"Somebody to Love" é o sexto episódio da segunda temporada da série de televisão de comédia de situação norte-americana 30 Rock, e o 27.° da série em geral, . O episódio foi escrito por Kay Cannon e Tina Fey, criadora e co-showrunner da série, enquanto a realização esteve a cargo de Beth McCarthy-Miller. Assinalou a primeira contribuição na segunda temporada de McCarthy-Miller, que recebeu uma nomeação para o Prémio do Sindicato de Realizadores Norte-americanos pelo seu trabalho, e reuniu vários antigos colaboradores do Saturday Night Live (SNL), refletindo a estreita ligação entre as duas produções. Para além do elenco principal, contou com as participações especiais de Fred Armisen, a introdução de Edie Falco como Celeste "C. C." Cunningham e ainda Kristen Wiig numa breve aparição.
No episódio, Liz Lemon (interpretada por Tina Fey) começa a suspeitar que o seu novo vizinho poderá estar envolvido numa conspiração terrorista, enquanto Jack Donaghy (Alec Baldwin) inicia uma relação amorosa com C.C. (Falco), uma congressista democrata cujas convicções políticas colidem com as suas. Em paralelo, Kenneth Parcell (Jack McBrayer) tenta substituir um par de calças de luxo pertencentes a Jack depois de as perder durante um serviço de lavandaria. A narrativa combina sátira política, comentários sobre o clima de desconfiança nos Estados Unidos após os atentados de 11 de Setembro de 2001 e humor metatelevisivo, incluindo uma paródia aos telefilmes do canal Lifetime e uma sequência que satiriza o recurso ao product placement através da operadora Verizon Wireless.
Transmitido originalmente pela NBC a 15 de Novembro de 2007, poucos dias após o início da greve da Writers Guild of America, "Somebody to Love" foi o primeiro episódio de 30 Rock a fazer uma referência direta ao conflito laboral. A transmissão foi acompanhada por cerca de 6,45 milhões de telespectadores norte-americanos, alcançando a melhor audiência da série desde a estreia da segunda temporada e liderando o seu horário entre os homens dos 18 aos 34 anos. O episódio recebeu críticas amplamente positivas, com recensores a elogiarem sobretudo a escrita, a sátira ao preconceito racial, a química entre Baldwin e Falco e a forma como conciliou comentário social e humor. Alguns críticos manifestaram reservas em relação à trama secundária protagonizada por Kenneth e à sequência de product placement, embora estas observações tenham sido consideradas limitações pontuais.
Desde a sua transmissão, "Somebody to Love" tem sido regularmente citado entre os episódios mais marcantes de 30 Rock, surgindo em diversas listas dedicadas aos melhores momentos da série e às suas participações especiais. A crítica e a investigação académica destacaram-no como um exemplo representativo da abordagem metatelevisiva desenvolvida por Fey, particularmente pela forma como transforma práticas da indústria televisiva, como o product placement, em objeto de sátira. O episódio é igualmente apontado como uma das explorações mais incisivas da série sobre o preconceito racial, a xenofobia e as contradições do liberalismo norte-americano no contexto do pós-11 de Setembro, consolidando o seu estatuto como um dos episódios mais estudados e debatidos de 30 Rock.
Produção
"Somebody to Love" é o sexto episódio da segunda temporada de 30 Rock. O argumento foi escrito por Kay Cannon, então editora de história da temporada, e Tina Fey, criadora da série, produtora executiva, co-showrunner e argumentista-chefe, enquanto a realização esteve a cargo de Beth McCarthy-Miller.> O episódio assinalou a segunda colaboração entre Cannon e Fey na escrita de um episódio da série, depois de "Black Tie", da primeira temporada, e constituiu igualmente o décimo argumento assinado por Fey para 30 Rock. Para McCarthy-Miller, tratou-se do terceiro crédito de realização na série e do primeiro da segunda temporada.
