A etnografia (do grego έθνος, ethno - nação, povo e γράφειν, graphein - escrever) é o método utilizado pela antropologia na coleta de dados. Baseia-se no contato inter-subjetivo entre o antropólogo e o seu objeto, seja ele uma aldeia indígena ou qualquer outro grupo social sob o qual o recorte analítico será feito. A base de uma pesquisa etnográfica é o trabalho de campo. Neste caso, este trabalho de campo se dá por meio do contato intenso e prolongado (que pode durar até mesmo mais de um ano) do pesquisador com a cultura do grupo para descobrir como se organiza seu sistema de significados culturais. O etnógrafo pode ser considerado um instrumento humano. Com um problema de pesquisa, uma teoria de interação ou de comportamento social e uma variedade de guias conceituais em mente, o etnógrafo se envereda em uma cultura ou situação social para explorar, coletar e analisar dados. O trabalho de campo, de muitas formas, é mais complicado que um estudo de laboratório, mas também pode ser muito compensador.Fetterman, David D (2010). "a wilderness guide". Ethnography: step-by-step, ed. 3, p. 33.
Bronislaw Malinowski, na introdução de seu clássico estudo Os Argonautas do Pacífico Ocidental (publicado em 1922), marcou a história da antropologia moderna ao propor uma nova forma de etnografia, envolvendo detalhada e atenta observação participante, apesar de Malinowski nunca ter utilizado a expressão. Sob sua trilha vieram outras etnografias clássicas, como Naven de Gregory Bateson, Nós, os Tikopia de Raymond Firth. Principalmente a partir da antropologia interpretativa ou pós-moderna, autores como James Clifford, Clifford Geertz e George Marcus, com sua antropologia multi-situada (ou multi-localizada) passaram a discutir o papel político, literário e ideológico da antropologia e de sua escrita, em esforços verdadeiramente metalingüísticos e intertextuais. Exemplos famosos de Etnografias contemporâneas são Xamanismo, Colonialismo e o Homem Selvagem, de Michael Taussig e Os Araweté: Os Deuses Canibais de Eduardo Viveiros de Castro.
Além da antropologia, métodos da pesquisa etnográfica são utilizados por diferenças áreas, como sociologia, psicologia e até mesmo design. Mais recentemente, grandes empresas, ao tentarem entender realmente melhor seus clientes, começaram a usar pesquisas etnográficas. A Microsoft é um dos maiores empregadores de etnógrafos.
Os estudos etnográficos são técnicas, proveniente das disciplinas de Antropologia Social, que consiste no estudo de um objecto por vivência directa da realidade onde este se insere. Estes estudos têm mostrado que o trabalho das pessoas é, normalmente, mais rico e complexo do que o descrito pelas definições dos processos e pelos modelos dos sistemas. O principal problema da aplicação deste método é fruto da dificuldade na generalização dos resultados. É um método qualitativo que se insere na corrente filosófica do Interpretivismo.
Etnografia (do grego ἔθνος ethnos "povo, povo, nação" e γράφω grapho "eu escrevo") é um ramo da antropologia e o estudo sistemático de culturas individuais. A etnografia explora os fenômenos culturais do ponto de vista do sujeito do estudo. A etnografia também é um tipo de pesquisa social que envolve examinar o comportamento dos participantes em uma determinada situação social e compreender a própria interpretação dos membros do grupo sobre tal comportamento.Dewan M. (2018) Entendendo a etnografia: a perspectiva de um etnógrafo 'exótico'. In: Mura P., Khoo-Lattimore C. (eds) Pesquisa Qualitativa Asiática em Turismo. Perspectivas sobre o turismo asiático. Springer, Singapura.
