A língua bekwarra (também chamada bekwara, bekworra ou yakoro) é uma língua tonal ativa falada por cerca de 150 mil pessoas do povo bekwarra no sudeste da Nigéria. O bekwarra pertence à família linguística nigero-congolesa, e é parte do pequeno grupo de línguas chamadas .

Etimologia O povo bekwarra usa o endônimo ebekwarra para nomear tanto a língua que falam quanto o seu próprio clã. Acredita-se que o termo tenha derivado da expressão "Ebe Kwarra", que pode ser traduzida como "aqueles que fugiram". O nome se relaciona à mitologia de formação dos bekwarra - em meados do século XV, Ashide e Odama Agba teriam fugido de sua casa, , e fundado um povoamento no norte do estado de Rio Cross, iniciando a nação Bekwarra. Os bekwarra atuais seriam descendentes dos fundadores - perpetuamente "aqueles que fugiram".

Muitos povos vizinhos, como os yala e os , se referem aos bekwarra com o exônimo de origem yala yakoro.

Distribuição

Distribuição Geográfica

Desde sua fundação, o povo bekwarra encontra-se concentrado na chamada , um governo local localizado no estado de Rio Cross e cuja capital é a cidade de Abuochiche. A região abarca cerca de 260km² e apresenta notória homogeneidade étnica e linguística.

Centro religioso na Área de Governo Local Bekwarra|miniaturadaimagem|202x202px|esquerda

Atualmente, devido principalmente à influência da colonização britânica, uma parcela dos falantes da língua bekwarra está espalhada por outros estados nigerianos como Cano, Ondô, Benué e Lagos. Esse cenário é consequência da imposição da educação e da cultura colonial britânica ao povo a partir da década de 1960 - desde então, a juventude Bekwarra habituou-se a migrar em busca de ocupações consideradas cosmopolitas.

Dialetos e Línguas Relacionadas

O bekwarra pertence à família linguística nigero-congolesa e é classificado como pertencente ao pequeno grupo de línguas chamado de , um grupo dentre as línguas bantoides localizado no norte do estado de Rio Cross e em partes adjacentes de Camarões. A maioria das línguas classificadas como bendi apresenta similaridades tão extensas entre si que podem ser tratadas como dialetos da mesma língua; apenas o bekwarra apresenta diferenças lexicais e morfológicas suficientes para ser determinado como língua separada.

Mapa ilustrativo da localização das línguas bendi|miniaturadaimagem|208x208px

O bekwarra apresenta uma elevada homogeneidade, não havendo quaisquer variantes dialetais da língua identificadas ou reconhecidas pelo povo.

A colonização britânica introduziu a língua inglesa entre o povo bekwarra, iniciando uma cultura entre as famílias de usar-se apenas o inglês (ou alguma forma de pidgin bekwarra-inglês) na comunicação com crianças. Esse cenário, combinado à cultura dispersiva da juventude bekwarra pós-1980, representa uma ameaça à estabilidade linguística do bekwarra.

História

História da Língua Pré-colonial

Acredita-se que a história da língua e cultura bekwarra tenha se iniciado no século XV, com a lendária separação da família do patriarca Ogar Agba, que habitava a região de Obudu. É dito que a família vivia em paz até o nascimento de um filho de Ashide e Odama Agba, que teria sido assassinado devido a conflitos internos à tradição familiar. O incidente levaria à fuga de Ashide e Odama, que viriam a fundar o que se tornou a nação bekwarra. O povo bekwarra atual acredita ser composto dos descendentes do casal fundador.

Essa história explica a existência de muitas similaridades linguísticas e culturais entre os povos de Obudu, Mbube, Igede e Bekwarra até os dias atuais.

A partir da colonização

A entrada de colonizadores britânicos na região, em 1908, iniciou uma onda de profundas mudanças na sociedade bekwarra. O plano colonizatório baseava-se na inserção, na nação bekwarra, de diversas estruturas e instituições baseadas na visão de mundo britânica.

A decisão missionária de difusão do cristianismo foi especialmente importante na supressão da cultura local, principalmente devido à criação, a partir da década de 1940, de escolas missionárias dedicadas ao ensino do cristianismo e da língua inglesa.

Os efeitos da colonização permanecem fortes; especialmente, sobrevive uma intensa cultura de desvalorização da língua bekwarra em relação ao inglês.

História da Documentação A língua bekwarra é notoriamente pouco documentada; o único estudo dedicado especificamente à língua foi feito por Stanford em 1967.

