upright=1.2|miniaturadaimagem|Arqueóloga explora um extinto cemitério no terreno da Cúria Metropolitana de Porto Alegre. A arqueologia brasileira é uma perspectiva de trabalho dentro da Arqueologia que visa trabalhar com as problemáticas e as condições específicas da arqueologia no Brasil. A arqueologia brasileira se propõe a combater o eurocentrismo nas produções científicas desse campo no país, buscando resgatar e preservar o patrimônio arqueológico brasileiro. Essa perspectiva também começou a atuar academicamente no país por meio da ampliação dos trabalhos de arqueologia, que costumavam concentrar-se muito nas regiões Sul e Sudeste, e que passou a trabalhar em todo o país através de centros de formação e atuação nas universidades brasileiras. A arqueologia pode traçar sua trajetória intelectual desde os séculos XV e XVI, no contexto do antiquarianismo e do Classicismo, passando pelo Iluminismo do século XVIII e surgindo enquanto disciplina científica no início do século XIX.
Entende-se os esforços da arqueologia inicial do século XIX enquanto método para construção de uma história de origem e evolução humana, partindo de períodos muito recuados de tempo da história da humanidade, estudado através dos vestígios materiais. Já no século XX, a arqueologia se consolidou no campo científico e seu desenvolvimento propiciou a elaboração de teorias que iriam expandir suas abordagens e capacidades, se valendo da multidisciplinaridade para compor seus métodos de trabalho e estudo. No Brasil esse desenvolvimento se deu desde o século XIX, desde a passagem do Império para a República, quando se pensava numa construção de ideais nacionais, além dos discursos construídos para descobrir a respeito da origem e da organização social dos grupos indígenas. Atualmente, a arqueologia brasileira está se voltando cada vez mais para as sociedades indígenas.
História Início das pesquisas miniaturadaimagem|upright=1|Crânio do homem de Lagoa Santa, encontrado por Peter Wilhem Lund. Esta reprodução faz parte do projeto GLAM do Arquivo Nacional. As primeiras descobertas arqueológicas do Brasil datam da chegada dos portugueses à costa brasileira, embora não tivessem o chamado de olhar arqueológico, já que a arqueologia enquanto ciência só data do século XVIII. Existe documentação histórica onde é possível identificar menções à cultura material indígena, o que ajudou arqueólogos a unir essas descobertas a culturas que só podem ser conhecidas por esses registros arqueológicos. Uma dessas descobertas arqueológicas foram as casas subterrâneas dos guaianases, que aparecem na obra Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Sousa. Outro exemplo das descobertas arqueológicas desse período são os sambaquis encontrados pelo jesuíta Fernão Cardim. Segundo a pesquisadora Cristiana Barreto, não havia grande interesse em estudar essas descobertas naquele período histórico, e estes objetos acabavam em alguma coleção particular, exceto por alguns esforços dos jesuítas, que buscavam estudar as diferentes culturas indígenas naquele momento. Com a expulsão dos jesuítas no ano de 1759, estes estudos foram interrompidos.
