A Herdade é um filme épico de drama luso-francês de 2019, realizado por Tiago Guedes. O argumento foi escrito por Rui Cardoso Martins e Tiago Guedes, com colaboração de Gilles Taurand, a partir de uma ideia original do produtor Paulo Branco A obra é protagonizada por Albano Jerónimo, como João Fernandes, o patriarca de uma família proprietária de um dos maiores latifúndios da Europa, na margem sul do rio Tejo.
Esta longa-metragem estreou a 5 de setembro de 2019 na 76.ª edição do Festival de Cinema de Veneza, na qual não só concorreu ao Leão de Ouro como valeu a Tiago Guedes o Prémio Bisato d'Oro da crítica independente para Melhor Realização. Além disso, A Herdade foi selecionada como representante de Portugal ao Oscar de melhor filme estrangeiro na edição de 2020.
A obra resultou também numa versão minissérie de mesmo nome, lançada no dia 20 de março de 2020 na plataforma streaming Filmin e estreada a 30 de abril de 2020 na RTP1.
Sinopse João Fernandes é o patriarca de uma abastada família tradicional portuguesa. A herdade de que é proprietário situa-se na margem sul do rio Tejo e é um dos maiores latifúndios da Europa.
De personalidade particular, João, apesar de alguma bonomia, governa as suas terras com todos os vícios de um senhor feudal. Confunde-se com as próprias terras e habilmente pratica jogos de poder e de antecipação para as manter, em estilo insurreto. Para João, não há grande diferença entre os fascistas e os democratas que tomam o poder depois do 25 de abril. Qualquer pessoa que lhe queira dar ordens é inimigo.
A vida de Fernandes, assim como o local onde sempre viveu, é um espelho de Portugal, pelo que percorrer a sua história desde os princípios da década de 1940, atravessando a Revolução do 25 de abril até à atualidade, significa contextualizar a vida social, política e financeira de um país inteiro.
Elenco
Albano Jerónimo, como João Fernandes; Eduardo Aguilar, João Fernandes (criança). Sandra Faleiro, como Leonor. Miguel Borges, como Joaquim Correia; João Arrais, Joaquim (jovem). João Vicente, como Leonel Sousa. João Pedro Mamede, como Miguel; Gabriel Timóteo, Miguel (criança). Ana Vilela da Costa, como Rosa. Rodrigo Tomás, como António. Beatriz Brás, como Teresa. Teresa Madruga, como Guilhermina. Victoria Guerra, como Catarina Lopo Teixeira. Diogo Dória, como General Lopo Teixeira. Ana Bustorff, como Isabel Lopo Teixeira. Cândido Ferreira, como Padre Heitor. António Simão, como Inspetor Cravo. Tónan Quito, como Vítor Fonseca. Catarina Rôlo Salgueiro, como Maria de Fátima. Filipe Vargas, como Ricardo Lopo Teixeira. Marcello Urgeghe, como Fernando Melo e Sá. Luís Garcia, como Martim de Beja. Gonçalo Abreu, como Leonardo.
Equipa técnica
Realização: Tiago Guedes Argumento: Rui Cardoso Martins, Tiago Guedes e colaboração de Gilles Taurand Produtor: Paulo Branco Assistentes de realização: Ana Mariz, António Pinhão Botelho e Paulo Mil-Homens Direção de arte: Isabel Branco Direção de fotografia: João Lança Morais Guarda-roupa: Inês Mata e Isabel Branco Maquilhagem: Íris Peleira Montagem: Roberto Perpignani Som: Elsa Ferreira, Francisco Veloso e Pedro Góis
Produção A Herdade é uma obra luso-francesa coproduzida pela Leopardo Filmes, a Alfama Films e Carlos Bedran (CB Partners), em associação com a APM – Ana Pinhão Moura Produções, que contou com o apoio financeiro do Instituto do Cinema e do Audiovisual, Rádio e Televisão de Portugal e do Fundo de apoio ao turismo e cinema.
Desenvolvimento O projeto de A Herdade iniciou-se por iniciativa do produtor Paulo Branco. Segundo o produtor: "O que me fascinou foi a possibilidade de fazer um retrato da vida nos latifúndios em Portugal, retrato que estava em grande parte por esboçar, mesmo tendo em conta que José Cardoso Pires já tinha abordado esse universo no romance O Delfim. Vivia-se um tempo fora da realidade, que era também um tempo fora dos padrões europeus. Foi, aliás, por isso que parti [para França em 1971]: senti que aquele era um mundo que, inevitavelmente, iria acabar." A busca de encontrar alguém para transformar a sua ideia, levou Branco a apresentar o seu conceito original a Carlos Saboga na altura em que o escritor estava a desenvolver o argumento de Mistérios de Lisboa de Raúl Ruiz. No entanto, Rui Cardoso Martins viria a ser convidado para desenvolver o projeto. A grande inspiração para a construção da primeira versão do enredo foi a Herdade de Rio Frio, propriedade da família Lupi, na zona de Alcochete. Rui Cardoso Martins foi o autor selecionado, em 2017, para a Bolsa de Residência Literária criada pelo Camões Berlim, que utilizou para desenvolver o argumento.
A primeira abordagem ao filme, mais biográfica, não agradou a Paulo Branco que considerava "importante que o filme tivesse uma dimensão universal". Assim, o convite a Tiago Guedes para integrar o projeto despoletou várias alterações ao guião. Segundo o realizador "Houve alguém que serviu de ponto de partida ao Paulo Branco e ao Rui Cardoso Martins, pois foram eles os dois a elaborar uma primeira parte do argumento. Quando eu entrei no projeto, o Paulo já estava com muita vontade de se distanciar dessa figura e de criar uma ficção. E eu então fiz questão de fugir de qualquer referência a essa pessoa. Queríamos uma personagem como é este João Fernandes, mas não quisemos colagens nem homenagens".
Casting Tiago Guedes convidou um pequeno grupo de pessoas para lerem para os papéis. Segundo a equipa, Albano Jerónimo foi uma escolha imediata para interpretar o protagonista. Guedes justificou a escolha de Sandra Faleiro para interpretar Leonor porque a atriz "tem um peso trágico numa beleza, é especial e cativante".
Montagem Após as gravações, Roberto Perpignani iniciaria o processo de montagem da produção. Tal resultaria nas diferentes versões que se seguem: A Herdade: Versão original de 166 minutos. A Herdade, Minissérie portuguesa: Composta por quatro episódios de aproximadamente 42 minutos. Le Domaine, Minissérie francesa: Versão televisiva exclusiva do canal ARTE France, distribuída por três episódios de cerca de 55 minutos.
Minissérie
A Herdade é uma versão mais longa da obra para televisão, no formato de minissérie com quatro episódios, que foi lançada originalmente em streaming, na plataforma Filmin, a 20 de março de 2020. Os dois primeiros episódios estrearam na RTP1 a 30 de abril de 2020, em prime-time.
Lista de episódios EpisódiosTransmissão originalDia da semanaEspetadoresEstreiaFinal420 de março de 2020 (Filmin)Sexta-feira-30 de abril de 2020 (RTP1)1 de maio de 2020 (RTP1)Quinta e sexta-feira470.000311 de junho de 2020 (ARTE)Quinta-feira1.172.000 Abaixo, estão listados os episódios da minissérie A Herdade, na versão distribuída em Portugal pela RTP: TítuloArgumentoRealizaçãoTransmissão originalEspetadoresEpisódio n.º 1Rui Cardoso Martins e Tiago GuedesTiago Guedes30 de abril de 2020600 000João Fernandes, ainda menino, é obrigado pelo pai a ver o cadáver do seu irmão mais velho e mais fraco. Anos mais tarde, a sua família começa a sentir os primeiros rumores da revolução.Episódio n.º 2Rui Cardoso Martins e Tiago GuedesTiago Guedes30 de abril de 2020380 000Os acontecimentos desde a Primavera Marcelista à Revolução de Abril. Depois da festa de copo d’água da filha mais nova de um antigo diretor da PIDE, ao voltar para casa, os convidados ouvem a Grândola, Vila Morena na rádio. Episódio n.º 3Rui Cardoso Martins e Tiago GuedesTiago Guedes1 de maio de 2020500 000O conflito entre as diferentes gerações da família Fernandes. Em 1991, os ciclos de pais e filhos repetem-se. Teresa, filha de João, está enamorada pelo filho do capataz.Episódio n.º 4Rui Cardoso Martins e Tiago GuedesTiago Guedes1 de maio de 2020400 000Miguel confronta o seu pai: "É verdade, pai?" Um segredo que o patriarca João Fernandes manteve escondido durante anos e que assombra o futuro da família.
