Abu Maomé Alhaçane ibne Abi Alhaija Abedalá ibne Hamedane Ataglibi (; m. 968/9), melhor conhecido por seu lacabe (epíteto honorífico) Nácer Adaulá (, Naṣr ad-Dawla, "defensor da dinastia [abássida]), foi o segundo governante hamedânida do Emirado de Moçul, que compreendeu boa parte da Jazira (Alta Mesopotâmia).
Como o membro sênior da dinastia hamedânida, herdou a base de poder da família em torno de Moçul de seu pai, e foi capaz de assegurá-la contra as ameaças de seus tios. Haçane envolveu-se nas intrigas cortesãs do Califado Abássida em Baguedade, e, entre 942 e 943, com ajuda de seu irmão Ali (conhecido como Ceife Adaulá), estabeleceu-se como emir de emires, ou o regente de facto do califa. Foi repelido para Moçul por tropas turcas e suas tentativas subsequentes para desafiar os buídas que tomaram controle de Baguedade e do Iraque Inferior terminaram em fracassos repetidos. Por duas vezes sua capital foi capturada por forças buídas, que foram, contudo, incapazes de derrotar a oposição local a seu regime. Como resultado desses fracassos para reter o poder, Nácer Adaulá declinou em influência e prestígio. Ele foi eclipsado pelas ações de seu irmão Ali, que estabeleceu seu domínio mais firmemente sobre Alepo e o norte da Síria. Depois de 964, o filho mais velho de Nácer Adaulá, Abu Taglibe, exerceu controle de facto sobre seus domínios, e em 967, Abu Taglibe e seus irmãos depuseram e aprisionaram seu pai, que morreu em cativeiro um ou dois anos depois.
Vida
Origem e família
thumb|upright=1.05|esquerda|Árvore genealógica dos hamedânidas thumb|upright=1.05|esquerda|Dinar de ouro de Almoctadir com os nomes de seu herdeiro Abu Alabás e vizir Amide Adaulá thumb|esquerda|upright=1.05|Dinar de ouro de Alcair
Nácer Adaulá nasceu Haçane ibne Abedalá, o filho mais velho de (m. 929), filho de Hamedane ibne Hamedune ibne Alharite, que deu seu nome à dinastia hamedânida. Os hamedânidas foram um ramo dos taglibitas, uma tribo árabe residente na Jazira (Alta Mesopotâmia) desde tempos pré-islâmicos. Os taglibitas tradicionalmente controlaram Moçul e sua região até o final do , quando o governo abássida tentou impor controle firme sobre a província. Hamedane ibne Hamedune foi um dos mais determinados líderes taglibitas em oposição a este movimento. Notadamente, em seu esforço para afastar os abássidas, assegurou uma aliança com os curdos residentes nas montanhas ao norte de Moçul, um fato de considerável importância na fortuna posterior de sua família. Os membros da família casaram-se com curdos, que também eram proeminentes no exército hamedânida.
As possessões de Hamedane foram capturadas em 895 pelo califa abássida Almutadide , e Hamedane foi forçado a render-se próximo de Moçul após uma longa perseguição. Ele foi colocado na prisão, mas seu filho Huceine ibne Hamedane, que havia rendido a fortaleza de Ardumuxte às forças califais, conseguiu assegurar o futuro da família. Ele reuniu tropas entre os taglibitas em troca de remissões de tributos, e estabeleceu um crescente influência na Jazira ao atuar como mediador entre as autoridades abássidas e a população árabe e curda. Foi essa forte base local que permitiu a família sobreviver seu relacionamento muitas vezes tenso com o governo abássida em Baguedade durante o começo do . Huceine foi um general bem-sucedido, distinguindo-se contra os carijitas e tulúnidas, mas foi desgraçado após apoiar a usurpação fracassada de Abedalá ibne Almutaz em 908. Seu irmão mais jovem Ibraim foi governador de Diar Rebia (a província entorno de Nísibis) em 919 e depois de sua morte no ano seguinte foi sucedido por outro irmão, Daúde. O pai de Haçane, Abedalá, serviu como emir (governador) de Moçul em 905/6–913/4, mas foi repetidamente desgraçado e reabilitado a medida que a situação política mudou em Baguedade até reassumir o controle de Moçul em 925/6. Gozando de firmes relações com o poderoso comandante do exército califal, Munis Alcadim, em 929 desempenhou um papel proeminente na usurpação de curta duração de Alcair (que mais tarde reinaria como califa em 932–934) contra Almoctadir , e foi morto durante sua supressão. Segundo o estudioso Marius Canard, Abdealá estabeleceu-se como o membro mais proeminente da primeira geração da dinastia hamedânida, e foi essencialmente o fundador do Emirado de Moçul hamedânida.
