miniatura|Cartaz promocional de Tarantula (1955). Filme de monstro, filme de monstros gigantes ou filme de criatura é um subgênero cinematográfico centrado em personagens que lutam para sobreviver aos ataques de um ou mais monstros antagonistas, os quais são muitas vezes caracterizados como anormalmente grandes. Essas produções podem se enquadrar nos gêneros de terror, fantasia ou ficção científica. Originaram-se como adaptações do folclore e da literatura de horror e os registros mais antigos datam da era dos filmes mudos.

A partir da década de 1950, essas obras começaram a se popularizar de maneira expressiva, particularmente nos Estados Unidos e no Japão. Além disso, passaram a incorporar as grandes inquietações sociais e políticas de cada época, tais como o temor de conflitos bélicos nucleares pós-Segunda Guerra Mundial e a crescente preocupação ambiental dos anos 1960 e 1970. O subgênero é tão abrangente que inclui desde produções descritas como filmes trash até representantes premiados com o Oscar como Jaws (1975) e Jurassic Park (1993). King Kong e Godzilla estão entre os principais personagens dessa vertente cinematográfica.

Definições e contextualização Filme de monstro é um termo coloquial para um subgênero dentro do cinema de terror, ficção científica e fantasia, tradicionalmente caracterizado pela ameaça de algo grande e assustador ou, ainda, de um grupo de seres pequenos. Nesse contexto, a ideia de monstruosidade pode ser entendida de forma restrita ou mais ampla. A princípio, há uma tendência de se designar como monstros apenas animais gigantes hostis. Contudo, o conceito de "filme de monstro" é um pouco mais abrangente, incluindo desde batalhas do ser humano contra o mundo natural, como em Jaws, até lutas contra o eu reprimido, como visto em quase todos os filmes sobre lobisomens. Muitas produções subvertem a noção negativa de monstro, apresentando seres amigáveis e incompreendidos que nunca quiseram causar nenhum dano. Originalmente, os monstros eram representados pelo uso de recursos como maquiagem, próteses, fantoches, animatrônicos e trajes de criatura. Nos filmes modernos, a maioria passou a ser feita em CGI.

Outro termo usado para essas obras é "filme de criatura", o qual é tão simples que permite um vasto número de interpretações, referindo-se a filmes que podem incluir, por exemplo, macacos enormes, dinossauros, leviatãs como tubarões e polvos, plantas carnívoras, insetos, aracnídeos e roedores (gigantes ou em enxames), humanos colossais, robôs, zumbis e alienígenas. Quanto aos monstros humanos ou humanoides, sua origem remonta à literatura erudita e popular de séculos anteriores (ficção gótica, lendas e mitos antigos, folhetins e romances de feiras). Na literatura gótica, um dos mitos mais conhecidos é o do corcunda do romance Notre-Dame de Paris (1831), escrito por Victor Hugo; o monstro descrito em Frankenstein (1818), de Mary Shelley, e o conde vampiro de Dracula (1897), criado por Bram Stoker, estão entre as figuras que originaram a noção do "monstro humano" cinematográfico, na qual assassinos em série, canibais e personagens patologicamente insanos também podem ser incluídos.

Os enredos desses filmes tendem a ser baseados no arquétipo narratológico de "superação do monstro", no qual o protagonista se propõe a derrotar uma força agressiva que ameaça sua própria vida, família ou terra natal. Trata-se de uma antiga forma de narrativa que descreve alegoricamente uma parte fundamental da experiência humana, o conflito com o outro; suas raízes literárias são encontradas nas histórias de Perseu, Teseu e Beowulf. Embora os monstros sejam associados imediatamente a vilões, muitos podem ser, na verdade, os protagonistas de seus filmes. Recorrentemente, em particular nas obras sobre criação de seres monstruosos fabricados, como Frankenstein, há uma tentativa de humanização interior desses personagens; assim, por exemplo, a verdadeira monstruosidade não está na criatura humanoide e sim no médico louco que a criou, não está no indivíduo fisicamente deformado, mas na deformação mental daqueles que riem ou que ganham dinheiro à custa da diferença dele.

