O acidente de Alcântara, também conhecido como tragédia de Alcântara, foi um grande incêndio seguido de algumas explosões, que destruíram o foguete brasileiro VLS-1 V03 em sua plataforma de lançamento no Centro de Lançamento de Alcântara, matando 21 técnicos civis.
O objetivo da missão, nomeada Operação São Luís, era colocar o microssatélite meteorológico SATEC do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e o nanosatélite UNOSAT da Universidade do Norte do Paraná em órbita circular equatorial a 750 km de altitude.
Antecedentes O foguete, proposto em 1979, teve até o acidente duas tentativas de lançamento: uma em 1997, que acabou no Oceano Atlântico devido ao não acionamento de um dos motores do primeiro estágio e outra em 1999, destruído de forma remota devido à penetração de uma chama na parte superior do bloco do segundo estágio 3 minutos após a decolagem.
Em 2000, segundo a revista Manchete, o sistema espião Echelon teria cometido espionagem industrial contra os sistemas do VLS. No ano seguinte, quando o lançamento ainda estava previsto para 2002, o Ministério da Ciência triplicou as verbas do programa e o CTA realizou testes bem sucedidos dos motores do VLS. Em novembro de 2002, o terceiro lançamento havia sido adiado de dezembro de 2002 para março de 2003.
Operação São Luís Além de ser o terceiro voo do VLS-1, a operação tinha como objetivos o lançamento dos satélites SATEC e UNOSAT; verificar a capacidade do CLA de realizar lançamentos do tipo e o uso do CLBI como estação de rastreio. O Satec, com o valor de R$ 500 mil, se utilizando de peças sobressalentes de outros programas, com uma vida útil de seis meses, pesando 65 kg com 66 cm de largura e profundidade, com 61 cm de altura, desenvolvido pelo Inpe, tinha como objetivo o de testar os equipamentos tecnológicos embarcados no foguete; o Unosat, desenvolvido pela Universidade do Norte do Paraná com apoio da AEB, entre outros, visava ser o primeiro nanossatélite brasileiro. A Operação São Luís visáva colocá-los em uma órbita circular de 15º e 750 km de altitude. O VLS-1 estava avaliado em R$ 21 milhões.
O transporte de materiais para o V03 foi iniciado em 23 de agosto de 2002 e interrompido em 16 de abril de 2003. A operação foi reiniciada dia 1 de julho, uma vistoria realizada no dia seguinte não encontrou nenhum problema e os satélites foram transportados no dia 30. Tribuna da Imprensa indica que o lançamento chegou a ser atrasado três vezes, inclusive em abril e maio, devido a, entre outros problemas, falhas na proteção do cluster de foguetes.
No dia 17 de agosto ocorreram duas simulações de lançamento, que levou que o lançamento fosse marcado para o dia 25. O Coronel Serre relata que não existiu pressão para acelerar o lançamento e ignorar as normas de segurança, visão expressa pelo então Ministro da Defesa, José Viegas, após o acidente. Entretanto, notícia da Agência Brasil, do dia 20 de agosto, diz que a data do dia 25 ainda não estava 100% confirmada. Dias antes do acidente, uma equipe de inteligência da Aeronáutica foi enviada para a Base de Alcântara com o objetivo de avaiar possíveis interferências no plano de lançamento. Um dos testes realizados foi a medição de ondas de rádio nos dias anteriores ao lançamento, não sendo encontrado nada suspeito na região.
Acidente thumb|Vista aérea do Centro de Lançamento de Alcântara durante o acidente
Após diversas operações na montagem, com os profissionais espalhados pelos cinco andares da Torre Móvel de Integração, o acidente ocorreu às 13h 26min 06s (horário de Brasília) do dia 22 de agosto de 2003, três dias antes da data prevista para o lançamento. Ficou registrado entre os quadros 26 e 27 gravados pelo circuito fechado de TV da Torre Móvel de Integração. Na hora do acidente, o foguete pesava 50 toneladas, sendo 90% de combustível sólido, perclorato de amônio.
