Abaangui é o deus que criou a Lua e o ancestral mítico do povo guaraio da Bolívia, segundo uma versão da mitologia guarani da região.

Abaangui (pronúncia: Abaangüí) tem por irmão Zaguaguayu que, com seu cocar de penas amarelas (seu nome literalmente significa "coroa de plumas amarelas"), é associado ao Sol e é a segunda deidade a se fazer homem, enquanto a primeira fora uma lagarta (mbir na língua guaraia), que se tornou um homem chamado Mbiracucha por sua própria vontade, e que com a mesma vontade criou a terra (Mbiracucha pode ser derivado de Viracocha,MÉTRAUX, Alfred. A religião dos Tupinambás e suas relações com a das demais tribus Tupi-Guaranis. Tradução de Estevão Pinto. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1950. 412 p. (Brasiliana, v. 267). Disponível em: https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/40/1/267%20PDF%20-%20OCR%20-%20RED.pdf. Acesso em: 7 jun. 2026. o deus criador na mitologia inca do vizinho Peru e de outras civilizações andinas). O terceiro foi o irmão de Zaguaguayu, Abaangui, que, para se tornar um homem, experimentou várias formas, que destruiu à medida que avançava porque eram ridículas demais, até que conseguiu fazer a de um homem, mas com um nariz tão desproporcionalmente grosso e comprido que, com um único golpe, o arrancou, um feito que lhe valeu o nome de "Abaangui", que significa "homem com nariz caído". Como é comum nas narrativas tupis-guaranis, o deus Lua é sempre menos habilidoso que seu irmão Sol.CARDÚS, José. Las misiones franciscanas entre los infieles de Bolivia: descripción del estado de ellas en 1883 y 1884. Barcelona: Librería de la Inmaculada Concepción, 1886. 429 p. Disponível em: https://books.google.com.br/books/about/Las_misiones_franciscanas_entre_los_infi.html?id=bBcrAQAAMAAJ. Acesso em: 7 jun. 2026.

Um quarto personagem ancestral na mitologia dos guaraios também aparece desde o início do mundo, a quem chamam de Candir. Este, Mbiracucha e Abaangui são creditados como os criadores da humanidade, sendo Abaangui o Avô (Tamoï em tupi e em guarani) dos guaraios, Mbiracucha o Avô dos brasileiros e Candir o Avô dos negros.

Abaangui, o Avô dos guaraios, sentiu fome e outras necessidades, e, para supri-las, criou a mandioca, o milho, a banana e outros vegetais, e dizem que, enquanto os frutos cresciam e amadureciam, ele se sustentava com o fruto chamado camapu. Assim, com essa comida escassa, ele suportou toda a estação até que, com a mandioca madura, mandou sua esposa buscar um grande panacú (cesto trançado com palha que os guaraios carregam nas costas) e mostrou a ela como fazer chicha. Quando percebeu que estava pronta, pediu que ela lhe trouxesse um pouco em uma cuia para provar. Ele provou e, achando-a perfeita, pediu que ela lhe trouxesse mais. Ela então lhe trouxe uma cuia grande e cheia, que o Avô tomou de um só gole. A mulher continuou trazendo cuia após cuia de chicha, e o Avô bebeu até ficar completamente bêbado. Então o Avô pegou a macana (um porrete grosso feito de madeira dura e pesada) e atacou a mulher, espancando-a brutalmente. Vendo-se tão injustamente maltratada pelo marido, ela fugiu e foi se esconder na mata. O Avô, então, precisou urinar e, como estava muito bêbado, cambaleou de um lado para o outro da mata, até cair e ficar estendido no chão, perdendo também a bela coroa de penas que usava na cabeça. Quando o efeito da embriaguez passou, como não conseguiu encontrar a mulher em casa, saiu para procurá-la na mata, gritando. Ao ouvir seus gritos desesperados, a mulher saiu e, ao vê-la, o Avô disse: "Mas onde você esteve, mulher, que eu não consegui encontrá-la?" A mulher respondeu: "Fugi de você, com medo de que me matasse. Veja", acrescentou, mostrando-lhe os ferimentos, "o que você me fez ontem em sua bebedeira." E ele, bastante satisfeito consigo mesmo, respondeu: "Então foi assim, mulher?" “Pois bem”, disse ele, “é assim que quero que meus netos batam em suas esposas quando estiverem bêbados”. Ele não disse isso a nenhum surdo; e seus netos cumpriram fielmente a ordem do Avô, não havendo jamais uma bebedeira em que as mulheres não fossem devidamente espancadas por seus maridos.

