miniaturadaimagem|Projeção ortográfica da Papua Ocidental. Não há mapeamentos exatos de onde os falantes da língua ekari estão distribuídos. A língua ekari (também denominada kapauku, ekagi ou mee) é um dos idiomas da família trans-Nova Guiné, contando com mais de 100.000 falantes nativos. Seus membros, formalmente conhecidos como povo Kapauku, habitam regiões de altas altitudes no centro-oeste da província indonésia de Papua (ou Irian Jaya). Isso a faz a segunda língua papua com maior número de habitantes, estando atrás apenas do Dani Ocidental (ou Laani). Sua situação de uso é estável, mas os registros acerca do idioma é limitada.

Etimologia e história miniaturadaimagem|Regiões de elevadas altitudes da Papua Ocidental onde se localizam os arranjamentos serranos kapauku. De início, o vocábulo mee seria apenas um nome tribal específico utilizado para denotar, especialmente, agrupamentos costeiros de migrantes ekagi. Posteriormente, com as mudanças gradativas sofridas pela língua, a palavra mee passou a significar "humano", sendo um termo original e autêntico do vernáculo, mas que não excluía seus vizinhos linguísticos, especialmente a língua moni, que detinha do mesmo vocábulo com uma significação próxima: "ser humano". Vale ressaltar que a prática de ressignificação de termos já presentes na língua não era inédita, tendo sido adotada por tribos neopapuas anteriormente, o que justifica os empréstimos linguísticos entre o ekari e o moni, por exemplo.

É discutido que as subsequentes ressignificações da palavra mee, que passaria de algo singular para algo coletivo (significando "humanidade"), tenham advindo de uma crise de identidade dos arranjamentos ekagi costeiros para com os arrajamentos serranos, o que gerou uma dualidade de interpretações da palavra que se ramificariam mais tarde. A primeira interpretação possível era a da verticalidade do mundo, composto por Humanos (mee) e Demônios (ogai), análogo a Anjos e Humanos, respectivamente. Já a segunda interpretação remetia à disforia identitária ekagi, trazendo uma antítese entre os povoados costeiros (mee) e serranos (ogai).

Em 1885, com a entrega da Papua Ocidental para a Holanda e consequente ocupação neerlandesa do território ekagi, houve a necessidade de, mais uma vez, ressignificar termos e criar outros para separar o povo Kapauku dos brancos e do resto dos indonésios. Por conseguinte, mee voltou-se, agora, aos povos serranos, enquanto o vocábulo buna (traduzido literalmente para "Preto") foi criado para os povos costeiros para que, portanto, a palavra ogai estivesse disponível para o resto dos indonésios e, mais adiante, aos brancos europeus.

Seguidamente, ambas palavras mee e ogai transcederam da esfera de raça a de cultura, havendo agora uma distinção daqueles que se enquadravam em aspectos da cultura aborígene local e não-aborígene, que respectivamente referiam-se aos Kapauku (mee-mana) e ao resto dos indonésios (ogai-mana).

Por fim, os movimentos semânticos dessas palavras findaria na esfera econômica, com o termo mee denotando as pessoas que se mantinham no sistema econômico tradicional de subsistência aliado ao plantio de batata-doce e criação de suínos, ao contrário do termo ogai que se referia às pessoas que se desprendiam dos tradicionalismos ekagi e partiam para sistemas monetários mais modernos, favoráveis à abertura estrangeira.

Distribuição Geografia e sociedade

Os membros do povo Kapauku estão situados em regiões serranas e planálticas, entre 1650 e 1750 metros de altitude, no centro-oeste da província Papua, localizada no distrito Paniai Kabupaten, englobando especialmente as vilas de Enaratoli, Mapia e Moanemani. A topografia local é favorável à formação de uma rede hidrográfica composto por três grandes lagos: Paniai, Tage e Tigi, conhecidos como Lagos Paniai ou Lagos Wissel, em homenagem ao piloto que os descobriu em 1936. São esses três lagos que fazem a delimitação das subdivisões orientais da região, que possuem o mesmo nome dos Lagos Paniai. Já para as subdivisões ocidentais, denominadas Mapia e Kamu, as froteiras são delimitadas por montanhas e pelo rio Mapia, respectivamente, que fica imediatamente a oeste de Kamu.

