A língua mehinako (em mehinako: imiehünaku, AFI: [imʲehɨnaku]), também conhecido como meinaco, meinacu ou mehináku é uma língua pertencente à família arauak, falada pelo povo indígena Meinaco, que vive às margens do rio Kurisevo, no Parque Indígena do Xingu, localizado no Mato Grosso, Brasil.

Embora o mehinako seja falado por aproximadamente 325 falantes divididos entre quatro aldeias, a língua se mantém estável em comparação com outras línguas indígenas brasileiras, pois continua sendo transmitida às novas gerações e utilizada no cotidiano das comunidades. No entanto, isso não a exclui da condição de alto risco de extinção enfrentada pelas demais línguas indígenas do Brasil.

Não há um consenso geral quanto a classificação das línguas arauak, uma vez que podem ser utilizadas as classificações de Aikhenvald (1999), Ramirez (2020), Payne (1991), ou Joelsky (2017). Segundo Joelsky, a língua mehinako faz parte da sub-família xaray-Xingu, que por sua vez faz parte do ramo arauak oriental, da família arauak. Por conta de sua similaridade com a língua wauja, o mehinako e o wauja já foram considerados a mesma língua, todavia, o consenso atual é que são consideradas línguas diferentes apesar de serem muito semelhantes.

Etimologia O termo "mehinako" é proveniente de uma adaptação fonológica indígena ao português brasileiro do endônimo imiehünaku. miniaturadaimagem|Tatu-mirim, espécie de tatu endêmica do Mato Grosso A origem etimológica do nome "mehinako" é incerta e há poucas evidências documentais que permitam determinar com precisão seu significado. Uma delas, obtida através da entrevista concedida pelo indígena Iumuin Mehinaku, afirma que imiehünaku significa "toca de ariranha". No entanto, essa explicação apresenta inconsistências, uma vez que a tradução mais precisa para "toca de ariranha" na língua mehinako seria ewexüpünepenu.

Uma outra possibilidade etimológica pode ser observada a partir da designação utilizada pelos wauja, povo indígena próximo dos mehinako. Os wauja referem-se aos mehinako pelo termo iyehünaku, que parece ser derivado de iyehü, nome de uma espécie de tatu local, associado ao sufixo -naku, que, por sua vez, significa "local" ou "interior de". Essa denominação sugere que o nome mehinako pode estar relacionado ao local do tatu. Distribuição O mehinako é uma língua de distribuição geograficamente limitada, sendo principalmente um idioma étnico associado ao povo mehinako e à região do Parque Indígena do Xingu. É utilizada por aproximadamente 326 falantes distribuídos entre quatro aldeias. Diferente do que ocorre em alguns outros povos indígenas, no caso do mehinako há uma correlação entre o número da população e o número de falantes. Todos os membros das quatro aldeias mehinako falam a língua materna. Além disso, devido há uma grande ocorrência de casamentos interétnicos, percebe-se uma forte presença da língua mehinako nas aldeias dos povos próximos, como os Aweti, Wauja e Yawalapiti.

Na literatura linguística, é amplamente reconhecido que o Xingu constitui um território de intenso multilinguismo. Entretanto, apesar do contato secular entre os mehinako e os diversos povos xinguanos, esse grupo mantém uma relativa uniformidade linguística. Não é possível afirmar, de forma homogênea, que haja influência direta de outras línguas indígenas ou do português em suas comunidades.Salvo os compartilhamos linguísticos que deram origem ao mehinako falado atualmente, a língua deste povo se mantém resistente a mudanças oriundas do contato, mesmo com o português, que está cada vez mais presente na comunidade dada a inserção de celulares, rádios e televisores.

O mehinako é a língua utilizada no ambiente familiar, enquanto o português tem se estabelecido como uma espécie de língua franca, tanto no Xingu quanto fora dele. Os indígenas mais jovens, geralmente bilíngues em sua língua nativa e em português, empregam este último para tratar de questões ligadas à gestão de seus territórios, à venda de artesanatos e a outras interações com a sociedade não indígena.

