Febre zica ou febre zika, também denominada febre por vírus zica, é uma doença causada pelo vírus zica. A maior parte dos casos não apresenta sintomas. Quando se manifestam, são geralmente ligeiros, podem se assemelhar aos da dengue e geralmente têm duração inferior a sete dias. Os sintomas podem incluir dores de cabeça leves, febre baixa, mal estar, dores nas articulações leves, conjuntivite, prurido e exantema maculopapular. A doença ainda não causou mortes registadas durante a infeção inicial. A infeção tem sido associada à síndrome de Guillain-Barré.

A febre por vírus zica é transmitida principalmente pela picada dos mosquitos do género Aedes. Pode também ser potencialmente transmitida por contacto sexual e transfusões de sangue. A doença pode também ser transmitida de mãe para filho durante a gravidez e causar microcefalia. O diagnóstico é feito com análises ao sangue, urina ou saliva, que detectam a presença do ARN do vírus quando a pessoa está doente.

A prevenção envolve a diminuição das picadas dos mosquitos em áreas onde ocorre a doença. Entre as principais medidas estão a utilização de repelente de insetos, cobrir a maior parte do corpo com roupa, redes mosquiteiras e eliminação de águas estagnadas onde os mosquitos se reproduzem. Não existe vacina eficaz. As autoridades de saúde recomendam que as mulheres nas áreas afetadas por surtos considerem adiar a gravidez e que as grávidas não viajem para áreas onde estejam a ocorrer surtos. Embora não exista tratamento específico, o paracetamol pode ajudar a aliviar os sintomas. Raramente é necessário tratamento hospitalar.

O vírus que causa a doença foi isolado pela primeira vez em 1947. O primeiro surto documentado entre pessoas ocorreu em 2007 nos Estados Federados da Micronésia. À data de janeiro de 2016, a doença ocorria em vinte regiões do continente americano. Há também ocorrências conhecidas na África, Ásia e Pacífico. Devido a um surto que teve início no Brasil em 2015, e com a suposta correlação com casos de microcefalia registrados em recém-nascidos de mães que tiveram a doença, a Organização Mundial de Saúde declarou em fevereiro de 2016 a febre por vírus zica uma emergência de saúde pública global.

Sinais e sintomas thumb|Principais sintomas da febre Zika

Aproximadamente 80% das pessoas infectadas não desenvolvem manifestações clínicas. Nos casos sintomáticos, costumam ocorrer dores de cabeça leves, febre baixa, mal-estar, dor articular leve, conjuntivite, prurido e exantema maculopapular (erupção cutânea que não se eleva acima da superfície da pele). Ainda se desconhece o intervalo de tempo entre a picada e o início dos sintomas, mas provavelmente situa-se entre alguns dias e uma semana. A doença dura entre 3 e 7 dias, costuma causar sintomas leves e raramente requer atendimento hospitalar. Só existe um caso documentado de hemorragia, com sangue no sémen.

Síndrome de Guillain-Barré As infeções por vírus zica têm sido associadas à síndrome de Guillain-Barré (SGB), que é a fraqueza muscular de início rápido que pode progredir para paralisia. Embora ambas possam ocorrer na mesma pessoa ao mesmo tempo, é difícil apontar conclusivamente o vírus zica como causa da SGB. Vários países afetados pelos surtos de zica têm relatado aumentos nos casos de SGB e há registo na Colômbia de 3 mortes devido a SGB relacionada com o zica.

Gravidez

Acredita-se que a doença possa ser transmitida de mãe para filho durante a gravidez e causar microcefalia. Até 2015, existiam poucos casos relatados na literatura científica.