Há evidências de que as diferenças geográficas que compõem a região seja fator de impacto direto na formação da cultura material e espiritual ekagi, e em sua densidade demográfica. Exemplo disto, a prática do plantio de batata-doce entrou como principal fonte de alimento, utilizando-se da água dos Lagos Paniai para irrigação. Os resíduos gerados pelas batatas-doce, como cascas e restos, foram utilizados na alimentação de porcos, que se tornou elemento de medição de status dos criadores de suínos da região que, ademais, conceberam aos porcos a função de moeda de troca em um crescente sistema de escambo. Consequentemente, o que posicionava um povoamento na hierarquia socioeconômica ekagi era a relação entre a quantidade de ração para porco e os débitos para sua aquisição.

Por fim, não é à toa que todas as subdivisões do território ekagi tenham sido nomeados com os nomes de seus respectivos rios fronteiriços. Grande parte das crenças dos povos ekari emergem dos lagos, tanto que a canoa é referida como principal símbolo da condição humana, e uma miniatura dessas embarcações de aproximadamente um metro é utilizada em rituais periódicos chamados "rituais da canoa". Nesse ritual, a canoa é retirada da água e posta em solo seco nos arredores do rio, sendo que todos os envolvidos devem tomar a responsabilidade de manter a canoa limpa, sem algas ou musgos, e sem que a água a leve, representando um comprometimento de todos de criarem um comportamento social responsável.

Dialetos e idiomas relacionados O ekagi possui uma forte ligação com dialetos da região do Tigi-Kamu, que englobam as línguas Laani, Mimika, Wodani (ou Wolani) e Moni. No entanto, mesmo com uma proximidade linguística considerável e com diferenças quase insignificantes quando comparadas com a língua Mapia, não são inteligíveis entre si o suficiente para haver uma comunicação entre indivíduos de ambos vernáculos sem contato linguístico prévio. Devido a isso, há uma discussão quanto ao linguístico questionando se a língua ekari encoraja ou desencoraja as interações entre indivíduos falantes e não falantes do ekari, o que, caso desencorajasse, daria um vislumbre das razões para delimitação de subdivisões do território ekagi pautadas em divergências linguísticas.

+Quadro comparativo entre as línguas ekari, wodani e moniPortuguêsEkariWodaniMoni Tudo Utoma Utuma Ondoma Peito Ama Ama Ama Terra Maki Makai Mai Pé Bado Bado Bado Joelho Kaguma Kagu Aka Homem Jame Me Me Semente Ijo Ijo Iu Ouvir Juwii Juna Jutija Beber/Comer Nai Nona Nuija Vir Mei Mena Mija Tu Aki Akai Aka Dois Wiya Wijá Hija

Fonologia

Fonemas segmentais

Vogais

+Fonemas vocálicos orais da língua ekariAnteriorCentralPosteriorFechada -Semiaberta - Aberta - -

Nos ditongos, as vogais mais altas são postas na frente.

/ei/ /ai/ /eu/ /au/ /ou/

Consoantes

+ Inventário consonantal da língua xBilabialAlveolarPalatoalveolarVelarPlosiva NasalFricativa

As paragens são bilabiais, alveolares, e velares, com voz e sem voz. As paragens sem voz não são aceleradas. A paragem de velar sem voz é labializada seguindo as vogais traseiras [kw]: /okei/ [okwei] "elas", /buka/ [bukwa] "arco". O batente de velar vocalizado é libertado lateralmente [gl], o lateral estar de novo na posição de velar. É labializada a seguir vogais traseiras: /euga/ [euglwa] "mais". Alofones da paragem de velar vocalizada variam ao longo de vários graus da lateral.

Além dos fonemas presentes na tabela acima, ainda há:

Aproximante labiovelar: Aproximante palatal: É prudente mencionar que o fonema normalmente aparece mais palatalizado.

Entonação

A entonação de certas palavras na língua ekari dependerá especialmente da quantidade de sílabas e a disposição das vogais e consoantes na palavra.

Para palavras monossílabas de raízes (C)V e (C)VV apresentam alguns contrastes fonêmicos passo-acente, especialmente quanto ao comprimento da(s) vogal(is). To → Apenas / Tou → Ficar / Tóó → Molde. Pi → Jogar (arremessar) / - / Píí → Flor.

