Albert K. Cohen (Boston, 15 de junho de 1918 - 25 de novembro de 2014) foi um importante criminologista norte-americano.
Biografia
Albert Cohen (1918-2014) nasceu em um bairro judeu na periferia de Boston. É filho de imigrantes. Seu pai era alfaiate e, embora sua família não fosse pobre, era bastante simples.
Cohen era um estudante excepcional e ingressou os estudos da graduação em Harvard. Seus pais não mediram esforços para pagar sua matrícula inicial, contudo Cohen conseguiu uma bolsa de estudos.
No seu segundo ano, ingressou em um curso de sociologia ministrado por Pitirim Sorokin. A necessidade de estudar a sociedade como um sistema total definido na história permaneceu com ele e foi reforçada pelos estudos de Talcott Parsons. Finalmente, Cohen teve como mentor Robert K. Merton em um curso que ele ingressou no seu último ano. Foi durante esse curso que o artigo fundamental do Merton emergiu: “Social Structure and Anomie”.
Fora desse ambiente intelectual extraordinário, Cohen desenvolveu o que ele chamou de “paixão” pela sociologia. Mas manteve o desinteresse do conhecimento pela criminologia.
Cohen se formou em Harvard em 1939 e, embora tivesse uma graduação com referências de Parson, Merton and Timasheff e fosse formado em uma universidade renomada, recebeu recusa atrás de recusa. Um membro de Harvard explicou que isso se deu porque Cohen era Judeu e que ele deveria estar preparado para enfrentar o preconceito durante toda a sua carreira acadêmica. Ainda, lembrou que havia cotas para entrada de Judeus nas universidades americanas. Um dos chefes do departamento de uma academia americana chegou a enviar uma carta a Cohen informando que mesmo ele sendo altamente recomendado tal atitude era contra a política da universidade admitir judeus.
Depois de um tempo, Cohen recebeu um telegrama da “Indiana University” de Edwin Sutherland oferecendo uma vaga de assistente. Edwin Sutherland era o mais famoso criminalista e foi autor influente no campo da sociologia na Índia. Foi esse o primeiro encontro de Cohen com a criminologia. Lá Cohen encontrou e se reuniu com uma gama de professores e estudantes que mais tarde tornar-se-iam famosos, como: Lloyd Ohlin, Lester Hewitt e o mais importante, Alfred Lindesmith.
A dissertação de mestrado de Cohen, “The differential Implementation of Criminal Law” surgiu do conceito do crime de colarinho branco de Sutherland. Cohen focou nas leis Anglo-saxônicas porque havia tratamento diferente de punição dependendo do status social daquele que cometeu o crime.
Cohen trabalhou durante um ano na “Indiana Boys School”, um instituto de correção juvenil, onde ele era o diretor de orientação, entrevistando cada menino que chegava sobre sua família, delinquência e experiência.
Durante a segunda guerra mundial, ele serviu como um oficial em uma unidade química nas Filipinas.
Cohen voltou para Harvard para fazer doutorado. No final do semestre ele sentiu que tinha a resposta para a questão que havia feito no primeiro ano da graduação, advinda de sua experiência trabalhando no Instituto de correção juvenil e lendo “Street Corner Society”.`
Em 1947, retorna a Indiana University. Em uma publicação escreveu em “The American Sociologial Review,” em 1948, como parte da discussão do artigo de Francis Merrill sobre a natureza dos problemas sociais, ele aponta que os nossos valores mais honrosos e queridos podem produzir consequências imprevistas e inesperadas, por vezes, de natureza deplorável (aqui verifica-se uma clara menção ao trabalho de Merton). Assim, ele põe fim a teoria adotada pelos funcionalistas e institui uma nova teoria desviante, na qual pessoas do bem podem ser cruéis, acabando com a ideia de que apenas pessoas cruéis causam crueldade. Ele coloca o conceito de “disorganisation” como uma explicação para o crime. Argumenta ainda, que em um sistema social estritamente ligado, muitos problemas sociais, normais e crônicos, são derivados de sistemas altamente organizados.
