A invasão corinthiana foi como ficou conhecido o episódio no qual milhares de torcedores do clube de futebol brasileiro Corinthians, da cidade de São Paulo, viajaram até o Rio de Janeiro para acompanhar a partida única da fase pré-final (equivalente à semifinal) do Campeonato Brasileiro de 1976, disputada entre a equipe paulista e o Fluminense. Além de ter valido uma vaga para a final do campeonato nacional, a partida ficaria notabilizada por ter sido o maior deslocamento de torcedores de um time visitante na história do futebol mundial.Jovem Pan Online, 18 de julho de 2012Gazeta Esportiva.net, 29 de agosto de 2010Folha.com, 5 de dezembro de 2009Azenha, 2 de dezembro de 2011Negreiros, 2010, página 119
Embora, de acordo com registros dos jornais da época, o presidente do Fluminense, Francisco Horta, tenha disponibilizado 40 mil ingressos para a torcida corintiana, ao longo dos anos, o número estimado de torcedores propagado pela torcida corintiana e pelos veículos de imprensa paulista vem aumentando, passando para 50, 60 e até 70 mil corintianos, sem, na verdade, um real embasamento para tal. O público oficial informado naquela tarde do dia 5 de dezembro foi de 146.043 espectadores pagantes, e estimado em mais de 160 mil presentes no Maracanã, palco do evento. Os torcedores paulistas se deslocaram do Estado de São Paulo em direção a capital fluminense, por ônibus, trem, avião ou automóvel particular, para irem torcer pelo Corinthians.Folha de S.Paulo, 5 de dezembro de 1976, página 1Folha de S.Paulo, 6 de dezembro de 1976, Página 13Jornal do Brasil, 5 de dezembro de 1976, página 72-73 (Primeiro tempo do jogo foi no calçadão da Av. Atlântica) Assim como em todo jogo decisivo contra um time grande local, muitos torcedores de outros clubes cariocas rivais do Fluminense - como o Vasco da Gama, o Botafogo e o Flamengo - teriam ajudado a completar a "divisão ao meio" da arquibancada do Maracanã em favor do Corinthians, sendo que os demais setores concentravam majoritariamente a torcida carioca. Cabe ressaltar que a grande massa de torcedores que compunha a torcida alvinegra era composta basicamente de corintianos.Folha de S.Paulo, 5 de dezembro de 1976, página 68 ('Um, dois, três…', o Fluminense será freguês?)Folha de S.Paulo, 6 de dezembro de 1976, página 18 (Clima de cantos pornográficos e violência)
Cotado antes do jogo como o favorito, o Fluminense perdeu essa vantagem em função do dilúvio que desabou sobre a cidade naquele domingo e, em especial, na região do Maracanã. Assim, o jogo técnico e a habilidade dos tricolores ficou nivelado com a garra e o estilo voluntarioso dos corintianos. Mesmo assim, o Fluminense abriu o placar com um gol de Carlos Alberto Pintinho, o que parecia confirmar os prognósticos favoráveis aos cariocas. Mas com empenho e raça, o Corinthians conseguiu igualar o placar com Ruço. Com o empate no tempo normal e prorrogação, a decisão foi para os pênaltis. O goleiro corintiano Tobias pegou duas cobranças e o Corinthians sagrou-se vencedor da partida, classificando-se para a final do campeonato nacional.Folha de S.Paulo, 6 de dezembro de 1976, página 14 (Caderno de Esportes)
História Antecedentes: 22 anos na fila Em 1976, o Corinthians chegava ao seu vigésimo segundo ano sem conquistar um título oficial de campeonato. Depois de vivenciar anos gloriosos na primeira metade da década de 1950, o time do Parque São Jorge chegou poucas vezes perto de disputar os títulos estadual e competições nacionais. Em 1969, a equipe até ia bem no Paulista até ser abalada pela morte de Lidu e Eduardo, dois titulares do time, em um acidente de automóvel.Gondim, 1976, página 40 Ainda naquele ano, o Corinthians perdeu a chance de vencer a Taça de Prata, após perder na última rodada para o .