A escolha de McCarthy-Miller para a realização enquadrava-se na forte ligação entre 30 Rock e Saturday Night Live (SNL), uma relação que se estendia muito para além do elenco. Antes de integrar 30 Rock, McCarthy-Miller fizera parte da equipa de realizadores do SNL, programa no qual Fey iniciou a sua carreira televisiva e desempenhou funções de argumentista-chefe entre 1999 e 2006. A própria série é frequentemente interpretada como uma sátira ficcional aos bastidores daquele programa, sendo Liz Lemon amplamente considerada uma versão dramatizada da experiência profissional de Fey enquanto responsável por uma equipa de argumentistas num ambiente predominantemente masculino. Essa continuidade refletia-se também na presença de numerosos antigos colaboradores do SNL, incluindo o ator Tracy Morgan, o produtor executivo Lorne Michaels, o argumentista John Lutz e o produtor Steve Higgins. Alec Baldwin, apesar de nunca ter integrado o elenco permanente, detinha então o recorde de maior número de apresentações como anfitrião do SNL.
Embora Jane Krakowski, Katrina Bowden e Lonny Ross tenham sido creditados na sequência de créditos de abertura e de encerramento, as suas respetivas personagens — Jenna Maroney, Cerie Xerox e Josh Girard — não surgem no episódio. A maior parte das filmagens para "Somebody to Love" decorreu no início de Outubro de 2007 nos Estúdios Silvercup, em Nova Iorque, onde a série era produzida.
No plano narrativo, "Somebody to Love" acompanha Liz quando desenvolve uma crescente suspeita de que o seu vizinho do Médio Oriente, Raheem, estará envolvido numa conspiração terrorista. A personalidade reservada do vizinho, os mapas espalhados pelas paredes da sua casa e o treino físico intenso levam Liz a interpretar cada detalhe como prova de uma ameaça iminente. No entanto, as suas conclusões revelam-se completamente erradas, já que Raheem preparava-se apenas para participar nas provas de seleção de The Amazing Race e evitava apertar mãos para reduzir o risco de contrair doenças antes da audição. A intervenção precipitada de Liz junto das autoridades conduz à detenção do vizinho, sendo posteriormente sugerido, de forma deliberadamente ambígua, que essa experiência poderá tê-lo radicalizado, invertendo ironicamente a relação de causa e efeito inicialmente imaginada pela protagonista.
A trama constitui uma sátira explícita ao clima de desconfiança em relação a estrangeiros, particularmente cidadãos oriundos do Médio Oriente, que marcou a sociedade norte-americana após os atentados de 11 de Setembro de 2001 e durante o contexto político da Guerra do Iraque. Raheem foi interpretado pelo ator convidado Fred Armisen, um antigo colega de Fey no SNL. Anos mais tarde, Armisen voltaria a participar de 30 Rock na sexta temporada, e colaboraria novamente com Fey em Unbreakable Kimmy Schmidt, interpretando Robert Durst, um dos antigos companheiros da personagem Lillian Kaushtupper. O ator participou igualmente nos comentários áudio para "Somebody to Love" incluídos na edição em DVD da segunda temporada de 30 Rock, embora essa faixa tenha recebido críticas pouco favoráveis de alguns recensores, que consideraram que Armisen procurava constantemente introduzir humor em detrimento de comentários informativos sobre a produção do episódio.
