A Congada da Lapa, ou lapeana, é uma festa brasileira celebrada desde 1820 no município da Lapa, no Paraná.
É uma das manifestações culturais afro-brasileiras mais antigas e importantes do Sul do Brasil, com registros desde o início do século XIX, sendo considerada, hoje, a única congada ainda ativa no estado do Paraná.
De acordo com José Loureiro Fernandes, embora as congadas eram realizadas em outros municípios paranaenses, como em Paranaguá, Antonina, Curitiba e Castro foi na Lapa que a tradição foi preservada, tornando-se símbolo do folclore regional. Sendo ainda, de acordo com Ari dos Santos Silveira Pinto Junior, uma manifestação de cultura popular, que integra de forma significativa a formação histórica e cultural da população lapiano.
Origens
thumb|200px|esquerda|Encenação da congada da Lapa na década de 1950. Originado no período colonial, o auto da Congada tem como base a narrativa da colonização portuguesa na África, especialmente o domínio e a cristianização dos reinos do Congo e de Angola. Ao longo do tempo, consolidou-se como uma importante expressão da cultura popular brasileira, permanecendo presente até hoje nas tradições de estados como Minas Gerais, São Paulo e em parte do Nordeste.
Assim como outras congadas, as congadas da Lapa narram, de forma simbólica, a relação entre o Rei do Congo e a Rainha Ginga, cuja rivalidade é representada como uma guerra que se transforma em celebração. A tradição, preservada por gerações, descreve um conflito originado por um mal-entendido referente a ausência de convite à rainha, o que leva ao envio de um embaixador armado, inicialmente interpretado como ameaça. No entanto, o confronto não se concretiza, sendo resolvido pelo diálogo, culminando em reconciliação e festa, simbolizando a união entre diferentes povos e a superação de disputas.
História na Lapa
A tradição chegou à Lapa por volta de 1820, trazida por viajantes ligados às rotas tropeiras. A congada é uma forma de devoção a São Benedito, santo muito cultuado pela população no Brasil. De acordo com o professor Antônio Celso Mendes, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), a celebração foi incentivada pelos padres católicos com o objetivo de converter os negros ao cristianismo. Mantida ao longo de gerações por famílias tradicionais do município, a manifestação desempenha um papel central na preservação da memória afrodescendente regional.
De acordo com Cláudia Bibas, ainda no século XVIII teve início a devoção local a São Benedito. Segundo registros em Livro Tombo, uma imagem de São Benedito datada de 1772, pertencente à Irmandade dos Pretos, foi esculpida em madeira pelo escravo Joaquim Antonio da Luz Maia, conhecido como Peteca, medindo cerca de 60 cm e adornada com um pequeno resplendor de prata. A imagem que pertencia a antiga capelinha de Santo Antonio da Lapa e que ficava na igreja Matriz foi transferida para a capela Nossa Senhora dos Milagres. Anos mais tarde, devotos resolveram construir uma capela para São Benedito onde ficava o antigo pelourinho. A obra foi realizada por escravizados, descendentes e irmandade, e se arrastou por décadas, sendo finalizada em 1908. Na década de 1950 a antiga capela foi demolida, dando espaço para uma igreja maior, transformada em santuário. A construção da nova igreja se deu por meio de devotos e ajuda de congueiros. A imagem de São Benedito constitui elemento central na performance da Congada, sendo representada pela bandeira presente em todo o ritual. Atualmente, esse objeto encontra-se em exposição no museu Casa Vermelha, na cidade da Lapa.
Características O auto popular, com roupas coloridas, pomposas e rito pagão, mistura dança, teatro, música e religiosidade, com forte influência das tradições africanas e do catolicismo. Ela encena uma narrativa simbólica envolvendo o Rei do Congo e a Rainha Ginga de Angola, representando conflitos, reconciliação e celebração, bem como expressando valores de fé, resistência e identidade cultural.