Entre a segunda metade do século XVIII e o começo do XIX, muitos naturalistas viajantes estrangeiros também contribuíram para as pesquisas arqueológicas no Brasil e sobre o Brasil. Essas investigações tinham bastante ligação com o propósito recorrente à época de estudar a etnologia e a cultura material, principalmente direcionadas territorialmente à Amazônia Alguns naturalistas famosos deste período são Franz Keller-Leusinger e Alexandre Rodrigues Ferreira. miniaturadaimagem|upright=1|esquerda|Boletim da Commissão Geographica e Geologica do Estado de S. Paulo, nº 9. Contribuições para a archeologia paulista: Os Sambaquis de S. Paulo. Destaca-se neste primeiro período da Arqueologia brasileira, a fundação do Museu Real em 1808, que viria depois a ser reformulado como o Museu Nacional. Seu perfil era próximo de um museu de história natural, servindo como uma base para os estrangeiros viajantes e em expedição. Um dos objetivos do museu era o incentivo à pesquisa zoológica e botânica, mas ele serviu também como um repositório para os artefatos encontrados por pesquisadores diversos, a título de "curiosidades". Um arqueólogo que se destacou bastante neste período foi o dinamarquês Peter Wilhem Lund, um naturalista que teve seus primeiros contatos com o Brasil em 1825, e mais tarde fixou residência em Lagoa Santa, Minas Gerais, em 1834. Lund tinha trabalho focado em zoologia e paleontologia, tendo pesquisado mais de 800 cavernas, documentando e coletando vestígios arqueológicos de animais extintos. Destaca-se a descoberta de Lund de vestígios de ossos humanos na Lapa do Sumidouro, junto a sinais de animais pleistocênicos, o que estabeleceu uma teoria sobre a presença de seres humanos contemporâneos àqueles animais. Essa descoberta foi importantíssima, pois na época não havia nenhuma evidência que sustentasse a presença humana num período tão antigo, de modo que houve muitos debates sobre as possibilidades dessa hipótese de existência humana. Lund defendeu fervorosamente sua tese, que ficou conhecida como a questão do homem de Lagoa Santa. e houve muitas pesquisas depois dele na região da descoberta, pelo restante do século XIX e em todo o século XX, tendo muitos debates e controvérsias sobre a antiguidade dos vestígios humanos e a sua origem racial. Apesar de atualmente a tese do homem pleistocênico americano ser bastante aceita, na época foi uma polêmica muito grande, e que acabou motivando governantes como Dom Pedro II a incentivarem as pesquisas, através do Museu Nacional, mas também pela promoção de expedições brasileiras.
Foram organizadas expedições em sítios arqueológicos, sendo marcadas as primeiras escavações. Alguns trabalhos que se destacaram foram o de Ferreira Penna, que documentou pela primeira vez sítios da cultura marajoara, que ficou conhecida como a Expedição Thayer de 1865, da qual participaram também arqueólogos estadunidenses como James Orton e Frederich Hartt. [ref.09] Houve também escavações lideradas por Hartt, onde foram encontrados sítios amazônicos, que continuaram sendo investigados por Orville Derby em 1871. Além destas, em 1876 houve escavações nos sambaquis paulistas, feitas por Rath, e nos sambaquis do litoral sul, feitas por Carlos Wiener e Roquete Pinto.
Este período de incentivo às escavações trouxe, além de artefatos e descobertas arqueológicas, levantamento de dados e muitas hipóteses e teorias sobre a origem e as possíveis conexões dos indígenas brasileiros.
Museus Nacional, Paulista e Paraense miniaturadaimagem|upright=1.5|Foto tirada na seção "Evolução Humana" do Museu Nacional. É possível ver vários crânios nessa seção. A era dos museus na história da Arqueologia brasileira caracteriza a transição da arqueologia para uma fase institucionalizada, sendo o Museu Nacional, o Museu Paulista e o Museu Paraense Emílio Goeldi as principais instituições onde a arqueologia foi praticada entre o final do século XIX e o começo do século XX (1870-1920). As correntes teóricas do evolucionismo, do positivismo e do naturalismo adentraram o Brasil nos anos 1870, junto com a crescente organização da elite brasileira em torno do debate da “cultura nacional”. A partir daí criam-se museus locais como o Museu Paulista e o Museu Paraense, numa busca por uma nova identidade, sem as sombras coloniais. Os museus Paulista (atualmente Museu do Ipiranga) em São Paulo, Paraense em Belém e o Museu Nacional (antigo Museu Real) tiveram papéis importantíssimos no desenvolvimento da arqueologia no Brasil, não só pela questão institucional das pesquisas mas também por estabelecer modelos científicos de produção do conhecimento. A arqueologia, enquanto uma ciência natural dentre várias outras tidas como mais importantes (como a botânica) foi estabelecida como uma arte de classificação, de modo a ilustrar com cultura material a “evolução” da humanidade.
