thumb|Bandeira intersexo, criada em 2013, pelo Morgan Carpenter, da (IHRA)

Em biologia, o termo intersexo ou intersexual descreve indivíduos que naturalmente possuem ou desenvolvem características sexuais que não se enquadram nas noções típicas de sexo feminino ou masculino, sejam elas genéticas, fenotípicas ou ambas. Além desse termo, anteriormente também era utilizado o termo hermafroditismo para descrever pessoas com quaisquer variações que fugiam aos padrões biológicos de masculino e feminino, especialmente aquelas relacionadas a padrões fenotípicos da genitália externa. Atualmente, o termo hermafrodita está em desuso e é considerado desatualizado, uma vez que o conceito é muito mais amplo do que apenas variações fenotípicas, envolvendo também aspectos genotípicos.

Cientistas passaram a manifestar preocupação com o uso do termo hermafrodita , uma vez que vinham sendo interpretados como pejorativos e geradores de confusão. Assim, em 2006, realizou-se em Chicago um consenso internacional envolvendo endocrinologistas e outros profissionais das áreas da saúde e do desenvolvimento sexual, no qual foi proposta uma nova terminologia, com o objetivo de torná-la mais clara, objetiva e menos estigmatizante, desde então, o termo biológico utilizado clinicamente para se referir a pessoas com ambiguidade nas características sexuais, de natureza genotípica, fenotípica ou ambas, passou a ser pessoas com diferenças (ou variações) do desenvolvimento sexual (DSD/VSD).

Segundo a Organização das Nações Unidas, entre 0,05% e 1,7% da população mundial é intersexo; a maior estimativa é semelhante ao número de pessoas naturalmente ruivas, mas esse número é contestado, principalmente pelo médico americano Leonard Sax, que definiu pessoas intersexo como pessoas cujo fenótipo não corresponde ao cariótipo ou pessoas com fenótipo ambíguo. Com essa definição, ele chegou a porcentagem de apenas 0,018% das pessoas do mundo sendo intersexo.

Estimativas variam, tendo dados que afirmam que 1 em cada 200 pessoas são intersexo; outras, 1 em 1.500 ou 2.000 nascimentos, existindo ainda números tão altos como 4% da população.Fausto-Sterling, Anne (2000). Sexing the Body: Gender Politics and the Construction of Sexuality. New York: Basic Books. ISBN 0-465-07713-7.

Tal como as pessoas não intersexo, a identidade de género, expressão de género e orientação sexual que uma pessoa intersexo possui varia mediante a pessoa.

Intersexo, em seres humanos, difere do termo hermafrodita, já bastante estigmatizado, por intersexo denotar várias maneiras que o sexo biológico de alguém pode naturalmente não se encaixar nas noções típicas de sexo feminino ou masculino; e não necessariamente uma questão de conseguir produzir dois tipos de gametas, como hermafrodita se refere. Algumas pessoas intersexo, como qualquer outra, poderão ser transgénero. No entanto, os dois conceitos são diferentes.

Classificação das variações intersexo thumb|Escala Quigley para síndrome de insensibilidade androgénica

Não existe somente uma maneira de ser intersexo. Algumas pessoas intersexo nascem com genitais atípicos, outras nascem com genitais completamente típicos: umas possuem cromossomas XX e têm naturalmente um pénis e escroto, enquanto outras possuem cromossomas XY e têm naturalmente uma vulva e vagina, entre outras maneiras de ser intersexo. Algumas variações intersexo são visíveis ao nascimento, enquanto outras, não são aparentes até à puberdade. Outras podem inclusive não ser fisicamente aparentes.

Existem diversas variações intersexo, dentre elas:SANTOS, Moara de Medeiros Rocha; ARAUJO, Tereza Cristina Cavalcanti Ferreira de. Desenvolvimento da identidade de gênero em casos de intersexualidade: contribuições da Psicologia. 2006. 246 f. Tese de doutorado em psicologia. Universidade de Brasília, Brasília, 2006.