Ele termina sua tese de PhD denominada “Juvenile Delinquency and the Social Structure” em 1951. Trata-se de um trabalho excepcional dividido em 2 volumes: na primeira parte expõe sobre a teoria da subcultura (theory of subcultures), na segunda parte aplica os princípios dessa teoria para especificar o problema da delinqüência. Sua principal obra “Delinquent Boys: The Culture of the Gang” foi divulgada em 1955, segundo a qual, os problemas psicológicos que afetam os meninos são resultados de contradições sociais das suas experiências vividas inseridas dentro de uma sociedade e não apenas de seus problemas pessoais ou familiares, e sim da estrutura social como um todo. Antes de tudo, o livro é uma resposta para solucionar o problema que Cohen colocou em 1939 no seu primeiro seminário na Indiana University. No livro ele apresenta tanto a teoria da transmissão como as culturas originárias da delinquência, tenta explicar a delinquência na classe operária e na classe médica, as diferenças entre meninos e meninas e as relações masculinas com o crime.
O livro começa colocando em foco três aspectos da teoria da delinquência: o que seria o conteúdo da “delinquent subculture“. Sua descrição da teoria da subcultura é a antítese do modelo utilitarista e de meios-fins que Merton expôs em “Social Structure and Anomie”. Essas características Cohen chama de não utilitarista, maliciosa e negativista. Ou seja, defende que muitas vezes a delinquência não tem um fim utilitário, tem apenas o objetivo de causar riso, perturbação, problemas, ridicularizar regras e autoridades. Cohen caracteriza a subcultura como um ato de transgressão constituído pela inversão de valores da classe média. Merton, pelo contrário, defende que a delinquência é um ato proveniente da negação ao acesso das oportunidades, no qual, se busca, por meio dela, o caminho mais fácil para atingir o bem material.
Cohen afirma que são atos racionais. Os meninos de classe baixa visam reagir aos valores que eles consideram legítimos e autoritários pois o enxergam como uma ameaça. A classe baixa é mal preparada para enfrentar a competição da classe média, reagem a humilhação por um processo de “reaction formation”. Ao mesmo tempo, Cohen critica ferozmente quem vê a delinquência como uma manifestação do irracional.
É comum compararmos Cohen a Merton, mas, embora sejam similares no plano familiar e educacional, Merton escreveu sobre anomia durante a grande depressão e Cohen no pós guerra, durante o momento de prosperidade americana. Merton foi influenciado por Durkheim e Marx, enquanto Cohen foi influenciado por Sutherland, Parsons a ironicamente, por Merton. Para Merton é a legitimação da crise do sistema, já para Cohen a delinquência é um problema que ocorre em um sistema bem sucedido. Para Merton é uma contradição entre cultura e estrutura enquanto para Cohen é um problema entre culturas.
Em 1964, Cohen decidiu sair da Indiana porque não estava mais feliz e porque não poderia mais passar o resto da sua carreira ali, então, mudou-se para University of Connecticut.
Em 1965 teve sua primeira publicação, altamente inovadora, “The Sociology of the Deviant Act: Anomie Theory and Beyond”. Cohen explora as situações onde atos punitivos e vingativos causados por desviante não demonstra conflito aparente de interesses. Ele desenha o conceito de “ressentiment”, uma ideia com genealogia fascinante de Nietzche, Scheler e Sombart.
Em dezembro de 1972 Cohen ministrou uma palestra em Oxford intitulada de “The Elasticity of Evil” que foi publicada em forma de panfleto dois anos depois pela “Penal Research Unit”. É um bom estudo que altera as definições do bem e do mal e o jeito em que cada um deles influencia em nossa identidade.
Em janeiro de 1973, em uma visita à Inglaterra, ele participou da National Devancy Conference intitulada de “The policy and Ideological Implications of the New Deviancy Theory”.
