Eric Arthur Blair (Motihari, 25 de junho de 1903 – Camden, 21 de janeiro de 1950) foi um romancista, poeta, ensaísta, jornalista e crítico inglês que escreveu sob o pseudônimo de George Orwell. Sua obra caracteriza-se pela prosa lúcida, pela crítica social, pela oposição a todas as formas de totalitarismo (tanto ao comunismo autoritário quanto ao fascismo) e pelo apoio ao socialismo democrático.

Orwell é mais conhecido pela novela alegórica Animal Farm (1945) e pelo romance distópico Nineteen Eighty-Four (1949), embora sua obra também abranja crítica literária, poesia, ficção e jornalismo polêmico. Suas obras de não ficção, entre elas The Road to Wigan Pier (1937), que documenta sua experiência da vida da classe trabalhadora no Norte da Inglaterra industrial, e Homage to Catalonia (1938), relato de suas experiências como combatente da facção republicana na Guerra Civil Espanhola (1936–1939), são tão respeitadas pela crítica quanto seus ensaios sobre política, literatura, linguagem e cultura.

A obra de Orwell continua influente tanto na cultura popular quanto na cultura política, e o adjetivo "orwelliano" — que descreve práticas sociais totalitárias e autoritárias — passou a fazer parte da língua inglesa, assim como muitos de seus neologismos, entre eles "Grande Irmão", "Polícia do Pensamento", "Quarto 101", "Novilíngua", "buraco da memória", "duplipensar" e "crime de pensamento". Em 2008, o The Times considerou Orwell o segundo maior escritor britânico desde 1945.

Biografia

Primeiros anos

alt=|thumb|Casa da família Blair em Shiplake, Oxfordshire|left

Eric Arthur Blair nasceu em 25 de junho de 1903 em Motihari, na Presidência de Bengala (atual Biar), na Índia britânica, em uma família que ele descreveu como pertencente à "faixa inferior da alta classe média". Seu trisavô paterno, Charles Blair, era um rico proprietário de escravos pertencente à nobreza rural e dono ausente de duas plantations jamaicanas; natural de Dorset, casou-se com lady Mary Fane, filha de Thomas Fane, 8.º Conde de Westmorland. Seu avô, Thomas Richard Arthur Blair, era um clérigo anglicano.

O pai de Orwell era Richard Walmesley Blair, que trabalhava como subagente adjunto de ópio no Departamento do Ópio do Serviço Civil Indiano, supervisionando a produção e o armazenamento de ópio destinado à venda à China.; ; ; ; A mãe de Orwell, Ida Mabel Blair (nascida Limouzin), cresceu em Moulmein, na Birmânia, onde seu pai francês, Francis "Frank" Limouzin, participava de empreendimentos especulativos. A esposa de Frank Limouzin, Theresa Catherine Halliley, vinha de uma família inglesa com tradição de serviço imperial no subcontinente. Eric tinha duas irmãs: Marjorie, cinco anos mais velha, e Avril, cinco anos mais nova. Quando Eric tinha um ano, sua mãe levou-o, junto com Marjorie, para a Inglaterra.Crick (1982), p. 48 As obras de restauração da casa ancestral de Orwell em Motihari começaram em 2014.

Em 1904, Ida estabeleceu-se com os filhos em Henley-on-Thames, em Oxfordshire. Eric foi criado na companhia da mãe e das irmãs e, com exceção de uma breve visita em meados de 1907,A Kind of Compulsion 1903–36, xviii não viu o pai até 1912. Aos cinco anos, Eric foi matriculado como aluno externo em uma escola conventual de uma ordem de ensino em Henley-on-Thames. Tratava-se de um convento católico dirigido por freiras francesas da Ordem de Santa Úrsula. Sua mãe queria que ele recebesse educação em uma escola pública e, embora a família não pudesse custeá-la, ele conseguiu uma bolsa para Eton. Por meio das relações sociais de Charles Limouzin, irmão de Ida, Blair obteve uma bolsa para a St Cyprian's School, em Eastbourne, East Sussex.

