Fun Home: A Family Tragicomic (Fun home: Uma tragicomédia em família, em português brasileiro) é um graphic novel de memórias da cartunista americana Alison Bechdel, autora da tirinha Dykes to Watch Out For. O livro narra a infância e juventude da autora na zona rural da Pensilvânia, focando-se em sua relação complexa com seu pai. O livro trata dos temas de orientação sexual, papéis de gênero, suicídio, abuso emocional, vida numa família disfuncional e o papel da literatura na compreensão de si mesmo e da família.

A autora demorou sete anos para escrever e ilustrar Fun Home, em parte devido ao processo artístico laborioso de Bechdel, que inclui fotografar a si mesma em poses para cada figura humana. Apenas na edição impressa. Posteriormente, Bechdel traçou sua relação materna no quadrinho Are You My Mother?. Fun Home foi tema de várias publicações acadêmicas nas áreas de estudos biográficos e estudos culturais como parte de uma guinada maior em direção a um investimento acadêmico sério no estudo de quadrinhos/arte sequencial.e.g. Tolmie, Jane (2009). "Modernism, Memory and Desire: Queer Cultural Production in Alison Bechdel's Fun Home." Topia: Canadian Journal of Cultural Studies. 22: 77-96;

Fun Home foi um sucesso de público e de crítica, ficando duas semana na lista de mais vendidos do New York Times. O crítico Sean Wilsey, escrevendo na The New York Times Book Review, classificou-o com "uma obra pioneira, impulsionando dois gêneros (quadrinhos e memórias) em novas e múltiplas direções". Diversas publicações indicaram Fun Home como um dos melhores livros de 2006; também foi incluído em várias listas dos melhores livros dos anos 2000. Foi indicado para diversos prêmios, incluindo o National Book Critics Circle Award e três prêmios Eisner (dos quais ganhou um). Uma tradução francesa de Fun Home foi seriada no jornal parisiense Libération; o livro foi uma seleção oficial do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême e, ainda, tema de uma conferência acadêmica em França. Fun Home também gerou controvérsia, sendo contestad e removido de bibliotecas por conta de seus conteúdos.

Em 2013, uma adaptação musical de Fun Home no Public Thater teve sua temporada prolongada diversas vezes, com livro e letras de Lisa Kron e trilha sonora composta por Jeanine Tesori. A produção, dirigida por Sam Gold, foi chamada de "o primeiro musical do mainstream sobre uma jovem lésbica." Como musical, Fun Home foi um finalista no Prêmio Pulitzer de Teatro de 2014, e ganhou o Prêmio Lucille Lortel de Melhor Musical, o prêmio de Melhor Musical do New York Drama Critics' Circle e o Prêmio Obie de Musical. A produção da Broadway estreou em abril de 2015 e recebeu uma dúzia de indicações para o prêmio Tony, ganhando o prêmio de melhor musical.

Antecedentes Bechdel afirma que sua motivação para escrever Fun Home foi a de refletir sobre o porquê das coisas terem acontecido da forma como ocorreram em sua vida. Ela reflete sobre a morte prematura de seu pai e se Alison teria feito escolhas diferentes caso estivesse na posição dele. Esta motivação está presente por toda a obra no contraste entre o artifício de Bruce em esconder coisas e o eu livre e aberto de Alison. O processo de escrever Fun Home demandou diversas referências a obras literárias e arquivos, tanto para escrever quanto para desenhar fielmente as cenas. Como escreveu Bechdel no livro, ela relia as fontes de suas referência literárias e esta atenção aos detalhes em suas referências levou ao desenvolvimento de cada capítulo ter um diferente foco literário. sobre o processo de escritura do livro, Bechdel diz: "Foi um projeto tão enorme: seis ou sete anos de desenho e escavação. Foi meio que viver num estado de aturdimento."

