabiam a língua materna.Conforme dados do Censo 2010, existem apenas 14 falantes da língua Xipaia.
Em 2016, foi iniciado um projeto da empresa Norte Energia, conduzido pela linguista Carmem Lúcia Rodrigues, para o resgate da língua Xipaya através de oficinas para criação de uma gramática e de um programa de educação escolar indígena. Com isso, começou a haver uma mobilização desse povo no sentido de valorizar e fortalecer seu idioma e sua cultura e assim a língua xipaia passou por um processo de recuperação, chegando a publicar o livro “Xipai kaména da usetúpa – Sedja kaména bahu de anu” utilizada por professores indígenas para ensinar a língua mãe para a geração mais jovem. Etmologia O nome Xipaya tem origem em uma espécie de bambu utilizada pelos índios para fabricar flechas. De acordo com a tradição oral do grupo, as características desse bambu - como sua haste forte e flexível, além de sua vegetação bravia - são comparadas aos atributos que os Xipaya acreditam possuir.
Ao longo da história, o nome "Xipaya" foi registrado de diversas formas. O etnólogo Nimuéndajú, listou mais de uma dúzia de variantes, incluindo nomes como Juacipóia, Jacipói, Achupáia e Chipáia. Atualmente, as duas grafias mais amplamente utilizadas são "Xipaya" e "Xipaia", adotadas por instituições como a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
Distribuição
A língua Xipaia é falada exclusivamente pelo povo Xipaia, que reside na Terra Indígena Xipaya, localizada nas margens dos rios Iriri e Curuá, no estado do Pará, além de áreas da cidade de Altamira e da Volta Grande do Xingu. Especificamente, os Xipayas estão distribuídos nas aldeias Tukamã, Kujubim e Tukaya
Línguas relacionadas
Como uma língua da família linguística Juruna, pertencente ao tronco Tupi, o Xipaia está relacionado às línguas de mesma família linguística: Manitsauá (extinta) e yudjá ou Juruna. +Comparação entre cognatos das línguas Xipaya e Juruna Xipaya Juruna Significado maitúma -mamítéma amigokumenakumenalíngua(idioma) senapï senáhïhomemkuɽumãkurumãlagartokaɽapa karápápassearyapíkulapídúquebrado História
Historia da língua
A compreensão da construção linguística é indissociável do percurso histórico que trilham os povos ao longo do tempo, envolvendo interações sociais, políticas, culturais e educacionais formando um verdadeiro mosaico linguístico e cultural repleto de diversidade. miniaturadaimagem|Curt Nimuendajú, antropólogo alemão e um dos principais estudiosos da língua e dos povos xipaias Nimuendajú menciona a hipótese dos Xipayas serem oriundos das cabeceiras do rio Xingu, sendo as mais antigas ocupações nacionais no baixo rio Amazonas e na embocadura do Xingu ocorreram por volta de 1600 e foram realizadas por holandeses, irlandeses e ingleses, que fundaram várias feitorias. Aos poucos, esses povos exploravam as terras através de expedições extrativistas.
Desde o século XVII, os Xipaya foram mencionados pela literatura antropológica, nos escritos dos padres, viajantes, cientistas e presidentes da Província do Pará . A primeira ação de contato mais prolongado está na chegada de padre Roque Hunderfund, a região com sua incursão ao rio Xingu e seus afluentes, no trabalho de catequese e na formação de missões. A chegada em 1750 de Hunderfund é um marco para etno-história dos povos que viviam na região dos rios mencionados. A formação da missão Tavaquara ou Tauaquara às margens do rio Xingu bem próximo do que iria ser a cidade de Altamira no Pará promoveu a primeira divisão espacial e sócio-cultural envolvendo os Xipaya, Kuruaya, Juruna e alguns Arara.
As etnias dessa região foram classificadas por Nimuendajú (1948) em três grupos, usando como critério as características geográficas: grupos de canoeiros, restritos ao rio Xingu, Iriri e Curuá (Arupaí, Xipaya e Juruna), grupos que vivem na floresta virgem central (Kuruaya Arara, Asuriní e Tucunyapé) e o grupo das savanas (Mebengokre). A ocupação da região e o contato dos Xipaya com a sociedade nacional, por volta de 1880, mostraram que houve a compressão das etnias no Xingu, Iriri e Curuá.