No Museu Nacional, a Arqueologia era tratada como uma espécie de “antropologia biológica”, ficando na mesma seção que a antropologia, a zoologia e a paleontologia no Museu. Um exemplo desse tratamento da arqueologia no Museu Nacional são os estudos de craniometria e traços raciais indígenas que foram publicados pela revista do Museu. As pesquisas em craniometria e no estudo de possíveis “raças” criadas em pontos distintos dos territórios assumiu nos estudos brasileiros a criação de categorias raciais como “a raça de Lagoa Santa” e também “o Homem dos Sambaquis”. Estas teorias evolucionistas também conhecidas como escola “evolucionista racista” foram onde a arqueologia se inseriu, assumindo papel documental dos vestígios humanos encontrados, de modo a sustentar as hipóteses discutidas. Ladislau Netto teve um papel importante neste processo, ao publicar a primeira obra de síntese de arqueologia do Brasil intitulada Investigações sobre a Archeologia Brasileira, em 1885. Algumas de suas ideias foram lidas como bastante ousadas para a época por conta de seu pioneirismo; um exemplo forte está no reconhecimento dos sambaquis como uma formação artificial, ou seja, feita por seres humanos e não pelo acaso da natureza.
O Museu Paulista foi inaugurado após a queda do Império, em 1894, tendo um projeto científico forte desde a sua origem, com inspiração nos museus de história natural da Europa. Neles, a arqueologia tinha um espaço relativo, de importância de cunho pessoal para seu diretor e fundador, Hermann von Ihering. Os trabalhos de Ihering são muito representativos da herança do naturalismo alemão na arqueologia brasileira, que está presente até hoje, segundo especialistas e se apresenta muito no “taxonomismo cultural”, uma forma de análise sem embasamento nas dimensões humanas e sociais. Entre os anos de 1885 e 1908, Ihering publicou mais de 20 títulos sobre a arqueologia brasileira, e também adquiriu muitas coleções para o acervo do museu. Hermann von Ihering envolveu-se na extensa polêmica sobre a origem dos sambaquis, não admitindo que os acumulados de concha poderiam ter sido feitos pelas antigas populações indígenas. Segundo a pesquisadora Cristiana Barreto, esse posicionamento refletia a perspectiva eurocêntrica de Ihering a respeito dos povos originários brasileiros, tendo chegado a defender o extermínio destas populações em nome do progresso. Este tipo de posicionamento motivou reações por parte de intelectuais brasileiros e também desencadeou debates que fortaleceram depois a criação do “Serviço de Proteção aos Índios”.
miniaturadaimagem|upright|esquerda|Ex-libris de Emílio Goeldi O Museu Paraense teve também uma grande relevância para a arqueologia brasileira, devido à sua localização em Belém ter proporcionado o uso da instituição como uma estação de campo para as muitas expedições arqueológicas na Amazônia. O museu foi reformulado pelo zoólogo suíço Emílio Goeldi (e leva seu nome), e nele a arqueologia compartilhava espaço com a etnografia e a antropologia numa seção própria. Apesar de ter sido discursivamente um museu voltado para as questões do “homem americano”, tendo a Amazônia como lugar central de pesquisa, é compreendido por Cristiana Barreto que ainda havia um olhar estrangeiro na perspectiva do museu, como uma continuidade do trabalho dos naturalistas do princípio das pesquisas. Uma questão que sustenta essa perspectiva é que todos os trabalhos publicados pelo museu nesse período eram de autoria internacional, além de ter pouquíssimas contribuições na área da arqueologia.
É possível afirmar que o processo de desenvolvimento da arqueologia brasileira através da área institucional ocorreu marginalmente às preocupações nacionalistas, tendo uma produção científica voltada para o acompanhamento das produções internacionais, sem a elaboração de conhecimentos próprios e voltados para os temas brasileiros.
Primeira geração de arqueólogos