A língua nambiquara, também chamada nambiquara sul, nambicuara ou nambikuara (nambikwara), é uma língua indígena brasileira em situação vulnerável, falada por cerca de 720 falantes, segundo o Censo demográfico do Brasil de 2010. Apesar do status de vulnerabilidade, o idioma possui uma alta proporção de falantes dentre a comunidade, não estando, portanto, em risco de extinção a curto prazo. A língua é falada pelos povos nambiquaras, localizados no oeste do Mato Grosso e em Rondônia, entre os afluentes dos rios Juruena e Guaporé até as cabeceiras dos rios Ji-Paraná e Roosevelt, e pertence à família linguística nambiquara, que não é classificada nos troncos linguísticos tradicionais.

Etimologia O termo "nambiquara" é um exônimo de origem Tupi e pode ser traduzido como “orelha furada”. Na época da expedição da Comissão Rondon ao interior do Mato Grosso, seus guias parecis pensavam que este termo tupi - usado originalmente para designar um grupo falante de língua jê localizado na região entre o rio Arinos e o rio Sangue - significava “inimigo” e, assim, usaram-no, quando falavam em português com os funcionários da Comissão, para se referir aos povos nambiquaras, que até então eram denominados Cabixi. Como a língua nambiquara é composta por diversos dialetos, cujo número exato não é consenso entre os pesquisadores, os povos Nambiquara possuem vários endônimos para sua língua e para si próprios, tais como kithãulhú, hahaintesu, wasusu, alatesu, waikisu, halotésu, sawentésu, wakalitesu, alakatesu, niyahlósú, si’waisu, lunkatesu, manduka e wãnairisu.

Distribuição geográfica O território tradicionalmente ocupado pelos nambiquaras pode ser dividido em três áreas geográficas. A primeira é formada pela Chapada dos Parecis e corresponde à parte oriental do território Nambiquara. Esta região consiste em um planalto, coberto por grandes extensões de savana, que é cortado pelo rio Juruena e seus afluentes: os rios Juína, Formiga, Camararé, Camararézinho, Nambiquara, Doze de Outubro e Iquê. Os grupos que vivem neste local concebem todo o território ocupado pelos Nambiquara a partir da distinção entre áreas de savana (halósú) e áreas de floresta (sá’wentsú).

A região do Vale do Guaporé corresponde ao oeste do território Nambiquara, uma floresta densa que se estende entre o limite do planalto acima mencionado e o rio Guaporé. A oeste, na direção do rio Guaporé, encontram-se várzeas e planícies inundáveis, caracterizando um solo bastante fértil. Em direção ao rio Guaporé, correm os rios Cabixi, Piolho, Galera e Sararé. Este último define o limite sul do território ocupado pelos Nambiquara.

No norte, os Nambiquara ocupam as florestas que cobrem a região ao longo dos rios Roosevelt e Ji-Paraná, assim como seus afluentes. Em todas as três regiões descritas, o clima é caracterizado por um período chuvoso entre setembro e março e um período seco no restante do ano.

Este povo indígena costuma se estabelecer nas regiões próximas às cabeceiras dos rios e, conforme observou David Price (1972), os próprios limites do seu território tendem a estar relacionados aos limites de navegabilidade dos rios que o cortam. Este autor sugere, portanto, que a extensa área ocupada por esses grupos pode ter sido definida pelos obstáculos naturais que impediram a aproximação de índios ribeirinhos que usavam canoas, como os grupos Tupi.

Distribuição linguística De acordo com a classificação de Price (1972), a família linguística Nambiquara pode ser dividida em três grandes grupos de línguas faladas em diferentes regiões do seu território. São elas: Sabanê, Nambiquara do norte (composto pelos dialetos Latundê, Lakondê, Negarotê, e Mamaindê, esse último também usado para denominar o grupo como um todo) e Nambiquara do sul (composto pelos dialetos Hahãitesú, Alãntesú, Waikisú, Wasúsu, Kithãulhú, Saxuentesú, Halotesú, Siwxaisú, e Nesú Katithãulhu, também conhecido como Sararé).

Conforme Marcelo Fiorini (2010), com exceção da língua Sabanê, que conta hoje com menos de 20 falantes, as outras línguas Nambiquara encontram-se bem preservadas. O português é falado por todos os Nambiquara do sul e pela grande maioria dos Nambiquara do norte, principalmente entre os mais jovens. De forma geral, as mulheres têm menor grau de conhecimento do português do que os homens, pois estes saem muito mais das aldeias. Os falantes do norte são multilíngues, capazes de se comunicar em todas as três línguas, além do português, como resultado da intensificação do contato entre estes grupos.

Sabanê

A língua Sabanê, falada por grupos que habitavam o extremo norte do território Nambiquara, na região entre os rios Tenente Marques e Juruena, apresenta grandes diferenças em relação às outras duas línguas.

Em um estudo comparativo, Price (1985) concluiu, a partir do alto número de cognatos observados entre o Sabanê e as outras duas línguas Nambiquara, que, apesar das diferenças, a língua Sabanê pertence à família linguística Nambiquara. Os grupos falantes de Sabanê foram severamente afetados pelas epidemias decorrentes do contato e muitos deles foram extintos.

Atualmente, a maioria dos remanescentes desses grupos encontra-se na Terra Indígena Pyreneus de Souza e é genericamente classificada como Sabanê. Alguns deles vivem com os Mamaindê e algumas famílias migraram para a cidade de Vilhena, em Rondônia.

Nambiquara do norte

Os grupos falantes das línguas Nambiquara do norte habitavam os vales do rio Roosevelt e do rio Tenente Marques e também a região mais a noroeste, que inclui a área banhada pelos rios Cabixi e Piolho. Eles são designados: Da’wandê, Da’wendê, Âlapmintê, Yâlãkuntê (Latundê), Yalakalorê, Mamaindê e Negarotê.