Quanto à alfabetização em mehinako, entende-se que essa era bastante precária nos anos anteriores a criação do Imiehünaku iayaka: livro para alfabetização na língua mehinako. E, hoje em dia, o ensino escrito da língua mehinako fica reservado à escola indígena estadual, onde são ensinados tópicos aleatórios a respeito de sua língua.

Dialetos e línguas relacionadas miniaturadaimagem|330x330px|Vista superior do parque indígena Xingu Por ser uma língua de distribuição relativamente pequena, o mehinako não dispõe de diferentes dialetos, mas tem uma grande proximidade com a lingua wauja, como pode ser visto na tabela a seguir: +Comparação entre os vocábulos do wauja e do mehinako Mehinako Wauja Portuguêsukuukúflechakula pilatüxunetseicolar (objeto)uhuuhupuyabatata doceapapayẽiapapaataiespírito -naku -nakulocal de (sufixo)panakapanakatíplanta (cultivada) -werehü -uruwehodono de (sufixo)e'teneeteneremoarimu'tutuarimaʒutocarvãoputakaputakaindígena (xinguano) miniaturadaimagem|330x330px|Colar tradicional mehinako

História Pouco se sabe sobre a origem dos povos do Xingu, sua fixação na região e seus processos migratórios. O conhecimento atual tem sido construído de forma gradual a partir de fontes documentais escassas, muitas delas produzidas por viajantes e estudiosos cujos interesses não estavam centrados no estudo linguístico, da tradição oral e de pesquisas etno-arqueológicas.

No caso dos mehinako, embora os anciãos relatem sua presença secular nas proximidades dos rios Kurisevo e Kuluene, o primeiro registro etnográfico sobre esse povo foi feito por Karl von den Steinen em 1884, durante sua expedição à região. Seu livro Entre os Aborígenes do Brasil Central reúne descrições sobre os povos indígenas que visitou durante essa viagem, bem como aspectos das línguas desses povos. Dessa maneira, a reconstrução do histórico de contato e deslocamentos territoriais dos mehinako é complexa, pois, além do relato de Steinen, há poucas fontes documentais disponíveis.

A alfabetização em mehinako era bastante precária anterior à criação do Imiehünaku iayaka: Livro para Alfabetização na Língua mehinako, publicado em 2002. Esse material foi um marco inaugural no estudo da alfabetização na língua, pois, apesar de já existirem registros escritos anteriores, não havia até então um material didático voltado especificamente para o ensino formal da escrita em mehinako. esquerda|miniaturadaimagem|Indígenas Mehinako durante a visita de Karl von den Steinen Atualmente, o ensino da língua escrita ocorre principalmente na escola indígena estadual, onde são abordados diversos tópicos a respeito da língua. Se, inicialmente, a escola foi concebida como um meio de salvaguardar a cultura mehinako diante dos receios gerados pela crescente presença não indígena, seu papel atualmente vai além dessa função. Para muitos mehinako, especialmente os mais jovens, a escola tem sido vista como uma ferramenta de acesso e inserção na cultura não indígena, além de um instrumento essencial para contribuir com o desenvolvimento de suas comunidades.

Fonologia Consoantes

Por se tratar de uma língua que passou grande parte de sua história como exclusivamente falada, fato comum em muitas línguas indígenas, o mehinako possui uma grande complexidade de sons, tendo 25 fones consonantais. Dos 25 fones presentes, 13 deles são considerados fonemas distintos, pois se encontram em oposição dentro do sistema da língua, são eles: //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, // e //; 5 são resultado de processos morfofonológicos, são eles: [pʲ], [kʲ],[], [mʲ] e []; e 7 estão em variação livre, a saber: [], [], [] e[], [], [] e []. A seguir se encontra a tabela dos fonemas consonantais do mehinako: +Fonemas consonantais do MehinakoBilabialAlveolarPós-alveolarRetroflexaPalatalVelarGlotalPlosivaptkNasalmnAfricadatstʃTap ou flapɾFricativaʂhLaterallAproximantewj

Vogais Semelhantemente ao que ocorre com os sons consonantais da língua mehinako, há uma divergência no número de fones e de fonemas vocálicos, uma vez que são muito comuns as transformações fonológicas. Do total de 21 fones vocálicos, somente cinco são considerados fonemas vocálicos: //, //, //,// e //. Dez ocorrem em variação livre, sendo eles: [], [], [], [], além das formas longas [],[], [], [], [] e []. Os seis fones restantes – [], [], [],[], [] e [] – resultam de um processo de nasalização regressiva, que afeta os segmentos à esquerda de consoantes nasais.

