A língua kurtöp (kurtokha, zhâke, au gemale ou kurtöbikha) é uma língua falada no Distrito de Lhuntse, no Butão. Ela faz parte da família sino-tibetana, pertencente ao grupo do Bodo ocidental. Trata-se de uma língua polissintética, aglutinante, e tonal, compartilhando parte de suas características com o butanês (dzongkha).
Atualmente, não se tem certeza da quantidade de falantes, mas estima-se que existiram por volta de 15.000 falantes em 2011. A língua é reconhecida pela UNESCO como vulnerável.
Etimologia esquerda|miniaturadaimagem|Imagem do rio Kur, ou Kuri Chhu. A palavra 'Kurtöp' significa 'Algúem de Kurtö' em Butanês, e é usada para se referir às pessoas da região de Kurtö. A etimologia da palavra 'Kurtö' começa no Tibetano Clássico, sendo escrita como <skur.stot>. <stot> significa superior e <skur> é o nome do rio principal da região, também chamado atualmente de Kur ou Kuri. A origem de <skur> não é clara, mas supõe-se que falantes de bodo ocidental, quando migraram para a região já habitada, acreditavam que o nome local do rio, chamado apenas de 'água', era o próprio nome.
A Comissão de Desenvolvimento do Dzongkha (DDC) diz que a palavra 'Zhâke' se refere a chamada língua kurtöp, sendo uma forma de diferenciá-la das diferentes línguas faladas na região. ela é composta por dois morfemas; zhâ, de etimologia desconhecida, e ke, que é um Reflexo do Tibetano Escrito para 'Voz' <skad>. Também são usadas termos como 'kurtöbikha' ou 'kurtöpkha' para se referir especificamente ao idioma. nesta região, se falam várias línguas além do zhâke, como a língua dzala e a língua chocangaca, e por isso o termo 'língua kurtöp' se torna ambíguo, podendo se referir tanto ao próprio zhâke quanto à outros idiomas da região.
A língua também recebe o nome de au gemale (lit. 'Aonde você está indo?).Este nome se refere à como as pessoas da região se diferenciam umas das outras: perguntando para onde elas vão. quando alguém se auto-denonima Kurtöp ou falante de kurtöp, se pergunta de 'qual Kurtöp' elas são, e daí segue a nomenclatura. Ela é usada não só para se referir à língua zhâke, mas também às outras línguas. Em dzala, a expressão se torna i ga brok?, que também é um nome utilizado entre habitantes da região para citá-la.
Distribuição miniaturadaimagem|300px|Mapa linguístico do Butão (Kurtöp em marrom escuro)Os falantes de kurtöp se encontram, na maior parte, em Lhuntse, na região leste do Butão. Seu uso se estende desde a vila de Gorgan, no norte da província, até Naling, vila setentrional próxima da fronteira do país com o Tibete, Ainda passando pelas vilas de Gangzur, Zhamling, Dungkar, Tabi e Tünpe, dentre várias outras. A maior concentração de nativos situa-se na região de Kurtoe Gewog (Grupo de vilas), com uma área de aproximadamente 1076km² e uma população estimada de 2212 pessoas em 2024.
Há um número muito pequeno de falantes de kurtöp fora do país, principalmente devido às condições rurais da região. Não há nenhum falante monolíngue, com a maioria sendo fluente em Dzongkha, Tshangla (língua franca da região nordeste do Butão) e nepali. A maioria dos falantes também é alfabetiza em Dzongkha e Inglês. Línguas relacionadas dentro da família do Bodo oriental, existe um grupo de línguas denominado Bumthangic, composto pelo kurtöp e pelas línguas bumthap e khengkha. Tal associação foi sugerida pela primeira vez por Michael Aris em 1979, e recebeu uma nomeação pela Drª Gwendolyn Hyslop em 2013 como sugestão para a filogenia do Bodo ocidental. Segue aqui alguns exemplos de comparação entre todas as línguas da família: +Palavras de línguas do bodo orientalTraduçãoKurtöpBumthapKhengkhaChaliDakpaDzalaPhobjip'Sol'/ni//ne//ni//tʰanman//plaŋ//praŋ//nɛse/'Onde'/áu//áu//áu//gaŋ//ga//ga:ᵃ//úda/'Cabeça'/gujun//gujun//gujun//gujun//gotki//gotke//gunu/'Cachorro'/kʰwi//kʰwi//ɸi//kʰwi//kʰi//kʰi//cʰy/'Oito'/ɟat//ɟat//ɟat//ɟat//kɛt//gɛt//gœ/'Cinco'/jaŋa//jaŋa//jaŋa//jaŋa//lɛŋɛ//lɛŋɛ//laŋ/'Cabelo'/rá//krá//krá//rá////ʈa//rá/'Seis'/ɖo://grok//gro//ɖoʔ//krò//ɖoʔ//ɖo/'Cintura'/ʈʰat//kʰrat//kʰrat//ketpa//kʰret//ʈʰet/// miniaturadaimagem|Casa do 1º rei do Butão, Ugyen Wangchuck, em Dungkar, Kurtoe Gewog.Nota-se também que o chali possui algumas semelhanças notáveis entre as outras três línguas, mas devido a falta de pesquisa envolvendo-o, é difícil afirmar sua relação com certeza. Ainda, Hyslop diz que há uma série de diferenças entre as três línguas que as fazem diferentes, e por isso, afirma que todas são línguas isoladas dentro do Bumthangic. a principal diferença entre as duas outras línguas é a simplificação de encontros consonantais que acontecem no bumthap e no khengkha, geralmente (mas não necessariamente) simplificando encontros velares-róticos a favor de retroflexas quando transferidos ao kurtöp. Um exemplo além dos que estão na tabela é a palavra para o verbo 'escalar', que em Kurtöp fica /ʈʰaŋ/, enquanto que em Bumthap e Khengkha se fala /kʰrak/.