Estima-se que, por volta de 1918, os Xipaya fossem aproximadamente 80 pessoas. Nimuendajú estimou que por volta de 1920 contavam 30 indivíduos espalhados por muitas localidades, como Largo do Mutum e Pedra do Capim, no rio Iriri, misturados com poucos remanescentes Kuruaya. miniaturadaimagem|Cartaz de Jean Pierre Chabloz mostrando soldados defendendo o litoral enquanto seringueiros extraem a borracha. Por volta das décadas de 1940-50 os Xipaya passaram novamente por uma redistribuição de sua população. Neste período o contato, as doenças, as mortes, os casamentos entre Xipaya, Kuruaya, Juruna e os nordestinos vindos para a região como "soldados da borracha" já haviam imprimido um novo perfil à região. As sucessivas mudanças forçadas e a dispersão do grupo passaram a ideia de que os Xipaya haviam desaparecido como grupo étnico.
Na década de 1970, iniciou-se um movimento que buscou fortalecer e unificar o grupo Xipaya a partir da família de Tereza Xipaya de Carvalho, casada com um nordestino agricultor desde 1951 e com que teve 22 filhos, reconstruindo a aldeia no rio Iriri, próximo a cidade de Altamira no Pará. Muitos filhos da família de Tereza, a partir de interações com a sociedade branca, passaram a viver em cidades. Data de 1995 a primeira solicitação existente na FUNAI (Fundação nacional dos povos indígenas) do grupo de trabalho para realização de um estudo para identificação e delimitação do território indígena.
História da documentação
Nesse contexto, em virtude do processo de reconstrução histórica do povo xipaia, a sua língua hoje está ameaçada de extinção. A língua chegou a ser considerada extinta até 1980, sendo Maria Xipaya considerada a última falante. Em 1988, uma estudiosa da área da linguística, Carmen Lúcia Reis Rodrigues, desenvolveu sua pesquisa de doutorado com o povo xipaia, realizando registros de vocabulários, regras gramaticais e uma ortografia preliminar para caracterizar a língua. Desde então, Carmem Lúcia juntamente com o linguista Denny Moore trabalham com a revitalização da língua com membros da sociedade Xipaya, da região do Xingu. Durante o projeto de reconstrução da língua, foram promovidos oficinas de culinária e coleta de sementes. Até 2019, esta comunidade contava com cerca de 80 membros que utilizam a língua xipaia em suas festividades e para escolher o nome dos filhos.
História do ensino
O registro histórico de dados referentes à língua como informações sobre vogal, semivogal, consoantes e combinação de consoantes da língua, bem como a parte concernente a gramática, como registros acerca das classes gramaticais e regras de pontuação são fundamentais não somente para compreensão, mas para a recuperação de uma língua ameaçada de extinção.
Em Santos (2021), um trabalho que retrata a experiência de pesquisa em educação escolar indígena em Altamira, PA, realiza uma reflexão sobre as práticas etnoeducacionais. Em muitas escolas indígenas, há a existência de um professor indígena e um não indígena na condução dos conteúdos ministrados, sendo o professor indígena responsável pelo ensino da língua materna, cantos, saberes e narrativas populares para revitalizar a cultura indígena.
Fonologia
Consoantes
A língua Xipaia apresenta 13 fonemas consonantais: entre as plosivas, as sonoras /b/ (bilabial) e /d/ (alveolar), e as surdas /p/ (bilabial), /t/ (alveolar) e /k/(velar); as nasais /m/ (bilabial) e /n/ (alveolar); a vibrante simples retroflexa /ɽ/; entre as fricativas, a sonora /z/ (alveolar) e as surdas /s/ (alveolar), /ʃ/ (pós-alveolar) e /h/ (glotal); e por fim, as aproximantes /w/ (labial-velar) e /j/ (palatal).
