thumb|left|upright|Interior da estação em 2017.

A Estação Ferroviária de Lagos é uma gare da Linha do Algarve, que serve a cidade de Lagos, no Distrito de Faro, em Portugal. A estação original foi inaugurada em 30 de Julho de 1922,VENTURA, 1993:92 enquanto que o novo terminal entrou em funcionamento em 2003. thumb|left|upright|Plataformas, em 2017.

Descrição thumb|left|Gare da estação de Lagos, em 2007. Localização e acessos A estação situa-se a norte da cidade de Lagos, tendo acesso pela Estrada de São Roque.

Infraestrutura Esta interface apresenta três vias de circulação, identificadas como I, II, e III, a primeira com 220 m de extensão as restantes com 197 m, todas acessíveis por plataforma de 160 m de comprimento e 76 cm de altura; não existem quaisquer vias secundárias,Diretório da Rede 2024. I.P.: 2022.12.09 estando o terreno contíguo a nordeste da estação, em tempos palco de um complexo considerável,“Sinalização da estação de Lagos” (diagrama anexo à I.T. n.º 28), 1981 sem uso ferroviário desde 2009. O edifício de passageiros situa-se ao topo da via, já que esta foi concebida como estação terminal, ao contrário da antiga que substituiu (essa concebida para servir ao planeado prolongamento da linha a Odemira).

Estação antiga O edifício da antiga estação de Lagos situa-se do lado sudoeste do leito da via desmantelada (lado direito do sentido ascendente, para Vila Real de Santo António) ao da Linha do Algarve, 130 m para noroeste da estação atual; apresentava uma configuração de vias bem mais alargada do que a que serve a interface atual. No seu edifício de passageiros, um dos elementos mais destacados são os azulejos que revestem parcialmente as paredes exteriores, com um padrão de desenho no estilo da Arte Nova.SAPORITI, 1998:61

Serviços Em dados de 2023, esta interface é servida por comboios de passageiros da C.P. de tipo regional com dez circulações diárias em cada sentido com término em .Horário dos Comboios : Vila Real de S. António ⇄ Lagos («horário em vigor desde 2022.12.11»). Esta informação refere-se aos dias úteis.

História

left|thumb|Mapa do Plano da Rede ao Sul do Tejo, decretado em 1902. Um dos troços planeados era o de Portimão a Lagos. Antecedentes e planeamento Nos finais do século XIX, ainda se verificavam grandes dificuldades nas deslocações entre a região do Algarve e o resto do país, devido ao pouco desenvolvimento dos transportes. Por exemplo, para uma viagem de Lisboa até ao Algarve era necessário tomar o comboio até Beja, e depois tomar uma diligência até Mértola, onde se embarcava com destino a Vila Real de Santo António, utilizando-se outra vez o transporte por diligência ao longo da costa Algarvia.MENDES, 2010:9 Esta situação gerava grandes entraves ao desenvolvimento da região, embora ainda se tenham criado alguns núcleos industriais, como um de fábricas conserveiras em Lagos.MENDES, 2010:11 Os primeiros planos para uma via férrea no Algarve foram apresentados pelo empresário britânico Joseph William Henry Bleck, que propunha a construção de uma linha entre Lagos e Vila Real de Santo António. Porém, esta tentativa falhou, tendo a concessão sido anulada por uma portaria de 19 de Dezembro de 1893.

