Tasso Bolivar Dias Corrêa (Uruguaiana, 25 de dezembro de 1901 — Porto Alegre, 7 de julho de 1977) foi um advogado, pianista e professor brasileiro.
Depois de iniciar uma promissora carreira na música, ela passou para o segundo plano ao ser nomeado diretor do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre, permanecendo no cargo de 1936 a 1958. Adotou uma linha administrativa centralizada e autoritária, alinhando-se à política nacional da Era Vargas, mas deixou um importante legado como administrador e mentor de uma renovação ideológica adequada aos novos tempos, consolidando a autonomização e profissionalização do campo artístico e do ensino superior de artes no estado do Rio Grande do Sul e projetando a instituição nacionalmente.
Biografia Família Tasso Corrêa era filho de Rosina Dias e Oscar da Cunha Corrêa. Nascido em Uruguaiana em 25 de dezembro de 1901,Martins, Ari. Escritores do Rio Grande do Sul. Editora da UFRGS, 1978, p. 157 só foi batizado em 4 de janeiro de 1909, quando a família estava no Rio de Janeiro.Freguesia de São João Batista da Lagoa. Livro de Batismos, volume 16 (1907-1909), fl. 185v, 4 de janeiro de 1909. Seu pai, nascido na propriedade da família em Quaraí, a Estância São Maximiliano, filho de José Bento Corrêa e Ana da Cunha, foi economista e engenheiro civil e desenvolveu significativa carreira.Munhoz, Isaias. A Gênese da História de Quaraí. La Vita, 2023, p. 423 Foi engenheiro chefe da Inspetoria Federal dos Portos, Rios e Canais,"Ministério da Viação e Obras Publicas". Diário Oficial da União, 5 de junho de 1936, p. 11.679 e liderou comissões de estudo para construção de portos no Maranhão, Paraná, Ceará, Bahia e Rio Grande. Foi ainda um dos fundadores e presidente do Clube Republicano Rio-Grandense, um dos comandantes do Batalhão Benjamin Constant que apoiou o presidente Floriano Peixoto na revolta de 1893,Groisman, Diego da Silva. I Congresso Brasileiro de Arte e I Salão Pan-Americano de Arte (1958): o lugar da arte em debate. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2021, p. 53 jornalista, diretor da Revista Federal, redator das Efemérides da República, e deputado federal, apresentando ao presidente Wenceslau Brás o projeto Reorganização Monetária e Financeira, onde sugeria entre outras medidas a construção de uma ponte que ligasse Quaraí à capital do departamento uruguaio de Artigas, sendo o primeiro registro sobre a futura construção da Ponte Internacional da Concórdia."Ponte Internacional da Concórdia". Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul, consulta em 19 de agosto de 2025
A família tinha raízes na elite estancieira, tradição na política e produziu muitas personalidades de relevo. Oscar era irmão de Miguel da Cunha Corrêa, coronel e duas vezes intendente de Quaraí, de José Romaguera da Cunha Corrêa, intendente de Uruguaiana e deputado estadual, e de Rivadávia da Cunha Corrêa, deputado federal, senador, ministro da Justiça e da Fazenda, prefeito do Distrito Federal, e primo-irmão de Francisco Flores da Cunha, intendente de Quaraí, deputado estadual e federal, senador, e de José Antônio Flores da Cunha, general, deputado estadual e federal, senador, interventor federal e governador do Rio Grande do Sul.Spalding, Walter. Construtores do Rio Grande, Volume 2. Livraria Sulina Editora, 1969, p. 106Pont, Raul. Campos realengos: formação da fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul, Volume 2. EDIGAL, 1986, p. 622Coelho, Otávio Pires. "Mateus Simões Pires". In: Revista Genealógica Brasileira, 1944; V (9): 126-127
Tasso casou em Porto Alegre em 11 de julho de 1926 com Ilza Maria Corrêa Daudt,Cartório da 1ª Zona de Porto Alegre. Matrimônios, Livro 14, pp. 17-18, assento nº 451 de 11 de julho de 1926 gerando os filhos Jahyra, Nayá, Tasso, Carlos e Rosalina Daudt Corrêa.Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais da 1ª Zona. Comarca de Porto Alegre. "Óbito nº 1155". Livro 4, fl. 51, 7 de julho de 1977
Primeiros anos
Seu pai viajava muito em suas funções de engenheiro, e Tasso fez seus primeiros estudos no Liceu do Ceará em 1915, e no Ginásio Santo Antônio Maria Zacarias do Rio de Janeiro em 1916-1917. Desde jovem aplicado nos estudos de piano, ingressou no Instituto Nacional de Música do Rio para aperfeiçoamento, graduando-se em 1921, sendo distinguido com o 1º prêmio do Concurso Nacional de Piano e a Medalha Alberto Nepomuceno. Ainda no Rio, em 1920 esteve entre os fundadores do Sociedade de Cultura Musical, e iniciou o curso de Direito, mas não o concluiu.Groisman, pp. 44-46Simon, Círio. Origens do Instituto de Artes da UFRGS : etapas entre 1908-1962 e contribuições na constituição de expressões de autonomia no sistema da artes visuais do Rio Grande do Sul. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2006, p. 645
Por indicação de Guilherme Fontainha, em 1922 passou a lecionar no Conservatório de Música do Instituto Livre de Belas Artes de Porto Alegre, no mesmo ano participou da fundação de um Conservatório de Música na cidade de Rio Grande, inaugurado em 4 de abril, do qual foi professor e o primeiro diretor, mas em janeiro do ano seguinte, depois de uma turnê de concertos pelo interior do estado, renunciou,Goldberg, Luiz Guilherme & Sparvoli, Rossana Marina. "O Conservatório de Música do Rio Grande no jornal O Tempo: Abordagens preliminares". In: VIII Encontro de Musicologia Histórica: Música e história no Brasil. Juiz de Fora, 2008 assumindo a direção interina do Conservatório de Porto Alegre após a saída de Fontainha."Professor Tasso Correa". A Federação, 4 de dezembro de 1923, p. 3 Em 15 de março de 1924 o Instituto de Belas Artes criou em Rio Grande um outro Conservatório de Música como sua sucursal, o Conservatório Riograndense de Música, dirigido por Corrêa e Fontainha.Goldberg, Luiz Guilherme & Nogueira, Isabel. "O ensino musical no RS da Primeira República: o Rio Grande dos Conservatórios". In: Michelon, Francisca Ferreira (org.). Música, Memória e Sociedade ao Sul: retrospectiva do Grupo de Pesquisa em Musicologia da UFPel (2001-2011), volume 1. Editora da UFPel, 2010, pp. 59-72 Ainda em 1924 aparece no Conselho Diretor da Rádio Sociedade Rio-Grandense.Simões, Julia da Rosa. A Sala Beethoven (1931-32): música e cultura em Porto Alegre. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2008, p. 60 Em 1925, após a demissão de José Joaquim Andrade Neves, assumiu o Conservatório de Porto Alegre na qualidade de diretor interino.