+Inventário consonantal Xipaia BilabialAlveolarPós-alveolarRetroflexaPalatalVelarGlotal Plosiva Nasal Vibrante simples Fricativa Aproximante Alofonia Consonantal
Em relação aos fonemas consonatais na lingua Xipaia, observa-se a ocorrência de alofones em distribuição complementar ou em variação livre. +Alofones consonantais do XipaiaFonemaAlofone(s)LocalExemplo(s) / p / [ p ] Fonema padrão. Ocorre com as demais vogais/ paɽa'hu / ['pa:ɽahu ] “pessoa jovem”[ ɸ ]Ocorre somente diante de vogal nasal./ pana'kĩ / [ ɸɜ̃na'kĩ ] “peixe (tipo)”/ w / [ w ] Ocorre diante de / a / e / ã / ./ i'wa / [ i'wa ] “chefe” / wãɽa'ʃa / [wɜ̃ɽɜ̃'ʃɜ̃ ] “calcanhar”[ β ]Ocorre com as demais vogais./ wiwitu / "gavião tesoura"/ n /[ n̪ ]Ocorre em ambiente nasal ou em sílaba final não-acentuada. / na'mi /[ n̪ɜ̃'mĩ ] “fi m[ n ]Fonema padrão. Ocorre nos demais ambientes./ senapï /[sena'pï] “homem”[ ŋ ]Tem apenas uma ocorrência, antes de [ i ]. / kaniama /[ kaɲiɜ̃ma ] “cesto”/ z /[ z ] Ocorre com [ u ] e [ e ]./ kuzu'hu / [ kuzu'hu ] “urubu”[ ð ]Ocorre com os demais./ 'kuzi / [ 'kuði ] “cotia” /t / [ tʃ ]Ocorre diante de [ i ], contíguo a [ m ] ou [ ʔ ]./ pï'tima / [ pï'tʃima ] “fumo”[ t ]Fonema padrão. Ocorre com os demais./ e'tuka / [ e'tuka ] “alimento”/ d /[ dʒ ]Ocorre diante de [ i ] e de grupo vocálico./ dida'ku / [dʒida'ku ] “bater” [ d ]Ocorre nos demais ambientes./da'ya/ [ da'ya ] “avô”[ nd ]Ocorre em ambiente nasal./madï'ka/ [mɜ̃ndï'ka] “lua”/ b /[ b ]Ocorre nos demais ambientes./ yãba'ta / [ yɜ̃mba'ta ] “rede”[ mb ]Ocorre em ambiente nasal./ a'baku / [ a'baku ] “matar” Vogais
A língua Xipaya apresenta 10 vogais, sendo cinco vogais orais e cinco nasais.
+Inventário vocálico XipaiaAnteriorCentralPosteriorFechada ĩ ɨ̃ ũSemifechada ẽ Aberta ã Transformações Fonológicas
Na língua Xipaya, um som nasal pode provocar a nasalização de outro som. O fenômeno de nasalização ocorre nos seguintes casos:
A consoante nasal pode nasalizar a vogal que a precede, ou seja, a vogal que vem antes dela. Por exemplo: pïtxíma ( que siginifica fumo ) pode ser pronunciada como como pïtxíma ou pï′tx(ĩ)ma. Se a vogal se encontrar entre duas consoantes nasais, ela também será nasalizada. Por exemplo: mána ( que significa chuva ) é pronunciada como ‘m(ã)na. Uma vogal nasal pode provocar a nasalização da vogal da sílaba anterior quando ela se encontra depois das consoantes x, r, w, y e h. Por exemplo: yuxĩ( que significa amarelo ) pode ser pronunciada como y(ũ)xĩ; e taka'rĩa ( que significa galinha ) pode ser pronunciada como tak(ã)'rĩa.
Todos esses casos de nasalização não serão grafados na língua pois nem sempre ocorrem na pronúncia da palavra.
Há, na língua, algumas palavras pronunciadas com um impulso na garganta, provocando uma rápida pausa entre duas sílabas. Isso pode acontecer entre duas vogais, como observado nas seguintes palavras: +heépamacaxeirapronunciada como he(’)epapaïcobra-grandepronunciada como pa(’)ïheamãavôpronunciada como he(’)amã Ortografia A lígua Xipaia utiliza o alfabeto latino, na horizontal, partindo da esquerda para direita. O alfabeto xipaia apresenta 16 (dezesseis) consoantes e 10 vogais, sendo cinco vogais orais e cinco nasais. +FonemasGrafemasaA - aãà - ãbB - bdD - ddʒ Dj - djeE - eẽẼ - ẽhH - hiI - iĩĨ - ĩ ɨÏ - ïɨ̃ï̃kK - kmM - mnN - npP - pɽR - rsS - stT - tuU - uũ Ũ – ũtʃ Tx - txwW - wʃ X - xjY - yzZ - z