Em 1971, o clube do Parque São Jorge conquistou o Torneio do Povo, que reunia as equipes mais populares do país, mas fracassaria nas disputas mais importantes. A maior oportunidade de quebrar o jejum veio no Paulista de 1974, quando os corintianos foram campeões do primeiro turno e se classificaram para disputar a final da competição contra o , vencedor do segundo turno. Mas o alvinegro perdeu a decisão, cujo peso caiu sobre Roberto Rivellino, mais importante jogador do clube, que encerrou seu ciclo de dez anos no Parque São Jorge após aquela derrota.
Campeonato Brasileiro 1976: campanhas até o duelo no Maracanã O Fluminense fez uma campanha modesta na primeira fase, mas o suficiente para garantir a quarta e última vaga de sua chave. A classificação foi confirmada com uma goleada (vitória por mais de dois gols de diferença, segundo o regulamento, valia três pontos) na última rodada contra o CRB, em Maceió. Na segunda fase, o clube carioca também se classificou algumas dificuldades para se classificar. Depois de um empate contra o Goiás, no Maracanã, o tricolor qualificou-se graças a uma vitória do Fortaleza sobre o América. Mas na fase final, o Flu fez uma ótima campanha, ficando em primeiro lugar em seu grupo e garantindo o mando de campo na partida semifinal contra o Corinthians.
+ Primeira Fase (chamada na época de Fase Preliminar)Classificado em quarto lugar no Grupo E, com 13 pontos Data Estádio Adversário Resultado 1 de setembro Maracanã CSA 1 - 1 07 de setembro Maracanã Botafogo 0 - 2 12 de setembro Fonte Nova Bahia 0 - 0 15 de setembro Jóia da Princesa Fluminense de Feira 3 - 2 19 de setembro Amigão Treze 2 - 0 22 de setembro Maracanã Botafogo 3 - 0 26 de setembro Maracanã Vitória 0 - 1 29 de setembro Rei Pelé CRB 4 - 0
+ Segunda Fase (chamada na época de Fase Semifinal)Classificado em terceiro lugar no Grupo G, com 6 pontos Data Estádio Adversário Resultado 10 de outubro Maracanã Internacional 1 - 1 13 de outubro Machadão América 1 - 2 16 de outubro Maracanã Fortaleza 3 - 1 20 de outubro Santa Cruz Botafogo 1 - 1 23 de outubro Maracanã Goiás 1 - 1 + Terceira Fase (chamada na época de Fase Final)Classificado em primeiro lugar no Grupo R, com 15 pontos Data Estádio Adversário Resultado 31 de outubro Olímpico Grêmio 2 - 1 03 de novembro Maracanã CRB 1 - 0 07 de novembro Maracanã Flamengo 1 - 0 10 de novembro Maracanã Guarani 4 - 2 14 de novembro Maracanã Vasco da Gama 3 - 0 17 de novembro Arruda Náutico 1 - 3 21 de novembro Mineirão Clube Atlético Mineiro 0 - 0 28 de novembro Maracanã Bahia 1 - 0
Já o Corinthians começou bem a primeira fase da competição, garantindo sua classificação após três vitórias consecutivas contra Ceará (2 a 0, fora), Nacional (2 a 0, em casa) e Remo (3 a 0, em casa), respectivamente.Folha de S.Paulo, 5 de dezembro de 1976, página 72 (5º caderno) Pela segunda fase, após duas derrotas em três partidas, os corintianos estavam quase eliminados, mas conseguiram duas vitórias dramáticas contra o Operário-MS (3 a 1, em casa) e o Sport (1 a 0, fora). E após um início ruim na fase final, o alvinegro precisava vencer as partidas seguintes para ter alguma chance de conquistar uma das duas vagas do Grupo Q para a semifinal do nacional, e o time do Parque São Jorge conseguiu uma sequência de cinco vitórias (Botafogo de Ribeirão Preto, Caxias do Sul, Ponte Preta, Internacional e Santa Cruz), somando doze pontos nestas cinco partidas e garantindo ao clube do Parque São Jorge a segunda vaga para a semifinal.
