João Almino (Mossoró, 27 de setembro de 1950) é um escritor e diplomata brasileiro, autor de oito romances. Tem também escritos de história e filosofia política, que são referência para os estudiosos do autoritarismo e a democracia.
Biografia Parte de sua obra está traduzida para o inglês, o francês, o espanhol, o italiano, o holandês, o sérvio, entre outras línguas. Em 8 de março de 2017, João Almino foi eleito para a Academia Brasileira de Letras para ocupar a cadeira 22 no lugar de Ivo Pitanguy. Foi recebido em 28 de julho de 2017 pela Acadêmica Ana Maria Machado.
É membro honorário da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Em 3 de abril de 2024, Almino foi eleito para a Academia Paranaense de Letras, na Cadeira 4, vaga desde o falecimento do jurista e acadêmico Eduardo Rocha Virmond.
Ensinou na Fundação Universidade de Brasília (UnB), na Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), no Instituto Rio Branco e nas universidades de Berkeley, Stanford e Chicago.
Medalha de Ouro do Rio Branco (primeiro colocado) no Curso de Preparação à Carreira Diplomática do Instituto Rio Branco, João Almino é bacharel em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem mestrado em sociologia pela Universidade de Brasília, doutorado em História Comparada das Civilizações Contemporâneas pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (1980) sob a direção do filósofo Claude Lefort e pós-doutorado no Centro de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.
Diplomata, serviu nas Embaixadas do Brasil em Paris, México e Washington. Foi Encarregado de Negócios em Beirute, Ministro-Conselheiro e Encarregado de Negócio em Londres e Cônsul-Geral em São Francisco, Lisboa, Miami, Chicago, Madri e Munique. Foi embaixador em Quito. Diretor do Instituto Rio Branco (2001-2004). Diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC - 2015-2018).
Condecorado com a Ordem Nacional do Mérito da França (Oficial), o Global Citizens Award pela Universidade de Wisconsin em Madison, a Ordem da Águia Azteca do México (Oficial) e a Ordem de Rio Branco (Grã-Cruz).
É casado com a artista plástica curitibana Bia Wouk, com quem tem duas filhas: Letícia e Elisa.
Recepção crítica A crítica literária Beatriz Resende, professora da UFRJ, destacou a centralidade de Brasília na obra de João Almino, observando que o autor “colocou no universo afetivo da literatura brasileira a cidade sem calçadas do delírio modernista”. Em comentário sobre Cidade Livre (2010), Resende ressaltou a representação do período da construção da capital, marcada pela efemeridade e pela violência cotidiana.
A professora e pesquisadora de literatura brasileira Stefania Chiarelli analisou o romance Homem de papel (2022), oitavo livro de João Almino, destacando a presença do conselheiro Aires - personagem de Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), de Machado de Assis - como protagonista da narrativa. Segundo Chiarelli, o autor estabelece um diálogo direto com a tradição machadiana ao transportar o personagem para o século XXI, ambientando-o em Brasília e articulando sua voz com novos interlocutores, como a diplomata Flor. A crítica observou que Almino dá continuidade a procedimentos literários de Machado, como a autorreflexividade da narrativa e a convocação do leitor para uma participação ativa na trama.
O professor Hélio de Seixas Guimarães, da Universidade de São Paulo, comentou Homem de papel (2022), destacando a retomada do conselheiro Aires - personagem dos dois últimos romances de Machado de Assis - como narrador e protagonista da obra. Segundo Guimarães, Almino transporta Aires para o Brasil contemporâneo, onde o personagem observa “este nosso tempo regido pela ignorância e pela estupidez” a partir de Brasília, em contraste com os cenários cariocas das narrativas machadianas.
O professor Abel Barros Baptista, da Universidade Nova de Lisboa, escreveu o posfácio de Homem de papel (2022). Segundo ele, João Almino retoma o conselheiro Aires, personagem dos últimos romances de Machado de Assis, para deslocá-lo ao mundo contemporâneo. Essa transposição, de acordo com Baptista, confere ao personagem “interesse a um reputado entediado e movimento a um confirmado defunto”, ao mesmo tempo em que abre espaço para um exercício de metaficção: Aires se reinventa, narrando-se novamente.
