O bondum é uma língua falada pelos bonduns, sendo parte da família dogon. Também é conhecida por bondu-so, bondum-dom, e najamba-kindigué. A família linguística dogon é falada pelo grupo étnico dos dogons (que inclui os bonduns), povo nativo da África Ocidental, habitando a região do planalto central do Mali, ao sul da curva do rio Níger. O grupo de línguas dogon é um grupo próprio de línguas, considerado, pela comunidade linguística, distinto do grupo de línguas nigero-congolesas. As línguas dogon não são relacionadas a nenhuma outra família. Têm somente conexões e proximidade linguística entre si. Existe em torno de 400.000 falantes de linguas dogon, dos quais aproximadamente 24.700 falam bondum. É uma língua vulnerável à extinção, de acordo com o Endangered Languages Project.
Etimologia Há dois termos endônimos para o bondum: bondum-dom e najamba-kindigué. A etimologia da palavra bondum-dom é desconhecida, uma vez que é um termo que caiu em desuso. Uma comum interpretação da etimologia do segundo termo é que najamba é amálgama de nàlé (amigo) e jàmbá (traição), referindo-se a um evento em uma narrativa dogon. A etimologia da palavra kindigué também não é conhecida.
Como exônimo, os falantes da língua tommo so referem-se ao bondum como bondu-so, com radicais bòndú (referente aos bonduns) e sɔ́ (referente à linguagem ou comunicação). Assim, bondu-so significa 'língua dos bonduns".
Distribuição
Distribuição geográfica Os povos dogons são nativos do planalto do Mali, próximo a Burkina Faso. Bonduns encontram-se mais ao norte, mais distantes de Burkina Faso. Outras línguas dogons próximas são duieri, dogul e tommo so.
Existem dois principais ramos da família dogon: o Norte (ou Noroeste) e Sul (ou Sudeste). Para facilitar a visualização, entende-se que a divisão dos dois ocorre no sentido sudoeste-nordeste.
Dialetos e línguas relacionadas O bondum é uma língua do grupo najamba-kindigué-bondu. Todos os dialetos desse grupo são mutuamente inteligíveis, sendo considerados uma contínuo dialetal, usualmente chamado de najamba-kindigué. As línguas do grupo dogon não têm relação com outras famílias línguisticas, não sendo parte das línguas nigero-congolesas.
Línguas dentre ramos são relativamente semelhantes entre si, mesmo que não inteligíveis, mas há bastantes diferenças entre o ramo Norte e o ramo Sul. O ramo Norte inclui o bondum e outras línguas, como dogul, mombo e ampari. Já o ramo Sul inclui línguas tais quais o tommo so, o toro so, e o grupo de línguas jamsay.
Há certa influência songai no que tange ao bondum, pela interação com língua tondi songway kiini. Não há contato entre o bondum e essa língua atualmente, mas houve interação entre esses povos no passado. Essa conexão entre as famílias línguisticas é de cunho majoritariamente vocabular.
Fonologia
Fonética
Consoantes O bondum possui as seguintes consoantes: +Tabela de fonemas consonantais do bondumBilabialAlveolarPalatalVelarOclusivaʰ ʰ ʰ NasalAfricadaFricativaSemivogal()Líquida
Há versão surda e sonora de todas oclusivas. Todas as oclusivas surdas são aspiradas.
Há também algumas consoantes alófonas, como a ocorrência da africada pós-alveolar surda [t͡ʃ] em casos específicos, substituindo, usualmente, a oclusiva velar surda [k]. Nesses casos, a palavra pronunciada [m̀bɛ́kʰɛ̀] (trocar), por exemplo, torna-se [m̀bɛ́t͡ʃɛ̀]. A oclusiva velar sonora [g] é, por vezes, transformada na fricativa velar sonora [ɣ], mas isto não é comum no bondum, sendo mais comum em outras línguas dogon. Esta ocorre sempre de maneira intervocálica, entre vogais abertas.
Em áreas com interação com a língua fula, pode haver glotalização da oclusiva bilabial sonora [b] ou da oclusiva alveolar sonora [d], ou a ocorrência da fricativa não-sibilante glotal [h]. Palavras que sofrem pela primeira mudança são usualmente estrangeirismos, mas pode haver outras palavras que sofram desse fenômeno. Exemplo disso é [ɗíllɛ́] (espirro), ao invés de [díllɛ́]. A ocorrência da fricativa é somente mediante estrangeirismos, como em [hɛ́llɔ̀] (lado oposto).