História thumb|160px|Charles Ogle como o monstro de Frankenstein no curta Frankenstein (1910), primeira adaptação do livro homônimo para o cinema. Primeiros representantes As primeiras aparições de monstros em filmes ocorreram ainda na era do cinema mudo. Nos Estados Unidos, o registro mais antigo é o do curta-metragem Frankenstein, filmado por Thomas Edison e lançado em 1910. É a primeira adaptação do romance Frankenstein, de Mary Shelley, para o cinema; a criatura central da trama foi interpretada por Charles Ogle. Quanto aos longas-metragens, algumas produções alemãs dessa época estão entre as pioneiras a incluir monstros. Dirigido por Paul Wegener, Der Golem (1915), cujo vilão é um golem, geralmente é apontado como o "primeiro filme de monstro". Também são considerados expoentes seminais do estilo a representação do vampiro em Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens (1922), e o dragão que enfrenta o protagonista em Die Nibelungen (1924), de Fritz Lang.

Os estúdios de cinema norte-americanos começaram a lançar seus primeiros sucessos com monstros no início dos anos 1920. Essas produções eram rotuladas como creature features, expressão que originalmente se referia a filmes e atrações de televisão com temas de terror. Os exitosos The Hunchback of Notre Dame (1923) e The Phantom of the Opera (1925) levaram a Universal Pictures a produzir, ao longo das três décadas seguintes, quase 50 filmes focados em seres monstruosos, o que originou a mais antiga cinessérie num universo ficcional compartilhado: a franquia Monstros da Universal. Após os lançamentos de Dracula e Frankenstein em 1931, seguiram-se The Mummy (1932), The Invisible Man (1933), Werewolf of London (1935), Creature from the Black Lagoon (1954) e diversas sequências protagonizadas pelos respectivos monstros de cada longa; Frankenstein Meets the Wolf Man (1943) fez história como o primeiro filme crossover de estúdio.

A aventura fantástica The Lost World (1925), baseada no livro homônimo de Arthur Conan Doyle, é referida como o primeiro filme autenticamente "de criatura". O foco de sua história são dinossauros, que se tonaram base para muitos filmes futuros. O animador Willis O'Brien usou a técnica do stop motion para criar os répteis. Ele começou a trabalhar em dois projetos não concluídos, Atlantis e Creation, antes de elaborar efeitos para King Kong (1933), dirigido por Merian C. Cooper e produzido pela RKO Pictures. Esse filme é basicamente uma reimaginação de The Lost Word com um gorila gigante. Tornou-se um dos exemplos mais famosos de um filme de monstro e também é considerado um marco na história do cinema. O personagem King Kong converteu-se em ícone cultural, aparecendo em muitos outros filmes e mídias desde então.

O auge na década de 1950 King Kong inspirou muitos outros filmes e aspirantes a animadores, notavelmente Ray Harryhausen, que colaboraria com O'Brien em Mighty Joe Young (1949), uma releitura cômica da história do enorme primata. O relançamento de King Kong em 1952 estimulou Harryhausen a trabalhar em The Beast from 20,000 Fathoms (1953), cujo enredo é sobre uma espécie fictícia de dinossauro descongelada no Ártico por testes nucleares. Essa obra estimulou uma onda de filmes de criatura que incorporavam os temores da Era Atômica. Nessas produções, geralmente os monstros são criados pela ciência irresponsável ou são forçados a atacar para proteger seu habitat; heróis são soldados, heroínas cientistas, a criatura destrói uma área metropolitana, derrota as forças militares no segundo ato e é morta pelo herói num clímax de coragem suicida que envolve um plano tido como loucura. Entre os representantes dessa fórmula popular e muito imitada estão: Them! (1954), Creature from the Black Lagoon (1954), It Came from Beneath the Sea (1955), Tarantula (1955), Beginning of the End (1957) e 20 Million Miles to Earth (1957).

thumb|170px|Ricou Browning, um dos intérpretes do monstro de Creature from the Black Lagoon (1954), usando o traje do personagem.