Ao chegar em setembro de 1911, permaneceu interno durante os cinco anos seguintes, voltando para casa apenas nas férias. Embora nada soubesse sobre as mensalidades reduzidas, "logo percebeu que vinha de uma família mais pobre".Bowker p. 30 Blair odiava a escola e, muitos anos depois, escreveu, com base no período que passou ali, o ensaio "Such, Such Were the Joys", publicado postumamente. Na St Cyprian's, Blair conheceu Cyril Connolly, que se tornou escritor e, como editor da revista Horizon, publicou vários ensaios de Orwell.

Antes da Primeira Guerra Mundial, a família mudou-se três quilômetros para o sul, até Shiplake, em Oxfordshire, onde Eric fez amizade com a família Buddicom, especialmente com a filha Jacintha. Quando se conheceram, ele estava de cabeça para baixo em um campo. Ao ser perguntado por quê, respondeu: "As pessoas notam mais você quando fica de cabeça para baixo do que quando fica na posição normal". Ao crescerem juntos, Buddicom e Blair tornaram-se namorados adolescentes idealistas, liam e escreviam poesia juntos e sonhavam em se tornar escritores famosos. Blair também gostava de caçar, pescar e observar aves com o irmão e a irmã de Jacintha.

Enquanto estudava na St Cyprian's, Blair escreveu dois poemas publicados no Henley and South Oxfordshire Standard. Ficou em segundo lugar, atrás de Connolly, no Harrow History Prize, teve seu trabalho elogiado pelo examinador externo da escola e conquistou bolsas para Wellington e Eton. Entretanto, a inclusão na lista de bolsistas de Eton não garantia uma vaga, e nenhuma estava imediatamente disponível. Ele decidiu permanecer na St Cyprian's até dezembro de 1916, caso surgisse uma vaga em Eton.

thumb|left|upright=.9|Poema sobre a Primeira Guerra Mundial escrito por Blair aos onze anos, "Awake! Young Men of England", publicado em 1914 no Henley and South Oxfordshire Standard Em janeiro, Blair ocupou a vaga em Wellington, onde passou o trimestre da primavera. Em maio de 1917, surgiu em Eton uma vaga de bolsista do rei. Nessa época, a família morava em Mall Chambers, Notting Hill Gate. Blair permaneceu em Eton até dezembro de 1921, quando saiu aproximadamente a meio caminho entre os aniversários de 18 e 19 anos. Wellington era "horrível", disse Blair a Jacintha, mas afirmou estar "interessado e feliz" em Eton.Jacintha Buddicom, Eric and Us, p. 58 Seu principal tutor foi A. S. F. Gow, membro do Trinity College (Cambridge), que mais tarde lhe deu conselhos sobre a carreira. Blair teve aulas de francês com Aldous Huxley. Steven Runciman, que estudou em Eton com Blair, observou que ele e seus contemporâneos apreciavam o talento linguístico de Huxley.

Os boletins de Blair sugerem que ele negligenciava os estudos, mas trabalhou com Roger Mynors na produção de uma revista escolar, The Election Times, participou da elaboração de outras publicações — College Days e Bubble and Squeak — e disputou o jogo de parede de Eton. Seus pais não podiam enviá-lo à universidade sem outra bolsa e, pelos resultados ruins, concluíram que ele não conseguiria obter uma. Runciman observou que Blair tinha uma ideia romântica do Oriente, e a família decidiu que ele deveria ingressar na Polícia Imperial, precursora do Serviço de Polícia Indiano. Para isso, precisava ser aprovado em um exame de admissão. Em dezembro de 1921, deixou Eton e viajou para reunir-se ao pai aposentado, à mãe e à irmã mais nova, Avril, que naquele mês haviam se mudado para 40 Stradbroke Road, em Southwold, Suffolk, a primeira das quatro casas que teriam na cidade. Blair matriculou-se ali em um curso preparatório chamado Craighurst e revisou estudos clássicos, inglês e história. Foi aprovado no exame, ficando em sétimo lugar entre os 26 aprovados.A Kind of Compulsion, p. 87, apresenta Blair como o sétimo de 29 candidatos aprovados e como o 21.º dos 23 candidatos que passaram no teste de equitação da Polícia Imperial Indiana, em setembro de 1922.

