O Santuário Arquidiocesano São José, também chamado de Igreja São José, é um templo católico de arquitetura eclética, com referências neogóticas e neomanuelinas. Está situado no Centro de Belo Horizonte, em Minas Gerais. A igreja ocupa uma área elevada entre as ruas dos Tamoios, Espírito Santo, dos Tupis e Rio de Janeiro, com a fachada principal voltada para a avenida Afonso Pena. É a sede da Paróquia São José, criada em 27 de janeiro de 1900 e confiada aos missionários redentoristas.
A construção da matriz começou em 1902. O edifício passou a receber celebrações em 19 de março de 1904 e foi concluído em 1910. O projeto foi preparado pelo engenheiro Edgard Nascentes Coelho. A execução ficou inicialmente sob a direção do irmão redentorista holandês Gregório Mulders e foi terminada por Verenfrido Vogels, responsável também pelas escadarias monumentais.
O templo tem planta em cruz latina e esquema basilical com três naves. Mede 60 metros de comprimento por 19 metros de largura. O exterior reúne formas ecléticas e neomanuelinas, enquanto o interior recebeu, entre 1911 e 1912, um extenso conjunto de pinturas de Guilherme Schumacher. O pintor cobriu paredes, arcos, abóbadas e capelas com episódios bíblicos, santos, ornamentos vegetais e grupos celestes.
A igreja recebeu tombamento municipal em 1990. O conjunto arquitetônico e paisagístico formado pelo templo, convento, jardins e demais construções do quarteirão foi tombado pelo município em 10 de novembro de 1994. Em 19 de março de 2021, a matriz recebeu o título de santuário arquidiocesano. A cerimônia solene de instalação ocorreu em 29 de junho daquele ano.
História
Criação da paróquia e chegada dos redentoristas
Belo Horizonte havia sido inaugurada como capital mineira em dezembro de 1897. Em janeiro de 1900, a cidade tinha cerca de 14 mil habitantes e apenas uma paróquia. O bispo de Mariana, Silvério Gomes Pimenta, convidou missionários redentoristas holandeses para abrir uma nova frente pastoral na capital.
Os padres Pedro Beks e Francisco Lohmeyer chegaram a Belo Horizonte em 23 de janeiro de 1900. Três dias depois, reuniram-se a eles o padre Afonso Matysen e os irmãos Felipe Winter e Doroteu Van Lent. A Paróquia São José foi criada em 27 de janeiro, como a segunda paróquia da cidade, e Pedro Beks tornou-se seu primeiro pároco. O grupo iniciou o apostolado na Capela do Rosário em 28 de janeiro e passou a prestar os serviços paroquiais na Capela de Santo Antônio, na esquina das ruas dos Tamoios e São Paulo.
A igreja foi erguida em uma parte alta e bem visível da nova capital, que ainda estava em formação. A atuação dos redentoristas buscava fortalecer a catequese, organizar as paróquias e aproximar os fiéis das orientações de Roma.
Construção da igreja e do convento
Pedro Beks escolheu para a matriz uma colina voltada para a avenida Afonso Pena, entre as ruas dos Tamoios e Espírito Santo. A posição deixava o edifício acima do nível das vias próximas e permitia o acesso pela avenida por meio de uma escadaria frontal.
A pedra fundamental foi lançada em 20 de abril de 1902. A construção do convento começou no dia seguinte, na parte do quarteirão voltada para a rua dos Tupis. A comunidade redentorista mudou-se para a nova residência em 9 de dezembro de 1902, embora as obras ainda não estivessem terminadas.
O projeto da igreja foi elaborado por Edgard Nascentes Coelho, engenheiro da administração municipal. Gregório Mulders dirigiu a obra até ser transferido para o Rio de Janeiro, em 1904. Verenfrido Vogels assumiu a construção e permaneceu à frente dos trabalhos até 1910. Vogels preparou também as escadarias e os acessos que ligam o adro à avenida Afonso Pena.