Price (1972) afirma que todos os dialetos desta língua são mutuamente compreensíveis, apesar das pequenas variações observadas entre os dialetos falados na região dos rios Tenente Marques e Roosevelt e aqueles falados na região do rio Cabixi, habitada tradicionalmente pelos Mamaindê. Este autor sugeriu que o dialeto falado pelos Negarotê, grupo localizado nas margens do rio Piolho, seria um dialeto intermediário em relação aos outros dois. Estudos recentes feitos por linguistas do SIL indicam que o dialeto falado pelos Negarotê é muito similar àquele falado pelos Mamaindê.

Nambiquara do sul

As línguas classificadas como Nambiquara do sul é falada no restante do território Nambiquara, que pode ser dividido de acordo com três áreas dialetais: o vale do Juruena, a região formada pelos rios Galera e Guaporé e o vale do Sararé.

Na região do vale do Juruena encontram-se os grupos que são referidos na bibliografia como “Nambiquara do cerrado” ou “Nambiquara do campo”. Eles se situam no nordeste da chapada dos Parecis e são designados: Halotésu, Kithaulhu, Sawentésu, Wakalitesu e Alakatesu.

Price (1972) distinguiu quatro dialetos falados pelos grupos que habitam toda a extensão da chapada. O primeiro é falado pelos grupos situados no extremo norte da chapada dos Parecis, na região conhecida como Serra do Norte. Esses grupos eram conhecidos como Niyahlósú, Si’waisu e Lunkatesu e, atualmente, são conhecidos como Manduca. O segundo dialeto é falado pelos grupos localizados na região banhada pelo rio Camararé, o terceiro pelos grupos que estão na região entre os rios Formiga e Juína e o quarto pelos grupos que estão situados na região entre os rios Juruena e Sapezal.

Apesar de pertencer ao mesmo grupo linguístico (Nambiquara do sul), os grupos localizados nessas quatro áreas dialetais têm dificuldades de entender uns aos outros, sendo que os grupos que se localizam no Vale do Guaporé parecem falar um dialeto intermediário entre os dialetos falados no vale do Juruena, ao leste, e no vale do Sararé, à sudoeste do território Nambiquara.

Os grupos que habitam toda a região do Vale do Guaporé, abaixo do rio Piolho, são conhecidos como: Wasusu, Sararé, Alãntesu, Waikisu e Hahãitesu, e são chamados genericamente de Wãnairisu, termo que faz referência a um tipo de corte de cabelo característico dos grupos desta região (Fiorini, 1997).

Atualmente, o extenso território que fora tradicionalmente ocupado por cerca de 30 grupos Nambiquara, alguns deles já extintos, está dividido em nove Terras Indígenas não contínuas: Vale do Guaporé; Pirineus de Souza; Nambiquara; Lagoa dos Brincos; Taihãntesu; Pequizal; Sararé; Tirecatinga e Tubarão-Latundê. Esta última localiza-se no estado de Rondônia e é habitada por índios Aikanã e Latundê. +Quadro comparativo entre dialetos do NambiquaraPortuguêsHalotesuKithãulhuáguaiyâusuáhṵlâusúdefecardán-dá̰n-tartarugayû?tàuhlúyâ?ta̰uhlúpomboqasâhsúkásâhsútamanduátikalisuwatikalisu

História David Price realizou uma extensa pesquisa histórica sobre a ocupação da região tradicionalmente habitada pelos Nambiquara. Segundo ele, os primeiros registros da região ocupada pelos Nambiquara datam de 1770, quando é organizada uma expedição para construir uma estrada ligando o Forte Bragança à Vila Bela e também para procurar ouro nesta região. Os documentos relativos a esta expedição mencionam a presença de índios, entre os quais figuram os “Cabixi”, provavelmente se tratando dos Sabanê.

Em 1781, é feita a primeira tentativa de aldeamento dos índios conhecidos como Cabixi que viviam na região do Vale do Sararé. No entanto, este pequeno aldeamento é abandonado em 1783. Menciona-se também a existência de quilombos no território dos Cabixi, próximos ao rio Piolho. Esta região é atualmente ocupada pelo grupo Negarotê. A população dos quilombos era constituída de ex-escravizados negros, que fugiram das minas de ouro na Chapada de São Francisco Xavier, e também por índios e caborés (mestiços de negros com índios). Vários documentos relatam o envio de expedições para capturar e punir os escravos fugidos e destruir os quilombos da região. É bem documentada a expedição realizada em 1795, enviada pelo então Governador Geral de Mato Grosso João Albuquerque Pereira de Mello e Cárceres. na qual foram capturados negros e índios na região do rio Piolho, levados para a cidade de Vila Bela.

No final do século XVIII, as minas da chapada de São Francisco Xavier estavam se esgotando e muitas cidades que surgiram nesta região foram abandonadas. Há registros que relatam, neste período, ataques empreendidos pelos Cabixi às cidades e povoados da região. Os índios assim denominados ameaçavam os trabalhadores que se dedicavam à extração da poaia, atividade que se iniciou nesta região em 1854. Os ataque dos índios à população de Vila Bela perduraram até o início do século XX, mais precisamente em 1907, quando a Comissão Rondon entrou no território ocupado pelos Nambiquara para estabelecer o trajeto da linha telegráfica que ligaria o Mato Grosso ao Amazonas. Nesta época, esse povo já estava em contato com seringueiros, com os quais mantinham guerras frequentes, dado o costume destes últimos de matar e roubar as mulheres dos indígenas.