Ambroise da Normandia, ou simplesmente Ambroise (, ; morto após 1195, 1196Pernu, Régine Cruzados. — São Petersburgo, 2001. — p. 306. ou 1199) foi um cronista e trovador normando, um dos cronistas da Terceira Cruzada e biógrafo do rei Ricardo Coração de Leão, autor da crônica rimada História da Guerra Santa ().

Biografia thumb|Encontro entre Ricardo Coração de Leão e Filipe Augusto na Palestina. Miniatura do manuscrito História de Jerusalém, de Guilherme de Tiro, 1330–1340 thumb|Cerco de Acre (1189–1191). Miniatura de um manuscrito inglês de meados do século XIV thumb|Ricardo I e Filipe Augusto recebem as chaves de Acre. Miniatura do manuscrito das Grandes Crônicas Francesas, 1375–1380 thumb|Duelo entre Ricardo I e o sultão Saladino. Miniatura do Saltério de Luttrell, segundo quarto do século XIV thumb|Execução de prisioneiros muçulmanos em Acre, por ordem de Ricardo da Inglaterra. Miniatura de Jean Colombe, do livro de Sébastien Mamerot, Campanhas Francesas no Ultramar (1474) Quase não há informações biográficas disponíveis, e as poucas que existem podem ser extraídas somente de seus próprios escritos. Não se sabe quando ele nasceu, qual foi sua formação acadêmica e se ele era clérigo. É possível que ele fosse natural de Évreux, na Normandia,Kroll W. Ambroise // Lexikon des Mittelalters. — vol. 1. — Stuttgart; Weimar, 1999. — p. 521. e que tenha servido como cônego em Reims. Segundo outras fontes, ele foi secretário do tribunal real no Condado de Anjou. Também é possível que ele fosse próximo da corte de Leonor da Aquitânia em Poitiers.

Ele aparentemente conheceu Ricardo Coração de Leão ainda na década de 1170, quando este era conde de Poitou. Após a morte de Henrique II Plantageneta em 1189, acompanhou o novo rei à coroação na Inglaterra e depois partiu com ele para a Terra Santa, possivelmente como menestrel da corte.

Provavelmente não participou pessoalmente em ações militares, mas foi testemunha delas e obteve informações claramente em primeira mão. Em particular, observou a destruição de Messina pelas tropas reais, a estadia de Ricardo I em Chipre e o assalto a Limassol,Régine Pernoud, Os cruzados. — p. 202. o Cerco de Acre (1189-1191) e a campanha mal sucedida a Jerusalém, a batalha de Arçufe (setembro de 1191), na qual esteve entre os soldados rasos,Kessler, U. Ricardo I Coração de Leão: Rei. Cruzado. Aventureiro. — Kharkiv; Rostov do Don, 1997. — p. 226. a batalha de Jaffa (agosto de 1192), a execução de 2 500 prisioneiros sarracenos pelo rei inglês, etc.

As circunstâncias da vida posterior, bem como o local e a data da morte de Ambroise após o término da cruzada, permanecem desconhecidas. É provável que ele tenha falecido entre 1196 e 1199, não na Inglaterra, mas no continente, possivelmente em Reims ou Poitiers.

Crônica Sua principal obra, a História da Guerra Santa, escrita em francês antigo e em rima (), também conhecida como Crônica de Ambroise, abrange os acontecimentos desde a tomada de Jerusalém por Saladino em 1187 até a libertação de Ricardo Coração de Leão do cativeiro austríaco em 1199 e consiste em 12 313, 12 332 ou 12 352 versos silábicos.

Ambroise é surpreendentemente preciso em sua cronologia e, evidentemente, baseou-se em seus próprios registros, feitos durante uma peregrinação à Terra Santa. Outras fontes foram os relatos de participantes e testemunhas oculares, que ele, ao descrever a batalha de Jafa, lista nominalmente e aos quais mais tarde se refere seu contemporâneo mais jovem, Ralph de Coggeshall,Kessler, U., Ricardo I, Coração de Leão... — p. 302. bem como um hipotético diário do cerco de Acre, compilado no quartel-general de Ricardo I.

Como historiador, Ambroise não demonstra grande perspicácia política nem conhecimento em questões militares, mas com ingenuidade e vivacidade procura descrever de forma objetiva e precisa tudo o que viu, praticamente sem distorcer os fatos. Hostil tanto aos sarracenos quanto aos franceses, ele está longe de ser imparcial, o que se manifesta em sua atitude em relação ao grupo que apoiava Conrado de Monferrato contra Guido de Lusinhão.