Em suma, a mudança principal é dos sons /kr, kʰr,gr/ no bumthap e no khengkha, para /ʈ, ʈʱ, ɖ/ no kurtöp. Ainda há necessidade de entender o motivo de tal mudança não ser algo generalizado, mas Hyslop supõe que a mudança de sons veio do Butanês, sendo que antes, era feita a remoção da consoante inicial ao invés desta substituição. Pode-se notar tal exceção na palavra para 'cabelo', vista anteriormente, em que a consoante /k/ é removida da palavra ao invés de ser substituída por /ʈ/.
Fonologia
Consoantes O kurtöp possui 31 consoantes, com três tipos de contrastes vocais (surdo não-áspero, surdo áspero e sonoro) em seis regiões, além das consoantes complexas. Elas estão organizadas na tabela seguinte: +Fonemas consonantais do KurtöpLabialLabiovelarAlveolarRetroflexaAlveolopalatalPalatalVelarGlotalNasalPlosiva, pʰ, , , , ,, cʰ, , , () Fricativa, AproximanteAfricada, Lateral, RóticaÁspera
Ademais, os fonemas citados podem se juntar para formar ataques (onsets) complexos. Esses ataques são formados por um encontro de duas consoantes, embora elas sejam limitadas apenas a um certo grupo. Alguns exemplos são pʰj, pʰr, pr, mr, dentre outros.
As consoantes mais comuns são as labiais e velares, sendo usadas tanto como codas de sílabas e em encontros consonantais. A seguir são as consoantes dentais, usadas em ataques e codas. As menos usadas são as palatais, retroflexas, glotais, labiovelares e alveolopalatares.
Vogais São aderidas 7 vogais no kurtöp, todas orais, indicadas na tabela abaixo. +Fonemas vocálicos do Kurtöp Anterior PosteriorArredondadaNão-arredondadaArredondadaNão-arredondada Fechada SemifechadaAberta As vogais /ɑ, i, u, e, o/ são as mais usadas por falantes nativos do Kurtöp, enquanto /y, ø/ e os ditongos são mais usados por falantes com maior educação formal. A duração da vogal também pode mudar por sentido de uma palavra, por mais que não hajam muitos pares onde a única diferença é a duração da vogal. Ainda, esta extensão ocorre apenas em palavras monossilábicas e com vogais abertas. É possível listar exemplos como ɬɑ́ 'Divindades' e ɬɑ́: 'Excesso', além de outros.
