thumb|Reconstituição do Serviço de Proteção ao Índio do modo como foi executada uma mulher da etnia cintas-largas, cortada ao meio com um facão, em um território indígena, na região entre o Mato Grosso e Rondônia, em 1963, episódio conhecido como Massacre do Paralelo Onze. O Massacre do Paralelo 11 ocorreu em novembro de 1963, no Mato Grosso, Brasil, quando homens contratados por uma empresa de extração de borracha mataram 3,5 mil membros do povo indígena cinta-larga da Amazônia e destruíram sua aldeia. Apenas dois aldeões sobreviveram ao massacre, que foi parte do genocídio maior e contínuo dos povos nativos do Brasil.

Contexto histórico No final do século XIX, houve um boom da borracha na Amazônia. Isso foi um desastre para as tribos indígenas da região, pois eram usadas como mão-de-obra escrava nas plantações de seringueiras. A população indígena diminuiu em 90% conforme morriam de doenças e violência. Muitos dos sobreviventes fugiram para partes mais remotas da selva, onde seus descendentes ainda vivem hoje.

A partir da década de 1920, o conflito entre o grupo Cinta Larga e os seringueiros aumentou até a década de 1960. Em 1960 a situação piorou, quando a rodovia Cuiabá-Porto Velho (BR-364) foi inaugurada. Os Cinta Larga enfrentaram ameaças não só de seringueiros, mas também de garimpeiros que buscavam suas terras por ouro e diamantes.

O massacre O Massacre do Paralelo 11 aconteceu nas cabeceiras do rio Aripuanã, no Mato Grosso, no paralelo 11, sul, onde a empresa Arruda, Junqueira & Cia. Ltda. coletava borracha. O massacre foi planejado pelo chefe da empresa, Antonio Mascarenhas Junqueira, que pretendia remover os Cinta Larga da área que planejava explorar. Segundo Junqueira, "esses índios são parasitas, são vergonhosos. É hora de acabar com eles, é hora de eliminar essas pragas. Vamos liquidar esses vagabundos".

Junqueira contratou um avião, que lançou dinamite na aldeia. Depois disso, uma expedição punitiva percorreu mais de 2 mil quilômetros durante 68 dias para chegar à terra dos Cinta Larga. A expedição foi liderada pelo pistoleiro Francisco Luiz de Souza, conhecido como "Chico Luiz", e pelo piloto Toschio Xatô. Este último também foi acusado de lançar dinamites na aldeia indígena. Por terra, a expedição encarregada de matar os sobreviventes foi comandada por Chico Luiz, que metralhou os índios logo pela manhã, quando eles começavam o trabalho diário. Mandante de massacre dos Cinta Larga era irmão de ex-prefeito de Cuiabá, olivre.com.br, 4 de março de 2018. Em um incidente, eles pegaram um bebê de uma mulher amamentando e atiraram na cabeça do bebê. Eles então penduraram a mulher de cabeça para baixo e a cortaram ao meio. Trinta aldeões foram mortos no ataque. Apenas dois sobreviveram.

O atentado chamou a atenção quando um dos agressores, Ataíde Pereira dos Santos, denunciou e os responsáveis da Inspetoria do SPI em Cuiabá, aparentemente depois de não receber a quantia prometida. O primeiro a ouvir as confissões do assassino foi o padre jesuíta Edgar Schimdt, que gravou toda conversa. A gravação chegou às mãos de Ramis Bucair, funcionário da 6ª Inspetoria do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em Cuiabá. Guimarães, Elena. RELATÓRIO FIGUEIREDO: entre tempos, narrativas e memórias. Rio de Janeiro: UFRJ, 2015.

Segundo depoimentos de funcionários do SPI, o prefeito de Aripuanã, Amauri Furquim, teria autorizado a construção de uma pista de pouso clandestina dentro da área indígena, o que aumentou a tensão entre índios e não índios na região. Furquim e a empresa Arruda, Junqueira & Cia. Ltda. também foram acusados de vender parte da terra indígena a uma empresa norte-americana interessada na extração de cassiterita. "Para a posse dessa área, impunha-se o afastamento da tribo Cinta-larga e, para isto, foram feitas várias expedições com o fito de matá-los e escorraçá-los. A última expedição foi feita em 1963. Na ocasião o SPI denunciou e pediu providências”, diz trecho de uma carta enviada pelo chefe da 6ª Inspetoria do SPI, Hélio Jorge Bucker, ao ministro do Interior de então, Albuquerque de Lima.

Consequências O massacre só se tornou um caso de polícia depois que o jornalista Carlos Rangel escreveu a reportagem "Morte no Paralelo 11", em O Globo, denunciando o massacre em Mato Grosso. Os crimes tiveram repercussão internacional, e afinal a Polícia Federal iniciou as investigações.

O inquérito foi concluído dois anos e meio após a chacina. Foram indiciados, como executores, Toschio Lombardi Xatô, Ataíde Pereira dos Santos, Francisco Luiz de Souza, Manoel Virgínio de Almeida, Ramiro Costa e outros dois homens, identificados apenas como "Zuíno" e "Silvestre".

No julgamento de um dos acusados, o juiz disse: "Nunca ouvimos um caso em que havia tanta violência, tanta ignomínia, egoísmo e selvageria e tão pouca apreciação da vida humana". Em 1975, um dos perpetradores, José Duarte de Prado, foi condenado a 10 anos de prisão, mas foi perdoado no final daquele ano. Ele declarou durante o julgamento: "É bom matar índios - eles são preguiçosos e traiçoeiros".

Detalhes do massacre foram incluídos no Relatório Figueiredo (do procurador Jáder de Figueiredo Correia),Documento que registra o extermínio de índios é resgatado após décadas desaparecido, tokdehistoria.com.br, 27 de abril de 2013. de 1967, um marco que levou à substituição do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI).Egydio Schwade. O Massacre do Paralelo 11. Conselho Indigenista Missionário, dezembro de 2022. Segundo o relatório, a morte dos Cinta Larga foi encomendada pelos seringalistas Sebastião Palma de Arruda e Antônio Mascarenhas Junqueira, sócios-proprietários da empresa Arruda Junqueira & Cia. Ltda.

Quase dez anos depois do massacre, o fazendeiro Antonio Junqueira era o maior latifundiário da região do rio Aripuanã e obteve das autoridades a abertura de uma estrada que atenderia sua fazenda e atravessava a terra indígena então existente.

Ninguém foi julgado pelo crime. O próprio Relatório Figueiredo – com sete mil páginas e com a indicação de demissão e indiciamento de diversos suspeitos – acabou desaparecendo e só foi reencontrado em 2012. Antônio Mascarenhas Junqueira e Sebastião Palma de Arruda morreram sem julgamento. Sebastião aposentou-se como funcionário da Secretaria de Agricultura de Mato Grosso. Junqueira foi acusado pelo assassinato do missionário jesuíta espanhol Vicente Cañas (morto em 1987), mas foi excluído do julgamento, em 2006, por ter mais de 70 anos. Apesar das acusações, o seringalista foi homenageado com o livro Seringal – O mundo dos bravos, do autor catarinense Marco Aurélio Nedel.

Mais recentemente, o grupo de defesa dos direitos dos indígenas Survival International usou o massacre do Paralelo 11 como ilustração dos motivos que podem levar os povos indígenas isolados a evitar o contato com não índios, em um artigo intitulado Why do they hide? ("Por que elas se escondem?").

Ver também Genocídio dos povos indígenas no Brasil

Ligações externas Dal Poz Neto, João. No país dos Cinta Larga: uma etnografia do ritual. São Paulo, FFLCH -USP, 1991;

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