Antónia Gertrudes Pusich (São Nicolau, Cabo Verde, 1 de outubro de 1805 – Lisboa, 6 de outubro de 1883) foi uma poetisa, dramaturga, jornalista e conferencista, que colaborou em diversos jornais e revistas literárias lisboetas e participou ativamente em conferências e sessões públicas sobre temas da época e privou com personalidades como Alexandre Herculano e Almeida Garrett. Jornalista e redatora de periódicos, atividade invulgar nessa época para uma mulher,Esquina do Tempo: Antónia Pusich, Primeira Mulher de Cabo Verde a Publicar.Nikica Talan, «In memoriam à esquecida Antónia Gertrudes Pusich». In Studia Romanica et Anglica Zagrabiensia (SRAZ), Vol. 50, pp. 145-192 (2005).Mulheres no Teatro: Antónia Gertrudes Pusich (1805 — 1883). aos desafios respondeu sempre com uma tenacidade e vigor improváveis numa mulher da sua condição social. O inconformismo perante a mediocridade do destino reservado ao seu sexo impeliu-a a fazer da imprensa a sua tribuna, tornando-se a primeira mulher a fundar, possuir e dirigir jornais em Portugal.Antónia Pusich. A primeira jornalista portuguesa – por Elen Biguelini.Maria de Lurdes Caldas, Antonia Pusich. Vencer ou morrer - o lema de uma mulher invulgar. Lisboa, Minotauro, 2022 (ISBN 9789899124547). Em 1864 era venerável da primeira loja maçónica portuguesa de adoção (feminina), a Loja Direito e Razão.Assembleia da República : Comunicar - Galeria das senhoras na Câmara dos Senhores Deputados, ou as minhas observações.Antónia Pusich e a Loja de Adopção "Direito e Razão". Biografia Antónia Gertrudes Pusich nasceu na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde, filha de António Pusich, ao tempo Intendente de Marinha e depois governador de Cabo Verde, um oficial da Armada Real portuguesa, natural da República de Ragusa (hoje na Croácia), e de Ana Maria Isabel Nunes, natural de Lisboa. O pai fora em 1801 graduado em capitão-de-fragata e nesse mesmo ano nomeado Intendente de Marinha das Ilhas de Cabo Verde, escolhendo a ilha de São Nicolau para residir com a família, pois considerava quqe aquela ilha tinha as melhores condições sanitárias do arquipélago.

Foi em São Nicolau que em 1805 nasceu Antónia Gertrudes, a primeira filha, mas quinta na ordem de nascimento, dos seis filhos do casal. Foi baptizada na paróquia de Nossa Senhora do Rosário e em memória do nascimento da filha, Pusich mandou construir no porto Preguiça uma capela consagrada a Santo António dos Navegantes. Teve, como os seus irmãos, uma educação refinada, administrada por seu pai, que lhe ensinou as línguas francesa, inglesa, italiana e música, seguindo a máxima que o pai, enquanto ragusino, aprendera ainda na infância: Obliti privatorum publica curate!, máxima, que ainda hoje continua a ornar o antigo Palácio do Reitores de Ragusa, hoje Dubrovnik.Nella Lonza, «Obliti privatorum publica curate: A Ragusan Political Epigraph and its Historical Background. In Portal hrvatskih znanstvenih i stručnih časopisa - Hrčak (2021).

Antónia Gertrudes, nome que herdou do pai e da avó materna, acompanhou a família nos movimentos que a carreira naval e administrativa paterna determinou. Em 1810 o posto de Intendente de Marinha das Ilhas de Cabo Verde foi extinto, por inútil, e a 3 de setembro de 1810 a família estava em Lisboa acompanhado pela família, onde fez entrega da documentação que tinha a seu cargo. A família viajou então até ao Rio de Janeiro, cidade onde então estava a Corte, e onde chegou a 11 de junho de 1811. Antónia Gertrudes permaneceu então na cidade do Rio de Janeiro até 1818, onde privou com muitas das personalidades da Corte, incluindo membros da família real portuguesa. Naquele ano, por alvará de 6 de fevereiro, o pai foi nomeado governador de Cabo Verde. A família chegou à então Vila da Praia de Santiago a 14 de dezembro de 1818, tendo Antónia 13 anos de idade. Os dois irmãos mais velhos, Jerónimo António Pusich e Pedro António Pusich, ambos oficiais da Armada Real, acompanhavam o pai como ajudantes-de-ordens do governador. O irmão João António Pusich, já lente de Matemática na Academia Real de Marinha e reputado músico, ficou no Rio de Janeiro.Eduardo Arantes e Oliveira, «António Pusich, chefe de esquadra real e governador de Cabo Verde» in Memórias da Academia de Marinha, vol. 34 (2004), f. 14, pp. 359-380.

