Teodorico Estrabão (; m. ) foi líder militar ostrogótico que esteve envolvido na política do Império Bizantino durante os reinados dos imperadores , Zenão (r. 474–475; 476–491) e Basilisco . Filho do oficial Triário, aparece pela primeira vez em 459, quando recebia subsídios dos bizantinos. Em 471, entrou em conflito com o império para vingar o assassinato do alano Áspar, com quem tinha relações familiares, e por suas reivindicações não serem atendidas por Leão I. O conflito durou até 473, quando Leão I cedeu às exigências de Estrabão, nomeando-o mestre dos soldados na presença e reconhecendo-o como governante independente dos godos da Trácia.
Com a morte de Leão I em janeiro, Estrabão auxiliou o general Basilisco contra o recém-nomeado imperador Zenão. Sob Basilisco, recebeu várias honrarias e a confirmação de sua nomeação como mestre dos soldados na presença, embora logo entraria em conflito com a figura imperial. Em 479, três anos após a derrocada de Basilisco e a ascensão de Zenão, Teodorico enviou emissários para Constantinopla buscando a paz, porém suas propostas foram rejeitadas e ele foi duramente criticado e considerado inimigo público. Com o fracasso da embaixada, preparou-se para guerra, porém foi logo convencido a retomar as negociações, conseguindo angariar vários benefícios do imperador.
Em 479, apoiou os rebeldes Procópio Antêmio e Marciano, garantindo-lhes santuário após sua derrota perante as tropas imperiais, levando Zenão a revogar sua nomeação ao posto de mestre dos soldados. Isso incitou Estrabão a aliar-se com Teodorico, o Amal e ambos começaram a saquear a Trácia. Em 481, Estrabão realizou uma invasão à Grécia, mas faleceria no transcurso da expedição, ao cair de seu cavalo sobre uma lança. Seria sucedido no comando por seu filho Recítaco.
Biografia
thumb|esquerda|upright=1.05|Soldo do imperador
Teodorico Estrabão era filho de Triário. Sabe-se que teve dois irmãos e que possivelmente era sobrinho da esposa do general bizantino de origem alana Áspar. Teve uma esposa chamada Sigilda e um filho chamado Recítaco. Ele era contemporâneo do mais famoso Teodorico, o Amal, um ostrogodo panônio da dinastia dos Amalos filho do rei Teodomiro . É incerto se possuíam algum parentesco. Os autores da Prosopografia do Império Romano Tardio desconsideram a possibilidade de parentesco entre eles, enquanto Herwig Wolfram e outros autores sugerem que possa ser plausível com base no fato de Áspar ter batizado seu filho com a tia de Estrabão como Hermenerico, um nome inspirado no famoso rei amalingo dos grutungos de Aujo, e pela alegação de João de Antioquia de que Amal e Recítaco eram primos. Segundo Wolfram, a longa disputa entre Estrabão e Amal seria o motivo para o primeiro não ser mencionado como membro da dinastia.
Sob Leão I
thumb|esquerda|upright=1.05|Missório de Ardabúrio no qual aparecem Ardabúrio e seu pai Áspar
Por volta de 459, Teodorico e seus associados são mencionados pela primeira vez pelos emissários enviados pelo rei ostrogótico Valamiro à corte do imperador . Segundo informado, mantinham relações amistosas com o Império Bizantino, possivelmente como federados, recebendo um subsídio anual dos bizantinos, o que abriu margem para Valamiro iniciar uma guerra. Em 471, Teodorico estava na Trácia e era governante dos ostrogodos da região. Com o assassinato de Áspar por ordens de Leão I no mesmo ano, os partidários do ministro assassinado começaram a provocar agitações na capital. Estrabão e Óstris procuraram vingá-lo, mas foram derrotados nas cercanias de Constantinopla pelos excubitores sob Zenão e Basilisco.