Uma ignição não planejada, iniciada em um motor do primeiro estágio, incendiado após o disparo, destruiu o veículo de lançamento enquanto estava na plataforma do CLA. Os demais três motores, cada um contendo mais de sete mil quilos de propelente sólido, não foram acionados. 21 pessoas faleceram devido à ignição de um motor do primeiro estágio. Levou cerca de oito segundos até que a torre fosse envolvida pela fumaça e gases aquecidos até 3 000 °C. A torre móvel sustentou-se de pé por cinco minutos, tombando às 13h31.
Sobreviventes relataram o barulho de pelo menos um propulsor funcionado e diversos estrondos. Amauri dos Santos Conceição, técnico de segurança da base, relata em seu diário que ficou aguardando as autoridades removerem dois corpos visíveis, e depois ficou para tentar apagar os focos de incêndio e buscar outros sobreviventes. Encerrou suas atividades na torre de integração as 19h55.
Devido à escala do evento, os falecidos foram identificados via uma lista de chamada e os restos mortais foram identificados e enviados para o IML no dia 23 de agosto de 2003. No mesmo dia, a base foi reaberta para a imprensa. Podcast do Estadão relata que não existia uma lista de controle indicando quem havia entrado na base e quem estava trabalhando no foguete na hora do acidente. Foram necessários dois dias para localizar as 21 vítimas: no primeiro dia foram resgatados 2; no segundo, 7; no terceiro, 12 vítimas. Nos primeiros dias após o acidente, as vítimas eram dadas como "desaparecidas". A identificação dos restos mortais ocorreu com os objetos pessoais, arcada dentária e teste de DNA.
Ao mesmo tempo que ocorria o acidente, o presidente da AEB Luiz Bevilacqua, dava uma entrevista coletiva sobre o acordo firmado entre o Brasil e a Ucrânia para uso da base de Alcântara, que deu origem à empresa Alcântara Cyclone Space. Ao ser informado do acidente por jornalistas, ironizou dizendo "Só se for um foguete de São João". Minutos depois, um acessor confirmou o ocorrido com um bilhete. Foi identificado que o processo de ignição ocorreu antes da hora e com isso a torre de lançamento não foi retirada a tempo, sendo esta a principal causa do incêndio.
Nenhuma das ações realizadas no dia, envolvendo ajustes finais do equipamento e instalação de câmeras de vídeo, representavam risco, e o acidente atrasou consideravelmente o programa espacial brasileiro. Entretanto, o número de pessoas na base era muito acima das normas de segurança, que permitia a presença de, apenas, seis.
Reações Como reação imediata, o presidente Lula convocou uma reunião de emergência no Palácio do Planalto com o Ministro da Defesa José Viegas, decidindo que Viegas e Roberto Amaral, Ministro da Ciência, Viajariam para Alcântara no dia seguinte. André Singer, porta-voz da Presidência da República, foi o primeiro a se pronunciar no executivo. Ainda no dia 23, o presidente russo Vladimir Putin remeteu um telegrama ao presidente brasileiro expressando suas condolências. Lula não viajou junto de seus ministros pois estava com a presença marcada no funeral do diplomata Sérgio Vieira de Mello. Três dias depois, em viagem internacional, no Perú, o presidente Lula falou sobre o acidente com os jornalistas, após o presidente peruano Alejandro Toledo abrir a coletiva pedindo um minuto de silêncio pelas vítimas.
Presidente Lula e ministro Viegas rechaçaram a ideia de que o acidente tivesse acontecido devido a falta de financiamento, enquanto o major-brigadeiro Hugo de Oliveira Piva, idealizador do programa VLS, apontou o estrangulamento financeiro do programa desde o governo Sarney, que desde então viu o orçamento do programa caindo de US$ 521 milhões, para 285 milhões de dólares no governo Fernando Henrique Cardoso, como a causa principal do acidente, além de acreditar na possibilidade de erro humano.
