thumb|300px|Fisionomia colonial de Ouro Preto. No Brasil, a arquitetura colonial é definida como a arquitetura realizada no atual território brasileiro desde 1500, ano do descobrimento pelos portugueses, até a Independência, em 1822.

Durante o período colonial, os colonizadores importaram as correntes estilísticas da Europa à colônia, adaptando-as às condições materiais e socioeconômicas locais. Encontram-se no Brasil edifícios coloniais com traços arquitetônicos renascentistas, maneiristas, barrocos, rococós e neoclássicos, porém a transição entre os estilos se realizou de maneira progressiva ao longo dos séculos e a classificação dos períodos e estilos artísticos do Brasil colonial é motivo de debate entre os especialistas.

A importância do legado arquitetônico e artístico colonial no Brasil é atestada pelos conjuntos e monumentos desta origem que foram declarados Patrimônio Mundial pela UNESCO. Estes são os centros históricos de Ouro Preto, Olinda, Salvador, São Luís do Maranhão, Diamantina, Goiás Velho, Paraty, as ruínas das Missões Jesuíticas Guarani em São Miguel das Missões, o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas e a Praça São Francisco em São Cristóvão. Há ainda os centros históricos que, embora não tenham sido reconhecidos como Patrimônio da Humanidade, guardam importantes monumentos daquele período, como os do Recife, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Santana de Parnaíba e de Mariana. Especialmente nos casos do Recife e São Paulo, a demolição e descaracterização da maior parte das construções históricas e do traçado urbano colonial foram decisivas para o não reconhecimento.

Povoamentos coloniais e urbanismo miniaturadaimagem|A fundação de São Vicente, atual estado de São Paulo, marca o início da atividade arquitetônica europeia no Brasil. Na imagem, o Engenho dos Erasmos, erguido em 1534 A atividade arquitetônica no Brasil colonial inicia-se a partir da década de 1530, quando a colonização ganha impulso com a criação das Capitanias Hereditárias (1534) e a fundação das primeiras vilas, como São Vicente, a primeira cidade do país, fundada por Martim Afonso de Sousa em 1532, e Igarassu e Olinda, fundadas por Duarte Coelho cerca de 1535. Mais tarde, em 1549, é fundada a cidade de Salvador por Tomé de Sousa como sede do Governo-Geral. O arquiteto trazido por Tomé de Sousa, Luís Dias, desenha então a capital da colônia, incluindo o palácio do governador, igrejas e as primeiras ruas, largos e casas, além da indispensável fortificação ao redor do povoamento.Bueno, Eduardo. Coleção Terra Brasilis Volume 4 - A Coroa, a Cruz e a Espada. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro, 2006.

A parte mais nobre da cidade de Salvador, que incluía construções em taipa como o palácio do governador, residências e a maioria das igrejas e conventos, foi edificada sobre um terreno elevado, a 70 metros sobre o nível da praia, enquanto junto à baía foram construídas as infraestruturas dedicadas às atividades comerciais. Outras cidades fundadas no , como Olinda (1535) e o Rio de Janeiro (1565), caracterizam-se por terem sido fundadas perto do mar mas sobre elevações do terreno, dividindo-se o povoamento em uma cidade alta e uma cidade baixa. De maneira geral a cidade alta abrigava a parte habitacional e administrativa e a parte baixa as áreas comercial e portuária, lembrando a organização das principais cidades portuguesas, como Lisboa, Porto e Coimbra, de origem na Antiguidade e época medieval. Essa disposição obedeceu a considerações de defesa, uma vez que nos primeiros tempos os assentamentos coloniais corriam constante risco de ataques de indígenas e europeus de outras nações. De fato, quase todas as primeiros povoados fundados pelos portugueses contavam com muros, paliçadas, baluartes e portas que controlavam o acesso ao interior.Goulart Reis Filho, Nestor. Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial : recursos para a renovação do ensino de História e Geografia do Brasil. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. v. 81, No 198 (2000) thumb|Ruínas do antigo Castelo de Duarte Coelho, em pormenor da obra do pintor Frans Post (c. 1650). Erguido a partir de 1536 em Olinda, foi a primeira casa-forte do Brasil.