Além dos casos de interação com a língua fula, há uma série de fonemas do bondum que ocorrem exclusivamente em estrangeirismos. Esse é o caso da fricativa labiodental surda /f/, que ocorre majoritariamente em palavras derivadas do árabe, tal qual [àlfâ] (homem sagrado). Isto ocorre também com a fricativa alveolar sonora /z/, que ocorre em palavras como [sàrzâ] (sargento).
Vogais O bondum possui as seguintes vogais:
+ Tabela de fonemas vocálicos do bondumVogal anteriorVogal posteriorVogal fechada (i:) (u:)Vogal semifechada (e:) (o:)Vogal semiaberta (ɛ:) (ɔ:)Vogal aberta (a:) Há sete vogais no bondum: as vogais anteriores fechada /i/, semifechada /e/, semiaberta /ɛ/ e aberta /a/, e as vogais posteriores fechada /u/, semifechada /o/ e semiaberta /ɔ/. Todas as vogais ocorrem tanto na forma curta quando na forma longa, que é pronunciada por um período estendido de tempo.
Versões nasais das vogais occorem, mas não são comuns. Sua ocorrência é em interjeições, onomatopeias, e estrangeirismos.
Tons O bondum é um língua tonal, ou seja, há palavras, sufixos, ou outras partículas gramaticais que só podem ser diferenciadas pela entonação. No bondum, toda palavra é tonal, ou seja, não existe palavra sem tom definido. Cada tom é representado por um diacrítico. Existem 5 tons na língua: +Tons do bondumTomCaracterísticaDiacríticoExemploTom alto (˦)Pronunciada em tom alto◌́Kól (nome de uma cidade)Tom baixo (˨)Pronunciada em tom baixo◌̀ìnè- (flexão do verbo ir)Tom crescente (˨˦)Primeiramente em tom baixo, depois em tom mais alto◌̌Bǔl (nome nativo de Sirou)Tom decrescente (˦˨)Primeiramente em tom alto, depois em tom mais baixo◌̂èndê: (criança)Tom crescente-decrescente (˨˦˨)Primeiramente em tom baixo, depois alto, depois baixo de novo◌᷈mɔ᷈: (pescoço)A ocorrência do tom crescente-decrescente é rara, aparecendo somente em radicais monossilábicos ou em substantivações de verbos monossilábicos.
Os tons têm, por vezes, função gramatical: uma mudança na inflexão dos tons do radical, por exemplo, ou a tonicidade de sufixos adicionados, resulta em alterações no tempo e no modo verbais. Adicionando o sufixo -ndí, por exemplo, alcança-se o presente negativo, enquanto se adicionar-se -ndì, tem-se o futuro negativo.
Ocorrem, de modo excepcional, certos sufixos que não possuem tom definido, os sufixos átonos. Quando isso ocorre, esses sufixos tomam para si o mesmo tom da sílaba anterior do radical que modificam, seja ele omitido pela adição do sufixo ou não. Isso ocorre com a palavra á:ràbù (árabe), que torna-se á:ràbù-mbò no plural (árabes) por meio da adição do sufixo átono -mbo, que assume o tom baixo (꜕) da sílaba rù. Ao adicionar-se o sufixo -mbo ao radical kórò (galinha), -mbo assume o tom baixo (꜕) da sílaba rò, mas há mudança no radical, que torna-se kôr, formando kôr-mbò (galinhas). É importante notar que o sufixo manteve o tom da última sílaba do radical inicial, e não do final.
Fonotática
Estrutura silábica No que tange à fonotática da língua bondum, as sílabas no bondum apresentam-se, tipicamente, em uma de três estruturas: CV, CV:, ou CVL.
No CV (consoante-vogal), apresenta-se uma consoante, seguida por uma vogal simples. É o caso da segunda sílaba da palavra bòndú. No CV: (consoante-vogal longa), apresenta-se uma consoante, seguida de uma vogal longa, em contraposição ao CV, que apresenta vogal curta. É o caso de nò:, que significa pessoa. No caso do CVL (consoante-vogal-líquida), apresenta-se uma consoante, seguida por uma vogal simples, seguida por uma consoante líquida. É o caso de tár, verbo auxiliar.
+ Estruturas silábicas do bondumEstruturaExemploTraduçãoCVbòndú"povo bondum"CV:nò:"pessoa"CVLtárverbo auxiliarExistem algumas sílabas que ocorrem raramente, ou em condições específicas. Essas são CV:L e NCV.