Como uma forma de investigação, a etnografia depende muito da observação participante – do pesquisador que participa do cenário ou das pessoas que estão sendo estudadas, pelo menos em algum papel marginal, e procura documentar, em detalhes, padrões de interação social e as perspectivas de participantes e compreendê-los em seus contextos locais. Teve sua origem na antropologia social e cultural no início do século XX, mas se espalhou para outras disciplinas das ciências sociais, notadamente a sociologia, ao longo desse século. Os etnógrafos usam principalmente métodos qualitativos , embora também possam empregar dados quantitativos. A etnografia típica é um estudo holístico e, portanto, inclui uma breve história e uma análise do terreno, do clima e do habitat. Uma ampla gama de grupos e organizações tem sido estudada por este método, incluindo comunidades tradicionais, gangues juvenis, cultos religiosos e organizações de vários tipos. Enquanto, tradicionalmente, a etnografia se baseava na presença física do pesquisador em um cenário, há pesquisas usando o rótulo que se baseou em entrevistas ou documentos, às vezes para investigar eventos no passado, como o desastre do NASA Challenger. Há também uma quantidade considerável de etnografia 'virtual' ou online, às vezes rotulada como netnografia ou ciberetnografia.Ember, Carol and Melvin Ember, Cultural Anthropology (Prentice Hall, 2006), chapter one.
Heider, Karl. Seeing Anthropology. 2001. Prentice Hall, Chapters One and Two.
Vaughan, D. (2016) The Challenger Launch Decision; Risky technology, culture, and deviance at NASA, Second edition, Chicago ILL, University of Chicago Press.
Origem Gerhard Friedrich Müller desenvolveu o conceito de etnografia como uma disciplina separada enquanto participava da Segunda Expedição à Kamchatka (1733-1743) como professor de história e geografia. Enquanto envolvido na expedição, ele diferenciou Völker-Beschreibung (Descrição dos Povos) como uma área distinta de estudo. Isso ficou conhecido como "etnografia", após a introdução do neologismo grego etnographia por Johann Friedrich Schöpperlin e a variante alemã por A.F. Thilo em 1767. August Ludwig von Schlözer e Christoph Wilhelm Jacob Gatterer da Universidade de Göttingen introduziu o termo no discurso acadêmico na tentativa de reformar a compreensão contemporânea da história mundial. Heródoto, conhecido como o Pai da História, teve trabalhos significativos sobre as culturas de vários povos além do reino helênico, como os cita, que lhe valeram o título de "filobárbaro", e pode-se dizer que produziu os primeiros trabalhos de etnografia.Vermeulen, Han F., 2008, Early History of Etnography and Ethnology in the German Enlightenment , Leiden, p. 199.
Vermeulen, Hans (2008). História inicial da etnografia e do etnólogo no Iluminismo alemão: discurso antropológico na Europa e na Ásia, 1710-1808 . Leiden: Publicação privada.
A etnografia tem origem na Antropologia Social, um dos quatro campos da Antropologia, que surgiu da necessidade de compreender as relações socioculturais, os comportamentos, ritos, técnicas, saberes e práticas das sociedades até então desconhecidas, e que tem vindo a ser adaptada a problemas comuns da actualidade. Os antropólogos, normalmente, têm a tarefa de estudar culturas que são completamente diferentes das sociedades nas quais eles vivem, estudar as diferenças entre as suas experiências e costumes, assim como entender como esta funciona. Ou seja, têm o objectivo de a compreender do ponto de vista das pessoas que nela vivem.
Este estudo por observação é necessário porque parte do comportamento das pessoas é baseado em conhecimento não-falado, o conhecimento tácito. Assim, não é suficiente fazer perguntas, é necessário observar o que as pessoas fazem, as ferramentas que utilizam e como se relacionam entre si. É importante não repetir os erros cometidos ao longo da história provenientes de incompreensões de culturas estudadas. Por exemplo, as primeiras pessoas a contatar com culturas desconhecidas, tais como comerciantes, exploradores ou missionários, por diversas vezes realizaram interpretações incorretas sobre os povos nativos que resultaram em graves problemas, nomeadamente conflitos armados. Por isso mesmo, actualmente os etnógrafos tentam evitar este tipo de problemas assumindo todas as conclusões iniciais como susceptíveis de incorrecções, explicitando claramente todas as suposições, examinando-as e questionando-as durante toda a investigação.