Quimerismo, quando envolve os cromossomos sexuais (XX+XY). Mosaicismo envolvendo os cromossomos sexuais (XX+XY). Disgenesia gonadal parcial (1 em cada 15.000) Disgenesia gonadal total (1 em cada 150.000) Distúrbio do desenvolvimento sexual ovotesticular (1 em 20.000) Eunucoidismo/Hipogonadismo moderado ou severo (20% das pessoas idosas de sexo masculino atribuído) Hiperplasia adrenal congênita (1 em cada 5.000 a 14.000) Hipospadia (1 em cada 300 nascimentos) Pseudo-hermafroditismo masculino (1 em 20.000) Síndrome da insensibilidade androgênica parcial (1 em cada 130.000) Síndrome da insensibilidade androgênica total (1 em cada 13.000) Síndrome de Klinefelter (1 a cada 850) Síndrome de La Chapelle (1 em 20.000) Algumas variações intersexo são pouco conhecidas ou estudadas e não têm estimativas para elas ocorrerem, ou são variações de outras já existentes, como a síndrome XXYYY ou a síndrome de insensibilidade a estrógenos.

Heterogeneidade

Heterogeneidade significa diversidade genética e na aparência (fenótipo). No intersexo, significa que algumas características sexuais da pessoa são femininas e outras são masculinas. Essas características sexuais podem ser relativas ao: Cariótipo: a pessoa intersexo pode ter cromossomos tanto XX como XY (com ou sem gene SRY), XXY, XXXY, XXYY ou outra combinação. Gônadas: a pessoa intersexo pode ter ovários, testículos ou ovotestis (gônada com características ovarianas e testiculares), como também agenesia gonadal, como em casos de Swyer Morfologia genital externa: vagina, clítoris, pênis, testículos, etc.; Características sexuais secundárias: aparência dos pelos, desenvolvimento mamário, altura, musculatura, barba, etc;

Por exemplo: Uma pessoa XY pode naturalmente desenvolver vagina, vulva, mamas, e testículos no lugar típico dos ovários. Uma pessoa com criptorquia bilateral tem pênis, mas seus testículos não produzem testosterona suficiente para desenvolver barba e voz grave.

Linguagem miniaturadaimagem|Foto para marcar o Dia da Visibilidade Intersexo, na Conferência ILGA 2018 Pesquisas no final do século XX levaram a um consenso médico crescente de que diversos corpos intersexo são formas normais, mas relativamente mais raras, de biologia humana. O clínico e pesquisador Milton Diamond destaca a importância do cuidado na seleção da linguagem relacionada às pessoas intersexo:

O termo "intersexo" Algumas pessoas com traços de intersexo se identificam como intersexo, e outras não.Sharon Preves, "Intersex and Identity, the Contested Self". Rutgers, 2003.Catherine Harper, "Intersex". Berg, 2007. Uma pesquisa sociológica australiana publicada em 2016, descobriu que 60% dos entrevistados usaram o termo "intersexo" para autodescreverem suas características sexuais, incluindo pessoas que se identificam como intersexo, descrevendo-se como tendo uma "variação intersexo" ou, em números menores, tendo uma "condição intersexo". A maioria de 75% dos entrevistados também se autodescreveu como do "sexo masculino" ou "sexo feminino". As pessoas entrevistadas também costumavam usar rótulos diagnósticos e se referir a seus cromossomas sexuais, com escolhas de palavras dependendo do público. Uma pesquisa do Lurie Children's Hospital, Chicago, e do AIS-DSD Support Group publicada em 2017 descobriu que 80% dos entrevistados do Grupo de Apoio "gostaram fortemente, gostaram ou se sentiram neutros sobre intersexo" como um termo, enquanto os cuidadores deram menos apoio. O hospital relatou que o termo "distúrbios do desenvolvimento sexual" pode afetar negativamente o atendimento.

