thumb|300px|Detalhe do Cavaleiro Rampin, c. , Atenas
A escultura da Grécia arcaica representa os primeiros estágios de formação de uma tradição escultórica que se tornou uma das mais significativas em toda história desta arte no ocidente. O período Arcaico da Grécia Antiga é mal delimitado, havendo grande controvérsia entre os estudiosos do assunto. Geralmente se considera que inicia entre 700 e e encerra entre 500 e , mas alguns indicam uma data bem mais recuada para seu início, , a da primeira Olimpíada.SANSONE, p. 48 Neste período são lançadas as bases para o surgimento da escultura autônoma de grandes dimensões e da escultura monumental de decoração de edifícios. Essa evolução dependeu em suas origens da influência oriental e egípcia, mas logo adquiriu um caráter peculiar e original.WILSON, pp. 73-74
Durante muito tempo considerado um mero prelúdio para o Classicismo, hoje o período Arcaico é visto como um momento de intensa atividade intelectual, política e artística, durante o qual foram feitas conquistas decisivas para a consolidação da cultura grega como um todo,POMEROY, et alii, p. 82 e a escultura que o representa possui grandes méritos próprios, sendo veículo de significados específicos e fundamentais para a sociedade de onde nasceu por meio do desenvolvimento de formas únicas.SANSONE, p. 54
Iniciando a partir de bases pouco auspiciosas, a escultura do período Arcaico, em suas etapas finais, alcançou elevados patamares de qualidade estética e complexidade formal, sinalizando a passagem de uma cultura praticamente anicônica para outra onde a visualidade e a figuração se tornaram predominantes, deixando amplo e seminal repertório de tipos e modos representativos, com a figura humana em situação privilegiada.WHITLEY, pp. 195-199
Antecedentes
Há evidências de presença humana na região hoje conhecida como a Grécia — incluindo a porção continental e as ilhas — desde o Paleolítico, e nesses tempos primitivos seus artefatos se resumiam a ferramentas e armas simples em pedra e osso, e cerâmicas.Aegean civilizations. Encyclopædia Britannica Online. 13 May. 2009 Na Idade do Bronze já havia culturas de considerável florescimento artístico e cultural, as chamadas civilizações egeias, compreendendo as culturas Minoica, Cicládica e Micênica. Da civilização das ilhas Cíclades sobrevivem estatuetas em mármore e alabastro, algumas chegando a grandes dimensões, em sua maioria representando deidades femininas de braços cruzados junto ao peito, mas existindo exemplares masculinos e outros em posições diversas, peças se tornaram famosas e colecionadas com avidez por suas formas altamente estilizadas que lembram um pouco a escultura moderna. Mas exatamente esse grande interesse causou sérios problemas para a pesquisa arqueológica. Somente cerca de 10% das esculturas cicládicas hoje conhecidas têm procedência comprovada, e suspeita-se que o restante possa ser falsificações recentes, insegurança que complica a descrição e o estudo das funções e significados desta produção. Algumas peças apresentam vestígios de pigmento, indicando que em épocas remotas já se havia estabelecido a prática de pintura de superfície das esculturas, que seria continuada ao longo de toda a história da escultura na Grécia Antiga.KLEINER, pp. 82-83
thumb|esquerda|120px|Ídolo cicládico, c. -
Mais ou menos contemporânea à cultura Cicládica foi a cultura minoica, florescendo em Creta. O que chegou a nós de sua escultura são estatuetas de pequenas dimensões, das quais são célebres a Deusa com Serpentes, em faiança, encontrada com sua policromia intacta no palácio real de Cnossos, e o Jovem de Palecastro, em marfim, ouro, pedra e cristal de rocha, mas é possível que se tenham produzido também obras maiores em madeira. Suas formas são bastante mais elaboradas e naturalistas que as cicládicas, mas apresentam a mesma tendência à frontalidade.KLEINER, pp. 88-90 Na escultura em bronze os minoicos mostraram grande competência, tendo desenvolvido a técnica da cera perdida,MATTUSCH, p. 31 e o período é sobremaneira importante porque nele se consolidou toda uma mítica em torno do processo criativo, personificada nas figuras do deus Hefesto, o artífice magistral, e de Dédalo, um personagem semilendário a quem se atribuiu a invenção da arte da escultura e poderes mágicos de animação de estátuas, e cuja origem parece ter sido oriental. A localização de Dédalo nesta época, contudo, parece ser uma elaboração bem posterior da tradição, e é mais plausível que ele tenha sido um escultor do , se é que existiu de fato.MORRIS, pp. 97; 238-241; 245; 252-253 Estudos recentes têm apontado ainda a possibilidade de terem havido dois Dédalos: um arquiteto-construtor minoico, e outro um escultor do período Arcaico inicial ou Orientalizante, também chamado por vezes Dedálico em sua homenagem.MORRIS, pp. 253-255
Mais tarde, aparece a Civilização Micênica no continente, que deixou testemunhos materiais de grande importância em imponentes edificações em pedra e artefatos sofisticados em ouro, encontrados especialmente em Tirinto, Argos, Troia e Micenas. A arquitetura palaciana remanescente nesses sítios arqueológicos demonstra um grau avançado de habilidade no manejo da pedra, e seu esquema construtivo deu mais tarde origem ao projeto do templo grego. Em Micenas existem alguns dos primeiros exemplos de escultura arquitetural da Grécia, particularmente bem conseguida no Portal dos Leões, onde dois leões estilizados, de linhas limpas e vigorosas, se postam simetricamente sobre o lintel da entrada do palácio. O Portal dos Leões, contudo, por suas grandes dimensões, é uma exceção, assim como uma cabeça de mulher em terracota policroma que pode ser parte de um dos mais antigos exemplos de estatuária de culto em tamanho natural encontrados da Grécia. Os demais achados micênicos em geral são peças diminutas em terracota. Dada a escassez de evidências mais completas, é difícil estabelecer generalizações sobre a prática de escultura entre eles,KLEINER, pp. 90-96PATER, p. 122 e apesar de sua habilidade com os metais, especialmente os preciosos, louvada por Homero em vívidas descrições, não sobrevive nenhuma relíquia escultural em bronze desse período.