O urbanismo colonial no Brasil se caracterizou frequentemente pela adaptação do traçado das ruas, largos e muralhas ao relevo do terreno e posição de edifícios importantes, como conventos e igrejas. Apesar de não seguirem o rígido padrão de tabuleiro de xadrez das fundações espanholas no Novo Mundo, atualmente se considera que muitas cidades coloniais, começando por Olinda e Salvador, tiveram suas ruas traçadas com relativa regularidade.Gasparini, Graziano. Barroco no Brasil: Mais Qualidade que Quantidade. in: América, Barroco y Arquitectura (Caracas: Ernesto Armitano Editor, 1972). Sant'ana, Marcel Cláudio. Período Colonial: outras possibilidades de leitura sobre o planejamento de cidades na América Latina. Projeto Itinerâncias Urbanas no Brasil Durante o período da União Ibérica (1580-1640), as cidades fundadas no Brasil tiveram maior regularidade, como é o caso de Felipeia da Paraíba (atual João Pessoa), fundada em 1585, e São Luís do Maranhão, traçada em 1615 por Francisco Frias de Mesquita, sendo que a tendência à regularidade dos traçados de centros urbanos aumentou ao longo do . Destacam-se também as grandes obras urbanísticas realizadas no Recife durante o governo do Conde João Maurício de Nassau (1637-1643), que com o aterramento e construção de pontes, canais e fortes transformou o antigo porto de Olinda em cidade.

Um aspecto determinante no urbanismo colonial era a implantação de igrejas e conventos. Frequentemente a construção de edifícios religiosos era acompanhada pela criação de um adro ou uma praça junto ao edifício, assim como uma malha de ruas de acesso, organizando o espaço urbano. Em Salvador, por exemplo, a construção do Colégio dos Jesuítas no , fora dos muros da cidade, deu origem a uma praça - o Terreiro de Jesus - e fez da área um pólo de expansão da cidade. Outro exemplo notável de espaço urbano colonial é o Pátio de São Pedro, surgido a partir da construção da Concatedral de São Pedro dos Clérigos do Recife (depois de 1728). No Rio de Janeiro, a principal rua colonial, a Rua Direita (atual Rua Primeiro de Março), surgiu como ligação entre o Morro do Castelo, onde havia sido fundada a cidade, e o Mosteiro de São bento, localizado sobre o morro de mesmo nome. Outro aspecto importante era a implantação de monumentos religiosos em lugares altos, às vezes precedidos por escadarias, o que criava paisagens cenográficas de forte caráter barroco. No Rio, por exemplo, muitos mosteiros e igrejas foram construídos sobre morros, com suas fachadas voltadas para o mar, oferecendo um magnífico cenário para os viajantes que adentravam a Baía da Guanabara. A relação privilegiada entre topografia e igrejas também é marcante nas cidades mineiras, especialmente Ouro Preto e no Santuário de Congonhas. Nesta última a igreja de peregrinação se encontra no alto de um morro, precedido por um conjunto de capelas com a via sacra e uma escadaria decorada com estátuas de profetas.

No , reformas realizadas pelo governo do Marquês de Pombal, ligadas em parte à necessidade de ocupar os limites com a América espanhola, levaram a uma maior presença de engenheiros militares na colônia e à fundação de várias vilas planejadas, nas quais estavam previstos os lugares para os edifícios administrativos, igrejas e símbolos do poder público. Assim, ao longo do , muitas vilas foram criadas com urbanismo planificado nos atuais estados do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Goiás, Roraima, Amazonas e outros. Além disso, em alguns lugares se adotaram padrões comuns de fachadas para edifícios com o objetivo de criar um conjunto urbano harmônico, como se observa na cidade baixa de Salvador em meados do . Em Minas Gerais, onde o ciclo do ouro favoreceu o rápido crescimento de vilas em terrenos acidentados sem nenhum planejamento, também houve algumas importantes intervenções urbanísticas. O traçado da cidade de Mariana, localizada em um terreno relativamente plano, foi reformada com regularidade em 1745 por José Fernandes Pinto Alpoim. Na mesma época, várias casas foram demolidas no centro de Ouro Preto para a criação de uma monumental praça, a atual Praça Tiradentes, onde foram implantados a Casa da Câmara e o Palácio dos Governadores. Melhoramentos urbanísticos foram mais frequentes à medida que avançou a colonização. Em Salvador, grandes aterros no permitiram o desenvolvimento da cidade baixa, antes restrita a uma estreita faixa de terra. No Rio de Janeiro, lagoas e pântanos foram aterrados para permitir a expansão e melhorar a salubridade da cidade.

