miniaturadaimagem|Ilustração em xilogravura de uma edição da Naturalis Historia de Plínio, o Velho (1582)|400x400px O humanismo da Renascença (séculos XV e XVI) viu um ressurgimento do hermetismo e das variedades medievais e neoplatônicas de magia cerimonial. Num turbulento contexto de disputas e tentativas de resolução por legitimidade religiosa, filosófica e científica, surgiu a definição de magia natural e suas proposições em diversos sistemas mágicos renascentistas. Sua discussão esteve presente em universidades e nos discursos de autoridades como teólogos, filósofos e médicos até o Iluminismo, quando as revoluções das ciências naturais determinaram um novo conhecimento canônico. Ainda assim, ela influenciou posteriormente o ocultismo contemporâneo.

Academia Florentina A divulgação da chamada "magia natural" se iniciou no século XV por Marsilio Ficino e seu tutelado Giovanni Pico della Mirandola. Ficino difundiu as traduções latinas de textos herméticos, e a magia natural, considerada como baseada no uso de forças ocultas da natureza, era vista como compatível com as antigas filosofias espirituais (de Hermes Trismegisto, Zoroastro, Orfeu, Pitágoras e Platão) e com o cristianismo da Igreja Católica de então. Ela fazia parte das chamadas ciências ocultas, junto à astrologia e alquimia, que também foram resgatadas com o Renascimento.

A proposta de Ficino e Pico era do tipo de magia simpática: baseava-se na doutrina da existência de simpatias naturais e visava ao aperfeiçoamento da alma e sua elevação em direção ao celestial, o que também seria facilitado através do uso de substâncias naturais, imagens e signos, que atrairiam potências da natureza; sobre isso, Ficino no De Amore, em comentário ao trecho 202d-203d do Banquete de Platão, irá fundamentá-la no platonismo ao relacionar o Eros cósmico com a magia:"... as obras de magia são obras da natureza, mas a arte é sua serva ... Os antigos atribuíam essa arte aos daemones porque os daemones entendem o que é a inter-relação das coisas naturais, o que é apropriado para cada uma e como a harmonia das coisas, se estiver faltando em algum lugar, pode ser restaurada ... os daemones são mágicos por entenderem a amizade das próprias coisas."Ficino esforçou-se em diferenciar sua magia espiritual da magia demônica medieval. Francesco da Diacetto, um de seus discípulos, descreve um ritual mágico para canalizar energias solares, em que o praticante deve se vestir com um manto áureo e capa cor de açafrão, queimar incenso feito de plantas solares ante um altar ornado de uma imagem de Sol entronado e coroado e, ungido com matérias solares, cantar um Hino Órfico ao Sol. Isso atrairia e concentraria as propriedades do Sol, através dos artefatos e imagens que refletem seu aspecto.

Pico distingue a magia má da sua magia naturalis boa, que não atrai poderes demoníacos e é permitida. Sobre esta última, ele reiteradamente afirma que é realizada pelo estabelecimento de "vínculos" que unem ou "casam" as coisas do Céu com as coisas da Terra."Esta, perscrutando intimamente o secreto acordo do universo a que os gregos chamam de uma maneira muito significativa sumpatheia, explorando a mútua ligação das naturezas, atribuindo a cada uma delas as congênitas lisonjas que se chamam iugges, isto é, encantamentos dos magos, traz à luz, como se ela própria fosse o artífice, as maravilhas escondidas nas profundezas do mundo, no seio da natureza e dos mistérios de Deus, e, do mesmo modo que o camponês casa olmos com videiras, também o mago casa a terra com o céu, isto é, as forças inferiores com os dotes e as propriedades superiores. Daqui se infere que, enquanto a primeira magia aparece como monstruosa e nociva, a segunda mostra-se divina e salutar. Sobretudo por isto, enquanto uma, colocando o homem à mercê dos inimigos de Deus, o afasta de Deus, a outra exalta-o para tal admiração das obras de Deus, de onde seguramente derivam a caridade, a fé e a esperança."Mirandola, Giovanni Pico Della (1496). Oratio de Hominis Dignitate. Em português: Discurso sobre a Dignidade do Homem (3 de maio de 2019). Lisboa: Edições 70.Na Apologia (1487), ele afirma conclusões como "Magia é a parte prática da ciência natural", "magia natural é lícita, e não proibida" e "nada existe que seja virtude no céu ou semente na terra, e separadas estejam, a que um mago não possa atuar e unir":Depois, Pico incorporou o estudo da Cabala na interpretação cristã e considerou que a magia natural deveria ser suplementada pela Cabala prática para que não fosse fraca. Ele afirmou que os mistérios cristãos podiam ser provados pelos escritos judaicos esotéricos e teve o intuito de sintetizar as filosofias judaica, cristã e pagãs, o que ele defendeu nas Novecentas Teses: "não há outra ciência que nos dê maior certeza da divindade de Cristo do que a magia e a Cabala". Essas afirmações instigaram a realização de uma comissão papal por Inocêncio VIII para verificar sua ortodoxia, resultando na condenação de uma parte de suas teses sobre magia como heresia e o banimento de duas de suas obras, Conclusões (1486) e Apologia. Um membro da comissão examinadora, Pedro Garisia (ou Garcia), afirmou que todas as formas de magia eram contrárias à Igreja Católica e filosofia natural. Sisto IV, porém, tinha interesse na Cabala, e o estudo desta foi parcialmente reabilitado quando o papa ordenou a Pico que traduzisse três obras cabalísticas ao latim.

Reuchlin miniaturadaimagem|Cristo sefirótico no Evangelho de João de um Novo Testamento Siríaco: Widmanstetter, Johann Albrecht (1555). Liber Sacrosancti Evangelii De Jesu Christo Domino & Deo Nostro. Viena: Michael Zimmermann. Provavelmente desenhado por Guillaume Postel. Esses eventos motivaram a divulgação da Cabala por Johann Reuchlin, um erudito que promoveu os estudos da gramática hebraica e resgatou manuscritos judaicos antigos. Em sua época, a filosofia oculta estava ganhando credibilidade entre estudiosos, junto à religião mística, numerologia e música poderosa. Pautando-se na legitimidade da filosofia judaica, ele teve alguns contatos com Pico e utilizou suas traduções latinas posteriormente. Reuchlin ficou conhecido junto a Pico como um dos fundadores da Cabala cristã (cujo interesse se difundiu e derivou-se em sistemas posteriores por outros ocultistas da Renascença). Tal como Pico, Reuchlin defendeu o poder mágico dos nomes e simbolismo de letras, como o Tetragrammaton, principalmente na obra De verbo mirifico (1494), na qual afirmou a necessidade de ritos iniciáticos para se operar feitos sobrenaturais, por exemplo através do pentagrammaton "ISHUH". Porém, distinguindo-se de outros proponentes renascentistas de sistemas mágicos, Reuchlin afirmava que esses "milagres" eram graças à agência de Deus, não do homem. Ele chama tal arte das maravilhas de soliloquia, que é o ato de fazer requisições por meio de preces, e a distingue da física, magia e astrologia como uma "magia divina". Em referência a Pico, disse no De verbo mirifico:No final do século XV, proibições e expulsões de judeus ocorreram em universidades e ducados da Suábia, e, naquela área repleta de misticismo, mania das bruxas e demonologia, o sentimento antissemita, que havia declinado no início do século, tornou-se muito intenso. Após a morte de seu benfeitor, Reuchlin foi forçado a fugas de uma cidade a outra, e surgiram diatribes contra ele. Em 1511, Johannes Pfefferkorn, um judeu apóstata, acusava Reuchlin de receber subornos por sua posição para proteger judeus e de que ele não seria o autor de suas obras acadêmicas; além do mais, ele atacou a defesa que Reuchlin havia feito à comissão imperial contra o confisco, censura e queima dos livros judaicos. Em 1512, libelos foram feitos por Pfefferkorn e Arnold von Tungern contra o livro de Reuchlin Augenspiegel ("Óculos"), com Tungern afirmando que as sinagogas eram "templos de bruxas" e que o Talmude estava repleto de imoralidade, magia e feitiçaria. Posteriormente, sob incentivo de Jacob van Hoogstraaten, a faculdade de teologia de Colonha moveu um processo contra Reuchlin; com permissão imperial, baniu seu livro de Defesa e, em 1513, queimou o Augenspiegel como heresia. Hoogstraeten era então o inquisidor papal de maior poder na Alemanha e mudara de perseguir bruxas e magia, a uma campanha antissemita. Em 1514, ele apelou a Roma e uma comissão foi apontada por Leão X para julgar Reuchlin. Apesar de a maioria ter absolvido as obras de Reuchlin, uma série de atos legais se sucedeu e o caso foi adiado, até que Leão condenou o Augenspiegel em 1520. Toda a controvérsia ficou conhecida como "caso Reuchlin", ao qual houve uma reação de humanistas que defenderam-no dentro das discussões da Reforma, como também o fizera depois Lutero.

Tritêmio Outro inspirado por Pico della Mirandola foi Johannes Trithemius, um monge beneditino que se tornou um apólogo da magia natural, teorizando que ela dependia não apenas da natureza, mas do sobrenatural, tanto da divindade por Deus e seus anjos quanto, no outro extremo, do Diabo e demônios. Ele baseava-se na autoridade do escolástico Alberto Magno para a defesa da arte e nela confluía também a consideração do feitio de milagres. Escreveu esboços de uma obra chamada Steganographia, que propunha realizar comunicação a distância por meio de cifras mágicas. Charles de Bovelles (Bovillus) visitou-o em seu monastério em 1503. Bovillus vinha do Reino da França, então hostil à magia—Simon de Phares recentemente havia sido condenado em Lyon por prática de magia e astrologia em 1494, e Jacques Lefèvre d'Étaples se retratou de publicar seu tratado de magia natural e passou a condená-la. Em uma carta de 1508, Bovillus relatou suas impressões negativas de Tritêmio, de que seu livro conteria, além das cifras e proposta de comunicação a distância, encantamentos de amor; ele concluiu então que a obra deveria ser queimada, afirmou também que Tritêmio fizera profecias dúbias e que tais feitos só poderiam ser atribuídos a demônios. Essas acusações causaram grande repercussão e Tritêmio teve que se defender, qualificando Bovillus como um mentiroso, pois em sua visita havia tido dele aprovação à sua obra, e negou que praticasse artes demoníacas e necromancia. Uma defesa inclusive se encontra no prefácio da obra publicada posteriormente, Polygraphia, em 1518, dedicada ao imperador Maximiliano I.

Alcunhado de Philomagus ("amante da magia"), Tritêmio não rejeitou o título, pois via a magia que propunha como baseada na piedade cristã e aceitável—seja divina, humana ou natural—e repudiava a outra forma "supersticiosa, diabólica e permitida a nenhum dos fiéis, visto que é condenada pela Santa Igreja". Seu sistema mágico criptológico tornou-se conhecido e serviu a parte de sua defesa quando ele afirmou que tinha por princípio a confidencialidade esotérica, pois as técnicas criptográficas impediriam a corrupção por influências demoníacas e garantiriam que apenas os espiritualmente e intelectualmente aptos poderiam se instruir na magia. Nos livros, reiterou que todas as suas informações se baseavam nos preceitos católicos e leis naturais e que eram lícitas, diferente da magia maléfica.

Tritêmio talvez seja um dos quatro prelados mencionados por Paracelso como seus professores e teria sido um dos professores gregos de Reuchlin, o qual, por sua vez, teria ensinado hebreu a Tritêmio.p. 93

Agripa miniaturadaimagem|O corpo humano inscrito no pentagrama, nas pontas encontram-se os símbolos dos planetas, os símbolos do Sol e da lua bem próximos do corpo, denotando uma representação do macrocosmo/microcosmo. Ilustração da obra De Occulta Philosophia de Agripa.