Entretanto, uma lei de 29 de Março de 1883 autorizou o governo a tratar directamente da continuação da via férrea de Beja até ao Algarve, prevendo igualmente um ramal para o Barlavento Algarvio, que deveria iniciar-se em Tunes e terminar em Lagos. O lanço entre Amoreiras e Faro foi inaugurado em 1 de Julho de 1889, completando a ligação ferroviária entre o Algarve e o Barreiro via Beja. No entanto, não se iniciaram desde logo as obras para o ramal do Barlavento, e em 1 de Maio de 1896 foi noticiado que os deputados Figueiredo Mascarenhas e Sárrea Prado estavam a insistir com o Ministro das Obras Públicas para construir a linha até Lagos. Em meados de 1897, o ministro da Fazenda apresentou uma proposta para o arrendamento das redes ferroviárias estatais, onde deveria ser posta em concurso a construção e exploração de vários lanços, incluindo o ramal até Lagos. Uma portaria de 10 de Novembro desse ano encarregou o director dos Caminhos de Ferro do Sul e Sueste de fazer os estudos para o prolongamento de Faro até Vila Real de Santo António, e para o troço de Portimão a Lagos, que ainda não tinha sido estudado. Nessa altura, já existia um projecto para o traçado da via férrea até à margem esquerda do Rio Arade em Portimão. Em 1898, ordenou-se a formação de uma comissão técnica para estudar o futuro Plano da Rede ao Sul do Tejo, cujo relatório propôs o ramal de Tunes até Lagos como um dos troços que deviam ser inseridos no Plano. Em Janeiro de 1899, foi aberto um inquérito administrativo, para a apreciação do público sobre as vias férreas previstas nos Planos das Redes Complementares ao Norte do Mondego e Sul do Tejo, incluindo o ramal de Tunes a Lagos. O Plano foi decretado em 27 de Novembro de 1902. Entretanto, em 20 de Março de 1899 já existia um projecto para este ramal, da autoria do engenheiro António da Conceição Parreira, O primeiro lanço do ramal, de Tunes a Algoz, entrado ao serviço em 10 de Outubro de 1899, já sobre a gestão da Administração Geral dos Caminhos de Ferro do Estado, criada por uma lei de 14 de Julho desse ano. Este caminho de ferro, então conhecido como Ramal de Portimão, chegou a Poço Barreto em 19 de Março de 1900, Silves em 1 de Fevereiro de 1902, e à margem esquerda do Rio Arade em 15 de Fevereiro de 1903, onde foi construída a estação provisória de Portimão.

thumb|right|Trabalhos de construção da estação de Lagos. Em 1905, já se tinha escolhido e estudado o local onde deveria ser construída a gare ferroviária de Lagos. No entanto, a existência de projectos de maior importância noutros pontos do país, e os problemas técnicos e financeiros em construir uma ponte sobre o Rio Arade, entre outras circunstâncias, atrasaram consideravelmente a conclusão do ramal.

Em 27 de Abril de 1911, a autarquia de Lagos propôs a criação de um itinerário por caminho de ferro de Londres a Lagos, passando por Paris, Madrid, Sevilha, Huelva e Vila Real de Santo António, para o turismo no concelho.BAPTISTA, 2010:224 Em 1912, o presidente da Câmara Municipal de Lagos, Ribeiro Lopes, começou a cobrar um imposto de 1% sobre as exportações do concelho, de forma a angariar os fundos necessários a este projecto. O seu sucessor, Vítor da Costa e Silva, conseguiu obter o apoio do estado para este empreendimento, tendo uma lei de 11 de Abril de 1917 autorizado o governo português a auxiliar financeiramente os Caminhos de Ferro do Estado, de modo a concluir as obras em diversos lanços, incluindo o Ramal de Lagos.MARTINS et al, 1996: 253-254 A construção da linha até Lagos também contou com o apoio de Brito Camacho, que levou ao parlamento as reclamações dos habitantes da cidade, tendo conseguido a aprovação de um projecto de lei para continuar a linha férrea.MENDES, 2010:69 Outro defensor foi Alberto Carlos da Silveira, que foi homenageado pela Câmara Municipal de Lagos em 16 de Outubro de 1912, pelo seu papel na aprovação do caminho de ferro até Lagos, e no financiamento das obras por parte da autarquia.BAPTISTA, 2010:231