A mais antiga documentação sobre o bekwarra é um vocabulário incompleto compilado por Thomas, em 1914. Posteriormente, ao longo da primeira metade do século XX, a língua foi mencionada em Johnston, Westermann e Bryan e Greenberg como um dialeto do bokyi.

Omagu realizou importantes pesquisas a respeito da cultura do povo bekwarra no início do século XXI.

Fonologia Consoantes

Existem 22 fonemas consonantais na língua bekwarra, identificados na tabela a seguir: +Quadro consonantal da língua bekwarraLabiovelarBilabialAlveolarPalatalVelarGlotalPlosiva Africada NasalFricativaLateralVibranteAproximante

As consoantes podem ser afetadas por alguns fenômenos:

Aspiração

As plosivas e africadas do bekwarra podem adquirir aspiração a depender do grau de retração da língua na articulação da vogal seguinte.

Articulação variada de fricativas

A articulação do fonema /ʍ/, a depender do falante, varia entre articulação bilabial ou labiodental. Falantes mais jovens tendem a articular o fonema /ç/ como alveolar. Falantes mais velhos substituem, sistemática ou ocasionalmente, o fonema /h/ por /ʍ/.

Palatalização e Labialização

Os fonemas consonantais do bekwarra sistematicamente sofrem labialização ou palatalização a depender da vogal seguinte: vogais posteriores ocorrem somente após consoantes labializadas, e o fonema vocálico /i/ ocorre apenas após consoantes palatalizadas ou /k͡p/.

Falante de bekwarra|miniaturadaimagem|300x300px|right

Vogais Existem 5 fonemas vocálicos na língua bekwarra, identificados na tabela a seguir:

+Quadro vocálico da língua bekwarraAnteriorCentralPosteriorFechadaMédiaAberta

Os fonemas /e̞/ e /o̞/ são produzidos de forma mais fechada em início de palavras, sendo enunciados como [e] e [o], respectivamente.

Estrutura da Sílaba

No bekwarra, uma sílaba é definida como a menor unidade básica que pode receber tom; no geral, existem três padrões silábicos, exemplificados a seguir: CV (Consoante-vogal): tibi [ ti.bi ] 'escavar' V (Vogal): faa [ ʍä.ä ] 'torrar' N (Nasal silábica): nyung [ ɲu.ŋ ] 'secar'

Tons

O bekwarra é uma língua tonal, o que significa que, na língua, o tom é um fator que distingue palavras. A princípio, afirma-se a existência de três tons principais na língua: alto (´), médio ( ¯ ) e baixo (`). O tom baixo é consideravelmente mais frequente que os outros dois.

Transformações Fonológicas Mudanças tonais Quando, em uma sequência de sílabas CV.V ou CV.N, os tons são diferentes, são enunciados como um único tom ascendente ou descendente sobre as duas sílabas. Fatores fonológicos e gramaticais variados podem fazer com que dois tons sejam enunciados na mesma sílaba, com uma rápida entonação ascendente ou descendente: á-jì he [ ä.ɟ͡ʝǐ.he̞ ] 'roubar ele'

Junção de palavras A interação entre vogais limítrofes de palavras adjacentes é extremamente comum em bekwarra:

+Interações entre limites de palavras em bekwarraAnteriorPosteriorVogaisTomExemplos -CV V- A vogal anterior some; a vogal posterior é levemente alongada Inalterado ákpē ókú [ ä́.k͡pṓ̝ː.kú ] 'ele pegou os fósforos' -CV.V A vogal posterior someO tom posterior some ábīī ùcí [ ä́.bī.ù.c͡çí ] 'ele pediu o remédio' -V.bV ùtērè ùbú [ ù.tē̝.rú.bú ] 'o rabo da cabra' -V.rVáçūrù ìcīē [ ä́.çū.rì.c͡çī.ē̝ ] 'ele abaixou o pote' -iri-A primeira vogal do prefixo some.O tom da primeira vogal do prefixo some.ùngwù ìrìçì [ ù.ŋ.wù.rì.çì ] 'soleira da porta'ebe-ángwō èbètùò [ á.ŋ.wō̝.bè̝.tù.ò̝ ] 'ele bebeu vinho de palmeira'

Ortografia

Tradicionalmente, o povo bekwarra compunha uma sociedade ágrafa. A influência da colonização britânica levou à instituição, na década de 1940, do alfabeto latino como sistema de escrita para a língua; porém, numa versão com 27 símbolos em que muitos fonemas são representados por dígrafos.

