Historicidade da Bíblia diz respeito à forma como a Bíblia é encarada de um ponto de vista historiográfico. A História é uma disciplina que lida com o estudo de vestígios e documentos de épocas pretéritas tendo por vista pensar, interpretar e reconstruir o passado. A Bíblia é um livro considerado sagrado por diversas denominações religiosas. Por séculos foi vista como um documento derivado diretamente da inspiração divina, e por isso o que ela narrava era tido como verdade inquestionável, e mesmo suas narrativas puramente "históricas" eram consideradas relatos fidedignos do que acontecera no passado. Não importava, então, o contexto cultural, político e social em que havia sido escrita, uma vez que o estudo deste livro estava limitado ao debate teológico, moral e doutrinal, e tampouco haviam sido desenvolvidos métodos e ferramentas de pesquisa que pudessem dar subsídios sólidos para uma crítica objetiva sobre a factualidade dos eventos que narra.

Porém, ao longo do tempo alguns pensadores questionaram a veracidade de certas passagens. A crítica historiográfica baseada na abordagem científica ganhou força quando uma série de descobertas, entre elas o deciframento da escrita hieroglífica egípcia (1822), o deciframento da escrita cuneiforme acadiana (por volta de 1857) e escavações arqueológicas, começaram a trazer à luz muitas informações novas sobre o passado da região levantina, fazendo a Bíblia sair de seu isolamento teológico e ingressar no campo dos estudos acadêmicos seculares. Desde então, muito do seu conteúdo histórico tem sido descartado como mito, lenda, alegoria ou construção política e teológica, seja por ser pouco plausível, seja por não ter sido possível comprovar sua factualidade com fontes e dados externos ao próprio texto. Além disso, há muitas contradições internas e larga porção está baseada em alegações de milagres e intervenções divinas. Hoje os livros da Bíblia são tratados como documentos iguais a quaisquer outros, devendo ser lidos criticamente e comparados com outras fontes (textuais, arqueológicas, epigráficas, etc), para distinguir-se o que têm de informação valiosa para elucidar alguns fatos e eventos e entender como a tradição religiosa e cultural da região se articulou e desenvolveu, e o que não é confiável, possuindo elementos fantasiosos, tendenciosos e de redação tardia em relação aos fatos narrados.

Os especialistas que estudam a Bíblia hoje costumam ser divididos entre “minimalistas” e “maximalistas”. Os primeiros minimizam o uso do texto bíblico literal como fonte válida para a escrita da história de Israel, preferindo usar métodos de crítica textual, registros arqueológicos e comparação de fontes diferentes para a reconstrução da história antiga. Nesse grupo estão estudiosos famosos como Keith Whitelam e Thomas L. Thompson. Os segundos, representados por Pierre Bordreuil e Françoise Briquel-Chatonnet,Pierre Bordreuil et Françoise Briquel-Chatonnet, Le Temps de La Bible, Paris, Fayard, 2000. entre outros, dão grande valor às informações do texto original e pretendem conservá-lo ao máximo. É difícil, contudo, fazer divisões muito claras entre essas “escolas” de estudiosos: Philip Davies, por exemplo, entende que os textos bíblicos são necessários para se reconstruir uma história do pensamento israelita. William G. Dever, Israel Finkelstein e Amihai Mazar fornecem análises sobre os interesses ideológicos e o contexto social, cultural e político que influíram na redação. Para Mario Liverani a história de Israel se divide entre uma história "normal", construída a partir de uma diversidade de fontes, entre elas as arqueológicas, e uma história "inventada", a forma como os redatores bíblicos reinterpretaram o passado.