No caso da estrutura CV:L (consoante-vogal longa-líquida), apresenta-se uma consoante, seguida por uma vogal longa, seguida por uma consoante líquida. É bastante incomum.
No que tange ao NCV (nasal-consoante-vogal), apresenta-se uma consoante nasal, seguida por outra consoante qualquer, seguida por uma vogal simples. Não ocorre isoladamente em palavras, somente no encontro consonantal LNC (líquida-nasal-consoante). Encontros consonantais NC (Nasal-Consoante) na mesma sílaba são passíveis de existência, mas é difícil testá-los, e não há confirmação disso atualmente.
Ocasionalmente, há divergência das estruturas silábicas apresentadas, havendo sílaba que se inicia com uma vogal (V). Essa ocorre sempre na primeira sílaba de uma palavra, e é decorrente da omissão da consoante inicial (C). Isso se deve a radicais que omitem a consoante inicial (C), e não ocorre em prefixos, por exemplo. A vogal inicial é, na maioria dos casos, curta, mas pode haver, raramente, vogal inicial longa.
Encontros consonantais Pode haver encontro consonantal CC no início de palavras quando uma consoante nasal ocorre antes de uma oclusiva sonora. A maior parte das palavras com tais encontros são derivadas da língua fula, mas há algumas palavras de origem dogon que também têm essa formação.
Pode haver encontro consonantal CC medial geminado ou não-geminado. Grande parte dos casos do encontro consonantal medial geminado é com estrangeirismos, especialmente aqueles da língua fula, como em kóllí (tossir). Encontros mediais não geminados ocorrem com certa frequência, especialmente entre consoantes nasais e oclusivas vozeadas (como em yɛ́ndɛ, oeste). Existe, mas com menos frequência, encontro de uma nasal e uma oclusiva desvozeada (como em hámpɛ́, mastigar). Pode haver encontro consonantal CCC medial com uma consoante não-nasal, seguida por uma nasal e uma oclusiva vozeada. Isso ocorre em ùjùrmbó (suor).
Não há encontro consonantal ao fim das palavras no bondum.
Síncope e apócope vocálicas Há omissão da vogal [i] em verbos após consoantes soantes intervocálicas e, na maioria das vezes, após o [m]. Por exemplo, quando adicionado o sufixo reversivo -lí ao verbo gìbír (empacotar), tem-se gìbíl (desempacotar) ao invés de gìbílí, pois há síncope da vogal [i]. Não há síncope ou apócope vocálica em substantivos ou adjetivos no bondum. Há omissões pontuais de vogais, mas essas são assimilações consonantais e não síncopes.
Ortografia Escrita O bondum não tem escrita própria, havendo somente a tradição oral. A língua bondum é somente transcrita para o alfabeto latino.
Transcrição consonantal A seguir estão as transcrições das consoantes do bondum. Destaca-se o emprego de <j> para [d͡ʒ], e o emprego de <y> para [j]. Além disto, essa transcrição é completamente fonética; cada letra é associada a somente um som. + Tabela ortográfica consonantal do bondumFonema representadoLetra que o representaʰpbʰtdʰkgmnɲŋ jswylr Transcrição vocálica A seguir estão as transcrições das vogais do bondum. Vogais longas são representadas ao adicionar dois pontos (:) após a vogal. Essa transcrição é também completamente fonética. + Tabela ortográfica consonantal do bondumFonema representadoLetra que o representaiueo ɛ ɔa Transcrição tonal A seguir estão os tons da língua e suas transcrições. O tons no bondum são escritos mediante diacríticos. Isso vai ao encontro do método disposto pelo Alfabeto Fonético Internacional. + Tabela ortográfica tonal do bondumTom representadoSinal diacrítico que o representaAlto (˦)◌́Baixo (˨)◌̀Crescente (˨˦)◌̌Decrescente (˦˨)◌̂Crescente-decrescente (˨˦˨)◌᷈
Gramática
Sentença
Ordem da sentença No bondum, a ordem da sentença é estritamente sujeito-objeto-verbo (SOV). Em todas as frases do bondum, menciona-se primeiro o sujeito, depois o objeto, depois o verbo. A seguir, há uma frase de exemplo:
nò: èndê: gàlìyɛ.
Nessa frase, nò: significa "pessoa" e é o sujeito, èndê: significa "criança" e é o objeto, e gàlìyɛ é flexão do verbo gàlì (brigar, dar bronca), sendo o verbo. Assim, traduzindo diretamente, tem-se "pessoa criança briga", ou seja, "uma pessoa briga com uma criança".