miniatura|150px|direita|Kristen Wiig fez uma breve participação no episódio. Paralelamente, Jack inicia uma relação amorosa com Celeste "C. C." Cunningham, uma congressista democrata de Vermont interpretada por Edie Falco. A personagem surge como contraponto ideológico a Jack, um executivo conservador ligado ao universo empresarial da General Electric, estabelecendo uma dinâmica romântica baseada na oposição política dos dois protagonistas. A participação de Falco assumiu particular relevância por constituir a sua primeira aparição televisiva desde o final de The Sopranos, exibido poucos meses antes. A atriz revelou posteriormente ser admiradora de 30 Rock e aceitou integrar um arco narrativo de três episódios. Fey manifestou entusiasmo pela contratação. Segundo Falco, a transição do drama para a comédia exigiu uma adaptação significativa ao estilo interpretativo. A atriz recordou que Baldwin lhe aconselhou precisamente a abandonar muitos dos princípios de representação naturalista que aperfeiçoara ao longo da carreira, incentivando-a a adotar um registo deliberadamente exagerado e maior do que a vida, mais adequado ao ritmo e ao tom caricatural de 30 Rock.
O episódio introduz ainda uma paródia elaborada aos telefilmes produzidos pelo canal Lifetime através do fictício A Dog Took My Face and Gave Me a Better Face to Change the World: The Celeste Cunningham Story, uma dramatização melodramática da vida de C.C., apresentada como uma política liberal que teria recebido um transplante facial após ter sido baleada no rosto pelo cão do vizinho. A sequência inclui uma breve participação de Kristen Wiig, outra antiga integrante do elenco do SNL, no papel da protagonista da dramatização. Anos mais tarde, Wiig anunciara a co-produção de um telefilme secreto para o Lifetime com intenções paródicas, projeto que acabou por ser cancelado antes da sua estreia.
Uma das sequências de "Somebody to Love" envolve uma conversa entre Jack e Liz sobre a operadora Verizon Wireless. À medida que Jack enumera as qualidades do serviço, Liz interrompe a ação, tece elogios à operadora, olha diretamente para a câmara e pergunta: "Já nos podem dar o nosso dinheiro?", quebrando deliberadamente a quarta parede. A cena constituiu simultaneamente uma sátira ao recurso crescente ao product placement na televisão e um exemplo concreto dessa mesma prática. A Verizon confirmou posteriormente ter pago uma taxa de integração à NBC e participado numa campanha promocional conjunta que incluiu publicidade na revista Maxim e iniciativas no respetivo sítio oficial, embora os montantes envolvidos nunca tenham sido divulgados. Lou Rossi, diretor de media e patrocínios da empresa, explicou que o objetivo consistia em encontrar formas de aumentar a notoriedade da marca através de integrações consideradas naturais, defendendo que o estilo autorreferencial de 30 Rock tornava particularmente eficaz esse tipo de colaboração comercial. A sequência retomava uma estratégia já utilizada pela série em "Jack-Tor", quando a marca Snapple também fora integrada de forma assumidamente satírica, transformando a própria publicidade num elemento da piada.
"Conversamos com a NBC regularmente sobre oportunidades. Tínhamos lançado o desafio para que pensassem em formas de nos ajudar a aumentar a nossa presença no mercado, e eles voltaram a contactar-nos com esta oportunidade específica em 30 Rock. [...] Queremos que uma integração seja o mais orgânica e natural possível num programa. Claramente, com o humor e o argumento de 30 Rock, este tipo de integração funciona muito bem tanto para eles como para a Verizon Wireless."
"Somebody to Love" aprofunda ainda o humor surreal em torno da personagem Kenneth Parcell, interpretado por Jack McBrayer. Ao longo das temporadas, a série acumulou indícios de que Kenneth seria um ser imortal, um arco que começou de forma discreta na primeira temporada, com um panfleto clínico que exibia a foto de Kenneth sob a legenda "Nunca Morre" no episódio "The Baby Show". Em "Somebody to Love", o argumentista Frank Rossitano, interpretado por Judah Friedlander, questiona Kenneth sobre uma idosa do departamento de contabilidade que o confunde com o seu falecido marido da Segunda Guerra Mundial, piada que serve de fundação para revelações futuras sobre a natureza eterna do estagiário, culminando no episódio final da série onde a personagem surge biologicamente inalterada décadas no futuro, deixando deliberadamente em aberto a natureza sobrenatural da personagem.