Em novembro de 2015, o Ministério da Saúde do Brasil detectou na Região Nordeste dois casos de fetos com microcefalia grave e presença de vírus zica no líquido amniótico confirmada por amniocentese. Em ambos os casos, as ecografias demonstraram que o perímetro cefálico reduzido (microcefalia) se devia à destruição de diversas partes do cérebro. Um dos fetos também apresentava calcificações nos olhos e microftalmia. O Ministério reportou posteriormente pelo menos 2400 casos suspeitos de microcefalia no país até 12 de dezembro de 2015 e 29 mortes. Debora Diniz, antropóloga brasileira, tem arletado sobre o risco de uma contaminação mundial devido ao alastramento no nordeste brasileiro. Uma equipe de cientistas, incluindo a Escola de Saúde Pública de Yale, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Federal da Bahia e a Universidade Rockefeller, descobriram que as mães produzem alguns anticorpos para combater a infecção pelo zika. E, segundo os cientistas, os anticorpos eram possíveis culpados que contribuíam para os defeitos congênitos. Causas

Reservatório natural

O vírus zica é um flavivírus transmitido por mosquitos, bastante relacionado com o vírus da dengue. Embora os mosquitos sejam o vetor, o reservatório natural ainda é desconhecido, embora tenham sido encontradas evidências serológicas em macacos e roedores da África ocidental.

Transmissão A transmissão da doença dá-se através da picada de mosquitos do género Aedes, principalmente o Aedes aegypti em regiões tropicais. A doença foi também isolada nas espécies Ae. africanus, Ae. apicoargenteus, Ae. luteocephala, Ae. vittatus e Ae. furcifer. Durante o surto de 2007 na ilha de Yap no Pacífico sul, o vetor foi o Aedes hensilli, enquanto na Polinésia Francesa em 2013 o vetor foi o Aedes polynesiensis.

Existem relatórios de dois casos de possível transmissão por via sexual e casos de transmissão perinatal. Tal como outros flavivírus, pode ser potencialmente transmitido por transfusões de sangue e vários países afetados têm vindo a tomar medidas para realizar rastreio a dadores de sangue.

Diagnóstico

É difícl realizar o diagnóstico de febre por vírus zica com base apenas nos sinais e sintomas clínicos devido à semelhança com outros arbovírus endémicos de regiões semelhantes. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americanos recomendam que "com base nas características clínicas típicas, o diagnóstico diferencial para a infeção por vírus zica é amplo. Para além da dengue, são consideradas outras infeções como leptospirose, malária, rickettsia, rubéola, Streptococcus pyogenes, sarampo e infeções por parvovírus, enterovírus, adenovírus e alfavírus (por exemplo, chicungunha, febre de Mayaro, febre do rio Ross, vírus da floresta de Barmah, vírus O'nyong-nyong e vírus Sindbis)."

Em pacientes com doença aguda, o vírus zica pode ser identificado através de RT-PCR. No entanto, o período de viremia pode ser curto e a Organização Mundial de Saúde recomenda que as análises RT-PCR sejam feitas em amostras de soro recolhidas entre 1 a 3 dias após o aparecimento de sintomas, ou em amostras de urina recolhidas nos primeiros 3 a 5 dias. Posteriormente, pode ser utilizada serologia para deteção de anticorpos IgM e IgG específicos do vírus zica. Os anticorpos IgM são detetáveis até 3 dias após o aparecimento da doença. No entanto, é possível a ocorrência de reações serológicas cruzadas com flavivírus semelhantes, como os da dengue e do Nilo Ocidental. Estão disponíveis ensaios para os anticorpos do vírus zica, embora a sua comercialização ainda não tenha sido aprovada.

Rastreio na gravidez

O CDC recomenda o rastreio em algumas mulheres grávidas, mesmo que não apresentem sintomas ou infeção. As grávidas que tenham viajado para regiões afetadas devem ser testadas entre uma e doze semanas depois do regresso da viagem. Devido à dificuldade na interpretação das análises para o vírus do zica, o CDC também recomenda que os prestadores de cuidados de saúde contactem as autoridades para pedir assistência. Para mulheres que vivam nas regiões afetadas, o CDC recomenda que sejam feitos exames durante a primeira consulta ou a meio do segundo semestre, embora isto possa ser ajustado mediante os recursos locais disponíveis e o custo económico local do vírus. Se existirem sinais da doença por vírus zica, deverão ser realizados exames adicionais. As mulheres com resultados positivos devem ter o feto monitorizado por ecografia a cada três ou quatro semanas, de modo a acompanhar a anatomia e crescimento do bebé.