A primeira celebração no edifício ocorreu em 19 de março de 1904, festa de São José. O espaço ainda estava incompleto, mas passou a ser usado como matriz paroquial. A estrutura principal e a escadaria foram terminadas em 1910. A pintura interna ocupou os dois anos seguintes.
O convento manteve a alvenaria de tijolos aparentes e as esquadrias de madeira. O quarteirão passou a reunir a igreja, o convento dos redentoristas, a casa paroquial, o salão paroquial, jardins e pequenas construções usadas pelas atividades da paróquia.
Catedral provisória
A Diocese de Belo Horizonte foi criada em 1921. Como as obras da Catedral de Nossa Senhora da Boa Viagem ainda não haviam terminado, o primeiro bispo da nova diocese, Antônio dos Santos Cabral, foi recebido na Igreja São José e instalou ali sua cátedra provisória. O templo exerceu essa função por cerca de dois anos.
Em 1922, os redentoristas ofereceram a igreja e a residência episcopal à diocese, sob a condição de que o bispo adquirisse o conjunto e fornecesse outro terreno à congregação. Antônio dos Santos Cabral não levou a negociação adiante, em parte pelo custo da compra. A sede episcopal passou depois para a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Elevação a santuário
O arcebispo Walmor Oliveira de Azevedo conferiu à matriz o título de Santuário Arquidiocesano São José em 19 de março de 2021, durante uma missa celebrada na festa do padroeiro. A decisão ocorreu no Ano de São José proclamado pelo papa Francisco e nas comemorações do centenário da criação da Diocese de Belo Horizonte.
A instalação solene foi celebrada em 29 de junho de 2021, junto às comemorações dos setenta anos da antiga Província Redentorista do Rio de Janeiro, divisão administrativa que reunia comunidades da congregação. A paróquia permaneceu sob a administração dos missionários redentoristas.
Arquitetura
Implantação e exterior
O santuário ocupa o centro de um quarteirão de terreno inclinado. A fachada principal está voltada para a avenida Afonso Pena, enquanto o convento e as dependências paroquiais têm acesso pela rua dos Tupis. Jardins e caminhos internos separam o templo das construções vizinhas.
A elevação do terreno levou à criação de uma escadaria monumental no eixo da fachada e de rampas laterais que acompanham as encostas. Visto de pontos mais altos do Centro, o conjunto formado pela igreja, pela escadaria e pelos acessos laterais tem contorno semelhante ao de um cálice.
O edifício pertence ao repertório eclético empregado nos primeiros anos de Belo Horizonte. Sua ornamentação foi classificada como neomanuelina, com soluções trazidas pelos construtores redentoristas holandeses. A fachada possui uma torre central com relógio, acompanhada por duas torres menores. Arcos, pináculos, frisos geométricos e faixas de cores diferentes percorrem as paredes e contornam portas e janelas.
A torre central avança sobre o corpo da fachada e reforça o eixo da entrada principal. As torres laterais têm aberturas com venezianas e coruchéus elevados. Pequenas torres, pináculos e cruzes aparecem também sobre os volumes laterais e junto ao telhado.
As paredes externas receberam ornamentos pintados por Guilherme Schumacher. Em 1928, essas superfícies foram cobertas por uma camada uniforme de tinta bege. A recuperação das cores começou décadas depois, com prospecções realizadas durante o planejamento das obras de conservação.
Classificação estilística
A Igreja São José faz parte da arquitetura eclética dos primeiros anos de Belo Horizonte. O edifício também é classificado como neomanuelino, com influências holandesas, e como eclético de referências neogóticas. Torres pontiagudas, pináculos, arcos, faixas de cores contrastantes e ornamentos geométricos e vegetais convivem no mesmo conjunto.
A mistura já causava discussão durante a construção. Gregório Mulders queria modificar o projeto de Edgard Nascentes Coelho, mas não pôde fazê-lo. Um texto redentorista citado pelo historiador João Teixeira de Araújo criticou as colunas largas, as abóbadas e a "mistura estranha de vários estilos", embora elogiasse a solidez e o efeito imponente do edifício.
