A língua camaiurá, kamaiurá, ou ainda kamayurá, é uma língua indígena falada pela tribo de mesmo nome (autodenominados Apyap, pronúncia: [apɨap]), localizada no Parque Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso, Brasil. Estabeleceram sua aldeia na região de confluência dos rios Kuluene e Kuliseu, na Bacia do Rio Xingu, na margem sul da lagoa Ipavu (do camaiurá "água grande").

A língua camaiurá é pertencente ao tronco linguístico tupi-guarani e possui cerca de 604 falantes, em sua maioria, nativos da Aldeia Camaiurá. É considerada uma língua ativa e apresentou grande crescimento nos últimos 50 anos: na década de 1970, contava com 150 falantes. Em 2002, havia por volta de 300. Atualmente, este número chega aos 600. Apesar disso, o camaiurá corre risco de extinção.

Etimologia O termo apyap, como os camaiurás se autodenominam, vem do tupi "aqueles que ouvem", "aqueles que sopram instrumentos", ou ainda, "aqueles que cheiram".

Já o termo camaiurá, pelo qual a população e a língua são mais conhecidos, não tem origem na língua camaiurá, mas sim no aruaque "mortos no jirau" (kãmá + yúla), no sentido de ser moqueado, já que o povo aruaque iaualapiti, também habitante do Parque Indígena do Xingu, acreditava que estes eram canibais e os viam como uma ameaça. Ou seja, tal nome pode ser considerado pejorativo. Por outro lado, os camaiurás dizem que o exônimo significa "povo da tatuagem" (kamara + iup).

Distribuição O povo camaiurá, e consequentemente os falantes da língua camaiurá, habitam o Parque Indígena do Xingu, no estado do Mato Grosso, Brasil. Sua aldeia se localiza na região de confluência dos rios Kuluene e Kuliseu, na Bacia do Rio Xingu, à margem sul da lagoa Ipavu (do camaiurá "água grande").

Dialetos e línguas relacionadas Os povos indígenas do Xingu estabelecem um intenso contato, principalmente na região sul do Parque, onde há grande uniformidade cultural que se mostra, por exemplo, através dos casamentos entre membros de diferentes tribos. Também se relacionam, em menor escala, com a cultura ocidental, eventualmente abrigando estudiosos e turistas. Apesar disso, as línguas de cada uma das tribos são independentes, e sofrem poucas influências daquelas que não pertencem ao mesmo tronco linguístico. As diferenças linguísticas se mostram uma forma de identidade étnica para os povos. Mesmo nos casos de matrimônio entre membros de diferentes origens, os filhos provenientes dessas relações aprendem as línguas materna e paterna separadamente, prevalecendo a língua do povo local.

Atualmente, a troca cultural entre os povos do Xingu reflete-se, principalmente, nas línguas trumai e suiá, nas quais a presença de palavras de origem camaiurá é mais perceptível. Os camaiurá também possuem contato com a língua portuguesa, porém, esta é conhecida por poucos membros: apenas aqueles que tem altos cargos sociais, que envolvem contato intertribal e com pessoas de fora do Xingu.

História História do povo Segundo relatos do povo, seus antepassados viviam no nordeste do Mato Grosso, junto aos Tapirapé, e se separaram devido a ataques de homens brancos e outros grupos indígenas. Chegaram ao Xingu seguindo o rio Auaiá Missu, seu afluente, e prosseguiram subindo-o até se instalarem às margens do Ipavu. Durante o percurso, se relacionaram com outras tribos da região: foram atacados pelos suiá e pelos jurunas, e se juntaram aos waruá por certo tempo. Se deslocaram pelo rio Tuatuari durante um período, se dispersando, em parte, pelas aldeias aueti e meinaco, e retornaram ao Ipavu em meados do século XIX. Outra versão diz que os camaiurá vieram do extremo norte do parque, da região de Wawitsa, ao lado de Morená.

A expedição de Karl Von den Stein, em 1884, foi a primeira que estabeleceu o contato entre os camaiurá e a sociedade fora da região do Xingu. A partir daí, outras expedições passaram a visitar o local, e ganharam regularidade na década de 1940. Em 1946, com o início da Expedição Roncador-Xingu, liderada pelos irmãos Villas-Bôas, o contato intensificou-se, com a abertura de campos de pouso e a instalação de postos indígenas. Em 1961, foi fundado o Parque Nacional do Xingu, reserva indígena para preservação de povos da área.