Em resenha publicada pela escritora Ana Cristina Braga Martes, Homem de papel (2022) é caracterizado como uma paródia do Memorial de Aires, de Machado de Assis, com incorporação de personagens também presentes em Esaú e Jacó. Segundo Martes, João Almino dá continuidade à trajetória do conselheiro Aires até o século XXI, utilizando ironia e intertextualidade para comentar a história e a política brasileiras.
No Jornal do Brasil, Heloísa Teixeira observou que em As cinco estações do amor (2001) João Almino adota uma perspectiva feminina como narradora, o que ela definiu como um gesto de “imersão no universo do outro”. A crítica destacou que, diferentemente dos artifícios narrativos experimentais dos dois primeiros volumes da trilogia de Brasília (Idéias para onde passar o fim do mundo e Samba-enredo), o terceiro romance apresenta uma narrativa aparentemente mais linear, mas que, segundo ela, representa “a voz e a vez de um acerto de contas” com a geração marcada pelos anos 1960 e 1970.
Silviano Santiago destacou, em ensaio publicado em 2001, que com a Trilogia de Brasília João Almino se afirmava como “o mais completo autor de Brasília”, capaz de captar “o burburinho das vozes migrantes” da capital federal. Sobre As cinco estações do amor, último volume da trilogia, Santiago ressaltou a centralidade da personagem Ana/Diana e observou que a narrativa explora temas como amizade, desejo, violência e transformação social às vésperas do novo milênio.
João Cezar de Castro Rocha analisou a Trilogia de Brasília em artigo publicado na revista Imaginário em 2007, ressaltando a continuidade entre a produção ensaística e a ficção de João Almino. Para o crítico, a trilogia constitui um “work in progress” que explora a utopia e os paradoxos de Brasília, desde as tensões entre racionalidade modernista e misticismo popular até a reflexão sobre o estatuto da “realidade” na narrativa. Em As cinco estações do amor, destacou a construção da narradora palíndroma Ana como expressão dessa investigação literária, associando sua voz tanto à tradição machadiana quanto a Flaubert, e observou que a obra de Almino converte a intertextualidade em um verdadeiro “hipertexto”, no qual ler e escrever se tornam atividades indissociáveis.
O escritor e crítico literário José Castello destacou, em artigo publicado no Valor Econômico, em 2012, a posição de João Almino como um autor que constrói sua obra em um “espaço de fronteira”, situado entre passado e futuro, utopia e realidade. Segundo Castello, o Quinteto de Brasília narra histórias em que os prazeres da utopia se mesclam aos “movimentos predatórios do real”, refletindo uma literatura marcada pela delicadeza, pelo caráter intimista e pela recusa em se filiar a grupos ou correntes literárias. Para o crítico, a escrita de Almino assume um caráter de resistência e de investigação ética, reafirmando a literatura como instrumento de liberdade e de exploração profunda da condição humana.
Em resenha publicada na Folha de S.Paulo, o escritor Moacyr Scliar situou João Almino na tradição de diplomatas-escritores brasileiros, destacando a centralidade de Brasília em sua obra. Segundo Scliar, a capital, entendida como síntese do moderno e do arcaico, serviu de inspiração para a Trilogia de Brasília, composta por Idéias para onde passar o fim do mundo (1987), Samba-enredo (1994) e As cinco estações do amor (2001), além de motivar a expansão do projeto com O livro das emoções (2008). Sobre este último, o crítico ressaltou o caráter inovador da narrativa em primeira pessoa de um fotógrafo cego, aproximando o estilo de Almino ao do cineasta Robert Altman, pela construção de um painel múltiplo de personagens que refletem a sociedade brasileira contemporânea.
