D. Catarina Micaela de Sousa César e Lencastre (Guimarães, 29 de setembro de 1749 - Porto, 4 de janeiro de 1824), 1.ª viscondessa de Balsemão, foi uma poetisa consagrada na sua época. Grande parte dos seus poemas e a totalidade das peças de teatro permanecem em manuscrito.

Vida e obra Catarina Micaela de Sousa César e Lencastre nasceu em Guimarães, a 29 de Setembro de 1749, dia de São Miguel, anjo que lhe ficou no nome.Livro de Assentos de Nascimentos, do Arquivo de Guimarães, Freguesia de S. Sebastião, Livro 8º, 20/4, anos 1744-21/3/1756, f. 123 v.

Eram muitos os membros da família que juntavam o prestígio político à atividade literária. Algumas composições de seu pai circularam impressasGuimarães Agradecido, Applauzo metrico, que a celebre Academia da mui notavel Villa de Guimarães recitou na presença e em louvor do Sere.mo Snr. D. Joze, Arcebispo e Senhor de Braga, Coimbra, Real Collegio das Artes da Companhia de Jezus, 1747-1749, vol. I, p. 166 ss, p. 180 ss. et passim e era sobrinha-neta da escritora Soror Maria do Céu.

Por algumas dessas razões, Catarina de Sousa desde muito jovem contactou com os círculos literários da sua época. Embora não se conheçam composições suas dessa primeira fase, Nicolau Tolentino referiu, mais tarde, os seus talentos juvenis,Nicolau Tolentino [de Almeida] (1861), Obras Completas de, Lisboa, Typ. de Castro, & Irmão, p. 86. e João José Pinto de Vasconcelos, o único que a crisma com o nome de Célia, parece confirmá-lo: "Preclara, sábia Célia, a quem Minerva/ Prepara desde o berço/ Por teus sublimes dotes...".João José Pinto de Vasconcelos (1793), Collecção de Prozas, e Versos, Lisboa, Off. Antonio Gomes, p. 45). Casa por procuração com Luís Pinto de Sousa Coutinho, herdeiro da Casa de Balsemão, a 21 de Agosto de 1767O registo encontra-se no Arquivo Municipal Alfredo Pimenta em Guimarães. de quem se conhece também alguma obra poética. Iria em 1774 para Inglaterra com o marido, então enviado extraordinário e depois ministro plenipotenciário na corte de Londres, tendo por isso muitos dos filhos nascido em Inglaterra.Albano Silveira Pinto (1883), Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal, Lisboa, Emp. Ed. Francisco Arthur da Silva, pp. 201-208

Catarina de Lencastre, pouco após ter chegado a Londres, tomou a resolução de não aparecer em sociedade durante um ano, preparando leituras, aprendendo línguas, só depois abrindo as portas da sua casa.José Osório (1845), Illustração. Jornal Universal,vol. I, pp. 127-128 Não deixa de vir pontualmente a Portugal, talvez acompanhando o marido, a quem cabem cada vez mais responsabilidades políticas. Luís Pinto de Sousa é o embaixador encarregado de negociar em Madrid o casamento do Príncipe D. João com a Princesa D. Carlota Joaquina; em 1788, é titular da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra; em 1800, chega a Ministro do Reino. Por decreto de 14 de agosto de 1801, recebe o título de 1.º Visconde de Balsemão.

A esse protagonismo político de Luís Pinto de Sousa parece corresponder uma cada vez maior visibilidade social e literária de Catarina de Lencastre. É de 1788 a primeira compilação que conhecemos dos seus poemas. Seria a primeira de muitas coleções de manuscritos, quase sempre apógrafos, da responsabilidade de amigos, já que muitas vezes improvisava e outros escreviam o que ditava. Nos salões literários de Lisboa, foi dialogando em relação de igualdade com outros poetas: Bocage, Nicolau Tolentino de Almeida, António Ribeiro dos Santos, Teresa de Melo Breyner, Joana Isabel Forjaz, Manuel Silva Alvarenga, Curvo Semedo, José Agostinho de Macedo, etc. Algumas composições suas seriam por isso editadas postumamente e atribuídas a outros. É o caso do soneto "Fecunda Natureza, em vão procura/ Contigo competir arte engenhosa", que figura nas obras impressas de Leonor de Almeida (Marquesa de Alorna). Ou o do soneto "Zoroastro na Pérsia, Hermes no Egipto,/ No símbolo da luz, no da serpente/ Ao mundo deram leis", ainda hoje nas poesias de Paulino António Cabral, mais conhecido por Abade de Jazente. Envolve-se aparentemente até em algumas decisões políticas, a que aludem, por exemplo, alguns poemas da Marquesa de Alorna ou comentários de Filinto Elísio, Francisco Manuel do Nascimento.