Em decorrência disso, Estrabão retornou em 473 para a Trácia, onde agrupou um grande exército, que os historiadores sugerem ser formado por cerca de 10 mil soldados. Seus seguidores rapidamente cresceram em número, e foi aclamado rei. Com a nova posição, exigiu ser reconhecido por Leão I como rei único dos ostrogodos, que todos os desertores lhe fossem entregues, que seu povo fosse assentado na Trácia, que a herança institucional e material de Áspar a ele legada fosse entregue e que fosse nomeado como mestre dos soldados. O imperador tencionava recusar-se a aceitar os termos, aceitando somente nomeá-lo mestre na condição de que jurasse servi-lo como aliado leal. Para pressionar Leão a aceitar suas condições, Estrabão deslocou seus soldados pelas cidades da Via Egnácia, enviando parte deles para atacar Filipos (ou Filipópolis), enquanto liderou os homens restantes para atacar e ocupar Arcadiópolis.
Quando os godos ficaram quase sem recursos, Teodorico assinou a paz com Leão, nos termos da qual os bizantinos foram obrigados a pagar cerca de 907 quilos de ouro, a reconhecer a independência de Estrabão e a conceder a ele o posto de mestre dos soldados na presença (magister militum praesentialis). Alegou ser capaz de confrontar qualquer um nesta posição, exceto os vândalos, talvez em respeito à boa relação entre eles e Áspar ou por medo de ser enviado numa "missão suicida" no Norte da África. Sua rápida ascensão, como se verificou, provavelmente suscitou inveja nos ostrogodos panônios, que abandonaram suas terras e invadiram o império sob liderança do rei Teodomiro e seu filho Teodorico, o Amal, que permanecera entre 461/462 e 472 como refém em Constantinopla. Eles conseguiram angariar bom acordo com o poder imperial, no qual foram assentados na Macedônia.
Sob Zenão
thumb|upright=1.05|Soldo do imperador Basilisco . thumb|upright=1.05|Tremisse do imperador Zenão (r. 474–475; 476–491)
Com a morte de Leão em 18 de janeiro de 474, Estrabão foi destituído pelo recém-nomeado Zenão , que provavelmente já por esta época tentaria opor Teodorico, o Amal a Estrabão. Estrabão, por sua vez, se rebelou contra ele, matando o mestre dos soldados da Trácia Heráclio, apesar do pagamento de um resgate, talvez porque esteve envolvido no assassinato de Áspar. O apoio de Teodorico foi fundamental para a derrocada de Zenão e a ascensão de Basilisco ao trono bizantino em janeiro de 475, de modo que Basilisco lhe confirmou o título de mestre dos soldados na presença e deu outras honrarias. Mas, Teodorico enfrentou Basilisco quando nomeou seu sobrinho Armato como mestre dos soldados na presença.
Quando Zenão retornou a Constantinopla em 476 e derrotou Basilisco, Estrabão não é mencionado como defensor da cidade, talvez por ter partido para a Mésia para combater os ostrogodos panônios: segundo relatado pelas fontes, Teodorico, o Amal, que estava assentado na Mésia, teria contatado Zenão e lhe oferecido ajuda militar em troca de benefícios. Para o historiador Malco, porém, a verdade é que Estrabão teria auxiliado na derrocada do usurpador. Seja como for, a restauração de Zenão não proporcionou a reconciliação com Estrabão, talvez pois o primeiro foi ajudado e manteve Armato, o antigo desafeto do rei, em sua posição de mestre dos soldados. Apesar disso, em 477/478, Estrabão enviou emissários à capital procurando um acordo. Os emissários góticos, para justificar a conclusão de um acordo, alegaram que Amal, que tanto havia prejudicado as províncias balcânicas, era reconhecido como general e amigo bizantino. Zenão, vendo ser impossível suprir os exércitos de ambos, e analisando em retrospecto as ações para com os bizantinos, criticou Estrabão como antigo inimigo que havia pilhado a Trácia e como antigo apoiante do usurpador Basilisco e negou-lhe qualquer acordo, uma vez que procurava um comando militar, não a paz. Outrossim, foi declarado inimigo público pelo senado e exército bizantinos, e seus partidários foram banidos pelo imperador.