Rastreio em crianças

Nas crianças em que haja suspeita de doença congénita provocada pela febre zica, o CDC recomenda exames tanto serológicos como moleculares, como o RT-PCR, ELISA IgM e o teste de neutralização por redução de placas (PRNT). Os recém-nascidos de uma mãe que tenha sido potencialmente exposta ao vírus e que tenham tido resultados positivos nas análises ao sangue, microcefalia ou calcificações intracranianas devem realizar mais exames, incluindo uma investigação detalhada para anormalidades neurológicas, características dismórficas, esplenomegalia, hepatomegalia e exantema ou outras lesões da pele. Entre outros exames recomendados estão a ecografia craniana e avaliação da audição e visão. Devem ser realizados exames a todas as anomalias encontradas, assim como a outras potenciais infeções congénitas, como sífilis congénita, toxoplasmose, rubéola, infeções por citomegalovírus, coriomeningite linfocitária e herpes simplex virus.

Prevenção

O vírus é transmitido por mosquitos, o que faz do evitar o mosquito um elemento fundamental do controlo da doença. O CDC recomenda que : As pessoas cubram a pele exposta, vestindo camisas de manga comprida e calças compridas; Seja usado repelente de insetos que contenha DEET, icaridina, p-Menthane-3,8-diol ou IR3535 e que seja reaplicado no intervalo de tempo determinado nas instruções; No caso de utilizar protetor solar em conjunto com repelente de insetos, seja primeiro aplicado o protetor, deixar secar e só depois aplicar o repelente: Não seja aplicado repelente nas mãos, olhos ou boca das crianças; As pessoas permaneçam em espaços com ar condicionado ou protegidos por redes mosquiteiras; Sejam usadas redes mosquiteiras na cama, no caso do quarto estar exposto ao exterior.

O CDC também recomenda estratégias para controlo dos mosquitos, como a eliminação de poças de água estagnada, a reparação das fossas séticas e a proteção de portas e janelas com redes mosquiteiras. Em contentores de água podem ser usados larvicidas, enquanto que os mosquitos em voo podem ser mortos com inseticida.

Uma vez que o vírus zica pode ser transmitido por via sexual, recomenda-se que as pessoas que tenham viajado para regiões onde a doença esteja a ocorrer, ou que tenham contacto com quem tenha viajado, que usem sempre preservativo. No caso da mulher estar grávida, devem-se abster de relações sexuais ou usar igualmente preservativo.

Alerta de viagens

Devido ao aumento do número de evidências da relação entre o vírus zica e microcefalia, o CDC emitiu um alerta de viagem que aconselhava as grávidas a considerar adiar a deslocação para os seguintes países e territórios: Cabo Verde Caraíbas, incluindo Barbados, Curaçao, República Dominicana, Guadalupe, Haiti, Jamaica, Martinica, Porto Rico, Ilha de São Martinho e Ilhas Virgens Americanas; América Central, incluindo Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá; México Ilhas do Pacífico, incluindo Samoa Americana, Samoa e Tonga; América do Sul, incluindo Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Guiana, Paraguai, Suriname e Venezuela As autoridades de saúde também recomendam que as mulheres que estejam a considerar uma gravidez consultem um médico antes de viajar.

Tratamento

Não existe atualmente tratamento específico para a infeção por vírus zica. Os cuidados de apoio consistem no alívio da dor, febre e prurido. Algumas autoridades de saúde recomendam que não sejam tomadas aspirinas ou outros anti-inflamatórios não esteroides, uma vez que estes têm sido associados a síndrome hemorrágica quando usados em outros flavivírus. Para além disso, o uso de asprina não é recomendado em crianças devido ao risco de síndrome de Reye.