Atuação policial na Birmânia

A avó materna de Blair vivia em Moulmein, razão pela qual ele escolheu uma designação na Birmânia, que então ainda era uma província da Índia britânica. Em outubro de 1922, embarcou no SS Herefordshire para ingressar na Polícia Imperial Indiana na Birmânia. Um mês depois, chegou a Rangum e viajou para a escola de formação policial em Mandalai. Em 29 de novembro de 1922, foi nomeado superintendente distrital assistente em caráter probatório, com salário mensal de 525 rupias. Após uma breve passagem por Maymyo, principal estação de montanha da Birmânia, foi enviado, no início de 1924, ao posto fronteiriço de Myaungmya, no delta do Irauádi.

O trabalho como oficial da polícia imperial conferiu-lhe responsabilidades consideráveis enquanto a maioria de seus contemporâneos ainda frequentava a universidade na Inglaterra. Quando foi enviado mais para o leste do delta, a Twante, como oficial de polícia subdivisional, ficou responsável pela segurança de cerca de 200 mil pessoas. No fim de 1924, foi transferido para Syriam, mais perto de Rangum. Syriam abrigava a refinaria da Burmah Oil Company: "as terras circundantes eram um deserto estéril, com toda a vegetação morta pelos vapores de dióxido de enxofre que saíam dia e noite das chaminés da refinaria". A cidade, porém, ficava perto de Rangum, um porto marítimo cosmopolita, e Blair ia até lá sempre que podia, "para folhear livros em uma livraria; comer comida bem preparada; fugir da rotina tediosa da vida policial".Stansky & Abrahams, The Unknown Orwell, pp. 170–171. Em setembro de 1925, foi para Insein, onde se localizava a Prisão de Insein.Michael Shelden Orwell: The Authorised Biography, William Heinemann, 1991. Nessa época, Blair havia concluído o treinamento e recebia salário mensal de 740 rupias, incluindo gratificações.

Blair recordou que enfrentava hostilidade por parte dos birmaneses: "no fim, os rostos amarelos e zombeteiros dos jovens que eu encontrava por toda parte, os insultos gritados atrás de mim quando eu já estava a uma distância segura, começaram a me deixar extremamente nervoso". Também lembrou: "Eu estava preso entre o ódio ao império que servia e a fúria contra as pequenas feras de espírito maligno que tentavam tornar meu trabalho impossível".

left|thumb|Clube Britânico em Katha Na Birmânia, Blair adquiriu a reputação de ser um indivíduo à parte. Passava grande parte do tempo sozinho, lendo ou realizando atividades que não eram consideradas próprias de um pukka sahib, como frequentar igrejas do grupo étnico karen. Um colega, Roger Beadon, recordou que Blair aprendia o idioma rapidamente e que, antes de deixar a Birmânia, "era capaz de conversar fluentemente com sacerdotes birmaneses em um 'birmanês muito rebuscado.A Kind of Compulsion, 1903–36, p. 87. Blair fez na Birmânia mudanças em sua aparência que conservaria pelo resto da vida, entre elas a adoção de um bigode fino. Emma Larkin escreveu na introdução de Burmese Days:Emma Larkin, introdução, Burmese Days, edição Penguin Classics, 2009. Enquanto esteve na Birmânia, adotou um bigode semelhante aos usados pelos oficiais dos regimentos britânicos ali destacados. [Ele] também fez algumas tatuagens; em cada articulação dos dedos tinha um pequeno e irregular círculo azul. Muitos birmaneses que vivem em áreas rurais ainda ostentam tatuagens desse tipo — acredita-se que protejam contra balas e picadas de cobra.

Em abril de 1926, mudou-se para Moulmein, onde vivia sua avó materna. No fim daquele ano, foi designado para Katha, na Alta Birmânia, onde contraiu dengue em 1927. Tendo direito a uma licença na Inglaterra naquele ano, recebeu permissão para regressar em julho por causa da doença. Durante férias com a família na Cornualha, em setembro de 1927, reavaliou a própria vida. Decidido a não voltar à Birmânia, demitiu-se da Polícia Imperial Indiana para tornar-se escritor, com efeito a partir de 12 de março de 1928. Utilizou suas experiências na polícia birmanesa no romance Burmese Days (1934) e nos ensaios "A Hanging" (1931) e "Shooting an Elephant" (1936).

Londres e Paris