O termo "neomanuelino" se refere à retomada, no século XIX, da arquitetura manuelina portuguesa. O manuelino nasceu na passagem do gótico para o Renascimento e incorporou elementos mouriscos em parte de seus edifícios.
Tradição oral sobre supostas influências islâmicas
As torres, os arcos e as faixas coloridas do edifício alimentaram em Belo Horizonte a crença de que a igreja teria sido projetada por um muçulmano ou inspirada no estilo de uma mesquita. A documentação conhecida, porém, atribui o projeto ao engenheiro brasileiro Edgard Nascentes Coelho. A construção foi conduzida pelos irmãos redentoristas holandeses Gregório Mulders e Verenfrido Vogels. As fontes sobre o templo classificam sua arquitetura como eclética, neogótica ou neomanuelina, sem apontar autoria muçulmana ou inspiração direta na arquitetura islâmica.
Planta e espaço interno
A igreja mede 60 metros de comprimento por 19 metros de largura e tem planta em cruz latina. O corpo principal segue um esquema basilical com nave central mais alta, duas naves laterais, transepto e absides poligonais na cabeceira e nos braços transversais.
Arcadas separam a nave central dos corredores laterais. As colunas policromadas terminam em capitéis coríntios dourados. Acima dos arcos ficam as janelas do clerestório, que levam luz ao interior por meio de vitrais coloridos com desenhos geométricos, estrelas e flores.
A nave conduz ao presbitério elevado, onde se encontram o altar-mor e a grande composição pintada da abside. O teto é dividido por nervuras azuis, entre as quais aparecem campos claros, molduras ornamentais e cenas religiosas. As paredes, colunas, arcos e guarnições receberam pintura policromada, de modo que poucos trechos internos ficaram sem decoração.
As capelas dos braços do transepto abrigam altares dedicados a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, ao Sagrado Coração de Jesus, a Santo Afonso de Ligório e à Imaculada Conceição.
Pinturas e programa iconográfico
Trabalho de Guilherme Schumacher
Guilherme Schumacher chegou a Minas Gerais em 1910. Seu primeiro trabalho para os redentoristas foi uma pintura de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro destinada à comunidade de Curvelo. Em Belo Horizonte, ofereceu-se para decorar a igreja e preparou uma pintura de teste no batistério.
Após a aprovação do trabalho, Schumacher foi contratado por 19 contos de réis. Empregou uma tinta chamada olsina e recorreu a moldes para repetir frisos, arabescos e figuras decorativas. A execução começou em 1911 pelas capelas laterais, seguiu pelo presbitério e terminou na nave central no fim de 1912.
Schumacher trabalhou com a orientação teológica dos redentoristas e recebeu auxílio de um pintor chamado Goretti, responsável também pela capela do convento. O conjunto combina cenas figurativas com formas geométricas, animais estilizados, folhagens, flores e figuras humanas.
As pinturas são muitas vezes chamadas de "afrescos". Schumacher, porém, trabalhou com tinta e moldes sobre o revestimento das paredes. Por isso, o conjunto também pode ser chamado de pintura mural ou decoração pictórica.
Altar-mor e presbitério
A composição central da abside apresenta a Santíssima Trindade, a Eucaristia, anjos e grupos de santos. Deus Pai ocupa a parte superior, o Espírito Santo aparece sob a forma de pomba e Cristo está no eixo da cena. Reis, rainhas, bispos, religiosos e leigos completam a corte celeste.
Diante do painel fica a imagem de São José com o Menino Jesus. A primeira imagem do altar-mor era de madeira e foi transferida para o convento. A escultura que a substituiu foi entronizada em 2 de dezembro de 1932. A peça, talhada em mármore pelo escultor paulista Marino de Faneso, pesa 789 quilogramas.
No teto do presbitério, Nossa Senhora aparece com o Menino Jesus. Quarenta medalhões apresentam os antepassados de Cristo, de Abraão a São José. As paredes trazem os quatro evangelistas, enquanto os Doze Apóstolos ocupam os espaços próximos às janelas inferiores. Seis doutores da Igreja e São José foram pintados acima dos arcos.
Nave central