História da língua A língua camaiurá é aquela falada pelo povo de mesmo nome. Possui por volta de 600 falantes e pertence ao tronco linguístico tupi-guarani. Se reconhece como proveniente da mistura de dialetos de cinco grupos distintos, que, por motivos desconhecidos, se unificaram. É considerada uma língua ativa e apresentou grande crescimento nos últimos 50 anos: na década de 1970, contava com 150 falantes; em 2002, havia por volta de 300. Atualmente, este número dobrou. Apesar disso, o camaiurá corre risco de extinção.

Os primeiros dados sobre a língua camaiurá se deram com as listas de vocabulário coletadas pelos etnólogos alemães Steinen e Schmidt, no final do século XIX, mas apenas na década de 1960, a fonologia segmental da língua passou a ser estudada por linguístas. Em 1973, foram publicadas as pesquisas iniciais de Ferreira e Seki, seguidas da "Fonologia Provisória do Kamayurá" de Saelzer, em 1976.

Evolução Fonológica Sendo o camaiurá uma língua de origem tupi-guarani, percebe-se a manutenção e a modificação de características mais gerais em relação ao Proto-Tupi-Guarani (PTG), como as listadas e exemplificadas abaixo: conservação das consoantes finais mudança de "tx" e "ts", ambos excluídos ou modificados para "h" mudança de "pw" para "kw" ou "h" conservação de "pj" em "ts" conservação do "j"

Exemplos:casoPTGkaypt-br 1 akér aket eu durmo 2jatxý jay luaotsó oho ele vai pytsatsu pyau novo3 pwár hwat amarrar4 epják etsakver5 jacaré jakare jacaré Fonologia

O camaiurá apresenta um sistema de 14 consoantes, divididas entre vozeadas e desvozeadas, e 12 vogais, sendo 6 delas nasalizadas. Diferente das demais línguas da família tupi, não apresenta consoantes plosivas pré-nasalizadas. Ocorre o espalhamento de nasalidade à esquerda. A sílaba tônica é última sílaba do radical em palavras isoladas.

Consoantes O sistema consonantal do camaiurá apresenta 14 consoantes, divididas em dois grupos: as vozeadas (nasais, vibrantes e aproximantes) e as desvozeadas (plosivas, africadas e fricativas). Diferente das demais línguas da família tupi, não apresenta consoantes plosivas pré-nasalizadas.

Os fonemas consonantais do camaiurá estão representados na tabela abaixo: +Fonemas consonantais da língua camaiuráBilabialDentalAlveolarPalatalVelarVelar-labializadaGlotalGlotal-labializadaPlosiva kwʔAfricadaNasalVibranteFricativahwAproximantew

Vogais O sistema vocálico do camaiurá apresenta 12 vogais, sendo 6 orais e as outras 6 suas correspondentes nasalizadas, com o espalhamento de nasalidade à esquerda. Em palavras isoladas, há acento na última sílaba do radical.

Os fonemas vocálicos do camaiurá estão representados na tabela abaixo: +Fonemas vocálicos orais da língua camaiuráAnteriorCentralPosteriorFechada ĩ ɨ̃ ũSemifechada ẽ õAberta ã

Acento O acento camaiurá combina altura e intensidade, não é contrastivo, e cai na última sílaba em radicais com mais de uma sílaba. Prefixos adicionado são átonos, já os sufixos podem ser tanto tônicos, como "-ite", de negação de predicados, como átonos, como a "-a" de caso nuclear. Acentos secundários aparecem alternados a esquerda do acento principal.

Exemplos:kay IPA pt-brjay [ja'ɨ] luatata [ta'ta] fogojaytata'i [jaɨtata'ˀi] estrela

