Etnometodologia é um programa de pesquisa em sociologia voltado a descrever e explicar como a ordem social é produzida, reconhecida e mantida nas situações ordinárias do cotidiano. Em vez de tratar normas, valores ou estruturas sociais como entidades externas que determinam a conduta, a etnometodologia investiga os métodos práticos pelos quais membros de uma coletividade tornam as ações mutuamente inteligíveis e, assim, “fazem” a vida social aparecer como ordenada e estável.Garfinkel, Harold. Studies in Ethnomethodology. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1967. Isso implica uma concepção de ação social fortemente situada. O que conta como “reunião”, “fila”, “aula”, “debate”, “ofensa” ou “acordo” é continuamente realizado na interação social por meio de procedimentos de interpretação, categorização e coordenação.Heritage, John. Garfinkel and Ethnomethodology. Cambridge: Polity Press, 1984.
História Considera-se o norte-americano Harold Garfinkel (1917-2011) seu principal teórico, com a publicação do livro Estudos sobre Etnometodologia (Studies in Ethnomethodology), em 1967.Garfinkel, H. The origins of the term ethnomethodology. In: R. Turner (ed.) Ethnomethodology. Penguin, Harmondsworth, 1974, pp 15-18.
As principais correntes teóricas que influenciaram Garfinkel foram a teoria da ação de Parsons - seu orientador entre 1946 e 1952 -, a fenomenologia social de Alfred Schütz e o interacionismo simbólico de G. H. Mead, da Escola de Chicago.
A etnometodologia influenciou áreas como sociologia, linguística, estudos organizacionais, antropologia, sobretudo onde a explicação demanda descrever como categorias e fatos são produzidos em práticas ordinárias.
A diversidade de estudos e termos como etnobotânica, etnofisiologia, etnofísica etc. revelavam que o termo "etno" se refere à forma com que o membro de uma comunidade, fundamentado em conhecimentos de senso comum, desenvolve conhecimentos sobre seu mundo circundante.HAGUETTE, Teresa Maria F. Metodologias qualitativas na sociologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013. ISBN 978-85-326-0854-3
Conceitos centrais
A etnometodologia é frequentemente associada a três noções:
Relatabilidade (ou accountability) indica que ações são produzidas de modo a serem observáveis, relatáveis e avaliáveis; a inteligibilidade é um um requisito prático da coordenação social. É uma característica que permite aos atores sociais comunicarem e tornarem suas atividades práticas compartilháveis.
Indexicalidade designa o caráter contextodependente do sentido. Isso quer dizer que as expressões linguísticas e ações só ganham significado em função do “aqui e agora” e das circunstâncias compartilhadas que os participantes tratam como relevantes.
Reflexividade remete ao fato de que descrições e ações, ao mesmo tempo que “representam” uma situação, também a constituem, contribuindo para estabilizar o que conta como o cenário, as identidades e os propósitos em jogo.
Mecanismos de pesquisa A pesquisa etnometodológica é caracterizada pelo uso de dados empíricos produzidos nas práticas sociais situadas, sem intervenção do pesquisador (conhecidos também como dados naturalísticos). Isso envolve registros de interação (áudio e vídeo), transcrições detalhadas e análise sequencial do curso da ação, buscando mostrar como cada "turno de fala" ou gesto torna relevante certos entendimentos e restringe os próximos movimentos possíveis. O objetivo é reconstruir procedimentos locais de produção de sentido tal como se mostram no próprio material empírico.Sacks, Harvey; Schegloff, Emanuel A.; Jefferson, Gail. A Simplest Systematics for the Organization of Turn-Taking for Conversation. Language, 50(4), pp. 696–735, 1974. DOI: 10.2307/412243
Uma estratégia metodológica associada à tradição é o experimento de ruptura (breaching experiment), em que expectativas tácitas são deliberadamente perturbadas para revelar os pressupostos normalmente invisíveis que sustentam a normalidade interacional. Essa estratégia visa a tornar observáveis os mecanismos práticos pelos quais a ordem é reparada, explicada e reconstituída quando algo “não encaixa”.