Em 1988 aos 70 anos sai da universidade de Connecticut como professor emérito e vive para cuidar de sua mulher doente.
Cohen influenciou na teoria da subcultura e sua acusação sobre a teoria multifatoral é muito relevante até hoje, visto que colabora para o entendimento da cultura desviante.
Introdução às teorias The study of social problems – discussion – Albert K. Cohen – Indiana University
A tese é sobre o papel dos valores que se divide em duas vertentes: (1) em definir situações e comportamento como problemas e (2) bloqueiam a solução. Ele afirma que há um conflito entre o comportamento e o valores, mas o seu foco está no gerador dos problemas sociais, que são produtos de uma sociedade dinâmica na qual comportamento muda mais rápido do que os valores que definem isso.
Dentre as opções geradoras: a) Comportamento em conformidade com aqueles valores mais honrados e amados podem produzir consequências imprevisíveis e involuntárias. Quando isso acontece se tem as situações mais deploráveis e mais problemáticas; e b) Comportamento de acordo com instituições sagradas podem gerar situações de tensão que resultam na criação de sistema de valores e até subculturas antiéticas.
Esses sistemas de valores depravados, subculturas e situações-problema em certos casos são o preço necessário e a pré condição para se ter estabilidade e preservação da instância de poder.
IMPORTANTE: problemas sociais são funções de uma estrutura altamente integrada ao sistema social.
Assim, os valores bloqueiam as soluções para os problemas sociais. E os sociólogos tentam descobrir as causas para poder eliminar ou até mesmo controlar, sem que as instituições sejam santificadas. Porém esse trabalho é demorado.
As pessoas estão insatisfeitas com certas coisas e querem que algo seja feito a esse respeito.
Cohen contraria a ideia do Professor Merrill, de que problemas sociais e desorganização social são formas complementares de se descrever a mesma coisa, pois não se sabe exatamente o que “social desorganization” significa.
Cohen defende que se organização é um sistema no qual uma ação é determinada e estável, então, problemas sociais incidentes são normais em um sistema de alta organização.
Merrill diz que delinquência, psicose, conflitos familiares são funções de uma estrutura da total personalidade (estrutura da total situação). Esse sistema inclui elementos – estratificação social, realeza, ocupacional e de diferença sexual/idade – que são essenciais na determinação da personalidade e da conduta.
Principais Obras Deliquent boys An Unsolved Problem in Juvenile Delinquency
Albert Cohen inicia o livro “Delinquent boys” determinando a diferença entre cultura e subcultura (subculture). O primeiro conceito caracteriza-se por ser o conjunto de conhecimentos, crenças, valores, códigos, gostos e prejuízos de uma sociedade. Já o segundo é a cultura existente dentro de determinado grupo o qual faz parte de uma sociedade maior a qual possui uma cultura própria. Em outras palavras, cada grupo possui maneiras próprias de pensar e agir a ponto de especificar a cultura geral.
Vale destacar que para fazer parte de um grupo que vive conforme determinada subcultura é preciso tornar-se parte de uma coletividade que já baseie suas crenças e atitudes no padrão cultural específico. Nesse sentido “deliquent subculture” é um modelo de viva que se tornou tradicional em certos grupos – chamados pelo autor de “boys’ gangs” – na sociedade estadunidense, principalmente nas “deliquency neigborhoods” das grandes cidades do país.
Existem diversas teorias de como e porque um jovem se torna um “deliquent boy”. Duas categorias principais podem ser determinadas: uma baseada na “cultural transmission” e outra em “psychogenic factors”. Dentro das defesas de caráter cultural, há teses baseadas na ideia de que o fator determinante para um jovem tornar-se delinquente relacionar-se-ia com o grau de exposição dele à “deliquent subculture”. Nessa óptica estariam excluídos fatores de caráter psicológico e de personalidade.