Para palavras disspilabas de raízes (C)VCV e (C)VCVV, a primeira sílaba é neutra e a segunda contrastante. Awíí → Colocar dentro / Awii → Fazer. Nogáá → Vapor / Nogee → Barulho.

Em palavras de raíz (C)VVCV, a primeira sílaba tende a ter uma tonicidade ascendente. Geíyo → Frio. Keípo → Agulha.

Já em palavras de raíz (C)VVCVV o padrão é contrastante, sendo que a primeira sílaba assume uma tonicidade ascendente e a segunda descendente. Weewee → Brincar, jogar. Piipaa → Pássaro pequeno.

Palavras trissílabas com vogais simples seguem um padrão predefinido, dispondo-se da mesma tonicidade para todas as palavras Ekina → Porco Buguwa → Floresta

Contudo, em palavras de mesma quantidade de sílabas vindo das raízes (C)VVCVCV e (C)VVCVCVV, a primeira sílaba é contrastante. Para isso, a primeira sílaba possui uma tonicidade decrescente, seguida pela terceira, sendo que a segunda mantém-se neutra. Esse tipo de padrão, não obstante, não é muito documentado, e não há muitas informações sobre ela. Kuutakaa → Alto (referência a volume, principalmente). Náákagi → Fumança.

Seguidamente, nas palavras de raiz (C)VCVVCV, a primeira sílaba tende a ser neutra, enquanto a segunda e a terceira possuem uma tonicidade decrescente, não havendo nenhum contraste. Iyeida → Quase. Akaiye → Opôr-se.

Já nas de raiz (C)VCVCVV, as primeiras duas sílabas são neutras e a última decrescente, também não havendo nenhum contraste. Odigaa → Mais tarde. Dokegaa → Ondas.

Palavras polissílabas não são contrastantes. Todas as vogais que compõem essas palavras são curtas, sendo que primeira e a terceira sílabas assumem uma tonicidade breve e neutra, e a última uma tonicidade descedente. Bonikigi → Confusão. Gekamugu → Trovão.

Nos exemplos abaixo, as sílabas longas são de tonicidade descendente da mesma forma que as sílabas finais. Yegeenaka → Glorioso. Idaanita → Tempo chuvoso.

Ortografia

O idioma ekari, por ser um idioma recente e com poucos estudos, não possui uma ortografia definida. Isso ocorre devido à língua ser majoritariamente oral ao invés de escrita, o que fica ainda mais perceptível pelo número de falantes que ela possui, na topografia regional e nos aspectos culturais adjacentes, o que a torna instrumento de intermédio para rotas comerciais de suínos e batatas-doce, realização de rituais periódicos e intercâmbio entre povoamentos associados.

O alfabeto utilizado pela língua ekari é o alfabeto latino, embora a bagagem fonética da língua seja bastante limitada. Ademais, o uso desse alfabeto demonstra uma provável influência do período da colonização holandesa na região, já que houve uma intensa troca cultural, que teve impactos amplos e diretos nas línguas locais.

Gramática

Pronomes

+Pronomes pessoais Singular Dual Plural 1° Pessoa Ani Inai Inii 2° Pessoa Aki Ikai Ikii 3° Pessoa Okai Okeyai Okei

Perceba que os pronomes pessoais utilizados na 1° e 2° pessoas para cada flexão de número é praticamente idêntica, fazendo-se a substituição do pelo . Tal relação também ocorrem em pronomes possessivos para se referir a parentes específicos.

Nesta sessão de pronomes, apenas os que expressam posessão serão tratados, sendo válido ressaltar que a língua Ekari não se ocupou de criar pronomes específicos de possessão, mas, sim, uma série de afixos que podem se ligar tanto ao pronome pessoal quando ao objeto por meio de uma combinação ou contração, o que dependerá de uma lista de condições expressas a seguir:

Pronomes possessivos regulares

Para substantivos que não expressem parentes (familiares) específicos, o sufixo -ya será combinado ao pronome, que virá antes do objeto possuído. Aniya kaguma → Meu joelho. Okaiya bado → O pé dele(a).