Depois do falecimento do marido, em 1804, o ritmo de produção e o número de compilações parece até aumentar. Os temas das suas poesias foram-se tornando cada vez mais políticos. Primeiro a Revolução Francesa, a Guerra das Laranjas, e depois da partida da corte para o Brasil, as invasões francesas, a revolta do Sinédrio (e ainda o recrudescimento das cisões políticas que levarão Portugal à guerra civil entre miguelistas e liberais), são episódios que vão inspirando muitos dos seus poemas heróicos. Catarina de Lencastre lamentava então a impossibilidade de as mulheres defenderem com a espada os seus ideais: “Se aos campos, aonde ides colher louros,/ Eu seguir-vos pudera […]".

Mas cantaria sempre, e até muito tarde, o sentimento amoroso, ainda quando a velhice foi tolhendo a agilidade da mão. Entre Lisboa, Porto, Lamego ou São João da Pesqueira, ora louvava os heróis, a urgência da luta pela liberdade, ou a legitimidade de D. Miguel, ora se enternecia pela delicadeza da luz na paisagem, ou do gesto de uns morangos oferecidos.

Em 1821, com quase 72 anos, subiu ao palco do Teatro de São Carlos, em Lisboa, para cantar os libertadores da Pátria que pedem o regresso do Rei a Portugal. Escreve o neto da Marquesa de Alorna nas suas Memórias: "Vi muitas vezes a velha Viscondessa de Balsemão, viúva do famoso Ministro Luiz Pinto, avó do actual Visconde, contemporânea e amiga de minha Avó e sua rival como poeta, bater as palmas, pedir silêncio à plateia e recitar varias odes e sonetos em louvor do General em chefe do Exército revolucionário, Gaspar Teixeira, seu próximo parente".

No final do ano de 1823, fica acamada. Passa o novo ano já muito doente. Depois de sacramentada, poucas são as forças que lhe restam. Mas gasta-as a ditar poemas ao confessor que lhe dá a extrema-unção:

Poucos poemas viu editados em vida. Morreu a 4 de janeiro de 1824, Os poemas que ditou à hora da morte (os primeiros compilados e impressos) sairiam num jornal do Porto, a 6 de janeiro de 1824.Correio do Porto, 6 de Janeiro de 1824, p. 20.

Da fama que outrora teve restam os manuscritos. Alguns estrangeiros (que, nos anos 20 do século XIX, se interessam pela historiografia literária de Portugal) referem-na, mas com alguns erros: leia-se Balbi ou Bouterwek. Garrett ainda recorda Catarina de Lencastre no Parnaso Lusitano. Mas vão-se gorando os projetos de impressão da sua obra lírica e dramática. Alguns críticos mais curiosos continuam a consultar as coleções d manuscritos da família, mas serão cada vez menos ao longo do século XIX: o espanhol Antonio Romero Ortiz, os portugueses José Osório, Francisco da Silva Inocêncio e sobretudo D. António da Costa, que consultou com algum pormenor as 5 coleções de manuscritos guardadas pela família.

A historiografia do século XX oscila entre o silêncio absoluto e o esforço de revisitação da sua obra manuscrita, a que juntam por vezes a tentativa de impressão dos inéditos: citem-se as alusões de Mendes dos Remédios, e as transcrições de Teresa Leitão de Barros, ou António Salvado.Antologia da Poesia Feminina Portuguesa, s.l., E.F./ Typ. do Jornal do Fundão, s.l., pp. 78-85 Mas os exemplos são exceções. Também por isso Catarina de Lencastre acaba por não aparecer citada nas mais comuns Histórias da Literatura Portuguesa.

Desse silêncio a vão resgatando ultimamente alguns estudos: os de Zenóbia Cunha e Maria Luísa Malato Borralho.Borralho, M. Luísa Malato (2008), “Por acazo hum viajante…”. A vida e obra de Catarina de Lencastre, 1.ª Viscondessa de Balsemão (1749-1824), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

A edição dos muitos inéditos da sua obra resta todavia por fazer. Ela própria tinha já resumido assim a sua vida:

Bibliografia impressa "Ode a Mirtillo (de Corinthia)", apud Luis Rafael Soyé (1787), Sonho. Poema Erotico que as beneficas mãos de nosso Augusto e Amabilissimo Principe do Brasil off...., Lisboa, Off. Patriarcal de Francisco Luis Ameno, pp. LV-LVII Aos Amigos da Pátria, s.l., s.d. [1808?] O Reconhecimento dos nossos fiéis alliados, s.l., s.d.[1808?] Ode na Morte do Marquez de Pombal. Começa "Não de bronzes ou mármores antigos", Collecção de poesias inéditas dos melhores authores portuguezes, Lisboa, Off. de Joaquim Rodrigues d'Andrade, 1810, tomo II, p. 10 Soneto que se recitou no Real Theatro de S. João da Cidade do Porto por motivo da feliz Acclamação de Suas Magestades Fidelissimas no sempre memoravel dia 4 de Junho de 1823, Porto, Typ. Viúva Alvarez Ribeiro & Filhos, 1823. Existe outra edição do mesmo soneto: Lisboa, Regia Typ. Silviana, 1823. Soneto da Ex.ma Viscondessa de Balsemão, D. Catharina ["Tu que reges, Senhor, altos destinos"], Porto, Imp. na rua de Santo António, 1823 Correio do Porto, 5 e 6 de Jan. 1824 "Tempere a Lyra em tom alti-sonante", apud Filinto Elysio (1837), Obras de..., nova ed., Lisboa, Typ. Rollandiana, tomo IV, pp. 229–234 Soneto de D. Catharina Michaela de Souza Cezar e Lencastre, Dama de S. João de Jerusalem, e pimeira [sic] Viscondessa de Balsemão, por ella feito, e recitado em seus ultimos momentos, glosado por Francisco Joaquim Bingre em 2 de Dezembro de 1845. Aos oitenta e trez annos de sua idade, Aveiro, Typ. do Governo Civil, 1846 Miscelânea poética. Jornal de poesias inéditas. Primeira Collecção publicada de Jan. a Junho de 1851, Porto, Loja de F. G. da Fonseca, 1851, p. 33, p. 81, p. 90, p. 113 Miscelânea poética. Jornal de poesias inéditas. Segunda Collecção publicada de Julho de 1851 a Agosto de 1852, Porto, Loja de F. G. da Fonseca, 1852, p. 89 Sapho. Quadras [começam "Sapho ao mar se precipita"] in Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro para o ano de 1863, org. Alexandre Magno Castilho, Lisboa, Imprensa Nacional, 1862, p. 376 Costa, D. António da (1892), A Mulher em Portugal. Obra posthuma publicada em benefício de uma creança, Lisboa, Typ. da Comp. Nac. Editora, 1892, p. 213 ss.. Com as composições Canção "Constância, coração! Que mais te assusta?", "Enfim, rispido Elmano, estão quebrados", "Desce do céu, ó Musa encantadora", "Houve tempo em que eu cantava", Voltarete ["Não canto a guerra"], "Passei dos anos a estação primeira", "Um rato destruidor", "Grande entre os grandes, de constância armado" [soneto ao Marquês de Pombal], "Qual a nau que dos ventos combatida", Ode/ Composta ha mais de 120 annos/ por/ D. Catharina Michaela de Sousa Cesar de Lencastre/ Viscondessa de Balsemão/ e agora impressa/ por occasião do casamento/ da Ex.ma Sr.ª/ D. Margarida Pinto de Sousa Coutinho/ filha do bisneto da auctora/ o actual Visconde de Balsemão/ com o Ex.mo Sr./ Dr. Joaquim Luiz Fernandes/ aos 8 de Julho de 1909, s.l., 1909 [Contém breve biografia da autora] Soneto que começa "Grande Deos, que do alto d'esse throno" in José Osório (1845), Viscondessa de Balsemão, "Illustração, Jornal Universal", Lisboa, vol. I, p. 127-128. Uma Paixão [Soneto "Inda existe, cruel, inda em meu peito"], Miscelânea poética. Jornal de poesias inéditas. Primeira Collecção publicada de Jan. a Junho de 1851, Porto, Loja de F. G. da Fonseca, 1851, p. 33 Salvado, António (s.d.), Antologia da poesia feminina, s.l., Ed. Jornal do Fundão, p. 85 ss.

Dados genealógicos Era a décima filha, ou décima primeira, dos Senhores de Vila Pouca, Francisco Filipe de Sousa da Silva Alcoforado e Dona Rosa Maria de Viterbo de Alencastre, casados há já dezanove anos, e neta, por parte materna, dos terceiros Viscondes de Asseca. Pertencia assim, por via paterna, a uma das famílias portuguesas "que vemos mais liadas por casamentos com as principais do Reino".Bezerra, Manuel (1785-1791) Os Estrangeiros no Lima, Coimbra, Real Officina Universitaria, vol. I, p. 418

Foi casada comː