A linha de Fun Home é preta com uma camada de cor azul-acinzentada. Sean Wilsey escreveu que os quadros de Fun Home "combinam o detalhe e a competência técnica de Robert Crumb com seriedade, complexidade emocional e inovação que são lhe completamente únicas." Escrevendo na Gay & Lesbian Review Worldwide, Diane Ellen Hamer contrastou "o hábito de Bechdel de desenhar seus personagens de maneira bem simples e, ainda assim, distinta" com "a atenção aos detalhes que ela dedica ao cenário, aqueles programas de TV e pôsteres na parede, para não falar dos meandros da funerária como cenário recorrente." Bechdel disse a um entrevistador do The Comics Journal que a riqueza de cada quadro de Fun Home era bem deliberada:

direita|thumb|Alison Bechdel tirou fotos de si mesma posando como cada personagem para usar de referência em seus desenhos. Aqui, ela posa para um desenho de seu pai

Bechdel escreveu e ilustrou Fun Home durante um período de sete anos. Seu processo artístico meticuloso tornou vagarosa a tarefa de ilustração. Ela começou cada página criando um arcabouço no Adobe Illustrator, na qual ela colocou o texto e desenhou esboços. Ela utilizou-se de abundantes referências fotográficas e, para diversos quadros, posou, ela mesma, como cada figura humana usando uma câmera digital para gravar suas poses. Bechdel também usou referências fotográficas para elementos de pano de fundo. Por exemplo, para ilustrar um quadro retratando fogos de artifício vistos de um terraço em Greenwich Village em 4 de julho de 1976, ela usou o Google Imagens para encontrar uma foto do horizonte de Nova Iorque tirada daquele edifício específico naquele período. Ela também copiou à mão minuciosamente várias fotografias de família, cartas, mapas locais e trechos de seu próprio diário de infância, incorporando estas imagens à narrativa. Depois de usar o material de referência para desenhar um arcabouço bem definido para a página, Bechel usou um papel bristol com acabamento para copiar as ilustrações em linha e arte-finalizar a página, a qual era, então, digitalizada para seu computador. A camada de tinta azul-acinzentada para cada página foi desenhada num página separada de papel de aquarela e combinada com a imagem finalizada usando Photoshop. Bechdel escolheu a cor azulada para a camada por sua flexibilidade e porque tinha "uma qualidade sombria e elegíaca" que se adequava ao tema.Emmert, pp. 47–48. Apenas edição impressa. Bechdel atribui este processo criativo detalhado ao seu "transtorno obssessivo-compulsivo mal controlado".Emmert, p. 45. Apenas edição impressa.

Sinopse esquerda|thumb|Um quadro de Fun Home retratando Bruce (esq.) e Alison Bechdel (direita) A narrativa de Fun Home é não-linear e recursiva. Incidentes são contados e recontados sob a luz de novos temas ou informações. Bechdel descreve a estrutura de Fun Home como um labirinto, "passando pelo mesmo material, mas começando do lado de fora e espiralando em direção ao centro da história." Num ensaio sobre livros de memórias e verdade no periódico PMLA da Modern Language Association, Nancy K. Miller explica que, ao revisitar cenas e temas, Bechdel "recria memórias nas quais a força do apego gera a estrutura em si do livro." Ademais, o quadrinho deriva sua estrutura de alusões a várias obras de literatura, mitologia grega e artes visuais; os eventos da vida familiar de Bechdel durante sua infância e adolescência são apresentados por esta lente alusiva. Miller observa que as narrativas dos texto literários referenciados "fornecem pistas, tanto verdadeiras quanto falsas, para os mistérios das relações de família."

O quadrinho se foca na família de Bechdel e centra-se em sua relação com seu pai, Bruce, que era diretor de funerária e professor de inglês do ensino médio na cidade de Beech Creek, na Pensilvânia, onde Alison e seus irmãos cresceram. O título do livro vem do apelido familiar para a funerária, o negócio da família onde Bruce cresceu e, posteriormente, trabalhou; a frase também se refere, ironicamente, a tirania doméstica de Bruce. As duas ocupações de Bruce refletem-se no foco que o quadrinho dá à morte e à literatura.