Em estudo publicado na Luso-Brazilian Review, o crítico literário e professor da Universidade de Princeton, Pedro Meira Monteiro, destacou que a ficção de João Almino, de Idéias para onde passar o fim do mundo (1987) a O livro das emoções (2008), revisita o legado libertário dos anos 1960, marcado pela oscilação entre a utopia e a frustração de uma geração. Para Monteiro, essa tensão estrutura os personagens de Almino, que vivem em uma Brasília ao mesmo tempo onírica e política, onde amor, escrita e poder se entrelaçam. O ensaio ressalta ainda a presença de elementos do cinema e da fotografia como chaves para compreender uma prosa metanarrativa sofisticada, permeada por lirismo.
Em análise publicada na Luso-Brazilian Review, o professor David Jackson, da Universidade de Yale, observa que As cinco estações do amor (2001), terceiro romance da série ambientada em Brasília, acompanha a própria construção material e simbólica da capital. Para o crítico, a prosa de João Almino reflete a modernidade do projeto urbanístico, inserindo seus personagens em um espaço de estranhamento e alienação, no qual suas trajetórias funcionam como alegorias de transformação em uma cidade sem história, marcada pela tensão entre utopia modernista e experiência cotidiana.
A professora e crítica literária Walnice Nogueira Galvão analisa o romance de João Almino como uma obra que o confirma, ainda que a contragosto, na condição de “romancista de Brasília”. Para a crítica, a densa acumulação de dados históricos, estatísticos e figuras reais — de Juscelino Kubitschek a Aldous Huxley — funciona como um recurso deliberado de dissimulação ficcional, criando um terreno narrativo instável e ambíguo. A crítica observa que, sob a aparência de uma crônica documental, a narrativa constrói um imaginário sedutor e armadilhado, em que a capital se transforma em microcosmo do país, da existência e da própria subjetividade, evidenciando as “manhas da ficção” utilizadas por Almino.
Bibliografia Ficção Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo, Brasiliense, 1987 (reedição 2003) Samba-Enredo, 1994 (também em espanhol). As Cinco Estações do Amor, 2001; (também publicado em espanhol, em inglês e em italiano) O Livro das Emoções, 2008 (também publicado em inglês) Cidade Livre, Editora Record, 2010 (também publicado em inglês e em francês) Esses livros constituem-se no chamado Quinteto de Brasília. Enigmas da Primavera, 2015 (também publicado em inglês e em holandês) Entre Facas, Algodão, 2017 (também publicado em inglês) Homem de Papel, 2022
Ensaios literários Brasil-EUA: Balanço Poético, 1996; Escrita em contraponto, 2008 (também publicado em espanhol, como "Tendencias de la literatura brasileña"); O diabrete angélico e o pavão: Enredo e amor possíveis em Brás Cubas, 2009.
Outros Os Democratas Autoritários, 1980; A Idade do Presente, 1985 (também publicado em espanhol); Era uma Vez uma Constituinte, 1985; O Segredo e a Informação, 1986; Naturezas Mortas - A Filosofia Política do Ecologismo, 2004. 500 anos de Utopia, 2017. Dois ensaios sobre Utopia, 2017.
Prêmios e indicações thumb|João Almino durante homenagem na 33ª Feira do Livro de Brasília em 2017 1988 indicado ao Prêmio Jabuti, por Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo Instituto Nacional do Livro, por Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo Prêmio Candango de Literatura, por Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo
2003 Prêmio Casa de las Américas, Cuba, por As Cinco Estações do AmorArquivo Cubano, em espanhol
2009 indicado ao 7º Prêmio Portugal Telecom de Literatura, por O Livro das Emoções indicado ao 6º Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, por O Livro das Emoções
2011 vencedor do 7º Prêmio Passo Fundo Zaffari e Bourbon de Literatura, por Cidade Livre finalista da 9ª edição do Prêmio Portugal Telecom, por Cidade Livre finalista do Prêmio Jabuti, por Cidade Livre
2014