Algumas organizações intersexo fazem referência a "pessoas intersexo" e "variações ou características intersexo"Welcome to OII Australia – we promote human rights and bodily autonomy for intersex people, and provide information, education and peer support , Organisation Intersex International Australia, 4 April 2004 enquanto outros usam uma linguagem mais medicalizada, como "pessoas com condições intersexo",Answers to Your Questions About Individuals With Intersex Conditions , American Psychological Association, 2006. ou pessoas "com condições intersexo ou DSDs (diferenças de desenvolvimento sexual)" e "crianças nascidas com variações da anatomia sexual".Advocates for Informed Choice , Advocates for Informed Choice, undated, retrieved 19 Setembro 2014 Em maio de 2016, o Interact Advocates for Intersex Youth publicou uma declaração reconhecendo "aumento da compreensão e aceitação geral do termo 'intersexo'".

No entanto, um estudo da American Urological Association descobriu que 53% dos participantes não gostavam do termo "intersexo".

Outro estudo em 2020 descobriu que cerca de 43% dos 179 participantes pensaram que o termo "intersexo" era mau, enquanto 20% se sentiram neutros sobre o termo.

Hermafrodita Até meados do século XX o termo "hermafrodita" era usado como sinónimo de "intersexo".Cawadias, A. P. (1943) Hermaphoditus the Human Intersex, London, Heinemann Medical Books Ltd. As distinções "pseudo-hermafrodita masculino", "pseudo-hermafrodita feminina" e, especialmente, "hermafrodita verdadeiro"Molina B Dayal, MD, MPH, Assistant Professor, Fertility and IVF Center, Division of Reproductive Endocrinology and Infertility, Medical Faculty Associates, George Washington University distingquishes what 'true hermaphroditism' encompasses in their study of Ovotestis. Found here: são termos não mais usados, que refletem a histologia (aparência microscópica) das gônadas.W. S. Alexander M.D., O. D. Beresford M.D., M.R.C.P. (1953) wrote about extensively about 'female pseudohermaphrodite' origins in utera, in his paper "Masculinization of Ovarian Origin, published An International Journal of Obstetrics and Gynaecology Volume 60 Issue 2 pp. 252–258, April 1953.Am J Psychiatry 164:1499–1505, Outubro 2007: Noted Mayo Clinic researchers J.M. Bostwick, MD, and Kari A Martin MD in A Man's Brain in an Ambiguous Body: A Case of Mistaken Gender wrote of the distinctions in male pseudohermaphrodite condition. A terminologia médica mudou não apenas devido a preocupações com a linguagem, mas também por uma mudança para entendimentos baseados na genética. A agenesia gonadal também já foi referida como sexo nulo.

Atualmente na biologia, um hermafrodita é definido como um organismo que tem a capacidade de produzir micro e macro gametas.

A Intersex Society of North America declarou que hermafrodita não deve ser confundido com pessoas intersexo, e que usar hermafrodita para se referir a indivíduos intersexo é considerado estigmatizante e enganoso.

Distúrbios do desenvolvimento sexual "Distúrbios do desenvolvimento sexual" (DDS, ) é um termo contestado, definida para incluir condições congênitas nas quais o desenvolvimento do sexo cromossómico, gonadal ou anatómico é atípico. Membros da Lawson Wilkins Pediatric Endocrine Society e da European Society for Pediatric Endocrinology adotaram este termo em sua "Declaração de consenso sobre o manejo de distúrbios intersexo". Embora tenha adotado o termo para abrir "muitas mais portas", a já extinta Intersex Society of North America observou que as variações intersexo não são um distúrbio. Outras pessoas intersexo, ativistas, apoiadores e académicos contestaram a adoção da terminologia e seu status implícito como um "distúrbio", vendo isso como ofensivo para indivíduos intersexo que não sentem que há algo errado com eles, reforçando da normatividade das intervenções cirúrgicas precoces e criticar os protocolos de tratamento associados à nova taxonomia.Feder, E. (2009) 'Imperatives of Normality: From "Intersex" to "Disorders of Sex Development".' A Journal of Lesbian and Gay Studies (GLQ), 15, 225–247.