A vida da família durante a sua permanência na ilha de Santiago foi marcada pelas consequências da Revolução Liberal do Porto e os seus reflexos na vida da colónia, que conduziram a uma revolta pretensamente liberal, mas que na realidade resultavam das tensões e animosidades criadas junto da oligarquia local pelo ímpeto reformista de um governador visto como estrangeiro. A 4 de abril de 1821, António Pusich colocou o lugar à disposição em reunião com o cabido e demais autoridades e influentes da ilha, mas foi deliberado que deveria manter-se em funções, enviando o seu filho Pedro António Pusich ao Rio de Janeiro para solicitar orientações ao rei. Entretanto, sem o seu conhecimento, fora exonerado por carta régia passada no Rio de Janeiro a 10 de abril daquele ano de 1821. Perante o crescente conflito, a família recolheu-se discretamente à ilha do Maio, a 7 de maio de 1821, onde permaneceu três meses aguardando as ordens reais. Quando finalmente o filho regressou do Rio de Janeiro, António Pusich soube que fora exonerado e que o rei regressara a Lisboa.

A família partiu logo que possível, a bordo do brigue Maria, propriedade do seu genro Joaquim António de Matos. Chegou a Lisboa em setembro de 1821, tendo os seus bens pessoais sido pilhados na Praia de Santiago. Com o pai inicialmente impedido de desembarcar por ser suspeito de inimigo dos constituicionais, apenas com a intervenção real junto das Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa, que então detinham o poder, foi permitido que a família se instalasse em Lisboa. Com este episódio a carreira naval de seu pai efetivamente terminou, tendo ficado em Lisboa adido a serviços da Marinha, situação que manteve ao longo dos anos seguintes, incluindo o período da Guerra Civil Portuguesa.