A língua utiliza 3 diacríticos: os acentos agudo ( ´ ), grave ( ` ) e o mácron ( ¯ ) marcam, respectivamente, os tons alto, baixo e médio (o tom médio também pode aparecer não marcado). Abaixo estão listados os 22 símbolos do alfabeto bekwarra e suas respectivas pronúncias:

+Ortografia do bekwarraSímboloPronúncia (IPA)Aproximação com português, inglês ou espanhola/ä/bra (inglês)b/b/bolac/c͡ç/sem aproximação possíveld/d/dadoe/e̝/let (inglês)f/ʍ/whine (inglês)g/g/gatoh/h/rato (em algumas variantes do português)i/i/filhoj/ɟ͡ʝ/sem aproximação possívelk/k/camal/l/falam/m/maton/n/narizo/o̝/Cambodia (inglês)p/p/pator/r/perro (espanhol)s/ç/sem aproximação possívelt/t/teresau/u/uvaw/w/soly/j/paikp/k͡p/sem aproximação possívelgb/ɡ͡b/sem aproximação possívelngm/ŋ͡m/sem aproximação possívelny/ɲ/manhangŋthing (inglês)

Gramática

Substantivos No bekwarra, os substantivos são divididos em três classes definidas pelo tipo de concordância nominal que exigem do restante da oração da qual são sujeito. Em duas dessas classes, os substantivos flexionam em número, mas jamais em gênero:

Primeira classe

Consiste de substantivos "pessoais". Esses substantivos são todos os que nomeiam humanos; exigem concordância, em número, de adjetivos, advérbios e numerais. A maioria desses substantivos recebe o prefixo singular u- e um (ou ambos) dentre os prefixos plurais e- e ebe-: ùnì 'pessoa' (pl. ènì) ùjì 'ladrão' (pl. èbèji)ùnè 'vizinho' (pl. èné ou èbèné)

Os termos "criança", "criancinha" e "estrangeiro" são as únicas formas irregulares de flexão: ùngwan 'criança' (pl. èbwan) ùngwatung 'criancinha' (pl. èbwatung) òkáàrà 'estrangeiro'

Essa categoria inclui alguns substantivos compostos, formados por duas raízes com um único prefixo: ùnìce 'homem' (ùnì 'pessoa' + ùce 'esposo') ùnìnye 'mulher' (ùnì 'pessoa' + ùnye 'esposa')

Segunda classe

Consiste de alguns substantivos impessoais que exigem concordância, em número, apenas de numerais. São marcados invariavelmente pelo prefixo plural a-: ìrìte 'dia' (pl. àte) úkògbó 'porco' (pl. ákògbo)

Terceira classe

Consiste de advérbios e numerais em função substantiva e dos substantivos não contemplados nas outras duas classes. Não exigem nenhuma concordância na oração e também não recebem marcação de número.

Derivação

É possível derivar substantivos a partir de verbos com o uso dos afixos à- e -ni. Caso a raiz verbal termine em uma consoante nasal, a última vogal da raiz, com seu tom, é adicionada antes do sufixo: ji 'comer': àjini 'o comer' dyem̀ 'crescer': àdyem̀eni 'o crescer'

Pronomes Pronomes Pessoais No bekwarra, os pronomes pessoais possuem formas específicas para sujeito e objeto.

Os pronomes sujeito são clíticos que funcionam como prefixos adicionados ao primeiro verbo de cada oração. Tal quadro de pronomes da língua é constituído por 3 pessoas no singular e uma forma plural única; a 1ª e a 3ª pessoas do singular apresentam formas alternativas usadas a depender do aspecto e do modo verbal.

+Pronomes pessoais de sujeito do bekwarraAspecto/Modo verbalSingularPlural1aP2aP3aPCompletivo indicativomaa-o-a-e- -N-i-

Como exemplo de uso, temos: ìyi nggógó re → 'eu não estou bem'

Em frases nominais, os fazem o papel de pronomes sujeito; todos os pronomes enfáticos no bekwarra flexionam em número:

+Pronomes enfáticos do bekwarra1aP2aP3aP4aPSingularàmiàwoàheámínPluralàbèreaminabe/àheábín

Como exemplo de ambas as possibilidades de uso do pronome enfático, temos: amin ènì ùsi → 'vocês, pessoas pretas' amin ìyen ekà kúǹg já → 'então, vocês mesmos o comem'

Os são os seguintes:

+Pronomes objeto do bekwarra1aP2aP3aPSingularmi, mwohePluralti - -

Como exemplo de uso: ekúó wo dènaǹg → 'como você se chama?'

Pronomes Possessivos

No bekwarra, todos os pronomes possessivos flexionam em número: