A história da União Soviética (URSS) (1922–1991) começou com os ideais da Revolução Bolchevique russa e terminou em dissolução em meio ao colapso econômico e à desintegração política. Fundada em 1922 após a Guerra Civil Russa, a União Soviética rapidamente se tornou um Estado de partido único sob o Partido Comunista. Seus primeiros anos sob Lenin foram marcados pela implementação de políticas socialistas e pela Nova Política Econômica (NEP), que permitiu reformas orientadas para o mercado.

A ascensão de Josef Stalin no final da década de 1920 inaugurou uma era de intensa centralização e totalitarismo. O governo de Stalin caracterizou-se pela coletivização forçada da agricultura, pela rápida industrialização e pelo Grande Expurgo, que eliminou os supostos inimigos do Estado. A União Soviética, uma das Quatro Grandes potências Aliadas ao lado dos Estados Unidos, do Reino Unido e da China, desempenhou um papel crucial na vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, mas a um enorme custo humano, com milhões de cidadãos soviéticos mortos no conflito.

A União Soviética emergiu como uma das duas superpotências mundiais, liderando o Bloco Oriental em oposição ao Bloco Ocidental, liderado pelos Estados Unidos, durante a Guerra Fria. Nesse período, a URSS participou de uma corrida armamentista, da corrida espacial e de guerras por procuração em todo o mundo. A liderança pós-Stalin, particularmente sob Nikita Khrushchov, iniciou um processo de desestalinização, que levou a um período de liberalização e relativa abertura conhecido como Degelo de Khrushchov. No entanto, a era subsequente sob Leonid Brejnev, chamada de Era da Estagnação, foi marcada por declínio econômico, corrupção política e uma rígida gerontocracia. Apesar dos esforços para manter a condição de superpotência da União Soviética, a economia enfrentou dificuldades devido à sua natureza centralizada, ao atraso tecnológico e às ineficiências. Os enormes gastos militares e os encargos da manutenção do Bloco Oriental pressionaram ainda mais a economia soviética.

Na década de 1980, as políticas de Glasnost ("abertura") e Perestroika ("reestruturação") de Mikhail Gorbatchov visavam revitalizar o sistema soviético, mas acabaram acelerando sua desagregação. Movimentos nacionalistas ganharam força nas repúblicas soviéticas, e o controle do Partido Comunista enfraqueceu. A fracassada tentativa de golpe de Estado de agosto de 1991 contra Gorbatchov, promovida por comunistas da linha-dura, precipitou o colapso da União Soviética, que se dissolveu formalmente em 26 de dezembro de 1991, encerrando quase sete décadas de governo soviético. Ela foi juridicamente sucedida pela Federação Russa. O legado da União Soviética é complexo: deixou importantes conquistas industriais, poderio militar, influência cultural e impacto na política mundial, mas também um histórico de repressão, ineficiências econômicas e supressão das liberdades políticas e pessoais.

Formação (1917–1927)

A atividade revolucionária no Império Russo remonta à Revolução Russa de 1905. Um parlamento, a Duma Estatal, foi criado em 1906 após a Revolução Russa de 1905, mas o imperador Nicolau II resistiu às tentativas de transição de uma monarquia absoluta para uma monarquia constitucional. A agitação social prosseguiu e foi agravada durante a Primeira Guerra Mundial pelas derrotas militares e pela escassez de alimentos nas principais cidades.

Uma manifestação popular espontânea em Petrogrado, em 8 de março de 1917, que exigia paz e pão, culminou na Revolução de Fevereiro e na abdicação de Nicolau II e do governo imperial. A autocracia czarista foi substituída pelo Governo Provisório Russo social-democrata, que pretendia realizar eleições para a Assembleia Constituinte Russa e continuar lutando ao lado da Entente na Primeira Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, conselhos operários, conhecidos em russo como "sovietes", surgiram por todo o país, e o mais influente deles, o Soviete de Deputados Operários e Soldados de Petrogrado, dividiu o poder com o Governo Provisório. O número de membros do Partido Bolchevique aumentara de 24 mil em fevereiro de 1917 para 200 mil em setembro do mesmo ano.Stephen Cohen, Bukharin and the Bolshevik Revolution: A Political Biography 1888–1938 (Oxford University Press: Londres, 1980), p. 46. Cinquenta mil trabalhadores haviam aprovado uma resolução favorável à exigência bolchevique de transferência do poder aos sovietes.

thumb|Lenin, Trotsky e Kamenev comemorando o segundo aniversário da Revolução de Outubro Os bolcheviques, liderados por Lenin, defenderam a revolução comunista nos sovietes e nas ruas, adotando o lema "Todo o poder aos sovietes" e conclamando à derrubada do Governo Provisório. Em 7 de novembro de 1917, os Guardas Vermelhos bolcheviques tomaram de assalto o Palácio de Inverno em Petrogrado, prenderam os líderes do Governo Provisório, e Lenin declarou que todo o poder havia sido transferido aos sovietes. Posteriormente, o acontecimento seria oficialmente denominado nas bibliografias soviéticas "Grande Revolução Socialista de Outubro". Figuras bolcheviques como Anatoli Lunatcharski, Moisei Uritski e Dmitri Manuilski concordavam que a influência de Lenin sobre o Partido Bolchevique fora decisiva, mas a insurreição de Outubro foi realizada de acordo com o plano de Trotsky, e não com o de Lenin. A fase inicial da Revolução de Outubro, que envolveu o ataque em Petrogrado, transcorreu em grande medida sem baixas humanas.

O governo de Lenin instituiu diversas medidas progressistas, como a educação universal, a assistência médica universal e a igualdade de direitos para as mulheres. Por outro lado, o sangrento Terror Vermelho foi iniciado para reprimir toda oposição, tanto real quanto presumida. O terror também surgiu em resposta a diversas tentativas de assassinato de dirigentes bolcheviques e a insurreições organizadas contra o governo soviético.

A federalização da Rússia foi promulgada na Declaração dos Direitos dos Povos da Rússia em novembro, sem incluir as regiões fronteiriças que haviam se separado. Em dezembro, os bolcheviques assinaram um armistício com as Potências Centrais, embora os combates tenham recomeçado em fevereiro de 1918. Em março, os soviéticos encerraram sua participação na guerra e assinaram um tratado de paz em separado, o Tratado de Brest-Litovski. Após a derrota dos alemães na guerra, Lenin procurou criar repúblicas soviéticas formalmente independentes nos territórios que estavam sendo desocupados pelo Exército alemão.

Seguiu-se uma longa e sangrenta guerra civil entre os vermelhos e os brancos, que terminou em 1921–1922 com a vitória dos vermelhos. O conflito incluiu intervenção estrangeira, o assassinato do antigo imperador e de sua família e a fome de 1921–1922, que matou cerca de cinco milhões de pessoas. Embora Lenin houvesse declarado seu apoio ao princípio da autodeterminação, o partido tornou-se centralizado, e as repúblicas soviéticas independentes foram subordinadas à Rússia Soviética. Em março de 1921, o Tratado de Riga foi assinado com a República da Polônia, dividindo territórios na Bielorrússia e na Ucrânia e encerrando a ofensiva de Lenin rumo ao oeste contra o capitalismo. Na Estônia, Finlândia, Letônia e Lituânia, os vermelhos foram derrotados, enquanto o Exército Vermelho conseguiu ocupar a Armênia, o Azerbaijão e a Geórgia, no Cáucaso. Além disso, a requisição forçada de alimentos pelo governo soviético provocou forte resistência, cuja manifestação mais notável foi a Revolta de Tambov, por fim reprimida pelo Exército Vermelho. thumb|right|A Guerra Civil Russa na parte europeia da Rússia

A guerra civil teve um impacto devastador sobre a economia. Surgiu um mercado negro na Rússia, apesar da ameaça de lei marcial contra os especuladores. O rublo entrou em colapso, e o escambo substituiu cada vez mais o dinheiro como meio de troca; em 1921, a produção da indústria pesada havia caído para 20% do nível de 1913. Noventa por cento dos salários eram pagos em mercadorias, e não em dinheiro. Setenta por cento das locomotivas necessitavam de reparos, e a requisição de alimentos, combinada com os efeitos de sete anos de guerra e uma grave seca, contribuiu para uma fome que causou entre 3 e 10 milhões de mortes. A produção de carvão diminuiu de 27,5 milhões de toneladas (1913) para 7 milhões de toneladas (1920), enquanto a produção fabril total também caiu de 10 bilhões de rublos para 1 bilhão de rublos. Segundo o renomado historiador David Christian, a colheita de cereais também despencou de 80,1 milhões de toneladas (1913) para 46,5 milhões de toneladas (1920).

Tratado de Criação da URSS Em 28 de dezembro de 1922, uma conferência de delegações plenipotenciárias da RSFS da Rússia, da RSFS Transcaucasiana, da RSS da Ucrânia e da RSS da Bielorrússia aprovou o Tratado de Criação da URSS e a Declaração de Criação da URSS, formando a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Os dois documentos foram ratificados pelo primeiro Congresso dos Sovietes da União Soviética e assinados pelos chefes das delegações, Voted Unanimously for the Union. Mikhail Kalinin, Mikhail Tskhakaia, Mikhail Frunze, Grigori Petrovski e Aleksandr Cherviakov, Creation of the USSR no Khronos.ru. em 30 de dezembro de 1922. A proclamação formal foi feita no palco do Teatro Bolshoi, em Moscou.

Uma intensa reestruturação da economia, da indústria e da política do país começou nos primeiros dias do poder soviético, em 1917. Grande parte dela foi realizada de acordo com os primeiros decretos bolcheviques, documentos governamentais assinados por Vladimir Lenin. Um dos avanços de maior destaque foi o plano GOELRO, que previa uma ampla reestruturação da economia soviética com base na eletrificação total da Rússia. O plano tornou-se o protótipo dos planos quinquenais posteriores e foi concluído em 1931. On GOELRO Plan – at Kuzbassenergo. Depois da política econômica do "comunismo de guerra" durante a Guerra Civil Russa, como um prelúdio para o pleno desenvolvimento do socialismo no país, o governo soviético permitiu que algumas empresas privadas coexistissem com a indústria nacionalizada por meio da Nova Política Econômica, em 1921, e a requisição total de alimentos no campo foi substituída por um imposto em produtos agrícolas. thumb|A fome russa de 1921–1922 matou cerca de 5 milhões de pessoas. Desde a sua criação, o governo da União Soviética baseou-se no regime de partido único do Partido Comunista (Bolchevique). O propósito declarado era impedir o retorno da exploração capitalista, e afirmava-se que os princípios do centralismo democrático seriam os mais eficazes para representar de forma prática a vontade popular. O debate sobre o futuro da economia serviu de pano de fundo para uma luta pelo poder nos anos posteriores à morte de Lenin, em 1924. Inicialmente, Lenin seria substituído por uma "troika" composta por Grigori Zinoviev, da RSS da Ucrânia, Lev Kamenev, da RSFS da Rússia, e Josef Stalin, da RSFS Transcaucasiana.

Em fevereiro de 1924, a URSS foi reconhecida pelo Reino Unido. No mesmo ano, foi aprovada uma Constituição soviética, que legitimou a união de dezembro de 1922.

Segundo Archie Brown, a constituição nunca foi um retrato fiel da realidade política da URSS. Por exemplo, o fato de o Partido desempenhar o papel dirigente na formulação e na aplicação das políticas não foi mencionado nela até 1977.Archie Brown, The rise and fall of Communism (2009), p. 518. A URSS era uma entidade federativa formada por muitas repúblicas constituintes, cada qual com suas próprias estruturas políticas e administrativas. No entanto, o termo "Rússia Soviética"formalmente aplicável apenas à República Socialista Federativa Soviética da Rússiaera frequentemente usado por autores não soviéticos para se referir a todo o país devido à dominação exercida pela RSFS da Rússia.

Stalinismo (1927–1953)