Consolidação do controle sobre a Jazira
thumb|upright=1.05|Dinar de ouro de Arradi thumb|upright=1.05|Jazira (Alta Mesopotâmia), a base de poder dos hamedânidas
Durante sua ausência em Baguedade em seus anos finais de 920/921 em diante, Abedalá relegou a autoridade sobre Moçul para Haçane. Depois da morte de Abedalá, contudo, Almoctadir aproveitou a oportunidade para vingar-se dos hamedânidas, e nomeou um governador para Moçul, enquanto os domínios de abedalá foram divididos entre seus irmãos sobreviventes. Confrontado pelas reivindicações de seus tios, Haçane foi deixado em carto de uma pequena porção, sobre a margem esquerda do Tigre. Em 930, depois da morte do governador califal, Haçane conseguiu reganhar o controle sobre Moçul, mas seus tios Nácer e Saíde logo removeram-no do poder e confinaram-no às porções ocidentais de Diar Rebia. Em 934, Haçane novamente recuperou Moçul, mas Saíde, residindo em Baguedade e apoiado pelo governo califal, expulsou-o novamente. Haçane fugiu à Armênia, de onde orquestrou a morte de Saíde. Apenas então suas tropas ocuparam Moçul e estabeleceram-no permanentemente como seu governante. Finalmente, depois de derrotar as forças califais sob o vizir ibne Mucla e os Banu Habibe, seus rivais entre os taglibitas, no final de 935 o califa Arradi foi forçado a formalmente reconhecê-lo como governador de Moçul e da Jazira inteira, em troca de um tributo anual de 70 mil dinares de ouro e suprimentos de farinha para as duas capitais califais de Baguedade e Samarra.
A resistência ao governo de Haçane fora da região central de sua família em torno de Moçul permaneceu — em Diar Becre, o governador de Maiafarquim, Ali ibne Jafar, rebelou-se contra Haçane, e em Diar Modar, as tribos caicitas da região em torno de Saruje também revoltaram-se. Haçane subjugou-os e assegurou o controle sobre toda a Jazira próximo ao fim de 936, devido aos esforços de seu irmão Ali, que recebeu o governo das duas províncias como recompensa. No meio tempo, os derrotados Banu Habibe, compondo uma força de 10 mil e liderados por Alalá ibne Almuamar, deixaram suas terras e fugiram para território controlado pelo Império Bizantino. Esse movimento sem precedente pode ser explicado pelo fato de que uma porção significativa da tribo ainda praticava o cristianismo, ou pela pressão sobre suas terras de pastagem por tribos do sul, mas o principal objetivo do movimento foi escapar da autoridade e tributação hamedânida. Haçane também tentou estender seu controle ao Azerbaijão controlado pelos sájidas em 934 e 938, mas seus esforços falharam.
