O potencial evocado auditivo de tronco encefálico, também conhecido como audiometria de tronco cerebral ou PEATE, é considerado um método de avaliação objetivo, que permite avaliar desde o nervo auditivo até o tronco encefálico e possibilita a constatação de anormalidades auditivas.1. Hood L. Pediatric application of the auditory brainstem response. In: Hood L, editor. Clinical applications of the auditory brainstem response 1998. São respostas elétricas geradas ao longo da via auditiva após a apresentação de estímulos sonoros, sendo utilizados na avaliação da integridade neural do sistema auditivo e na estimativa de limiares auditivos.
Trata-se de um exame no qual as respostas podem ser obtidas com o paciente sedado, dormindo, consciente, em coma e/ou sob anestesia geral que se tornou um instrumento importante na avaliação clínica e audiológica, já que, além das diversas possibilidades em que o procedimento pode ser aplicado, é também sensível e confiável para mensurar alterações na audição.1. Sanfins MD. Neuropatia auditiva/dessincronia auditiva: um estudo em alunos de três escolas especiais para deficientes auditivos da cidade de São Paulo. http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5160/tde-19092014-101620/pt-br.php: Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina; 2004.,1. Legatt A, Pedleu T, Emerson R. Normal brain-stem auditory evoked potentials with abnormal latency-intensity studies in patients with acoustic neuromas. Arch Neurol. 1988, 45:1326-30.
O PEATE consiste no registro da atividade elétrica que ocorre no sistema auditivo, da orelha interna até o tronco, em resposta a um estímulo acústicoFigueiredo MS, Castro Junior, NP. Potenciais evocados auditivos de tronco encefálico (ABR). In Figueiredo MS. Emissões otoacústicas e BERA. São José dos Campos, São Paulo. Pulso Editorial. 2003 p 85-97 e tem por objetivo principal identificar alterações no nervo auditivo e tronco encefálico e ainda estimar o limiar eletrofisiológicoJIANG, Zedong; et al. Brainstem auditory function atterm in preterm babies with and without perinatal complicatons. Pediatr. Res., v. 58, n. 6, 2005, p. 1164- 1169. . O PEATE consiste em uma série de sete ondas que ocorrem nos primeiros 10 milissegundos após a estimulação acústica, sendo considerado um potencial evocado de curta latênciaDisponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5162/tde-29012009-134439/publico/CarolineRondinaSalzano.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2023. (potencial de curta latência mais utilizado na prática clínica).
As sete ondas correspondem a atividade neuronal síncrona do sistema auditivo e apresentam um período de retardo sináptico de aproximadamente 1ms em cada sítio gerador. Uma das classificações mais aceitas atualmente foi descrita por Moller et al (1985)Moller AR, Janetta PJ. Neural generator of the auditory brainstem reponde. In: Jacobson JT, edited by. The auditory brainstem responde. San Diego, California: College-Hill Press; 1985. p.13-31, na qual são delineados os seguintes sítios geradores: +Onda IPorção distal do nervo auditivo, próximo ao modíoloOnda IIPorção proximal do nervo auditivo, próximo ao tronco, com alguma participação da porção distalOnda IIINeurônios do núcleo coclear e algumas fibras nervosas que fazem conexão com este núcleoOnda VIIncerta, porém acredita-se que alguns neurônios do complexo olivar superior são os maiores envolvidos, contudo recebem a contribuição de fibras do núcleo coclear e do lemnisco lateralOnda VParece estar relacionada com a atividade do lemnisco lateral e do colículo inferiorOnda VI e VIIColículo inferior Das sete ondas produzidas são analisadas somente as ondas I, III e V, por serem as mais proeminentes.SOUSA, Luiz Carlos Alves de; RODRIGUES, Luciano da Silveira; PIZA, Marcelo Ribeiro de Toledo; FERREIRA, Denise Rezende; RUIZ, Danielle Barbosa. Achado ocasional de doenças neurológicas durante a pesquisa da surdez infantil através do BERA. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia, v. 73, n. 3, p. 424-428, 2007. A análise mais comumente utilizada no PEATE é a observação das latências absolutas, que corresponde ao tempo entre o início do estímulo e o aparecimento da resposta e intervalos interpicos das ondas I, III e V que corresponde ao tempo decorrido entre uma onda e outraSIMÕES, MB Potencial evocado auditivo de estado estável em crianças com dislexia e com transtorno de processamento auditivo (central) . [sl] Universidade de São Paulo, 28 set. 2015.. Os intervalos interpicos utilizados para análise são I-III, que representa a atividade do nervo auditivo ao núcleo coclear, III-V que reflete a atividade do núcleo coclear ao lemnisco lateral e I-V que representa toda a atividade desde o nervo auditivo até o tronco encefálicoSLEIFER, P. Potencial evocado auditivo de tronco encefálico em crianças nascidas pré-termo e termo. 2006. Com este potencial auditivo, é possível verificar a integridade da via auditiva por meio da visualização das principais ondas e do estudo de suas latênciaCASALI, RL; SANTOS, MFC DOS. Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico: padrão de respostas de lactentes termo e prematuros. Revista Brasileira de Otorrinolaringologia , v. 76, n. 6, pág. 729–738, 2010.
