Os polímeros, macromoléculas compostas por unidades repetidas, desempenham um papel vital em diversas áreas da ciência e tecnologia, incluindo materiais, medicina e indústria. Uma classe particularmente interessante de polímeros é a dos polímeros graftizados, que têm a capacidade de combinar as propriedades de diferentes polímeros em uma única estrutura, resultando em uma ampla gama de aplicações. O estudo e desenvolvimento de polímeros graftizados têm uma história rica e progressiva, marcada por avanços significativos que moldaram o campo ao longo dos anos.

Histórico O conceito de polímeros graftizados remonta a meados do século XX, quando cientistas começaram a explorar a possibilidade de modificar as propriedades dos polímeros através da introdução de cadeias laterais ou grupos funcionais. Inicialmente, essa abordagem visava melhorar a compatibilidade entre polímeros diferentes, aprimorando a adesão em interfaces poliméricas e a resistência mecânica de blends poliméricos. A combinação de características de dois ou mais polímeros em uma única estrutura trouxe consigo a promessa de materiais com propriedades personalizadas e adaptáveis.

Durante as décadas de 1960 e 1970, a pesquisa em polímeros graftizados ganhou impulso à medida que novas técnicas de polimerização e funcionalização foram desenvolvidas. A polimerização "grafting-onto", que envolve a adição de macromonômeros funcionais diretamente às cadeias poliméricas preexistentes, e a polimerização "grafting-from", que inicia a polimerização a partir de sítios específicos nas cadeias poliméricas, emergiram como abordagens proeminentes. Esses métodos permitiram a síntese controlada de polímeros graftizados com estruturas bem definidas.

À medida que a compreensão da química de polímeros se aprofundava e as técnicas analíticas se tornavam mais sofisticadas, os cientistas conseguiram projetar polímeros graftizados com propriedades altamente específicas, como hidrofobicidade, biocompatibilidade e condutividade elétrica. A aplicação de polímeros graftizados expandiu-se para uma variedade de campos, incluindo a indústria de revestimentos, dispositivos biomédicos, materiais compostos e nanotecnologia.

Reações de graftização As reações de graftização são classificadas de acordo com o mecanismo ou como a reação é conduzida. Não raro, o mecanismo com que a polimerização acontece pode coincidir com diferentes maneiras de conduzi-la. É de se observar, ainda, que a classificação de acordo com o mecanismo muitas vezes inclui a forma de iniciar a reação, mais do que o mecanismo em si.

Quanto a forma com que a reação é conduzida, a classificação se dá por três tipos: graftização a partir do polímero-base (do inglês grafting from), em que o esqueleto do polímero passa por uma etapa de “ativação” em alguns pontos ao longo de sua cadeia, e um monômero diferente sofrerá uma nova polimerização para formar um “braço”; graftização pelo polímero-base (do inglês grafting through), em que o polímero-base ainda não está formado, mas que na sua reação de polimerização irá incluir no meio reacional algumas macromoléculas reativas que constituirão os “braços”; graftização no polímero-base (do inglês grafting onto ou grafting to), em que macromoléculas já formadas são adicionadas ao polímero-base já pronto, pela existência prévia de grupos funcionais neste esqueleto . Em muitos casos, é comum também referir-se às macromoléculas adicionadas como “macromonômeros”. alt=Graftização a partir do polímero|centro|Reações de graftização; imagem adaptada de |489x489px|miniaturadaimagem

Graftização radicalar Dentre as técnicas de polimerização aqui descritas, a radicalar livre está entre as mais efetivas, devido a sua versatilidade para trabalhar com diferentes grupos químicos e considerável tolerância à presença de impurezas no meio.

Nesse tipo de reação, tem-se a formação de radicais livres no meio reacional, que são transferidos aos monômeros a serem adicionados à cadeia principal. O tempo de meia vida desses radicais depende de fatores que estão diretamente ligados à natureza química do sistema em questão (tais como as interações entre monômeros, cadeia principal, iniciador e solvente). Existem diferentes tipos de iniciadores que podem dar origem aos radicais livres: Iniciadores térmicos: São os mais utilizados. São estruturas que contêm ligações com baixas energias de dissociação, formando, assim, espécies ativas de maneira rápida e eficiente, graças à presença de ligações lábeis. Dentre os iniciadores térmicos, é possível citar os peróxidos e hidroperóxidos, além dos azocompostos; Iniciadores fotoquímicos: Esses iniciadores se tornam ativos por radiação luminosa (UV e luz visível), onde sua estrutura é capaz de absorver a radiação e formar espécies radicalares pela clivagem de ligações lábeis. Esse tipo de iniciação pode ocorrer, também, naturalmente em monômeros (iniciação em massa) que possuam duplas ligações conjugadas em sua estrutura; Iniciadores REDOX: Certas espécies metálicas, carregadas positivamente, podem atuar tanto diretamente em um monômero - gerando um radical ativo propagante, quanto interagir com uma segunda espécie que irá propagar o crescimento da cadeia. Como exemplos, tem-se Cr2+, V2+, Ti3+ e Cu+. A polimerização radicalar livre é responsável pela produção de cerca de 60% dos polímeros graftizados. Seus principais métodos estão descritos a seguir:

FRP (Free Radical Polymerization): É a polimerização radicalar convencional, composta pelas etapas de iniciação (formação dos radicais), propagação (reação dos radicais livres com os monômeros) e terminação (reações de combinação, desproporção ou transferência de cadeia). As reações de graftização, nesse caso, podem ocorrer de duas maneiras: por transferência de cadeia, onde os radicais livres originados no meio reacional reagem com o esqueleto do polímero, ativando “sítios” em sua estrutura; ou pela formação direta de radicais livres ao longo da estrutura do polímero principal, onde os iniciadores geram radicais livres ao reagir com grupos funcionais que se encontram distribuídos ao longo da cadeia polimérica.

