Os tâmeis, tâmiles, tâmis ou tâmules (em tâmil: தமிழர், transl. tamiḻar) são um grupo étnico nativo de Tâmil Nadu, um estado da Índia, e da região nordeste do Sri Lanka. Eles falam predominantemente o tâmil, e têm uma história registrada que data em cerca de dois milênios. Comunidades de imigrantes tâmeis podem ser encontradas por todo o mundo.
Os tâmeis são maioritariamente hinduístas, com consideráveis populações cristãs e muçulmanas, enquanto os tâmeis jainistas formam uma minoria reduzida. Os tâmeis constituem 5,9% da população da Índia (concentrando-se principalmente em Tâmil Nadu), 15% da população do Sri Lanka, 6% da população de Maurícia, 7% da população da Malásia e 5% da população de Singapura. Os tâmeis têm uma população de aproximadamente 76.000.000 de pessoas, uma história documentada que remonta a 2.000 anos atrás, e são um dos maiores e mais antigos grupos etnolinguísticos existentes hoje no mundo.
Do em diante, a urbanização e a atividade mercantil ao longo das costas leste e oeste do que são hoje Querala e Tâmil Nadu, levaram ao desenvolvimento de quatro grandes estados tâmeis (dinastia cheras, império Chola, império Pandia e Palava) e vários estados menores, onde todos lutavam entre si em busca da supremacia. O reino de Jafanapatão, habitado por tâmeis do Sri Lanka, era um dos mais poderosos reinos do Sri Lanka, e controlava grande parte do norte da ilha.
Os tâmeis eram conhecidos por sua influência sobre o comércio regional no Oceano Índico. Artefatos marcam a presença de comerciantes romanos, mostrando o comércio direto entre Roma e o sul da Índia. Há registros de que os pândias enviaram ao menos duas embaixadas diretamente para o imperador Augusto, em Roma. Os pandias e os cholas foram historicamente ativos no Sri Lanka. A dinastia chola invadiu com sucesso várias áreas no sudeste da Ásia, incluindo o poderoso império Serivijaia na Malásia e a cidade-estado malaia de Quedá. Guildas tâmeis medievais e organizações comerciais como Ayyavole e Manigramam tiveram um importante papel nas redes de comércio do sudeste da Ásia. Comerciantes e líderes religiosos pallavas viajaram para o sudeste da Ásia e tiveram um importante papel na indianização cultural da região. Escrituras levadas por comerciantes tâmeis para o sudeste da Ásia, particularmente as em escrita grantha ou pallava, levaram ao desenvolvimento de diversos alfabetos do sudeste da Ásia, como o alfabeto khmer cambojano, a escrita kawi javanesa, a escrita baybayin no Tagalo e o alfabeto tailandês.
A língua tâmil é uma das línguas clássicas com vida mais longa, com uma história que remonta a 300 a.C. A literatura tâmil é dominada pela poesia, especialmente a literatura Sangam, que é composta por poemas feitos entre 300 a.C. e 300 d.C. O mais importante autor tâmil foi o poeta e filósofo Tiruvalluvar, que escreveu o Tirukkuṛaḷ, um grupo de tratados sobre ética, política, amor e moralidade, considerado amplamente a maior obra da literatura tâmil. A arte visual tâmil é dominada pela arquitetura dravídica e pela produção de estátuas de divindades em pedra e bronze. As estátuas em bronze cholas, especialmente as Nataraja, se tornaram famosos símbolos do hinduísmo. Os destaques das artes cênicas tâmeis são sua dança clássica (Bharatanatyam) e sua dança popular (Koothu). A música clássica tâmil é dominada pela música carnática e pelos gêneros populares gaana e dappan koothu.