Uma vez que a embriaguez foi canonizada pelo Avô, não parecerá mais estranho ou repugnante que os guaraios celebrem suas festas com ela e prestem ao Avô a melhor homenagem que puderem lhe oferecer.

Finalmente, os dois Avôs, Abaangui e Zaguaguayu (a quem os guaraios não creditam a criação de nenhum povo, mas ainda assim o chamam respeitosamente de Avô), cansados ​​de viver nesta terra miserável, tentaram encontrar outra onde pudessem viver em paz com seus netos. Assim, separando-se, Abaangui viajou para o oeste, onde, tendo encontrado a terra que desejava, estabeleceu-se e construiu uma cidade onde vive com seus netos. É para esta cidade que os guaraios vão após a morte para desfrutar da felicidade do Avô, que consiste principalmente em beber uma rica chicha, feita de mandioca tenra, e estar continuamente embriagado (esse lugar, na mitologia tupi-guarani, se chama Guajupiá). Por essa razão, quando um guaraio morre, eles o colocam voltado para o oeste, como se estivesse olhando para o lugar onde o Avô reside e para onde ele está indo. Conta-se que, nessa viagem, ao atravessar o rio San Miguel [es] com sua comitiva, o Avô, enfurecido com uma mulher, transformou-a em pedra, juntamente com seu filho pequeno, no meio do rio.

O Avô Abaangui tinha dois filhos, um dos quais se transformou no Sol e o outro na Lua. Cada um atirou uma flecha para o céu e a cravou firmemente na abóbada celeste; depois atiraram outra e a cravaram na flecha que haviam atirado; atiraram outra flecha e a cravaram na outra, e assim continuaram atirando flecha após flecha, cravando-as umas nas outras até formarem uma espécie de corda e, subindo por essa corda até o céu, transformaram-se um no Sol e o outro na Lua.

Eles também atribuem as manchas vistas na Lua a uma travessura que o filho de Abaangui aprontou. Ele havia se apaixonado por uma guaraia e, todas as noites, descia para dormir com ela, tão disfarçado que a guaraia não conseguia saber quem a visitava. "Bem", disse ela, "preciso saber quem é esse que vem todas as noites ficar comigo." E, pegando algumas brasas, moeu-as bem, adicionou água e fez uma espécie de mazamorra com o qual untou a mão e esperou o retorno do seu amado. Lua veio para sua visita habitual e, então, a guaraia, esfregando a mão firmemente em seu rosto, manchou-o todo. No dia seguinte, eis que Lua apareceu todo coberto de manchas. A guaraia o viu e, soltando uma grande gargalhada, disse: "Olá! Então é você? Agora eu te conheço."

Muitos trechos da história de Abaangui e de seus filhos Sol e Lua possuem paralelos com as dos irmãos Quaraci e Jaci na mitologia tupi-guarani.

Ver também Deidade lunar Jaci Mitologia guarani

CARDÚS, José. Las misiones franciscanas entre los infieles de Bolivia: descripción del estado de ellas en 1883 y 1884. Barcelona: Librería de la Inmaculada Concepción, 1886. JOBES, Gertrude. Dictionary of mythology folklore and symbols. New York: The Scarecrow Press, 1962.

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