Ambroise pode ser considerado mais um biógrafo do que um cronista detalhado da cruzada, mas sua “História da Guerra Santa” é uma fonte bastante valiosa sobre os eventos de 1190–1192 em Ultramar, complementando significativamente com diversos detalhes as obras de seus contemporâneos, principalmente a crônica de outro participante da cruzada, Roger de Hoven. Assim, ao narrar o ataque de Ricardo a Messina no início de setembro de 1190, ele aponta o papel traidor de seu aliado infiel, o rei francês Filipe Augusto,Kessler, U., Ricardo I, Coração de Leão... — p. 145, 147. ao relatar o pedido de casamento de Henrique II, Conde de Champanhe à rainha Isabel I de Jerusalém em abril de 1192, observa que o condado indeciso ficou impressionado com a aparência encantadora da viúva de Conrado de Monferrato, morto pelos assassinos, e ao descrever a campanha de Ricardo em agosto–setembro de 1191 em Jafa, ele indica que as fileiras de cavaleiros em seu exército eram tão densas que era impossível jogar uma maçã sem acertar um guerreiro ou um cavalo.Régine Pernoud, Os cruzados. — pp. 105, 133.

Ricardo I, Coração de Leão, é retratado na crônica poética de Ambroise como um personagem épico, não somente um guerreiro invencível, capaz de, em batalha, cortar a cabeça e decepar o braço de um emir muçulmano encapuzado com uma única estocada de espada,Kessler, U., Ricardo I, Coração de Leão... — p. 305. mas também um trabalhador incansável, que não se envergonhava de carregar nas costas troncos para a construção de armas de cerco.Régine Pernoud, Os cruzados. — p. 165. Com a intenção evidente de criar, na figura do rei-comandante, um modelo a ser seguido, Ambroise usa pelo menos 20 vezes a palavra proesce (coragem) em relação a ele.Florie, J., Ricardo Coração de Leão. O rei cavaleiro. São Petersburgo, 2017. p. 386. Mas por trás de toda essa apologia surge uma personalidade bastante contraditória, cuja bravura militar se combina com uma falta de visão e um ardor incomuns para um comandante experiente. Para indicar isso ao leitor, o cronista inventa propositalmente um diálogo entre Saladino e o bispo de Salisbury, Hubert Walter, que acompanhava o rei na campanha:

O Itinerário da peregrinação e feitos do rei Ricardo (), uma narração prosaica em latim sobre os acontecimentos da Terceira Cruzada, composta entre 1216 e 1222Florie, J., Ricardo Coração de Leão. O rei cavaleiro. — p. 616. pelo chefe do Priorado da Santíssima Trindade de Londres, perto de Oldgate, Ricardo de Templo, baseia-se na crônica de AmbroiseEsbridge, T., As Cruzadas. As guerras medievais pela Terra Santa. — Moscou, 2016. — p. 707.Kessler, U., Ricardo I, Coração de Leão... — p. 182. ou são uma tradução livre dela. No entanto, o primeiro livro do Itinerário contém, sem dúvida, informações originais, além disso, toda a obra está repleta de figuras de linguagem retóricas, incomuns no estilo do trovador normando.

Alguns historiadores do século XIX e da primeira metade do século XX consideravam a obra de Ricardo de Templo como fonte primária para a História da Guerra Santa. O bispo William Stubbs, que publicou a obra em 1864 na série acadêmica Rolls Series, defendia esse ponto de vista, mas essa hipótese nunca recebeu provas convincentes. Não é de excluir que ambos os autores tenham visitado a Terra Santa com Ricardo, mas criado em momentos diferentes duas obras independentes que se complementavam ou se baseavam em fontes comuns. No entanto, vários pesquisadores ainda questionam a autoria de Ambroise, considerando, pelo menos, sua obra secundária.Croizy-Naquet C. (ed.). Ambroise. L’estoire de la Guerre Sainte (introdução). — Paris: Champion, 2014. — pp. 65–83.

Manuscritos e edições O único manuscrito completo conhecido da crônica de Ambroise, datado do final do século XIII, está guardado na coleção da Biblioteca Apostólica Vaticana (Reginensi latini, MS 1659, f. 1ra-89v); também são conhecidos dois fragmentos posteriores, um dos quais se encontra atualmente na biblioteca de livros raros da Universidade Keio (Tóquio).