No começo do livro, é exibida a obsessão de Bruce em restaurar a casa vitoriana da família. Sua necessidade compulsiva de restaurar a casa está conectada à distância emocional que coloca entre si e sua família, distância esta que expressa com frieza e surtos ocasionais de raiva abusiva.Bechdel, Fun Home, pp. 11, 18, 21, 68–69, 71. Esta distância emocional, por seu turno, está conectada ao fato de ele ser um homossexual ainda no armário. Bruce teve relacionamentos homossexuais no exército e com seus estudantes do ensino médio; alguns destes também eram amigos da família e babás.Bechdel, Fun Home, pp. 58–59, 61, 71, 79, 94–95, 120. Aos 44 anos, duas semanas depois de sua esposa pedir o divórcio, ele entrou no caminho de um caminhão da empresa Sunbeam Bread e foi morto.Bechdel, Fun Home, pp. 27–30, 59, 85. Embora a evidência não seja conclusiva, Alison conclui que seu pai cometeu suicídio..Bechdel, Fun Home, pp. 23, 27–29, 89, 116–117, 125, 232.

A história também lida com a luta interna da própria Alison com sua identidade sexual, alcançando uma catarse na compreensão de que ela é uma lésbica e quando sai do armário para seus pais.Bechdel, Fun Home, pp. 58, 74–81, O quadrinho examina de modo franco seu desenvolvimento sexual, incluindo transcrições de seu dário de infância, anedotas sobre masturbação e histórias de suas primeiras experiências sexuais com sua namorada, Joan.Bechdel, Fun Home, pp. 76, 80–81, 140–143, 148–149, 153, 157–159, 162, 168–174, 180–181, 183–186, 207, 214–215, 224. Além de terem em comum o fato de serem homossexuais, Alison e Bruce também compartilham tendências obssessivas-compulsivas e inclinações artísticas, embora com sentimentos estéticos opostos: "Eu era a Esparta para a Atenas de meu pai. O moderno para seu vitoriano. O másculo para seu afeminado. A utilitária para o seu esteta."Bechdel, Fun Home, p. 15. Esta oposição era uma fonte de tensão no relacionamento dos dois, pois ambos tentavam expressar sua insatisfação com seus papéis de gênero: "Não só éramos invertidos, como também éramos o inverso um do outro. Enquanto eu tentava compensar por algo efeminado nele, ele estava tentando expressar algo feminino através de mim. Era uma guerra de propósitos contrários e, portanto, condenada ao agravamento perpétuo."Bechdel, Fun Home, p. 98. Contudo, logo antes da morte de Bruce, ele e sua filha tiveram uma conversa na qual Bruce confessou uma parte de sua história sexual; isto é apresentado como uma resolução parcial para o conflito entre pai e filha.Bechdel, Fun Home, pp. 220–221.

Em diversos momentos do livro, Bechdel questiona se sua decisão de assumir-se lésbica serviu de faísca para desencadear o suicídio de seu pai.Bechdel, Fun Home, pp. 57–59, 86, 117, 230–232. Esta questão nunca é respondida em definitivo, mas Bechdel examina atentamente a relação entre a sexualidade reprimida de seu pai e seu próprio lesbianismo livre, revelando sua dívida para com seu pai tanto numa luz positiva como numa negativa.

Temas Bechdel descreve a jornada de descobrimento de sua sexualidade: "Minha compreensão ao dezenove anos de que era uma lésbica aconteceu de maneira consistente com minha criação livresca."Bechdel, Fun Home, p. 74. Ainda assim, sinais de sua orientação sexual apareceram cedo em sua infância; ela ansiava "pelo direito de trocar seu maiô por um par de calções" em CannesBechdel, Fun Home, p. 73. e que seus irmãos a chamassem de Albert ao invés de Alison numa viagem de acampamento.Bechdel, Fun Home, p. 113 Seu pai também exibia comportamentos sexuais, mas a revelação disso deixou Bechdel desconfortável. "Fui ofuscada, rebaixada do papel de protagonista do meu próprio drama para alívio cômico da trágedia de meus pais".Bechdel, Fun Home, p. 58. Pai e filha lidaram com sua questões de maneira diferente. Bechdel escolheu aceitar o fato, antes de ter um relacionamento lésbico, mas seu pai escondeu sua sexualidade.Bechdel, Fun Home, pp. 76–81. Ele tinha medo de sair do armário, como ilustrado pelo "medo em seus olhos" quando o tópico de conversa se aproxima perigosamente da homossexualidade.Bechdel, Fun Home, p. 219.