Temas e estilo O argumento de A Herdade pretende representar um momento transitório na história portuguesa, passando pelos contextos políticos e sociais de Portugal num recorte de 40 anos, mais especificamente, entre 1946 e 1991. Grande parte do filme desenrola-se entre os anos finais do Estado Novo e, no seu último ato, na década de 90. Toma como exemplo uma grande propriedade rural que o dono tem que proteger sucessivamente, primeiro, das interferências do governo marcelista, depois da reforma agrária, e, finalmente, da banca do neoliberalismo. De facto, o latifundiário funciona como uma enorme ilha dentro de um país dominado por uma ditadura fascista. Na sua nota de intenções, o realizador defende que este cenário funciona como uma metáfora para tudo o que acontece com o protagonista, isto é, "ambos começam grandiosos, mas com o passar do tempo eles inevitavelmente se chocam de frente com os ventos da mudança e revelam as imperfeições, as zonas cinzentas e se desfazem". Deste ponto de vista, a obra demonstra uma visão crítica do patriarcado e da dominação masculina ao mostrar a loucura de João Fernandes, cujo desejo de poder, teimosia e gosto pela força serão os instrumentos de dissolução de seu bem mais estimado.
O projeto foi considerado comparável a 1900, de Bernardo Bertolucci, ainda que os recursos implementados sejam bem mais modestos. O cinema western foi uma assumida referência para a equipa técnica, pela forma como a personagens e os seus locais se articulam. Ainda assim, de acordo com o produtor, a chave do filme é a sua vertente melodramática. "Não no sentido pejorativo que o senso comum, muitas vezes, lhe atribui. Ou seja: falamos do género clássico em que reconhecemos uma intensidade “poderosa” a pontuar as convulsões, ruturas e reencontros das relações homens-mulheres. (...) Nessa evolução, gerou-se uma energia incrível que deu visibilidade a sentimentos e frustrações que existiam no interior das famílias, por vezes de forma destruidora, outras verdadeiramente libertadora". Os melodramas de Hollywood de Elia Kazan, Vincente Minnelli e Robert Mitchum dos anos 1950 e 1960, serviram de inspiração a Tiago Guedes: "Eles mostram pessoas que se amam, mas que são incapazes de comunicar, e simplesmente não conseguem lidar umas com as outras. Estão a lutar sem saber por quê".
Distribuição A Herdade foi selecionado para a Competição Oficial da edição de 2019 do Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde estreou a 5 de setembro. A antestreia portuguesa do filme decorreu no Cinema Medeia Monumental a 14 de setembro do mesmo ano, às 21h. A sessão contou com a presença do realizador e atores. A estreia comercial de A Herdade em Portugal deu-se a 19 de setembro, em 62 salas de cinema. A 10 de fevereiro de 2020, o filme foi lançado em formatos DVD e Blu-ray. Em televisão, o filme estreou a 28 de fevereiro de 2020 no TVCine TOP e a 8 de dezembro do mesmo ano, na RTP 1.
A minissérie A Herdade foi lançada originalmente na sexta-feira 20 de março de 2020, na plataforma de streaming Filmin. Em abril de 2020 esta versão foi também incluída no catálogo da plataforma americana HBO Portugal. A estreia na RTP1 decorreu a 30 de abril, às 21h45, com a exibição dos dois primeiros episódios. Os restantes foram transmitidos no dia seguinte, 1 de maio, no mesmo horário. Consequentemente, a minissérie foi disponibilizada na plataforma streaming RTP play durante um período limitado. A 11 de junho, o canal ARTE France exibiu a sua versão exclusiva da minissérie. A obra ficou também disponível no serviço Replay da Arte France até dia 4 de julho.
Festivais Após a sua estreia mundial na competição oficial do 76.º Festival de Cinema de Veneza, o filme integrou o Festival de Toronto TIFF, marcando a primeira vez que um filme português foi selecionado para a secção Special Presentations do festival. Segue-se uma lista das principais monstras e festivais que exibiram A Herdade:
Festival Internacional de Cinema de Veneza (Itália, 5 de setembro de 2019)