O mais duradouro dos monstros atômicos é Godzilla, dinossauro mutante cuja primeira aparição foi em Gojira (1954), do estúdio japonês Toho. Essa obra adaptou o conceito nuclear de The Beast from 20,000 Fathoms de uma perspectiva japonesa, baseando-se em eventos históricos recentes na época, especialmente os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki em 1945 e o incidente do Daigo Fukuryū Maru em 1954. Na trama, Tóquio é destruída de forma realista e angustiante, enquanto a resolução é sombria e pessimista. Em vez da convencional representação em stop motion, o réptil gigantesco é tradicionalmente interpretado por um ator de traje. Godzilla, King of the Monsters! (1956), uma versão americanizada reeditada de Gojira para o mercado norte-americano, inspirou notavelmente Steven Spielberg quando jovem; ele o descreveu como "o mais magistral de todos os filmes de dinossauros" porque "fazia você acreditar que aquilo estava realmente acontecendo".

O sucesso de Gojira originou a franquia cinematográfica mais extensa da história. Até 2022 haviam sido lançadas mais de quarenta produções envolvendo o personagem, considerando-se os originais japoneses, as adaptações hollywoodianas e derivados em animação. Godzilla tornou-se um marco da cultura pop mundial. No Japão, inspirou muitos outros filmes com monstros gigantes (kaiju), incluindo a mariposa Mothra, o pterossauro Rodan, o dragão de três cabeças King Ghidorah, a lagosta Ebirah e a versão robótica de Godzilla, Mechagodzilla. Entre os filmes ocidentais influenciados pelos kaiju, está o britânico Gorgo (1961), no qual um monstro liberado por um vulcão é capturado e exposto até que sua mãe apareça para recuperá-lo, trama posteriormente adaptada no longa norte-americano Jaws 3-D (1983).

Paralelamente, durante os anos 1950, começou a se desenvolver nos Estados Unidos o chamado cinema trash, cujas produções muitas vezes recorrem ao uso de monstros. Os filmes trash são uma variação dos filmes B surgidos nos anos 1930 e caracterizam-se por orçamentos baixíssimos, atuações ruins, efeitos especiais amadores, erros de continuidade e outros defeitos, atributos que posteriormente conferiram-lhes o aspecto cult. A maioria era feita de forma independente, fora dos grandes estúdios de Hollywood ou no exterior, voltando-se principalmente para o mercado de cinema drive-in. Entre os principais cineastas dessa vertente estão Roger Corman e Ed Wood. Frequentemente descrito como o "pior diretor da história", Wood dirigiu obras como Bride of the Monster (1955) e Plan 9 from Outer Space (1959), que figura em muitas listas como "o pior filme do mundo". Outra produção trash, The Creeping Terror (1964), também é considerado um dos piores filmes já feitos.

Evolução do subgênero Os filmes de monstros, embora ainda fossem produzidos, ficaram menos populares na América do Norte e no Reino Unido na década de 1960; o grande público preferia suspenses como Psycho (1960), histórias de fantasmas como The Innocents (1961), giallos e outras produções estrangeiras. No entanto, os kaiju japoneses continuavam com a popularidade em alta. Em 1962, a Toho produziu Kingu Kongu tai Gojira, um dos filmes de maior bilheteria da história do Japão; apresentando um confronto entre Godzilla e King Kong, marcou a primeira aparição de ambos os personagens em cores na tela e tornou-se um dos mais notórios crossovers cinematográficos. Em 1965, o estúdio japonês Daiei iniciou sua própria franquia kaiju para rivalizar com a de Godzilla, na forma de Gamera. Ray Harryhausen continuou a trabalhar em vários filmes como The Valley of Gwangi (1969), enquanto a Toho produziu mais sete sequências de Godzilla e outros kaiju como Mothra (1961).