No final do , porém, todas essas culturas haviam sucumbido, iniciando o que se chamou de Idade das Trevas. Por razões ainda não completamente elucidadas a população local declinou drasticamente, a economia entrou em colapso, a escrita deixou de ser praticada, as artes regrediram e o repertório de representação figurativa desapareceu quase por completo. Somente depois de meados do acontece um progressivo rearranjo social, incorporando invasores dos Bálcãs e o remanescente dos povos autóctones, que possibilitaria um ressurgimento cultural que doravante não conheceria interrupção até a conquista da Grécia pelos romanos no SNODGRASS, pp. 18-21
Um período ainda antecede o Arcaico propriamente dito, o Geométrico, no qual gradualmente se restabelece a representação figurativa, numa fundação quase inteiramente nova da linguagem visual.VERNANT, p. 151 Sua escultura provavelmente foi influenciada pela arte dos povos invasores, que trouxeram consigo uma tendência analítica de concepção das obras em seções distintas e em formas essenciais, sendo quase apenas silhuetas — um triângulo para o torso, um círculo para a cabeça, e assim por diante. Os bronzes geométricos mais antigos são muito achatados, e parecem ter sido criados como recortes de placas do metal, e mostram traços rústicos. Peças em terracota mostram uma volumetria mais completa. Os bronzes mais recentes são similares nesse ponto, acompanhando o desenvolvimento da técnica de fundição, e o espaço começa a ser mais explorado através de peças representando carruagens e composições de grupos. No caso das figuras humanas, as distinções de gênero são esquemáticas: os homens estão nus e as mulheres vestidas; quando nos raros casos em que elas estão nuas, apresentam seios mas não genitais.MATTUSCH, p. 3Western sculpture. Encyclopædia Britannica Online. 13 May. 2009MATTUSCH, pp. 31-33
thumb|left|120px|Esfinge, c. , Ática left|thumb|120px|Cleobis e Bitão, Museu Arqueológico de Delfos, Polímedes de Argos, c.
O período Arcaico
A Grécia do período Arcaico experimentava uma rápida recuperação depois do hiato da Idade das Trevas e do primeiro renascimento cultural do Desenvolvia-se então uma nova forma de governo, estruturada na cidade-estado, a pólis, a economia se fortalecia e se iniciou um movimento de ampla expansão colonial, incrementando o comércio com povos de uma vasta região na orla do Mediterrâneo e do Mar Negro, criando um sentimento de unidade e força cultural que disseminava a cultura helênica em todo esse território, uma cultura que confraternizava e se consagrava nos Jogos Pan-helênicos, realizados na metrópole. A literatura ressurgia e encontrava seus primeiros grandes expoentes em Hesíodo e Homero, e a filosofia pesquisava novas formas de entendimento do mundo e do homem sob uma óptica racionalista, em que as explicações sobrenaturais para os fenômenos da natureza eram abandonadas em busca de causas mais científicas.
O processo de formação da cidade-estado exigiu uma organização social mais consistente do que a mantida nas antigas vilas, povoados e demos dispersos, que funcionavam sob a direção de um líder, rei ou magistrado principal, o basileu, e para que se consolidasse essa nova união política foi preciso que o poder centralizado se dividisse entre um grupo de aristocratas, auxiliado por burocratas, numa partilha de responsabilidades que lançou as primeiras bases da futura democracia. O modelo da pólis não foi adotado uniformemente em toda a Grécia: encontram-se variações, e certas regiões continuaram a ser governadas da forma antiga até data tardia, mas a pólis representa afinal o sistema mais avançado e eficiente da época, gerindo melhor o rápido crescimento populacional, a expansão comercial e colonial, os recursos produtivos e as relações políticas e militares entre os vários Estados.POMEROY, et alii, p. 109 Foi nela também que aconteceram os progressos artísticos mais importantes.POMEROY, et alii, p. 87 A transferência do poder para a assembleia de aristocratas hereditários, que detinham a maior parte das riquezas e possuíam a maior parte das terras, naturalmente fez com que os princípios desta classe se tornassem dominantes, ao mesmo tempo em que eles se preocupavam em manter o status quo através de métodos despóticos de exploração das classes mais baixas. No o poder dessa oligarquia começou a ser dissolvido com a ascensão dos tiranos, com a assimilação ao governo de famílias de pequenos proprietários alheias ao círculo dos aristocratas latifundiários, e com o surgimento de uma classe média autossuficiente que sobrevivia e começava a enriquecer por meio do comércio, estratos sociais que se justificavam moralmente defendendo o valor do trabalho, considerado uma forma válida de obter os prêmios que Homero julgava reservados aos heróis: riqueza, glória e o favor dos deuses.POMEROY, et alii, pp. 96-101CUNNINGHAM & REICH, p. 44