Estrabão, no entanto, esteve nesse ínterim agrupando em torno de si outras tribos góticas da região, o que forçou Zenão a reabrir as negociações. O imperador propôs uma aliança e pediu que enviasse seu filho como refém para Constantinopla e passasse a viver como um indivíduo privado na Trácia com o que já havia adquirido com seus saques, obrigando-se a não saquear mais. Estrabão recusou os termos, alegando que seus recursos eram insuficientes para ele e seus seguidores, e que já não mais poderia retroceder com suas tribos. Zenão então decidiu-se pela guerra, organizando uma expedição com tropas reunidas do Ponto, Ásia e Oriente e que seria comandada por Ilo. Por razões desconhecidas, o comando foi concedido a Marciniano, que mostrou-se incapaz de manter a disciplina de seus soldados, forçando o imperador a enviar uma embaixada para Teodorico, o Amal na Mésia.
thumb|upright=1.1|esquerda|Rota da Via Egnácia, um dos principais palcos dos conflitos entre ostrogodos e bizantinos thumb|esquerda|upright=1.1|Síliqua de
Pelo acordado pela embaixada, Amal marchou ao sul com a promessa de, ao chegar na Trácia, encontrar-se-ia com o mestre dos soldados perto dos passos do monte Hemo para receber reforço de dois mil cavaleiros e 10 mil infantes, número que seria depois acrescido por mais seis mil cavaleiros e 20 mil infantes oriundos de Adrianópolis. Além disso, prometeu-se que, caso necessário, Heracleia Perinto e outras cidades vizinhas estariam preparadas para enviar mais tropas. Apesar das promessas, Teodorico não recebeu auxílio bizantino algum. Quanto aproximou-se do monte Sondis, encontrou-se com o exército de Estrabão, e ambos capturaram rebanhos e cavalos um do outro em pequenas batalhas. Então, Estrabão aproximou-se do acampamento inimigo em distância segura e proferiu palavras de ordens, segundo as quais Amal era culpado por fazer ostrogodos lutarem entre si, com isso beneficiando os bizantinos. Tal discurso incentivou muitos guerreiros de Amal, bem como suas mulheres, a desertar, obrigando-o a concluir o conflito.
Na primavera ou começo do verão de 478, ambos enviaram emissários para Constantinopla. Amal exigiu concessões de territórios para seu povo, na tentativa de expandir os domínios de seus godos para sul da Mésia além de todos os passos montanhosos dos Bálcãs, suprimento de cereais para abastecer o exército até a época da colheita e que coletores de impostos (domésticos) deviam ser enviados imediatamente para registrarem o que haviam recebido, enquanto Estrabão exigiu que os acordos selados com Leão em 473 deveriam ser renovados, que o pagamento que recebia há anos deveria ser mantido e pago retroativamente, e que certos parentes seus que estavam aos cuidados de Ilo e o isáurios deveriam ser libertados. Não se sabe qual foi a resposta dada por Zenão a Estrabão, se é que deu alguma. Para Amal, avisou-o que caso não quebrasse seu juramento de paz, receberia 907 quilos de ouro e de prata imediatamente, além de um tributo anual de 10 mil soldos e uma aliança matrimonial com a filha de Olíbrio ou outra dama cortesã.
Tais promessas não surtiram o efeito esperado e o imperador preparou-se novamente à guerra. Porém logo desistiu de seu plano, e com a iminência de uma revolta militar, retirou seus soldados para os quartéis de inverno. Amal aproveitou-se da situação para invadir partes da Trácia na vizinhança do Ródope, arruinando as colheitas e extorquindo recursos de fazendeiros. Na situação, Zenão enviou uma embaixada a Estrabão de modo a conseguir selar a paz. Prometeu renovar os termos estabelecidos sob Leão, ao mesmo tempo que concedeu outros: libertou todos os seus parentes que estavam sob poder bizantino e garantiu-lhes restituição de suas propriedades, providenciou suprimentos para 13 mil de seus soldados, garantiu-lhe o comando de duas escolas palatinas, permitiu que mantivesse a propriedade que lhe pertencia, concedeu-lhe um dos postos de mestre dos soldados na presença em substituição de Amal e permitiu-lhe manter os títulos que Basilisco lhe concedera.
thumb|upright=1.3|Constantinopla