Investigação thumb|Velório, com honras militares, de 19 vítimas ocorrido no dia 27 de agosto de 2003, no DCTA.
O velório das 19 vítimas, com honras militares, ocorrido no dia 27 de agosto de 2003 no DCTA, com as últimas duas sendo identificadas na tarde do mesmo dia, teve a presença do Governador de São Paulo Geraldo Alckmin, do Presidente Luis Inácio Lula da Silva. dos ministros José Viegas (Defesa), Roberto Amaral (Ciência e Tecnologia), presidente do Senado José Sarney e o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante. No total, cerca de 1 500 pessoas participaram do velório. No dia seguinte, ocorreu o funeral das duas últimas vítimas.
O Inquérito Policial Militar foi instaurado no dia 26 de agosto de 2003 e a Comissão Técnica de Investigação foi designada em 28 de agosto de 2003. A investigação teve participação da Rússia por pedido do ministério da Defesa, em especial do tenente-brigadeiro Luiz Carlos Bueno, em sua visita à Moscou no contexto do Programa F X da FAB, quando pediu três técnicos, sendo respondido com o envio de seis da Agência Aeroespacial Russa.
As famílias das vítimas chegaram a pedir por uma investigação independente, algo que o então presidente Lula não se pronunciou, mas que anunciou o envio de um projeto de lei para a indenização em R$ 100 mil das famílias das vítimas, aprovado pela Câmara dos Deputados em outubro do mesmo ano, além do pagamento de bolsas de estudo para os filhos. No fim, a investigação não foi independente, sendo presidida pelo brigadeiro Marco Antônio Couto do Nascimento, vice-diretor do CTA, e tendo representantes da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Uma Comissão Especial da Câmara dos Deputados visitou a base no dia 20 de outubro. A indenização foi aprovada pela Câmara no dia 28 de outubro de 2003. Apesar das evidências de espionagem francesa no Maranhão, não foram encontradas evidências de sabotagem. Acusações de sabotagem expressas dentro da Aeronáutica e por parlamentares chegaram a preocupar o Comando da Aeronáutica, que considerou que isso levaria o projeto a discredito, apesar de reconhecer a presença de estrangeiros e olheiros na área na época do acidente.
Em depoimento na Câmara dos Deputados em setembro de 2003, os ministros José Viegas Filho e Roberto Amaral anunciaram que as discussões para que os EUA utilizassem a base de Alcântara foram reiniciadas, além de descartarem a possibilidade de problemas elétricos no VLS. 32 dias após o acidente, o Major-Brigadeiro-do-Ar Thiago Ribeiro, diretor técnico do CTA, anunciou que o disparo do propulsor A de fato ocorreu por uma corrente elétrica de dentro do foguete, que ou foi repentina, de 1,2 âmpere, ou fraca e com cinco minutos de duração. Em outubro, foi anunciada uma parceria Brasil-Rússia para o desenvolvimento de um VLS com combustível líquido, e tecnologia russa, que com os acordos com a Ucrânia, também receberia transferência de tecnologia ucraniana.
O relatório foi apresentado pelos ministros da Defesa e da Ciência no dia 16 de março de 2004. A conclusão de tanto os investigadores brasileiros quanto russos foi de que a causa do acidente foi devido ao acionamento não planejado do propulsor A. Entre as possíveis causas da ignição, levantaram a possibilidade da eletricidade estática, com os especialistas russos notando a inexistência de uma ponte entre o propelente e a carcaça do propulsor, mas foi considerado um evento de baixa probabilidade devido a não ocorrência de raios no dia. A hipótese da descarga eletrostática foi considerada superior, devido à inexistência de uma barreira entre os propulsores do primeiro estágio. No geral, o relatório não identificou nenhuma "falha ativa" (erro ou violação) que fosse a causa do acidente. Porém, indicou que o orçamento limitado e a falta de pessoal como motivos para o evento. Em abril de 2004, a Agência Espacial chegou a indicar que era preferível cancelar o programa a continuar sem verba.