Ainda na primeira metade do século XVIII, o monge beneditino da Congregação de São Mauro, Bernardo de Montfaucon, fez extratos do manuscrito vaticano História da Guerra Santa. Em 1844, trechos da crônica de Ambroise foram publicados em Mannheim, em tradução alemã, pelo filólogo Adelbert von Keller, e em 1885 foram reeditados em Hanôver, no volume 27 da série Scriptores, pelos editores acadêmicos da Monumenta Germaniae Historica. Mas o valor da crônica como fonte foi comprovado pela primeira vez somente pelo filólogo medievalista francês Gaston Paris, que preparou em 1897 sua edição original comentada.

A mais recente tradução inglesa da crônica foi publicada em 2003 e 2011 em Ipswich, em dois volumes, sob a edição da professora do departamento de língua francesa da Universidade de Bristol, Marianne J. Eales, e do historiador medievalista, professor da Universidade de Reading (Berkshire), Malcolm Barber. A publicação acadêmica comentada foi preparada para edição em 2014 pela professora de literatura medieval da Universidade Sorbonne Nouvelle - Paris III, Catherine Croisy-Nacque.

Publicações Beiträge zur kunde mittelalterlicher Dichtung aus italiänischen Bibliotheken, hrsg. von Adelbert von Keller. — Mannheim: Bassermann, 1844. — vi, 718 p. L’estoire de la Guerre Sainte, histoire en vers de la troisième croisade (1190—1192) par Ambroise, publiée et traduite d’après le manuscrit unique du Vatican et accompagnée d’une introduction, d’un glossaire et d’une table des noms propres par Gaston Paris. — Paris: Imprimerie nationale, 1897. — [vii], xcv, 579 p. — (Collection de documents inédits sur l’histoire de France). Ambroise. Itinerarium regis Ricardi. Edited by M. T. Stead. — Londres: S.P.C.K., 1920. — 64 p. Ex Ambrosii carmine de Ricardi I itinere sacro. Hrsg. von Felix Liebermann // Monumenta Germaniae Historica. — Tomus 27. — Leipzig: Hiersemann, 1925. — pp. 532–546. — (Scriptorium series). The Crusade of Richard Lion-Heart Records by Ambroise. Translated by Merton Jerome Hubert, with notes and documentation by John L. La Monte. — Nova Iorque: Columbia University Press, 1941. — xi, 478 p. — (Records of civilization, sources and studies, 34). Ambroise. L’Estoire de la Guerre Sainte. An edition, ph. d. dissertation, by Paul Jiries Amash. — Chapel Hill: University of North Carolina, 1965. — xxxiii, 470 p. Ambroise. The History of the Holy War: Ambroise’s Estoire de la Guerre Sainte. Edited and translated by Marianne J. Ailes, and Malcolm Barber. — Volume 1. — Ipswich: Boydell Press, 2003. — 464 p. — ISBN 978-1-84383-001-6. Ambroise. The History of the Holy War: Ambroise’s Estoire de la Guerre Sainte. Edited and translated by Marianne J. Ailes, and Malcolm Barber. — Volume 2. — Ipswich: Boydell Press, 2011. — 234 p. — ISBN 978-1-84383-662-9. Ambroise. L’estoire de la Guerre Sainte, édité par Catherine Croizy-Naquet. — Paris: Champion, 2014. — 1032 p. — (Les classiques français du Moyen Âge, 174). — ISBN 978-2745326119.

Bibliografia Kessler Ulrika. Ricardo I Coração de Leão: Rei. Cruzado. Aventureiro / Trad. do alemão para o russo por C. A. Prilipsky. — Kharkiv: Folio; Rostov do Don: Phoenix, 1997. — 480 p. — (Traço na história). — ISBN 966-03-0170-7. Pernu Régine. Cruzados / Trad. do francês para o russo por A. Yu. Karachinsky, Yu. P. Malinin. — São Petersburgo: Eurásia, 2001. — 320 p. — (Clio). — ISBN 5-8071-0072-7. Domanin A. A. Cruzadas. Sob a égide da cruz. — M.: ZAO Tsentrpoligraf, 2003. — 431 p. — (Enigmas da história). — ISBN 5-9524-0205-4. Granovsky, A. V. História do rei Ricardo I Coração de Leão. — Moscou: Russkaya Panorama, 2007. — 320 p. — (Sob o signo da cruz e da coroa). — 2000 exemplares. — ISBN 978-5-93165-126-2.