Esse método de avaliação permite obter a atividade eletrofisiológica do sistema auditivo e tem o seu registro por meio de eletrodos posicionados na região frontal e lateral encefálica. O estímulo sonoro chega até o paciente por meio de fones de inserção ou fones auricularesGENTIL, C.; AV, M. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rsbf/a/yX6SLS5VvPrGgCt5SWVqTTk/?format=pdf&lang=pt>. Acesso em: 28 mar. 2023. Para esse exame, o paciente deve estar dormindo ou relaxadoMATAS, Carla Gentile; MAGLIARO, Fernanda Cristina Leite. Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico. In: BOÉCHAT, Edilene Marchini; et al. Tratado de Audiologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015. p. 118-125..
Para a verificação da integridade de via auditiva, é utilizado uma intensidade fixa, geralmente 80 dBNA (decibel nível de audição), para a observação das ondas I, III e V. Já para a pesquisa do nível mínimo de audição a intensidade do estímulo é reduzida, progressivamente, até encontrar a menor intensidade em que onda V aparece por via aérea (VA)Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5162/tde-21012013-121818/publico/PrisciladeAraujoLucasRodrigues.pdf>. Acesso em: 28 mar. 2023b.
Dentre as principais aplicações clínicas deste potencial tem-se a determinação do nível mínimo de resposta auditiva em neonatos e em crianças difíceis de serem avaliadas por meio de procedimentos audiológicos convencionais, além de auxiliar na caracterização do tipo de perda auditiva, na localização topográfica da lesão em nervo auditivo ou em tronco encefálico, na monitorização de cirurgias de fossa posterior e monitorização de pacientes em Centro de Terapia Intensiva (auxiliando na avaliação do grau do coma e morte encefálica).MATAS, CG (2003). Fonoaudiologia informação para a formação - Procedimentos em Audiologia. Procedimentos em Audiologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. pp. 43–57
PEATE em menores de 18 meses A audição é um dos sentidos fundamentais para o ser humano, pois é por meio dela que se desenvolve a habilidade da comunicação.BENTO, D. V. Avaliação audiológica do paciente candidato ao uso de AASI. In: COSTA FERREIRA, Maria Inês Dornelles. (Org.). Reabilitação auditiva: fundamentos e proposições para a atuação no Sistema Único de Saúde (SUS). Ribeirão Preto: Book Toy, 2017. p. 157-171. O diagnóstico das alterações auditivas aos três meses e intervenção precoce permite que a criança apresente adequado desenvolvimento global quando comparado a crianças sem alterações auditivas. Além de o desenvolvimento de linguagem ser significativamente melhor quando há a identificação precoce de perda auditiva e quando a intervenção ocorre até os seis meses de idade da criança. YOSHINAGA-ITANO, C; APUZZO, M. Identification of hearing loss after age 18 months is not early enough. American Annals of the Deaf, v. 143, n. 5, p. 80-87, 1998.YOSHINAGA-ITANO, C.; DOWNS, M. The efficacy of early identification and intervention for children with hearing impairment. Pediatric Clinics of North America, v. 46, p. 79-87, 1999.
