Bertino Cordeiro do Nascimento (Porto, 1928 – Paris, 2014) foi um pintor português, radicado em França.
Ao longo da sua vida, participou em numerosas exposições individuais e coletivas, em particular com o grupo letrista, no qual se inclui parte significativa do seu trabalho artístico. Para além da pintura, praticou também a escultura (de madeira e argila), montagens (objetos) e criou instalações.
Biografia Nascido no Porto em 1928, Bertino Cordeiro cedo revelou a sua inclinação para as artes plásticas, sendo bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.
Em maio de 1958, expôs no Salão do Turismo, em Coimbra, numa organização da Comissão Cultural da Queima das Fitas, ao lado de António Pimentel, Mário Silva e outros jovens artistas plásticos. No ano seguinte, Bertino muda-se para Paris, cidade onde viverá até ao fim dos seus dias.
Com o objetivo de revelar talentos em ascensão, em junho de 1960, o Secretariado Nacional de Informação organiza o II Salão dos Novíssimos, em Lisboa. Ao lado de Bertino, são também convidados a expor Ângelo de Sousa, António Aragão, António de Assunção Sampaio, António Quadros, Arlindo Rocha, Artur Bual, Charters de Almeida, D’Assumpção, Irene Vilar, João Mário, João Oom, Louro Artur, Luís Cunha, Mário Eloy, Mário de Oliveira, Martha Telles, Martins da Costa, Nuno de Siqueira e Teresa Sousa.
Em 1968, expôs com Manuel Cargaleiro na Casa de Portugal, em Paris, e, em 1969, na Galeria Interforma, em Lisboa, na exposição intitulada "Relevos".
Numa iniciativa do historiador Joaquim Veríssimo Serrão, Bertino foi um dos convidados para a mostra "10 ans d'art portugais à Paris, 1960-1970", patente no Centro Cultural Português da capital francesa, entre abril e junho de 1971. Cargaleiro, José Escada, Júlio Pomar, Lourdes Castro, Nadir Afonso e René Bértholo foram outros dos convidados para esta coletiva.
Em novembro de 1975, em Lisboa, a Sociedade Nacional de Belas Artes acolheu a exposição "Levantamento da arte do século XX no Porto", procurando mostrar na capital portuguesa a obra de artistas plásticos ligados à cidade do Porto. Bertino marcou presença, ao lado de Alberto Carneiro, Álvaro Lapa, Amadeo de Souza-Cardoso, António Cruz, Armando Alves, Augusto Gomes, Aureliano Lima, Carlos Barreira, Carlos Carneiro, Dario Alves, Diogo Alcoforado, Dordio Gomes, Emerenciano, Fernando Lanhas, Francisco Barceló, Guilherme Camarinha, Helena Abreu, Jaime Isidoro, João Dixo, Manuel Casimiro, Maria Clár, Maria José Aguiar, Martins da Costa, Nadir Afonso, Salvador Barata Feyo, Zulmiro de Carvalho, entre outros.
Em 1978, Bertino expôs individualmente no Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, sob o título "La musique classique: peintures, sculptures" "Pintura-vitral: exposição de artistas portugueses radicados em França" foi o nome da mostra organizada pela Câmara Municipal de Olhão, em 1987, que destacou a obra de Bertino. Três anos depois, a Companhia de Seguros Império, em Paris, acolhe "Bertino: peintre et sculpteur de la musique classique". Em 1992, o Convento dos Cardais, em Lisboa, acolheu a "Exposição táctil" reunindo obras de Bertino e Ana Jotta, António Duarte, Jaime Azinheira, Jorge Barradas, José Aurélio e outros. Em 2009, na Casa de Portugal, na Cité Internationale Universitaire de Paris, realizou a mais completa exposição de Bertino, centrada na literatura mundial, sob o título "De Sócrates a Tolstoi". Várias das suas obras integram hoje as coleções do Museu Calouste Gulbenkian.
Bertino faleceu em Paris, em 2014, sendo o seu corpo cremado no cemitério do Père-Lachaise.
Obra A obra de Bertino Cordeiro é caracterizada por uma profunda fusão entre as artes plásticas, a literatura e, acima de tudo, a música, sendo frequentemente descrito como um pintor de sonoridades. Com um espólio impressionante de cerca de 16 mil obras, o seu trabalho atravessa diversas técnicas e movimentos artísticos do século XX, das quais se destacam as seguintes:
O Letrismo e a "escrita" pictórica Bertino é considerado o artista português que mais se aproximou do Letrismo, movimento francês que toma os signos do alfabeto como elementos fundamentais da criação artística. Na sua obra, as letras não surgem apenas como veículos de significado verbal, mas também como formas visuais e sonoras, dotadas de valor onomatopaico e fonético. Funcionam, muitas vezes, como figuras musicais numa partitura, organizadas no espaço da tela segundo ritmos, intensidades e cadências próprias. O artista tratava a letra com grande apuro estético, quase como um copista medieval, fazendo-a "florescer" e integrando-a em composições densas, nas quais a força visual do signo não anulava a ligação ao texto. A sua produção revela ainda afinidades com a poesia experimental, o graffiti, o cartazismo pop e a arte conceptual.
A música como eixo central A sonoridade é uma das marcas mais distintivas da obra de Bertino. Grande parte da sua pintura constitui uma homenagem à música, aos compositores e às formas musicais. Beethoven, Mozart, Schubert, Stravinski, Bach e Isaac Albéniz são algumas das figuras evocadas nas suas composições. Através da repetição de caracteres — como em "MMMOOOOZZAAAARRRTTT" — e da sua disposição espacial, em movimentos ascendentes, descendentes ou rítmicos, o artista procurava traduzir visualmente a intensidade, a variação e a vibração dos sons. Esta relação com a música manifesta-se também nos títulos das obras, onde surgem frequentemente referências como Sonate, Madrigal, Opera e Musique de Chambre.
Diversidade de suportes e técnicas Ao longo da sua carreira, desenvolvida entre Paris e Portugal, Bertino demonstrou uma assinalável versatilidade técnica. Trabalhou com carvão, óleo, acrílico, tinta-da-china e pastel, explorando diferentes possibilidades expressivas da pintura. A sua prática incluiu também o relevo e a colagem, recorrendo a altos e baixos-relevos, ao uso de gesso e à criação de texturas ora macias, ora ásperas, que reforçavam a dimensão tátil da obra. Para além da pintura, dedicou-se ainda à escultura em madeira, argila e cerâmica, bem como à criação de instalações artísticas, mantendo sempre uma ligação estreita aos seus universos létricos e sonoros.
Coleções temáticas A obra de Bertino Cordeiro organizou-se frequentemente em séries ou coleções temáticas. Entre elas destaca-se a coleção Russie et Espagne, composta por pinturas que homenageiam escritores, filósofos e poetas como Boris Pasternak, Miguel de Unamuno, Federico García Lorca e Averróis. Outros trabalhos revelam o seu interesse por temas históricos, literários e mitológicos, como sucede em Les Neuf Muses, alusiva às musas da mitologia clássica, ou na obra Portugal, centrada na história e nos descobrimentos portugueses. Esta dimensão temática confirma a amplitude cultural do seu trabalho e a forma como a pintura se cruza, na sua obra, com a memória, a literatura, a música e a história.
Grande parte da sua vasta obra encontra-se atualmente depositada no Município de Penamacor, terra à qual o artista permaneceu ligado por fortes raízes familiares, estando em curso um processo de inventariação e valorização deste importante património artístico.
Categoria:Naturais do Porto Categoria:Pintores de Portugal do século XX Categoria:Pintores de Portugal do século XXI