Também no Rio foi construída talvez a maior obra de infraestrutura realizada no Brasil colonial: o Aqueduto da Carioca, inaugurado definitivamente em 1750. O aqueduto trazia água do rio de mesmo nome ao centro da cidade, alimentando vários chafarizes, alguns dos quais ainda existem. Um deles se localizava no Largo do Paço (atual Praça XV), urbanizado no início dos anos 1740 por José Fernandes Pinto Alpoim à imagem da Praça da Ribeira de Lisboa. O cais do largo ganharia mais tarde um monumental chafariz, projetado por Mestre Valentim e terminado em 1789.

O Rio de Janeiro, capital da colônia desde 1767, foi o principal foco de intervenções urbanísticas entre os séculos XVIII e XIX. A mais importante foi a criação do Passeio Público entre 1789 e 1793. O desenho do parque, realizado segundo um projeto de Mestre Valentim, incluiu alamedas geométricas arborizadas, fontes e estátuas. Para construir o parque foi necessário uma grande intervenção urbanística, com a destruição de um morro e o aterro de uma lagoa. Mais tarde, com a chegada da Família Real Portuguesa em 1808, o Rio ganhou ainda o Jardim Botânico, o primeiro no Brasil Colônia.

Arquitetos thumb|direita|Fachada da igreja do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro (1633-c.1677). Os responsáveis pelos projetos arquitetônicos ("riscos") da colônia ficaram, em grande parte, no anonimato, até mesmo no caso de alguns grandes conventos e igrejas. Entre os autores conhecidos há religiosos e muitos engenheiros-militares, estes últimos com sólidos conhecimentos teóricos de arquitetura. Outros tinham um conhecimento mais prático, como os mestres-de-obras, mestres-pedreiros e carpinteiros.

As ordens religiosas como a dos Jesuítas, Beneditinos, Franciscanos e Carmelitas, das primeiras a se fixarem no Brasil, possuíam em seus quadros arquitetos e construtores notáveis, e com eles se iniciou uma grande tradição de construções religiosas cada vez mais ricas e imponentes. Por exemplo, o arquiteto jesuíta Francisco Dias, que havia trabalhado na construção da igreja jesuíta lisboeta, chegou ao Brasil em 1577. Trabalhou na Igreja da Graça de Olinda (o único dos seus projetos ainda existente), e construiu os colégios jesuítas do Rio de Janeiro, Santos e outros. Outro importante arquiteto religioso foi frei Macário de São João, um beneditino a quem são atribuídos os projetos seiscentistas das igrejas do Mosteiro de São Bento e da Misericórdia de Salvador, entre outros.da Silva Telles, AC. Atlas dos monumentos históricos e artísticos do Brasil. MEC/SEAC/FENAME. 1980

Os engenheiros militares eram, em sua maioria, portugueses, sendo alguns de outras nacionalidades, especialmente italianos a serviço de Portugal. Estes engenheiros não ergueram apenas fortes, mas foram responsáveis também por delinear povoamentos e projetar edifícios administrativos e até construções religiosas. Um exemplo destacado no foi Francisco Frias de Mesquita, que esteve no Brasil entre 1603 e 1635 e construiu várias fortalezas, delineou a cidade de São Luís do Maranhão (após 1615) e projetou a igreja do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro (1617).da Silva Telles, AC. Frias da Mesquita, engenheiro-mor do Brasil. Revista da Cultura. Ano V, n. 9