Manuscritos e cânones

thumb|esquerda|O conceito hebraico de Universo: o mundo é um disco ou círculo sobre pilares (Jó 9:6, 38, 6; Sl 75,4; 104, 5, 1Sm 2,8)

A Bíblia existe em múltiplos manuscritos, poucos deles autográficos, e múltiplos cânones, nenhum dos quais está completamente de acordo a respeito de quais livros têm suficiente autoridade para serem incluídos, nem a respeito de sua ordem.Grosse, Sven. Theologie des Kanons: der christliche Kanon, seine Hermeneutik und die Historizität seiner Aussagen; die Lehren der Kirchenväter als Grundlegung der Lehre von der Heiligen Schrift. LIT Verlag Münster, 2011, pp. 91–92

Para determinar a precisão dos manuscritos copiados, os críticos textuais escrutinam a forma pela qual as transcrições passaram através da história para suas formas extensas. Múltiplas cópias podem ser agrupadas em tipos de textos, com alguns tipos julgados mais próximos do original hipotético que outros. As diferenças frequentemente acabam sendo mais do que meras variações pequenas e podem envolver, inclusive, interpolação de material central para questões de historicidade e doutrina.Maas, Paul. Textual criticism. Oxford University Press, 1958, p. 1Tanselle, G. Thomas. A Rationale of Textual Criticism. University of Pennsylvania Press, 1989.Wallace, Daniel B., ed. Revisiting the Corruption of the New Testament: Manuscript, Patristic, and Apocryphal Evidence. Kregel Academic, 2011

Os livros que compõem a Bíblia Hebraica e o Antigo Testamento (os dois são quase - mas não exatamente - a mesma coisa) foram principalmente escritos em hebraico, com poucas exceções em aramaico. Hoje existem em várias tradições, incluindo o Texto Masorético, a Septuaginta (uma tradução grega amplamente usada no período do até o , e ainda vista como canônica por várias igrejas cristãs ortodoxas), a Torá Samaritana e outras. Variações entre essas tradições são úteis para reconstruir o texto original mais provável, e para traçar a história intelectual de várias comunidades judaicas e cristãs. Não há um consenso a respeito de quando o cânone bíblico foi consolidado.McDonald, Lee Martin & Sanders, James A. eds. The Canon Debate, Hendrickson Publishers, 2002

thumb|A hipótese das duas fontes propõe que os autores de Mateus e Lucas se basearam no Evangelho segundo Marcos e numa fonte hipotética chamada de "Q".

De acordo com a teoria da “primazia grega”, o Novo Testamento foi originalmente escrito em grego. No entanto, os textos originais foram perdidos. O que sobrevive são cópias escritas entre os séculos IV e XIV da nossa era. Existem mais de 5 mil cópias manuscritas em grego e 10 mil em latim. Quando outras línguas são incluídas, o total de cópias antigas chega a 25 mil.Bruce, F.F. P 14. The New Testament Documents: Are They Reliable? InterVarsity Press, 1981 Entre os mais antigos manuscritos do Novo Testamento estão os códices Sinaítico e Vaticano datando do Foram encontradas cópias fragmentárias dos evangelhos datando até o III e talvez final do . Um códice, datado do , está sob custódia da biblioteca Bodmer, em Cologny, em Genebra. Outro, na coleção Chester Beatty, em Dublim.

Enquanto a autoria de pelo menos sete epístolas paulinas é praticamente indisputada, os especialistas não estão de acordo no que diz respeito aos outros livros do Novo Testamento. Os evangelhos sinópticos, por exemplo, possuem divergências consideráveis entre si, o que fez com que alguns especialistas considerassem uma “Hipótese das Duas Fontes” para explicar sua composição. Segundo essa teoria, os evangelhos de Mateus e Lucas teriam sido baseados no Evangelho de Marcos (tido como mais antigo) e em uma suposta "Fonte Q” (do alemão Quelle, ou "fonte"), mas esta teoria é controversa e outras possibilidades de composição foram apresentadas a partir de múltiplas fontes possíveis.Mournet, Terence C. Oral Tradition and Literary Dependency: Variability and Stability in the Synoptic Tradition and Q. 2005, pp. 192–286Blair, George Alfred. "The Synoptic Gospels Compared". In: Studies in the Bible and Early Christianity, 2003 (55)Huggins, Ronald V. "Matthean Posteriority: A Preliminary Proposal". In: Novum Testamentum, 1992 (34): 1–22. Nelligan , Thomas P. The Quest for Mark's Sources: An Exploration of the Case for Mark's Use of First Corinthians. Wipf and Stock, 2015, p. xivxv A atribuição da autoria dos evangelhos aos próprios Marcos, Mateus, Lucas e João está descartada pelo consenso dos estudiosos.Valantasis, Richard; Bleyle, Douglas K.; Haugh, Dennis C. The Gospels and Christian Life in History and Practice. Rowman & Littlefield, 2009, p. 19 Os documentos tradicionais responsáveis por atribuir autoria aos evangelhos são contraditórios no que se refere à ordem de produção dos sinópticos.