Ortografia O camaiurá é originalmente uma língua ágrafa, isto é, não apresenta um alfabeto escrito. As transcrições deste artigo se baseiam do trabalho de Lucy Seiki em "Gramática do Kamayurá": com exceção do fonema consonantal plosivo glotal (ʔ), que é representado com aspas simples ('), e do fonema vocálico fechado central (ɨ), que é representado por "y", a escrita camaiurá é idêntica a transcrição do IPA. Transcrição fonética da língua camaiuráLetra Som (IPA)Pronúnciap /p/ [p] como em patot /t/ [t] como em taçats /t͡s/ [t͡s] como em pizzak /k/ [k] como em comokw /kw/ [kw] como em quatro' /ʔ/ [ʔ] como na pausa da expressão de negação ã-ãh /h/ [h] como em hat, em inglêshw /hw/ [hw] como em why, em inglêsm /m/ [m] como em mãon /n/ [n] como em nãoŋ /ŋ/ [ŋ] como em unhar /r/ [r] como em read, em inglêsw /w/ [w] como em mauj /j/ [j] como em caii /i/ [i] como em ilhaĩ /ĩ/ [ĩ] como em cintoy/ɨ/ [ɨ] como em roses, em inglêsỹ/ɨ̃/ [ɨ̃] sem equivalente em portuguêsu /u/[u] como em sucoũ /ũ/ [ũ] como em muitoe /e/ [e] como em estrelaẽ/ẽ/ [ẽ] como em sempreo /o/ [o] como em novoõ /õ/ [õ] como em ombroa /a/[a] como em páã /ã/[ã] como em lã Gramática O camaiurá é uma língua que utiliza a técnica da aglutinação. Uma das suas principais características é o recorrente uso de partículas para caracterizar um radical, criando um extenso vocabulário. Possui 7 classes: nome, pronomes pessoais e demonstrativos, verbo, advérbio, posposição e partícula. Apresenta orações transitivas e intransitivas, cujas estruturas são sujeito-objeto-verbo e sujeito-verbo, respectivamente. Também há orações seguindo a estrutura objeto-verbo.

Nomes No camaiurá, os nomes constituem uma classe aberta, caracterizados por receber sufixos casuais e o sufixo "-het" de passado nominal. Possuem a função sintática de núcleo em locuções nominais simples.

Gênero Os gêneros no camaiurá, indicando masculino e feminino, não são morfologicamente diferenciados, sendo identificados pelo contexto das sentenças. Para humanos, há diferenciação para pessoas e relações de parentesco. Para animais, adiciona-se os termos "akwama'e" (homem, macho) e "kujã" (mulher, femêa) para definir seu gênero. Outros seres e entidades citados em narrativas, por exemplo, são neutros, mas são classificados de acordo com seu papel social no universo. Exemplos:MasculinoFeminino kaypt-br kaypt-br akwama'ehomemkujãmulhermyravelhomatytvelha-uppai-imãe -irũesposo-emirekoesposajawara akwama'eonça macho jawara kujãonça fêmea morerekwato chefemorerekwara kujãa chefe

Número A categoria de número é aplicada majoritariamente a seres humanos, mas também é expressa nas palavras "wyra" (pássaro, ave) e "amo" (outro), sendo marcada no coletivo ou plural. Se referem a nomes de pessoas, grupos de idade e relações de parentesco. Pode ser expresso pelo sufixo "-met" e suas variações "-et" e "meret"; sufixo "-het"; ou pela nasalização da consoante final. Há ainda o sufixo "-wet" , caso exclusivo da palavra "tamỹj" (avô), para indicar antepassados. Exemplos:SingularPluralkaypt-br kaypt-br pajepajépajemetpajéswyrapássaro wyrahetpassaradaitutyttio deleitutyntios dele

Posse A categoria de posse é caracterizada pela presença ou ausência de prefixos relacionais, que marcam nomes possuídos. Seguem a seguinte divisão:

Prefixo relativo obrigatório: nomes inalienavelmente possuídos

Prefixo relativo facultativo: nomes alienavelmente possuídos Prefixo relativo ausente: nomes não possuídos

Há quatro prefixos relacionais: "r-" de possuidor de uma expressão referencial; "i-" de possuidor contextualizado em terceira pessoa, que não seja sujeito da oração; "o-" de terceira pessoa reflexiva; e "t-" de possuidor indefinido em terceira pessoa. Ex1: "jerup" je--r-up1ªp.sing. rel.pai"meu pai" Ex2: "ipyra amoete"i-pyr-a amoete3ªp. casa sufixo nuclear longe "a casa dele é longe" Ex3: "opyrim iko" o- pyr -im i- ko -w3ªp.refl.casalocativo3ªp. verbo de ligaçãocircusntancial "ele está em sua própria casa"

Pronomes

Pronomes pessoais Os pronomes pessoais no camaiurá pertencem a uma classe fechada, diferente dos nomes, que possuem uma alta variedade de elementos pois recebem sufixos casuais. São divididos entre pronomes livres e pronomes clíticos, diferindo em suas funções sintáticas, melhor trabalhadas abaixo.

A primeira pessoa do plural é separada entre inclusiva — falante e ouvinte — e exclusiva — falante e terceiros — , e é a única pessoa em que o pronome livre e clítico são idênticos. Nas demais, o segundo é uma redução do primeiro.