Pouco depois da família se ter instalado em Lisboa, Antónia Gertrudes, então com 16 anos de idade, casou a 2 de julho de 1822, em primeiras núpcias, com o jovem corregedor João Cardoso de Almeida Amado,João Cardoso de Almeida Amado, filho de João Cardoso Amado Viana, natural de Pernambuco, frequentava o 2.º ano jurídico na Universidade de Coimbra em 1816 (Cf.: Listagem dos alunos da U. Coimbra 1815/1816). natural do Pernambuco, que conhecera em Cabo Verde, pois este fora ali ouvidor-geral quando António Pusich era governador e que com ele e sua família se refugiara na ilha do Maio após os incidentes ocorridos com os liberais na Praia em 1821.Ofício da Junta Provisória de Cabo Verde, ao ministro e secretário da Regência do Reino nos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos, Francisco Maximiliano de Sousa, sobre: havendo-se retirado desta ilha, o desembargador ouvidor desta comarca, João Cardoso de Almeida Amado, a título de seguir em correição pelas ilhas, e constando de que as ilhas do Barlavento o não aceitavam, deixou-se ficar na ilha do Maio, tendo feito regressar o escrivão do seu cargo para esta ilha; foi ordenado o seu regresso; tendo o negociante Manuel António Martins, oferecido a este governo a sua chalupa, para conduzir a esta ilha os eleitores das diferentes ilhas, a fim de se nomearem os deputados que os devem representar nas cortes, de novo oficiou este governo ao referido ouvidor, para na dita chalupa ir presidir com as câmaras, às eleições das mesmas ilhas; o ouvidor ligado inteiramente ao ex-governador António Pusich, que se acha residindo na mesma ilha, dá indícios que a qualquer pretexto se eximirá deste serviço. O corregedor fora conduzido para Lisboa sob prisão, no bergantim Dois Amigos, chegando a Lisboa em meados de março de 1822.Portaria passada por José da Silva Carvalho, a determinar que o ministro e secretário de estado da Marinha e Ultramar, faça expedir as ordens necessárias, para que seja entregue à ordem do intendente geral da polícia, o bacharel João Cardoso de Almeida Amado, ouvidor-geral de Cabo Verde de Cabo Verde, que se acha preso a bordo do bergantim Dois Amigos, surto no rio Tejo (a 18 de março de 1822). O casamento ocorreu cerca de 3 meses depois, sendo que o julgamento que o ilibou apenas terminou em 17 de setembro desse ano.Ofício, de 17 de Dezembro de 1822, do Secretário de Estado dos Negócios da Justiça, José da Silva Carvalho, em resposta à Ordem das Cortes de 9 de Dezembro do mesmo ano, no qual informa que "o processo em que foi réu de crime de desafio [provocação para duelo o Ouvidor de Cabo Verde, João Cardoso de Almeida Amado foi julgado finalmente por acórdão da Casa da Suplicação de 17 de Setembro [de 1822] e que o mesmo ouvidor está habilitado para voltar ao exercício do seu lugar]. O casal teve um filho, João António Pusich de Almeida Amado, nascido a 16 de fevereiro de 1825, que casou com Maria Benedita Viegas de Luna, originária de Elvas, e teve um neto que foi Humberto de Luna da Costa Freire e Oliveira (Lisboa, 1888 — Lisboa, 1952), oficial do Exército Português, escritor, poeta e dramaturgo. Em 1826 o marido regressou ao Brasil e Antónia Gertrudes ficou com o filho a seu cargo, tendo de se acolher à casa paterna.Alguns biógrafos referem que João Cardoso de Almeida Amado teria sido eleito deputado às Cortes portuguesas do Vintismo. O seu nome não consta da lista dos deputados, aparecendo sim no parlamento do Império do Brasil um pedido, deferido, autorizando o seu regresso e dando por justificado o tempo passado fora do Império (Cf.: Ata do Senado de 25 de maio de 1826). Na sessão do Senado de 2 de setembro de 1826 aparece um requerimento do desembargador João Cardoso Oliveira Amado a solicitar a cidadania brasileira, o que foi aprovado (Cf.: Ata do Senado de 2 de setembro de 1826).

Em 1830, com 24 anos de idade e já no período conturbado da Guerra Civil Portuguesa, casou em segundas núpcias com o tenente-coronel Francisco Henriques Teixeira (Elvas, 1787 — Santarém, 1833), miguelista convicto, que tinha acompanhado o infante D. Miguel na vilafrancada, em maio de 1823, e de quem foi depois ajudante de ordens, e era, quando casou, comandante do Regimento de Infantaria n.º 23 do Exército Realista. Quando faleceu em 1833, vítima da peste durante a desastrosa campanha miguelista em Santarém, era ajudante-de-campo do rei D. Miguel. Deste casamento houve um único filho, Miguel Pusich Henriques Teixeira, que foi batizado tendo D. Miguel como padrinho. Esta situação obrigou Antónia Pusich, após a queda de Lisboa para os liberais, a refugiar-se com os filhos em Elvas, onde também se encontrava a infanta D. Isabel Maria de Bragança, ex-regente do Reino, aí permanecendo durante o ano de 1834. A derrota miguelista teve também como consequência a perda de todos os rendimentos herdados de seu marido. O seu casamento, com o destacado miguelista Francisco Henriques Teixeira, e os da irmã e irmão com um filho e uma filha de Garção Stockler, terá selado a sorte da família Pusich, que daí em diante passou a ser tida como miguelista, o que levou ao saque da sua residência quando as tropas liberais entraram em Lisboa, a 24 de julho de 1833, e à demissão da Armada em 1834 do pai de Antónia Gertrudes, o chefe-de-esquadra António Pusich, com a perda dos seus ordenados desde 1833. Daqui resultaram tempos muito difíceis para os Pusich, que perderam todas as suas fontes de rendimento e muitos dos seus bens.