RDRP (Reversible Deactivation Radical Polymerization): Grupo de técnicas de polimerização que apresentam controle sobre o crescimento das moléculas poliméricas ao longo da reação. Os radicais formados são desativados, de forma reversível, graças ao efeito de “agentes controladores” (catalisadores) adicionados meio, que desativam temporariamente o radical - o radical formado se propaga por determinado tempo, até que volta a interagir com o catalisador e fica inativo. Os tipos de reação mais comum para este caso são: ATRP (Polimerizações Radicalares por Transferência de Átomo), NMP (Polimerizações Mediadas por Nitróxidos) e RAFT (Transferência de Cadeia através do processo de Adição-Fragmentação Reversível); REX (Reactive Extrusion): Conjunto de técnicas capazes de produzir e/ou modificar polímeros, conduzidas em fase fundida em extrusoras mono ou dupla rosca. As reações de modificação do polímero podem se dar de duas maneiras: por polimerização radicalar livre, em que espécies capazes de dar origem a radicais livres são adicionadas no meio e criam sítios ativos dentro da cadeia polimérica; ou por inserção de grupos “pendurados” ativos, ou seja, ocorre a copolimerização de monômeros sem grupos funcionais com co-monômeros que possuem um grupo funcional pendente, tornando as reações de graftização mais simples de se concretizarem.

Nas próximas seções, algumas das reações de graftização radicalar livre serão discutidas com maior detalhamento.

Graftização aniônica e catiônica Tratando-se de polimerizações iônicas, sua seletividade é dada pela capacidade dos monômeros estabilizarem a espécie iônica formada na etapa de iniciação.

Assim, no caso das polimerizações aniônicas, o monômero deve possuir um grupo retirador de densidade eletrônica, a fim de conseguir estabilizar o ânion formado (monômero propagante). Já para as polimerizações catiônicas, o monômero precisa ser capaz de estabilizar bem o carbocátion que será formado, ou seja, deve possuir grupos capazes de doar densidade eletrônica.A graftização iônica pode apresentar a etapa de iniciação via meios químicos ou por radiação.

Para a técnica de iniciação química, é comum encontrar iniciadores como: suspensões metálicas com caráter básico, compostos organometálicos e sódio-naftaleno. Os íons são formados ao longo da cadeia polimérica principal, possibilitando a graftização. alt=Polímero-base Path I e II|345x345px|Mecanismos graftização iônica por radiação |miniaturadaimagemJá para a graftização iônica iniciada por radiação, os íons são formados no meio reacional devido à incidência de uma radiação de alta energia; uma vez formados na cadeia polimérica, reagem com os monômeros que formarão o copolímero graftizado.

Esse tipo de reação possui uma taxa elevada, sendo necessárias apenas pequenas doses de radiação para graftizar o polímero. Na figura ao lado, está representada uma polimerização catiônica a partir do polímero-base (Path I).

Um caminho alternativo (Path II) também é apresentado: nele, o cátion é gerado no monômero, que forma um dímero na sequência. Esse cátion, localizado no dímero, reagirá com algum radical produzido no polímero a partir do processo da radiação, também levando à graftização.

Graftização por reações de policondensação A policondensação é um tipo de polimerização por etapas.

Reações de polimerização por etapas envolvem a reação entre espécies que apresentem diferentes grupos funcionais, ou seja, os monômeros utilizados devem ter duas ou mais funcionalidades. Através de sucessivos ataques dos grupos nucleofílicos aos grupos eletrofílicos, é formado, então, o polímero (que possuirá um novo grupo funcional). A polimerização por etapas é assim chamada pois o mecanismo de crescimento do polímero ocorre através de sucessivas reações sequenciais entre os diferentes grupos reativos existentes no meio reacional. Todas as moléculas são reativas ao mesmo tempo, havendo a formação de dímeros, trímeros, tetrâmeros, … e assim por diante, até a formação das cadeias poliméricas. Isso porque, estatisticamente, moléculas de menor tamanho tendem a reagir primeiro (apresentam maior probabilidade de colisão efetiva), configurando um aumento lento e proporcional das cadeias ao longo da reação.

Na policondensação, a formação do novo grupo funcional na cadeia polimérica é acompanhada pela liberação de subproduto. Polímeros formados a partir deste método de síntese, comumente, apresentam uma ampla distribuição de peso molecular (polidispersidade). Para a obtenção de altas massas, é imprescindível o balanço estequiométrico dos monômeros utilizados (garantindo que sempre se tenham os grupos funcionais disponíveis para reagir). Apesar disso, essa técnica, quando comparada às demais, apresenta uma ampla variação de estruturas possíveis para os polímeros obtidos. Como resultado, esses polímeros têm contribuído significativamente para o sucesso dos materiais poliméricos e aumentam de maneira considerável o leque de desempenho dos mesmos.

A síntese de copolímeros graftizados por policondensação pode ocorrer a partir do polímero-base (mais comum), ou no polímero-base:

A partir do polímero-base: Neste cenário, um monômero bifuncional A-A reage com outro monômero bifuncional B-B. Um dos monômeros (ou ambos) possui uma terceira funcionalidade C que, ou está protegida, ou não é reativa frente aos grupos A e B. Uma vez que a cadeia polimérica principal é formada, um oligômero, contendo um grupo funcional reativo perante C, é adicionado para formar o grafting. Outra alternativa é adicionar dois monômeros, de funcionalidades C-C e D-D não reativos com A e B, em proporção estequiométrica.