A manifestação coreográfica integra elementos interpretativos e cânticos estruturados em versos elaborados, os quais, em sua maioria, fazem referência à figura do "Santo Preto". A manifestação é acompanhada por diversos instrumentos musicais, entre os quais se destacam a viola, a canza, o reco-reco, caixas e tambores, além da presença dos cantadores. Trata-se, em essência, de uma expressão simbólica intensificada, cuja temática é de natureza religiosa. Ao mesmo tempo, preserva uma tradição histórica que remonta ao período colonial.
thumb|200px|esquerda|Santuário de São Benedito, na Lapa, Paraná. A congada é realizada sempre em 26 de dezembro de cada ano durante a festa de São Benedito na cidade, quando ocorrem missas, procissões e apresentações do grupo de congueiros. Na Lapa, a Congada está profundamente vinculada ao Santuário de São Benedito, considerado o maior Santuário Diocesano do mundo dedicado ao santo, que atua como centro religioso e simbólico da manifestação. É nesse espaço que se concentram as principais celebrações. Essa relação reforça o caráter devocional da congada e evidencia o sincretismo entre tradições africanas e o catolicismo, sendo fundamental para a preservação da identidade cultural e da memória afro-brasileira local.
Em 1951, essa tradição foi registrada no filme produzido por Vladimir Kózak, considerado o mais antigo registro audiovisual de uma manifestação afro-brasileira no Paraná, realizado no contexto de pesquisas de José Loureiro Fernandes e hoje pertencente ao acervo do Museu Paranaense. A obra apresenta, de forma poética e sem áudio, o percurso do rei do Congo pela Lapa até o local da encenação, onde se desenvolvem danças, cantos e representações dramáticas envolvendo personagens como rei, rainha e embaixador, culminando na encenação do encontro conflituoso entre o rei do Congo e a embaixada da rainha Ginga durante festejos dedicados a São Benedito.
Durante as gravações do filme Cafundó, em 2003, o diretor Rubens Genaro identificou, na Lapa, a situação vulnerável dos congueiros que participaram da produção. A partir disso, em parceria com Paulo Betti e Clóvis Bueno, foi estruturado um projeto de revitalização viabilizado pela Lei Rouanet e patrocinado pela Petrobras. Implementado em 2004, o projeto incluiu ações de assistência social, ensaios regulares, formação musical e em dança, além da aquisição de equipamentos, figurinos e materiais de divulgação, contribuindo para a preservação da tradição. Em 2006, o Museu Paranaense realizou uma exposição dedicada à Congada da Lapa, ocasião em que estabeleceu contato com a Associação da Congada local, fortalecendo a valorização e a divulgação da manifestação cultural.
Reconhecimento thumb|200px|Casa vermelha, na Lapa, Paraná. Em reconhecimento à sua relevância histórica e cultural, a Congada da Lapa foi oficialmente registrada como Patrimônio Cultural Imaterial do município da Lapa, e do Paraná, por meio da atuação da Coordenação do Patrimônio Cultural do Paraná, vinculada à Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, assegurando sua salvaguarda e valorização como bem representativo da diversidade cultural brasileira. Nos últimos anos tem se buscado resgatar a história da congada lapeana com a ajuda de instituições, universidades e poder público. Foi também criado o grupo folclórico Congada de São Benedito da Lapa, vinculado a família Ferreira, para melhor organizar e difundir a tradição e o evento.
Em 2009, a Congada da Lapa foi homenageada durante as celebrações da Consciência Negra em Curitiba. No ano seguinte, em 2010, recebeu nova homenagem da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo na Semana da Consciência Negra local, ocasião em que foi inaugurada a Sala da Congada e disponibilizado um espaço para armazenamento de seus materiais na Casa Vermelha.
Em 2013, Miguel Ferreira, congueiro representante da família Ferreira, ganhou reconhecimento nacional ao ser premiado pelo Ministério da Cultura no "Culturas Populares". O destaque impulsionou o compromisso da prefeitura em levar a Congada da Lapa às escolas, tendo nele a figura central para a realização dessa iniciativa.
Ver também Lavação das Escadarias da Igreja do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito
Ligações Externas Die Congada von Lapa und die afro-brasilianische Religiosität in Paraná:: Volkskultur, Geschichte und Erinnerung - Softcover
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