A etnometodologia está na origem de desenvolvimentos que ficaram conhecidos como Análise da Conversação, associada a Harvey Sacks, Emanuel Schegloff e Gail Jefferson. Embora nem toda análise da conversação se identifique como etnometodológica, há continuidade no foco na ação social como organizada sequencialmente, na atenção aos métodos dos participantes e na preferência por dados naturalísticos e transcrição rigorosa. A análise de mecanismos como tomada de turno, reparo, preferências interacionais e organização de sequência tornou-se um dos terrenos empíricos mais influentes derivados desse programa.
Outra ferramenta de análise para descrever como as pessoas “entendem” situações é o método documental de interpretação. As pessoas interpretam o que está acontecendo procurando um ‘padrão’ por trás dos sinais disponíveis. Um detalhe vira evidência desse padrão, e o próprio padrão é ajustado à medida que aparecem novos detalhes. Esse vai-e-vem ajuda a manter a situação coerente e verificar como ela é produzida na prática. Em pesquisa política e institucional, por exemplo, se documenta como regras e procedimentos são concretamente mobilizados em reuniões, comissões, audiências e interações burocráticas, mostrando como a institucionalidade é realizada na prática.Garfinkel, Harold (org.). Ethnomethodology’s Program: Working Out Durkheim’s Aphorism. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2002.
Ver também Interacionismo simbólico Talcott Parsons Alfred Schütz Etnologia Análise da conversação Fenomenologia
Bibliografia
COULON, Alain. Etnometodologia. Petrópolis: Vozes, 1995. COULON, Alain. Etnometodologia e Educação. Petrópolis: Vozes, 1995. GARFINKEL, H. O que é etnometodologia? In: ______. Studies in ethnomethodology. Cambridge: Polity Press, 1996 . Cap. 1. P. 1-34. Disponível em: http://www.editoraufjf.com.br/revista/index.php/TeoriaeCultura/article/view/2035 GUESSER, Adalto H. A etnometodologia e a análise da conversação e da fala. Revista Eletrônica dos Pós-Graduandos em Sociologia Política da UFSC, 1(1), pp. 149-168, 2003. Disponível em: http://www.emtese.ufsc.br. HERITAGE, John C. Etnometodologia. In GIDDENS, Anthony e TURNER, Jonathan (org.). Teoria Social Hoje. São Paulo: UNESP, 1999 LAVIE - Laboratório Virtual de Etnometodologia. Disponível em: http://www.carlosfigueiredo.org/?pag=lavie SILVA, Carlos Alberto Figueiredo da; VOTRE, Sebastião Josué. Etnometodologias. Rio de Janeiro: HP Comunicação, 2012. SILVA, Carlos Alberto Figueiredo da; DEVIDE, Fabiano Pries. Linguagem discriminatória e etnométodos de exclusão nas aulas de Educação Física Escolar. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, 30(2), pp. 181-197, 2009. Disponível em: http://rbceonline.org.br/revista/index.php/RBCE/article/view/444 SILVA, Carlos Alberto Figueiredo da; VOTRE, Sebastião Josué. Encanto e fascínio: dimensões da sedução na educação. Pensar a Prática, 12(3), pp. 1-12, 2009. Disponível em: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fef/article/view/6740 SILVA, Carlos Alberto Figueiredo da. As regras do jogo e o jogo das regras. In: VOTRE, Sebastião Josué (Org.). Representação social do esporte e da atividade física: ensaios introdutórios. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto/INDESP, pp. 29-51, 1998. Disponível em: http://www.carlosfigueiredo.org/?pag=lavie&acao=ler&idla=7 SILVA, José Edmilson; SILVA, Carlos Alberto Figueiredo da. Educação física, folclore e religião: relações e interferências - DOI: 10.4025/reveducfis.v20i4.6323 WATSON, R.; GASTALDO, E. Etnometodologia e Análise da Conversa. Petrópolis / Rio de Janeiro: Vozes / PUC-Rio, 2015 WELLER, Wivian. A contribuição de Karl Mannheim para a pesquisa qualitativa: aspectos teóricos e metodológicos. [online] Sociologias, 13, 2005, pp. 260-300. ISSN 1517-4522. DOI:10.1590/S1517-45222005000100011
Categoria:Sociologia Categoria:Antropologia