Em 21 de Agosto de 1912, a Câmara de Lagos contratou um empréstimo para financiar as obras, que foi distratado pela Lei 460, de 24 de Setembro de 1915, que autorizou igualmente o Conselho de Administração dos Caminhos de Ferro do Estado a contrair um novo empréstimo no valor de 500.000$000 na Caixa Geral de Depósitos, para este efeito.PORTUGAL. Lei n.º 640, de 24 de Setembro de 1915. Ministério do Fomento - Secretaria Geral. Publicado no Diário do Govêrno n.º 194, Série I, de 24 de Setembro de 1915 O Decreto 4811, de 18 de Setembro de 1918, autorizou o Director Geral dos Transportes Terrestres a fazer um novo empréstimo com a Caixa Geral de Depósitos, para continuar os trabalhos em vários troços, incluindo o de Portimão a Lagos.PORTUGAL. Decreto n.º 4811, de 31 de Agosto de 1918. Secretaria de Estado do Comércio - Direcção Geral dos Transportes Terrestres - Secretaria Geral. Publicado no Diário do Govêrno n.º 201, Série I, de 16 de Setembro de 1918 Desta forma, conseguiram-se reunir os recursos financeiros suficientes para completar o ramal até Lagos. Em 1915, foi concluída a ponte sobre o Rio Arade.MENDES, 2010:85 O plano original do engenheiro António da Conceição Parreira para a estação previa a sua instalação no Rossio de São João, na saída Norte da cidade, mas devido aos elevados custos de implementação de uma ponte sobre o Rio Molião (posterior Ribeira de Bensafrim), acabou por ser construída na margem Leste do Rio. Antes de ter sido feita a mudança, a zona do Rossio de São João já tinha sido emparcelada a pensar na instalação da futura gare ferroviária e da ponte sobre o rio.

thumb|left|Antiga Estação de Lagos, nos primeiros anos. Construção e inauguração Em 16 de Junho de 1921, foi noticiado que as obras no troço entre Portimão e Lagos estavam paralisadas. A estação foi inaugurada em 30 de Julho de 1922, acontecimento que foi celebrado com diversos eventos musicais e desportivos, e a organização de um comboio especial.COUTINHO, 2008:81 O edifício de passageiros situava-se do lado sudoeste da via (lado direito do sentido descendente, a Tunes). Aquando da inauguração, o complexo da estação era formado pelo edifício do terminal, um bairro para os funcionários, e uma cocheira para locomotivas. Este último edifício destacava-se pela sua forma em leque, com cobertura em sheds. A estação contava com oito vias, sendo uma geral, uma directa, uma de resguardo, três para manobras e duas de saco, para transbordo de mercadorias e estacionamento. Apenas as vias de saco e no interior da cocheira terminavam dentro da estação, convergindo todas as outras na via directa, que ligava a estação à Linha do Algarve. A via directa terminaria alguns metros no sentido contrário à Linha do Algarve.

A instalação do caminho de ferro inseriu-se numa fase de desenvolvimento da cidade de Lagos a partir da década de 1920, e que também incluiu outras obras de grande vulto, como a construção da Avenida da Guiné. Esperava-se que com a abertura da estação começasse uma vaga de expansão urbana na zona da Meia-Praia, mas esta só se deu muito mais tarde.MARQUES et al, 1999:454

Em 5 de Junho de 1921, a Revista de Turismo classificou a estação de Lagos como «a mais elegante e a mais luxosa do nosso País», e comentou que «com este utilissimo melhoramento, fica a bela cidade de Lagos ligada facilmente com os mais importantes centros, o que muito contribuirá para o seu desenvolvimento, tanto mais que essa cidade é um excelente ponto intermedio de turismo, pelo seu amplo porto de mar».

thumb|right|Acesso à estação de Lagos, nos primeiros anos. Ao fundo vê-se a ponte em construção.

Primeiros anos Em 1926, o governo autorizou a adjudicação de uma empreitada, para a conclusão dos trabalhos de construção do acesso rodoviário à estação. Em 11 de Maio de 1927, os Caminhos de Ferro do Estado foram integrados na Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, que passou a gerir as antigas redes do Sul e Sueste e do Minho e Douro.REIS et al, 2006:63

Em 1928, o jornal lacobrigense Terra Algarvia criticou a falta de uma marquise na estação, de forma a abrigar os passageiros que embarcavam e desembarcavam dos comboios, e de iluminação eléctrica no interior do edifício.

thumb|left|Construção da ponte de acesso à estação, nos anos 20. Década de 1930