A Triagem Auditiva Neonatal (TAN) possibilita a detecção de alterações auditivas e posterior intervenção em um período precoce. O teste é simples, rápido e não invasivo e deve ser realizado nos primeiros dias de vida do neonato e no máximo no primeiro mês de vida. Se for detectada alguma alteração, devem ser realizados outros procedimentos para avaliação audiológica, como a utilização PEATE. 4. LOPES, B. M. Avaliação da idade de realização do Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico em crianças encaminhadas da Triagem Auditiva Neonatal. 2018. 64 p. Dissertação (Mestrado em Ensino na Saúde) - Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, Porto Alegre, 2018.
O PEATE tem como objetivos principais identificar alterações no nervo auditivo e tronco encefálico além de estimar o limiar auditivo eletrofisiológico. ESTEVES, M.C.B.N.; DELLARINGA, A. H. B.; ARRUDA, G. V.; DELLARINGA, A. R; NARDI, J. C. Estudo das latências das ondas dos potenciais auditivos de tronco encefálico em indivíduos normoouvintes. Braz J Otorhinolaryngol. 2009; 75: 420-5.JIANG, Z. D.; BROSI, D. M.; LI Z. H.; CHEN, C; WILKINSON, A. Brainstem auditory function at term in preterm babies with and without perinatal complications. Pediatr Res. 2005; 58: 1164-9.Autores relatam que o PEATE sofre influência da maturação auditiva e que os achados deste em crianças nos primeiros meses de vida podem diferir das crianças a partir dos 18 meses. JIANG, Z. D.; WILKSON, A. R. Does peripheral auditory therestold correlat with brainsteam auditory function at term in preterm infants? Acta Oto-laryngol. 2006; 126: 824-27.KARPIJOKE, E; JAASKELAINEN, S. Neonatal brainstem audiometry with standard neruphisiological auditory evoked potential recording in small premature babies. 8th Congress of International Organization of Societies for eletrophisiological Technology (OSET) proceeding.
Em 2 de agosto de 2010, foi sancionada a Lei n.º 12.303, denominada Lei do Teste da Orelhinha, que tornou obrigatória e gratuita a realização do exame de Emissões Otoacústicas Evocadas, conhecido como o Teste da Orelhinha, em todos os hospitais e maternidades do Brasil para os recém-nascidos em suas dependências Em 2025, o Ministério da Saúde atualizou a publicação do Guia para realização da Triagem auditiva neonatal, buscando realizar o diagnóstico precoce da deficiência auditiva. O diagnóstico precoce é fundamental, pois é por meio da audição que acontece o desenvolvimento da linguagem oral.
Esse processo se inicia ainda durante a gestação, por volta da 28ª semana, quando o bebê já consegue perceber sons. Com o passar do tempo, o bebê passa a identificar os sons da sua língua, perceber as diferenças entre palavras, compreender o ritmo e a entonação da fala e, pouco a pouco, vai desenvolvendo a linguagem. Além disso, ao ouvir a própria voz, a criança consegue ajustar sua fala, contribuindo para uma melhor articulação e fluência. O diagnóstico e o tratamento precoces aumentam significativamente as chances de a criança desenvolver a linguagem oral de forma adequada, minimizando, ainda, possíveis impactos no desempenho escolar, na interação social da criança, entre outros. miniaturadaimagem|Desenvolvimento da Linguagem da Criança. miniaturadaimagem|DESENVOLVIMENTO AUDITIVO. É importante que os pais / familiares estejam atentos aos marcos do desenvolvimento da audição e da linguagem ao longo da infância, descritos, por exemplo na Caderneta da Criança, utilizada pelo Ministério da Saúde do Brasil. Em caso de dúvidas sobre o desenvolvimento da audição ou da linguagem é recomendado que se busque uma avaliação especializada (fonoaudiólogo / médico) para garantir o diagnóstico e acompanhamento adequados.
Efeitos da idade