Embora a maioria dos tâmeis sejam hindus, muitos deles, especialmente os da zona rural, praticam a chamada religião popular dravídica, venerando uma enorme variedade de divindades das vilas. Muitos tâmeis são muçulmanos ou cristãos. Uma pequena comunidade jainista sobrevive desde os tempos clássicos. A cozinha tâmil possui vários itens vegetarianos e não-vegetarianos, além de vários temperos locais. A música tâmil antiga, a arquitetura de templos e as esculturas estilizadas continuam a ser aprendidas e praticadas. O historiador e radialista inglês Michael Wood chamou os tâmeis de a mais antiga civilização clássica ainda existente na Terra, já que os tâmeis preservaram elementos substanciais do seu passado relacionados às suas crenças, cultura, música e literatura, mesmo com
a influência da globalização. Etimologia Não se sabe se o termo Thamizhar e seus equivalentes em prácrito Damela, Dameda, Dhamila e Damila eram autodenominações ou exodenominações. Existem inscrições dos séculos VI e V a.C. que mencionam pessoas damela ou dameda. A conhecida inscrição Hathigumpha do governante kalinga Kharavela se refere a uma T(ra)mira samghata (confederação de governantes tâmeis) datada de 150 a.C. Também menciona que a liga de reinos tâmeis já existia há 113 anos.
Em Amaravati (Andra Pradexe), existe uma inscrição que se refere a um dhamila-vaniya (comerciante tâmil) datada do . Outra inscrição da mesma época em Nagarjunakonda parece se referir a um damila. Uma outra inscrição nas cavernas Kanheri se refere a um dhamila-gharini (chefe de família tâmil). No conto budista jataka conhecido como Akiti Jataka, é mencionada uma Damila-rattha (dinastia tâmil). Havia relacionamento comercial entre o império Romano e o império Pandia. Conforme registrado por Estrabão, o imperador Augusto de Roma recebeu, em Antioquia, o embaixador de um rei chamado Pandyan de Dramira. Portanto, é evidente que, pelo menos desde 300 a.C., os tâmeis já formavam um grupo étnico próprio. Southworth sugere que thamizhar se origina de tam-miz > tam-iz, "sua própria língua". Zvelebil sugere uma etimologia a partir de tam-iz, com tam significando "seu próprio" e iz significando "som desdobrado". Alternativamente, ele sugere uma derivação de tamiz < tam-iz < *tav-iz < *tak-iz, "o processo próprio (de falar)". História Na Índia Período pré-histórico Uma possível evidência da antiga presença tâmil no atual Tamil Nadu são as urnas funerárias megalíticas datando de 1500 a.C em diante que foram descobertas em vários pontos de Tamil Nadu, especialmente em Adichanallur, no distrito de Thoothukudi. Essas urnas se encaixam na descrição de funerais da literatura tâmil clássica.
Após o , surgiram várias lendas que explicavam o passado do povo tâmil. Segundo o Iraiyanar Akapporul, um comentário dos séculos X e XI sobre a literatura Sangam, o território tâmil antigamente se estendia para o sul e ultrapassava os limites da península indiana, abrangendo 49 divisões (nadus). O território teria sido, então, destruído por um dilúvio. As lendas Sangam também falam sobre a antiguidade do povo tâmil e reivindicam dezenas de milhares de anos de atividade literária contínua durante três Sangam. Período clássico Os antigos tâmeis tiveram três estados monárquicos liderados por reis chamados vendhar, assim como vários chefes tribais liderados por chefes chamados vel ou velir. Num nível ainda mais abaixo, havia chefes de clãs chamados kizhar ou mannar. Os reis e chefes tâmeis estavam sempre em conflito uns com os outros, principalmente por causa de hegemonia territorial e propriedades. As cortes reais eram, principalmente, mais locais de reunião social do que centros de distribuição de autoridade: eram centros de distribuição de recursos. A antiga literatura tâmil Sangam, obras de gramática como o Tolkāppiyam e antologias como o Pattuppāṭṭu e o Eṭṭuttokai também fornecem informações sobre o antigo povo tâmil. Os líderes tâmeis eram patronos das artes, e existe uma significativa quantidade de literatura desse período. A literatura mostra que muitas práticas culturais consideradas tipicamente tâmeis já eram praticadas na época clássica.