Luta pelo controle do califado
thumb|esquerda|upright=1.05|Mapa da fragmentação do Califado Abássida nos séculos IX e X, mostrando os domínios jaziranos de Nácer Adaulá em vermelho thumb|upright=1.05|esquerda|Dirrã de prata de 329 A.H. (940/941), com os nomes do califa Almutaqui e Bajecame thumb|esquerda|upright=1.05|Dinar de ouro do emir iquíxida Maomé ibne Tugueje
Enquanto tentou consolidar seu governo sobre Moçul, Haçane mostrou-se conspicuamente leal ao regime abássida, e recusou apoiar a revolta de Munis Alcadim contra o califa Almoctadir em 932. Munis conseguiu derrubar e matar Almoctadir, mas pelos próximos anos o governo abássida colapsou, até em 936 o poderoso governador de Uacite, Maomé ibne Raique, assumiu o título de emir de emires ("comandante de comandantes") e com ele de facto controlou o regime abássida. O califa Arradi foi reduzido para um papel figurativo, enquanto a extensa burocracia civil foi diminuída dramaticamente em tamanho e poder. A posição de ibne Raique foi qualquer coisa menos segura, e logo uma complicada luta pelo controle do seu ofício, e o califado com ele, que eclodiu entre os vários governantes e os chefes do exército turco e dailamita, que terminou em 946 com a vitória dos buídas.
Assim, no final da década de 930, Haçane, encorajado por seu controle sobre um grande e rico domínio, entrou nas intrigas da corte abássida e tornou-se um dos principais competidores do título de emir de emires. No início, Haçane tentou explorar a fraqueza do governo abássida para recusar seu pagamento de tributo, mas o turco Bajecame, que destituiu ibne Raique em 938, rapidamente forçou-o a retroceder. Haçane então apoiou ibne Raique em sua missão para ganhar sua posição perdida. Bajecame tentou forçosamente expulsar Haçane de seus domínios jaziranos, mas em vão, e foi posteriormente morto numa luta com brigantes curdos no começo de 941. A grande chance de Haçane veio no começo de 942, quando o califa Almutaqui e seus assessores mais próximos fugiram de Baguedade para escapar da queda eminente da cidade para os báridas de Baçorá e procurou refúgio em Moçul. Haçane agora fez uma oferta direta de poder: ele assassinou ibne Raique e sucedeu-o como emir de emires, recebendo o lacabe honorífico de Nácer Adaulá ("defensor da dinastia"). Ele então escoltou o califa de volta para Baguedade, onde entraram em 4 de junho. Para segurar ainda mais sua posição, Nácer Adaulá casou sua filha com o filho do califa. Junto com seu primo, Haçane ibne Saíde, o irmão de Nácer Adaulá, Ali, foi instrumental na empreitada hamedânida, tomando o campo contra os báridas, que ainda controlaram a rica província de Baçorá e estavam determinados a reganhar Baguedade. depois de conseguir uma vitória sobre eles, Ali foi recompensado com o lacabe de Ceife Adaulá (espada da dinastia), pelo qual tornou-se famoso. Essa recompensa dupla marcou a primeira vez que um lacabe incorporando o prestigioso elemento "Adaulá" foi conferido a outra pessoa além do vizir, o ministro chefe califal, e foi uma afirmação simbólica da predominância do exército sobre a burocracia civil.
O sucesso e controle dos hamedânidas sobre a capital abássida por pouco mais de um ano. Eles careciam de fundos e estavam politicamente isolados, encontrando pouco apoio entre os mais poderosos vassalos do califado, os samânidas da Transoxiana e os iquíxidas do Egito. Consequentemente, quando no final de 943 um motim eclodiu entre suas tropas (principalmente compostas de turcos, dailamitas, cármatas e apenas alguns árabes) devido a questões de pagamento, sob a liderança do general turco Tuzune, foram forçados a sair de Baguedade e retornar para sua base em Moçul. O califa Almutaqui agora nomeou Tuzune como emir de emires, mas o jeito arrogante do turco induziu Almutaqui a novamente procurar refúgio na corte hamedânida. As forças hamedânidas sob Ceife Adaulá marcharam contra o exército de Tuzune, mas foram derrotadas. Os hamedânidas agora concluíram um acordo com Tuzune que permitiu-os manter a Jazira mesmo deu-lhes autoridade nominal sobre o norte da Síria (que à época não estava sob controle hamedânida), em troca de um pagamento anual de 3,6 milhões de dirrãs.