Neste período consolidou seu renome no campo da música,Simões, p. 80 personalidade de "comprovado valor de mestre e rara habilidade de pianista", "A audição do Prof. Tasso Correa". A Federação, 19 de agosto de 1924, p. 2 em 1923 era professor do Centro de Cultura Artística Musical,"Dr. Firmino Paim Filho". A Federação, 30 de outubro de 1923 p. 2 em 1926 vice-presidente do Centro Musical Porto-Alegrense,Werner, Kenia Simone. Entre cabarés, noites líricas e rádios porto-alegrenses: a trajetória do músico Roberto Eggers (1889-1984). Universidade Federal de Minas Gerais, 2012, p. 63 em 1927 participou da fundação da Sociedade de Cultura Musical, promoveu diversos concertos no Theatro São Pedro, e convidou para se apresentarem a pianista Guiomar Novais e a companhia de ópera Bilbro-Cavallar.Simões, pp. 80-99 Em 1931 participou da criação da Sala Beethoven, inaugurada em 16 de julho, um departamento da Casa Beethoven, um celebrado comércio de instrumentos e partituras de Arthur Pizzoli, na qual atuou como diretor artístico, encarregado de organizar a programação de concertos, iniciativa que, embora brilhante e muito bem recebida, teve vida curta, pedindo dispensa de suas funções em abril de 1932 devido à sobrecarga de trabalho em suas múltiplas atividades, e no mês seguinte a Sala fechou.
Concluiu o curso de Direito na Faculdade de Direito de Porto Alegre em 1933, tendo como orientador Manuel André da Rocha. Exerceu a advocacia com muito êxito, o que lhe trouxe considerável prestígio e influência.Groisman, pp. 48-49 Segundo Círio Simon, foi na prática do Direito que teve sua iniciação na burocracia, o que fez com que sua carreira de músico acabasse sendo obscurecida pela de administrador, e provavelmente também através do Direito se interessou pelo ativismo estudantil, sendo uma liderança na fundação do Centro Acadêmico do Instituto e na legitimação das suas atividades.Simon, pp. 280; 307-308
Enquanto isso, iniciava sua participação na política. Em 1923 compareceu, na sede do jornal do Partido Republicano Rio-Grandense A Federação, da recepção oferecida a Firmino Paim Filho, vitorioso comandante das forças legalistas na Revolução de 1923, em 1929 participou do banquete em homenagem ao deputado João Carlos Machado,"Homenagem ao dr. João Carlos Machado". A Federação, 22 de abril de 1929, p. 4 em 1932 fez parte de uma comissão que foi ao Palácio do Governo prestar seu apoio ao interventor federal José Antônio Flores da Cunha,"Solidariedade ao general Flores da Cunha". A Federação, 13 de julho de 1932, p. 1 em 1934 foi um dos signatários de um manifesto de adesão aos princípios do Partido Republicano Liberal fundado por Flores da Cunha,"Ao povo do Rio Grande". A Federação, 14 de abril de 1934, p. 1 integrou a primeira Diretoria da Ação de Resistência Nacional, ligada ao PRL, aclamada em um ato público com mais de duas mil pessoas,"Os republicanos liberais do 2º distrito desta capital deram ontem um admiravel testemunho do seu ardor partidario". A Federação, 27 de junho de 1934, p. 3 no mesmo ano foi um dos oradores em outro ato público em apoio a Flores da Cunha,"Convite ao Povo de P. Alegre". A Federação, 11 de agosto de 1934, p. 1 em 1935 participou das homenagens ao deputado liberal João Carlos Machado. "O banquete que será oferecido ao dr. João Carlos Machado". A Federação, 13 de abril de 1935, p. 4
O Instituto de Belas Artes
A criação do Instituto de Belas Artes em 1908, com seus departamentos de Artes Plásticas e Música, foi uma iniciativa da classe política, intelectual e empresarial do estado, e não da classe artística, e entre os convidados pelo presidente do Estado, Carlos Barbosa, para formarem a Comissão Central na qualidade de fundadores, havia apenas um artista plástico, Libindo Ferrás, e apenas um músico profissional, Araújo Vianna. A Comissão Central era o órgão deliberativo máximo, estando acima da Diretoria e abaixo apenas da Presidência, e até sua extinção foi dominada por agentes de fora do campo artístico, enquanto os docentes artistas e os técnicos tinham uma capacidade de interferência muito pequena nas decisões políticas e administrativas, e legalmente não tinham nenhuma.Simon, pp. 76-82