A agricultura era importante nesse período, e há evidência de que redes de canais de irrigação já existiam no Comércio interno e externo florescia, e há evidência de que existia significativo contato com a Roma Antiga. Grande quantidade de moedas romanas e sinais da presença de comerciantes romanos foram encontrados em Karur e Arikamedu. Há evidência de que ao menos duas embaixadas foram enviadas ao imperador romano Augusto por reis pandias. Cerâmica com escrita tâmil foi encontrada em escavações no mar Vermelho, sugerindo a presença de comerciantes tâmeis. Um registro de viagem anônimo do escrito em grego, Périplo do Mar Eritreu, descreve os portos dos reinos pandia e chera em Damirica, bem como sua atividade, com grande detalhe. A obra também informa que os principais produtos exportados pelos antigos tâmeis eram pimenta-preta, malabathrum, pérola, marfim, seda, nardo, diamante, safira e casco de tartaruga.
O período clássico terminou por volta do com as invasões Kalabhras, referidas como kalappirar na literatura e inscrições tâmeis. Esses invasores são descritos como "reis malévolos" e "bárbaros" que vinham do norte. Esse período, comumente referido como a Era Sombria do país tâmil, terminou com a ascensão da dinastia Pallava. Economia, comércio e navegação O país tâmil é localizado estrategicamente no oceano Índico, e tinha acesso a uma rota comercial marítima. Períodos imperial e pós-imperial Os nomes de três dinastias (Cholas, Pandias e Cheras) são mencionados na literatura tâmil Sangam, e obras de gramática como o Tolkappiyar se referem a elas como "os três glorificados pelo céu". Posteriormente, elas são mencionados nos pilares de Asoca (inscritos em 273–232 a.C.) do império Máuria como aliadas de Asoka. O rei de Kalinga, Kharavela, que reinou por volta do ano 150, é mencionado na inscrição Hathigumpha da confederação dos reinos tâmeis, que já existia há mais de cem anos. Os Cholas, Pandias, Cheras e Pallavas eram seguidores do hinduísmo, embora, por um curto período, alguns deles parecem ter seguido o jainismo. Depois da queda do império Máuria, os reinos tâmeis se aliaram ao império Satavana.
Esses antigos reinos patrocinaram o surgimento da mais antiga literatura tâmil. A literatura tâmil clássica, conhecida como literatura Sangam, é atribuída ao período entre 200 a.C. e 300 a.C. Os poemas da literatura Sangam foram categorizados e reunidos durante o período medieval. Eles retratam uma terra fértil, onde o governo era exercido por monarcas hereditários, e onde a atuação do estado era limitada pelo darma. Embora existam referências aos Pallavas desde o , eles somente alcançaram o poder imperial no . Eles transformaram a monarquia em um império, e procuraram anexar vastas extensões de terra. O movimento bhakti do hinduísmo foi criado nessa época, e prosperou concomitante ao crescimento do jainismo e do budismo. Os Pallavas foram pioneiros na construção de grandes e ornados templos de pedra, os quais formam a base da arquitetura dravidiana de templos. Eles entraram em conflito com o império Chaluquia. Durante este período, o rei chaluquia Pulakeshin II estendeu seu império até a porção norte do reino pallava, derrotando os pallavas em várias ocasiões. O rei pallava Narasimhavarman I contra-atacou, ocupando Badami temporariamente em 642. Posteriormente, o rei chaluquia Vikramaditya II se vingou através de repetidas invasões da região de Tondaimandalam, repetidas vitórias contra o rei pallava Nandivarman II, e a anexação de Kanchipuram. A dinastia pallava foi derrubada no X pela dinastia Rashtrakuta, que reinou a partir de Gulbarga. O rei Krishna III, o último grande rei Rashtrakuta, consolidou o império desde o rio Narmada até o rio Kaveri, incluindo a porção norte do território tâmil (Tondaimandalam) e impondo tributo ao rei do Ceilão.