+ Primeira Fase (chamada na época de Fase Preliminar)Classificado em primeiro lugar no Grupo C, com 15 pontos Data Estádio Adversário Resultado 29 de agosto Pacaembu Fortaleza 2 - 1 1 de setembro Moisés Lucarelli Ponte Preta1 - 1 12 de setembro Morumbi Guarani 0 - 1 16 de setembro Vivaldão Rio Negro 2 - 1 19 de setembro Baenão Paysandu 0 - 0 22 de setembro Castelão Ceará 2 - 0 25 de setembro Pacaembu Nacional 2 - 0 30 de setembro Pacaembu Remo 3 - 0 + Segunda Fase (chamada na época de Fase Semifinal)Classificado em terceiro lugar no Grupo H, com 7 pontos Data Estádio Adversário Resultado 10 de outubro Olímpico Grêmio 0 - 3 13 de outubro Pacaembu Coritiba 1 - 0 16 de outubro Morumbi Botafogo 1 - 2 20 de outubro Pacaembu Operário 3 - 1 24 de outubro Ilha do Retiro Sport 1 - 0 + Terceira Fase (chamada na época de Fase Final)Classificado em segundo lugar no Grupo Q, com 14 pontos Data Estádio Adversário Resultado 31 de outubro Pacaembu Portuguesa 0 - 0 3 de novembro Couto Pereira Coritiba 0 - 1 7 de novembro Morumbi Palmeiras 0 - 0 11 de novembro Pacaembu Botafogo 2 - 1 14 de novembro Centenário Caxias 4 - 1 18 de novembro Pacaembu Ponte Preta 2 - 0 21 de novembro Morumbi Internacional 2 - 1 28 de novembro Arruda Santa Cruz 2 - 1
Favoritismo tricolor 240px|thumb|Maior ídolo do Corinthians entre 1964 e 1974, Rivellino era um dos principais nomes do elenco do Fluminense. Classificado para a fase semifinal, Fluminense e Corinthians enfrentariam-se no Estádio do Maracanã em jogo único. Como vencedor do Grupo R e, por ter sido campeão de chave, o Fluminense tinha direito de jogar em casa a única partida da semifinal daquele Brasileiro. A equipe carioca formou naquela época um dos melhores times de sua história. Apelidado de "Máquina Tricolor", o clube das Laranjeiras havia montado uma time repleto de craques, comandadas pelo meia Rivellino, por ironia ex-jogador do Corinthians e um dos maiores ídolos da história do clube do Parque São Jorge. A fama não foi por acaso: o time faturou o bicampeonato estadual em 1975 e 1976. Da equipe titular que enfrentaria o Corinthians, todos - com exceção do argentino Doval, por motivos óbvios - já haviam sido convocado para defender a Seleção Brasileira.
Apesar da força do Fluminense, da tarefa de decidir a partida fora de casa e de algumas dúvidas que pairavam sobre a equipe do Corinthians, havia certo otimismo por parte do elenco corintiano, baseado em três aspectos: as boas atuações como visitante naquele campeonato, o espírito de reação da equipe nos momentos decisivos do mesmo e a sequência de cinco vitórias consecutivas até aquela decisão.
Do time que disputou a final do Campeonato Paulista de 1974 contra o Palmeiras, restavam apenas cinco: Zé Maria, Ademir, Wladimir, Waguinho e Lance.Folha de S.Paulo, 5 de dezembro de 1976, página 74 (5º caderno) Ao longo da competição, Zé Eduardo, Ruço e Geraldão ganharam as vagas titulares de Ademir, Basílio e Lance, respectivamente. Os contratados Givanildo e Neca deram mais qualidade ao meio de campo do time.Folha de S.Paulo, 5 de dezembro de 1976, página 76 (5º caderno)
Preparativos Na segunda-feira após a classificação, enquanto os torcedores do Corinthians que foram ao Recife de ônibus começavam a chegar a São Paulo, outros corintianos da cidade, do estado e de outras regiões do país, já organizavam a viagem para o Rio de Janeiro. A imprensa paulista alimentava o clima de euforia, enquanto que a imprensa carioca demonstrava perplexidade. Os jornais cariocas tinham uma expectativa de uma grande presença corintiana no Rio, embora colocasse em dúvida que tanta gente de fato fosse se deslocar.