+Fonemas vocálicos do mehinakoAnteriorCentralPosteriorFechadaiɨuMédiaeAbertaa

Transformações Fonológicas Transformações envolvendo consoantes Na língua mehinako, três processos de assimilação influenciam a modificação das consoantes. O primeiro é a palatalização, que afeta as plosivas /p/ e /k/, as nasais /m/ e /n/, além da aproximante /w/, resultando em alterações articulatórias que aproximam esses sons da região palatal. O segundo processo é a africação, que ocorre com o fonema /t/, modificando sua articulação para um som com características de plosiva e fricativa ao mesmo tempo. Por fim, há o vozeamento da fricativa retroflexa /ʂ/ quando esta aparece em contexto intervocálico, tornando-se sonora devido à influência das vogais adjacentes.

Palatalização

O processo de palatalização ocorre na posição inicial da palavra e é acionado pela presença da vogal anterior /i/, que constitui o núcleo da estrutura (C)V dos proclíticos pronominais de segunda pessoa (singular e plural). Esse fenômeno acontece quando os proclíticos se anexam a determinadas palavras para formar sintagmas possessivos, construções estativas, entre outras estruturas gramaticais. Os proclíticos pronominais de segunda pessoa responsáveis por desencadear a palatalização dessas consoantes são {pi=}, correspondente à segunda pessoa do singular, e {ji=}, correspondente à segunda pessoa do plural. Seguem alguns exemplos: + Palatalização das plosivas Originalnu- (1sg) pi- (2sg) ji- (2pl)kupatɨ (peixe)nukupatɨpitʃupatɨjitʃupatɨpahɨ (macaco)nupahɨpipjahijipjahimapapalu (borboleta)numapapalupimjapapalujimjapapalunai (roupa)nunaipiɲaijiɲaiwana (braço)nuwanapijanajijana Por mais que se origine na presença do /i/ no proclítico, o processo de palatalização não ocorre quando a sílaba CV inicial da palavra que sucede o proclítico pronominal tem como núcleo a vogal /i/. Mesmo na presença dos proclíticos {pi=} (segunda pessoa do singular) e {ji=} (segunda pessoa do plural).

Africação

O processo de africação do fonema /t/ ocorre no mesmo contexto da palatalização, ou seja, na posição inicial da palavra, sendo igualmente acionado pela presença da vogal anterior /i/. Quando os proclíticos se anexam a palavras para formar sintagmas possessivos, construções estativas, entre outras estruturas gramaticais, o fonema /t/ sofre uma modificação articulatória, passando a ser realizado como um som africado. +Africação do /t/ Mehinako nu- (1sg) pi- (2sg)ji- (2pl)tewenutewepitsewejitsewetiwinutiwipitsiwijitsiwi

Também se faz presente no mehinako a palatalização/africação no contexto da sufixação, seguindo as mesmas regras de formação de quando ela ocorre no início da palavra.

Vozeamento

O processo de vozeamento, assim como a palatalização e a africação, é um caso de assimilação de traços na língua mehinako. Esse fenômeno ocorre com a fricativa retroflexa /ʂ/ quando aparece entre vogais, independente de sua posição na palavra, fazendo com que adquira o vozeamento dos segmentos vocálicos adjacentes e passe a ser realizada como sua contraparte vozeada [ʐ]. +Vozeamento do /ʂ/ Mehinako nu- (1sg) pi- (2sg)ʂula (lagartixa)nuʐulapiʐulaʂepi (banco)nuʐepipiʐepi

Transformações envolvendo vogais Harmonia vocálica