Crítica histórica

Bíblia hebraica

Até o , a crença geral entre os cristãos era de que a Terra fora criada quatro mil anos antes do nascimento de Jesus, e que o Jardim do Éden, o Dilúvio, a Torre de Babel, as histórias de Abraão e o Êxodo retratassem eventos reais, constituindo uma história genuína da Criação à fundação de Israel. A sacralização do texto impedia uma crítica objetiva dos fatos narrados e impunha ao historiador uma tutela na escrita da história, de modo que a escrita da história de Israel permanecia sendo praticamente apenas uma paráfrase do texto bíblico. No entanto, sempre houve uma tradição crítica também, datando até pelo menos Agostinho de Hipona (354-430). A tradição judaica manteve igualmente uma postura crítica em sua abordagem da história bíblica primeva.Young, Davis A (March 1988). "The contemporary relevance of Augustine's view of Creation". Perspectives on Science and Christian Faith 40 (1): 42–45. "But someone may ask: 'Is not Scripture opposed to those who hold that heaven is spherical, when it says, who stretches out heaven like a skin?' Let it be opposed indeed if their statement is false.... But if they are able to establish their doctrine with proofs that cannot be denied, we must show that this statement of Scripture about the skin is not opposed to the truth of their conclusions". O influente filósofo medieval Maimônides mantinha uma ambiguidade cética em relação à criação “a partir do nada” e considerava as histórias de Adão mais como “antropologia filosófica do que histórias reais cujo protagonista fosse o primeiro homem”. Mas na ausência de explicações históricas e informações de credibilidade, os relatos do Gênesis eram amplamente tomados como a última autoridade, e raramente contrariados.

Galileu Galilei é o nome mais fortemente associado à primeira contestação científica à autoridade bíblica. No entanto, o universo heliocêntrico era suficientemente periférico na ontologia bíblica para ser acomodado, como é nítido em sua aceitação pelos fundamentalistas de hoje. Foi, na verdade, o nascimento da geologia, marcado pela publicação de Teoria da Terra de James Hutton em 1788, que colocou nos trilhos a revolução intelectual que iria destronar o Gênesis como a principal autoridade em matéria de pré-história e Terra primordial.Gillispie, Charles Coulston (1996) . Genesis and geology: a study in the relations of scientific thought, natural theology, and social opinion in Great Britain, 1790–1850. Cambridge: Harvard University Press. . A primeira vítima foi a história da Criação mesma, e no começo do “nenhum cientista responsável lutava pela credibilidade literal do relato mosaico da criação”. O dilúvio se manteve vivo na nascente disciplina, até que Adam Sedgwick, o presidente da Sociedade Geológica, tornasse público que “Deveríamos, com efeito, ter pensado melhor antes de termos adotado a teoria do Dilúvio, e ter relacionado todos os saibros arenosos superficiais à ação do dilúvio mosaico. Pois pelo homem, e pela obra de suas mãos, nós ainda não encontramos nenhum único traço entre os vestígios do mundo antigo nesses depósitos.” Citado em Gillispie, op cit, pp.142–143