Todo o conhecimento relevante que é necessário extrair é então totalmente resultado do contato prolongado com as pessoas no seu ambiente natural, partindo para este estudo com um planejamento mínimo. A linguagem da cultura em questão deve também ser correctamente estudada, é necessário entender todos os termos utilizados e a forma como estes se relacionam, procurando assim evitar distorcer o seu significado. Também a abordagem a todos os objetos e documentos utilizados pelas pessoas deve ser extremamente cuidada. É importante observar como a utilização destas ferramentas é feita para atingir os objetivos pretendidos e não apenas classificá-las com base nas suas propriedades físicas ou outras.
Relação entre etnografia e engenharia de requisitos
Quanto ao método A abordagem etnográfica e a identificação de requisitos têm muito em comum. Ambas têm o objectivo de entender uma cultura não familiar, todo o conhecimento, técnicas e práticas que a constituem, de forma a traduzi-las de maneira a que possa ser entendida e usada por outros. Tal como o etnógrafo, o engenheiro de requisitos tem a necessidade de documentar o domínio do sistema e a sua relação com a actividade de cada pessoa envolvida no seu funcionamento.
Para que se consiga extrair o máximo de conhecimento possível das pessoas, deve-se comunicar com estas utilizando a sua própria linguagem e não uma linguagem técnica de engenharia de software que é incompreensível e intimidadora para a maioria delas. Posteriormente, a equipa de desenvolvimento deve ser capaz de usar todos os dados obtidos para que possa desenvolver o produto realmente apropriado, correspondente com a informação recolhida, que se adapte completamente às necessidades dos utilizadores e seja perfeitamente integrado no seu ambiente.
As pesquisas que se efectuam com o objectivo de realizar estes estudos resultam numa grande quantidade de informação, através de apontamentos, gravações de áudio e vídeo e um conjunto de objectos que fazem parte das culturas, que deverá ser gerida com toda a atenção para que a sua análise e processamento não se prolongue excessivamente. Um estudo etnográfico requer muito mais tempo do que as técnicas de identificação de requisitos mais comuns, como as entrevistas, logo todos os recursos financeiros e temporais, muitas vezes difíceis de obter, que o suportam devem ser utilizados da forma mais optimizada possível.
Quanto aos princípios Em 1993, Blomberg argumentou que os engenheiros de software: criam ferramentas para processos de trabalho dos quais pouco conhecem; devem adquirir uma visão adequada do mundo e não apenas confiar nas suas próprias experiências e imaginação; extrair um conhecimento completo das práticas de trabalho para explorar e consolidar a relação entre as tarefas e a tecnologia.
Desta forma, para orientar a actividade etnográfica apresentou os seguintes quatro princípios: Encontro inicial – passar algumas horas no ambiente onde os processos ocorrem para estudar as pessoas nas suas atividades diárias; Holismo – crença que os comportamentos apenas podem ser entendidos no contexto em que ocorrem; Descrição e não prescrição – descrever como as pessoas se comportam realmente e não como se deveriam comportar; Ponto de vista dos participantes - descrever os comportamentos de forma relevante para os participantes do estudo.
Estes princípios implicam que os engenheiros de requisitos devem capturar toda a estrutura social que constitui a atividade e não devem predefinir qualquer estrutura conceptual.
O trabalho é uma atividade socialmente organizada, onde muitas vezes o comportamento real difere da forma como é descrito por quem o faz, e dessa forma é importante confiar tanto nas entrevistas quanto nas observações diárias das pessoas no próprio local de trabalho onde a tecnologia deverá ser inserida.
Quanto às diretrizes