Tons A utilização de tons aparenta ter sido inserida no Kurtöp há pouco tempo, seguindo consoantes soantes e fricativas palatais. Também são raramente usados para marcar contraste fonêmico. A marcação de tons são separadas em alto ou baixo, com tons baixos sendo marcados por ( ̀) e tons altos por ( ́), marcados apenas em vogais de palavras monossilábicas, ou na primeira sílaba de uma. Segue uma tabela com tons em palavras semelhantes, separadas por tom utilizado: FonemaTom altoTraduçãoTom baixoTradução/m/mɑ́ŋ'Comunidade; Aglomeração; Todos'mɑ̀ŋ'Ser excessivo'/n/nɑ́m'Amaranto'nɑ̀m'Céu; Tempo'/ɲ/ɲú'Ser maluco'ɲù'Pedir emprestado'/ŋ/ŋɑ́p'Secar completamente'ŋɑ̀p'Ser magro'/r/rúŋ'Deixar em pé; Levantar'rùŋ'Cesta de armazenamento pequeno'/l/lém'Colher plana'lèm'Ser delicioso'/w/wɑ́ŋ'Benção'wɑ̀ŋ'Poço'/j/jɑ́p'Toldo'jɑ̀p'Usar nos ombros'/ɕ/ɕɑ́m'Sapatos'ɕɑ̀mUnidade de medida (equivale à altura de um homem) Em geral, os tons são sempre contrastivos para a maioria das consoantes. As únicas consoantes que não seguem essa regra são as obstruentes sonoras (/p/, /t/, /ʈ/, /c/, /k/, /s/, e suas variações aspirativas) e obstruentes surdas (/b/, /d/, /g/, /z/, /ɖ/ e /ɟ/), onde o tom sempre será alto e baixo, respectivamente. Isso se torna visível na tabela abaixo: Tom altoTraduçãoTom baixoTraduçãopɑ́'Fatia de carne'bɑ̀'Alvo'pʰɑ́t'Sanguessuga'tɑ́'Machado'dɑ̀Indicador expletivotʰɑ́Padrão de tecelagemʈɑ́'Deixar em pé; Levantar'ɖɑ̀Indicador de exclusãotʰɑ́ŋ'Escalar'cɑ́'Amigo'ɟɑ̀'Chá'cʰɑ́'Par'kɑ́'Neve'gɑ̀'Sela'kʰɑ́'Língua; Boca'tsɑ́'Nervos'tsʰɑ́'Sal'sɑ́'Terra'zɑ̀m'Ponte' Fonotática As sílabas no Kurtöp são formadas, no mínimo, por uma rima, e no máximo por um ataque complexo e uma rima. As rimas podem consistir em uma vogal curta, vogal longa, um ditongo, ou uma vogal curta junto com uma coda de consoante. Uma vogal longa nunca aparecerá junto de uma coda consonantal. Existem nove estruturas para as sílabas, com a menor sendo da forma V e as maiores sendo da formas CCVV ou CCVC. Aqui está uma tabela mostrando todas as estruturas possíveis com exemplos: EstruturaExemploTraduçãoVíComida; Arroz cozidoVVéːQuemVCímEsconderCVbɑ̀AlvoCVVkó:EnxadaCVCgòrPedraCCVprɑ́MacacoCCVVmrɑ̀:Campo de ArrozCCVCpʰrúmQueijo
Tonicidade A tonicidade no Kurtöp é algo interessante, visto que ele já é uma língua tonal, mas ainda possui recursos para diferenciar palavras baseado na sua tonicidade. É possível reconhecer palavras com sílabas tônicas baseado em duas características:
A presença obrigatória de um marcador de tom (alto ou baixo); O uso de um ataque complexo; A tonicidade das sílabas não é caracterizada pela intensidade no som ou pela articulação, mas sim pela altura e pela duração. Outro fato interessante é que a sílaba tônica inicial sempre fará algum contraste com a sílaba seguinte: se ela for mais alta em tom, a seguinte será mais baixa, e vice-versa, ainda que não haja uma discrepância muito notável.
Ortografia miniaturadaimagem|344x344px|Exemplo da escrita 'ucen
Escrita 'ucen
Antecedentes Nunca foi desenvolvido um sistema de escrita para o kurtöp até meados de 2014, devido a diversos fatores, tanto linguísticos quanto não linguísticos. Um dos fatores linguísticos é o uso dos ataques complexos, pois há diversos modos de representar ataques utilizando semivogais palatais que apresentam variações sincrónicas, como /pj~pc~c/, /pʰj~pch~ch/ e /mj~ɲ/. Por isto, as muitas representações poderiam causar confusão entre falantes e/ou linguistas. Além disso, há alguns fatores religiosos relacionados ao uso da escrita tradicional 'ucen e suas duas variações, tshui (Escrita padrão) e joyi (Escrita cursiva). Ela é considerada uma escrita sagrada no Budismo, e qualquer mal-uso dela pode levar a conflitos entre seguidores da religião.
No final, foi decidido o uso do joyi, por ele ter menor associação a textos sagrados, além de ser considerada mais nativa ao Butão. Esta decisão foi tomada pelo governo butanês, junto com pesquisadores da região. Devido a falta de uma fonte da escrita joyi, os segmentos a seguir serão escritos com o tshui.
Sistema de escrita O sistema de escrita 'ucen é uma abugida. Suas sílabas são estruturadas e nomeadas da seguinte forma: 'yang Vgocen c2'nyönju c1mingzhi Rjêju c3yangju c5dokcen c4 'yang V Onde R é a raiz, V são as vogais e c1, c2, c3, c4, e c5 são todas consoantes. Segue um exemplo com a palavra བསྒྲུབས - bsgrubs (conquista): -ས (s)བ (b)ག (g)བ (b)ས (s)ྲ (r)ུ (u)