A Fazenda Pau d'Alho é uma antiga propriedade rural do período cafeeiro,construída em 1818, no município de São José do Barreiro, parte paulista do Vale do Paraíba.

É tombada como Patrimônio Histórico pelo IPHAN (1968) e CONDEPHAAT (1982) devido à sua importância para a história nacional.

História Sua origem remonta a 1792, quando João Ferreira Guimarães e seu filho Francisco Ferreira de Souza adquiriram as terras da Fazenda do Barreiro e outras terras próximas, que futuramente dariam origem à Fazenda Pau d'Alho. Nessa época, já produzia-se milho, arroz e aguardente.

No início do século XIX, entre 1817 e 1819, quando o coronel João Ferreira de Sousa -considerado um dos fundadores do povoado de São José do Barreiro - herdou as terras de seu pai, ele implementou-as e deu origem à Fazenda Pau d'Alho, construindo a casa sede da fazenda por volta de 1818.

Em 1822, os primeiros cafezais foram registrados pelo botânico, naturalista e viajante francês Auguste de Saint-Hilaire. Segundo ele a plantação de café da fazenda Pau d'Alho era a maior que já visto ao longo da estrada para o Rio de Janeiro, conhecida até então como Caminho Novo.

No mesmo ano, D. Pedro I visitou a Fazenda no caminho a São Paulo dias antes da Independência. Diz-se que ele então pediu comida à proprietária da casa, que o atendeu apesar de não ter reconhecido e pediu para que ele fizesse sua refeição sentado nos degraus ao lado de fora da cozinha, pois dentro da casa estavam preparando para a chegada do príncipe regente. Após tudo esclarecido, Dom Pedro I convidou o proprietário João e seu filho para acompanharem sua comitiva, fazendo parte da guarda de honra do imperador. A viagem pelo Vale do Paraíba paulista, na verdade, tinha o objetivo de conquistar o apoio dos fazendeiros, políticos e milicianos para a causa da independência do Brasil de Portugal. Tal fato, por si, comprova a importância da região, tanto econômica como politicamente, naquele momento histórico do país.Em 1833, os proprietários da fazenda fizeram uma doação de terras para a formação da Igreja Matriz, dedicada a São José e ao povoado de Barreiros, o qual foi consolidado como freguesia em 1842.A plantação de café cresceu rapidamente, e em 1836 já contava com 150 escravos. Com a valorização do café e o consequente aumento de sua produção, foi necessária a criação de instalações específicas para seu beneficiamento, que exigiram edificações com novas características arquitetônicas.Em 1858, com o falecimento de João Ferreira de Sousa, a Fazenda Pau d'Alho é transferida para sua filha Maria Ferreira Ayrosa. À esta época, a fazenda já era bem próspera, em seu auge chegou a ter em torno de: 300 escravos e um professor para os escravizados menores; uma plantação em torno de 300 mil pés de café, produzindo mais de 6 mil arrobas anuais; e cerca de 50 cabeças de gado e 115 mulas.

Por volta de 1900, já em posse de seu neto, o comendador Zebedeu Antônio Ayrosa, ela já demonstrava os primeiros sinais de uma futura decadência. Com a queda do café, a fazenda voltou-se para a pecuária leiteira e permaneceu entre os descendentes da família até a década de 1960. Em 1971, a fazenda foi vendida ao Instituto Brasileiro do Café, o qual tinha a intenção de transformá-la no Museu Nacional do Café, entretanto, o projeto foi abandonado em 1975.

Arquitetura Com 2.460m² de área construída, o conjunto arquitetônico da Fazenda Pau d’Alho faz referência às técnicas construtivas e modos de viver dos séculos XVIII e XIX, tendo sido implantado sobre uma sucessão de planos, que se acomodam gradativamente à encosta do terrenoMarcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994. e organizam-se em quadra. A magnífica construção, em cuja entrada enfileiram-se palmeiras imperiais, está a cavaleiro da estrada dos Tropeiros, à direita do trecho que liga Areias a São José do Barreiro. Fora das muralhas, estendem-se as terras nas quais se plantava o café, em terreno íngreme e com alguns trechos que, hoje, apresentam visíveis ravinamentos e voçorocas.A casa sede da Fazenda Pau d’Alho, projeto do escritório de Ramos de Azevedo, foi construída em taipa de pilão com base de pedra e cercada por varanda em toda a sua fachada. Possuía alpendres de acesso à entrada principal da residência e capela, com portas e janelas no modelo guilhotina. Sua capela possui uma imagem de São Roque e um crucifixo, ambos tombados. É coberta por um telhado em quatro águas. Possuía um alpendre que foi fechado.

O terreiro era uma superfície plana pintada de branco para absorver e concentrar o calor do sol, para agilizar ao máximo a secagem dos grãos. As edificações e todas as suas aberturas eram voltadas para esse enorme vazio central no conjunto arquitetônico. Nesse espaço inóspito, alguns poucos escravizados revolviam os grãos de café que "se estendem sobre um cimento de brancura ofuscante cuja claridade, sob um céu escaldante, é insuportável e obriga logo a gente a descansar a vista em algum trato de verdura." Até por isso o casarão ficava um pouco afastado do terreiro e era separado dele por um jardim.Marcos José Carrilho. As Fazendas de Café no Caminho Novo da Piedade. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1994.A configuração espacial em quadros, tendo o casarão em posição de destaque, permitia uma fácil verificação das atividades no conjunto das edificações, [...] ampliada quando as atividades aconteciam em pátios fechados à frente do casarão. Assim, estavam em jogo, [...] tanto o controle da mão-de-obra escrava, subjugada pela possibilidade de castigos corporais e por uma legislação extremamente favorável ao fazendeiro, como o próprio controle do trabalho ali desenvolvido.Com relação às outras edificações que formam o conjunto arquitetônico da fazenda, impressiona a racionalidade do planejamento e conhecimento na implementação de técnicas para aproveitamento do espaço e dos recursos do terreno, como o uso da roda d’água, bateria de pilões, tulhas, depósitos, oficina, terreiro. Este último dispõe de uma canaleta de pedra em sua face inferior, que conduz as águas para fora do terreiro (a partir de determinado ponto, via canal subterrâneo). O que configurava cuidado com a boa drenagem dessa superfície onde secavam os grãos que financiavam toda o funcionamento e mesmo a existência da fazenda.

A água é muito importante nessas propriedades, já que é utilizada para movimentar as máquinas. Na Fazenda Pau d’Alho, o rego percorre um longo trajeto pelas bordas da encosta do terreno e, ao chegar ao conjunto arquitetônico, alinha-se às edificações. Primeiro alimenta a roda d'água via bicame. Depois coleta as águas servidas e, em seguida, alimenta a turbina de dois moinhos, cada qual em um plano abaixo do outro. "O suceder de quedas e as mudanças de nível determinam a posição e a cota dos edificios de beneficiamento e vinculam a sua disposição".

A senzala, diferentemente de outros conjuntos arquitetônicos da época, localiza-se na posição mais elevada do terreno, em destaque. Segundo o IPHAN (2016), a fazenda foi uma das primeiras a utilizar a adotar o trabalho escravo, o qual representava um elevado investimento financeiro, recomendava-se que a senzala estivesse em lugar arejado e seco, isso explica a sua localização. Em que pese a posição “privilegiada” da senzala, ainda assim do casarão pode-se ter um abarcamento favorável das atividades - tanto do terreiro, quanto da paisagem, e sem sombra de dúvida, a morada do fazendeiro é facilmente reconhecível, entre as várias edificações existentes.Na Fazenda Pau d'Alho os únicos remanescentes que remetem ao engenho são os muros que embasavam a roda d'água. Possui duas edificações utilizadas pelos tropeiros para se abrigarem enquanto aguardavam para fazer o transporte do café até os portos localizados no litoral.

Restauração

No início do século XXI, a Fazenda Pau d’Alho passou a integrar de forma mais sistemática iniciativas de preservação e pesquisa histórica, tornando-se um importante campo de estudos sobre arquitetura rural, formação das elites cafeeiras e a dinâmica do trabalho escravizado no Vale do Paraíba. Por isso, projetos de universidades e do IPHAN passaram a utilizar o sítio como referência para o mapeamento de técnicas construtivas em taipa e para análises de paisagem cultural, permitindo reconstruir parte do cotidiano da produção cafeeira e das relações sociais que ali se desenvolveram. Em 1952, a fazendaApresentava um conjunto arquitetônico praticamente íntegro, remanescente do período áureo do café. Poucos dispositivos relacionados à produção cafeeira haviam desaparecido, como a roda d'água, a bateria de pilões e a tulha, e os novos elementos, inseridos no antigo terreiro, estavam associados à produção pecuária.

Após o tombamento pelo IPHAN, em 1968, a restauração da fazenda foi iniciada em 1969 e conduzida por Luis Saia, sendo concluída em 1975 por Antônio Luiz Dias de Andrade, após a morte de Saia. Durante a restauração, a fazenda recebeu móveis condizentes com as formas de habitar e todo o conjunto da tulha, incluindo a roda d'água e a bateria de martelos, foram refeitos, além da senzala e da casa do administrador terem sido demolidas.

A decisão de restaurar e o desejo de instalar o Museu Nacional do Café, exigiam a realização de levantamentos métrico-arquitetônicos de centenas de fazendas da região. Entretanto, com a urgência em salvaguardar as construções da ruína total, justificou-se o adiantamento das obras em relação às pesquisas, conduzindo as reformas à medida que o conhecimento arquitetônico do período foi se incorporando aos processos de trabalho. Assim, as fotografias feitas por Germano Graeser, em 1942, foram de grande utilidade durante a restauração.

Antônio Luiz Dias de Andrade aponta que Na verdade tratou-se de recompor o conjunto, sem a preocupação da fidelidade pormenorizada com o modelo original, uma vez que não possuíamos todos os elementos necessários e da não recomendação para que assim agíssemos. Dessa forma, procurou-se, na recomposição do conjunto monumental, inserir elementos que não somente marcasse a nossa intervenção, mas que também atendesse as necessidades resultantes do novo plano de uso e funcionalidade.

Em 2014, a fazenda foi saqueada e muitos pertences históricos foram roubados e nunca recuperados. Atualmente, a fazenda tem sido incluída em roteiros de turismo histórico e educativo, contribuindo para a valorização do patrimônio material e imaterial vinculado ao ciclo do café e ampliando o debate sobre memória, escravidão e preservação no Brasil.centro|miniaturadaimagem|928x928px|Vista ampla da fazenda e dos morros que a circundam

Referências bibliográficas

Categoria:Fazendas do estado de São Paulo Categoria:São José do Barreiro