Reconquista é um grupo ultranacionalista português, fundado em junho de 2023 e liderado por Afonso Gonçalves e Alexandre Gazur. O grupo tem vindo a destacar-se no contexto da extrema-direita em Portugal, nomeadamente pela sua oposição à imigração e pela defesa de posições de caráter nacionalista e culturalmente conservador.

Caracterização O foco do grupo é a defesa da identidade nacional e etnocultural portuguesa e a redução da imigração para Portugal. O nome do grupo faz referência à Reconquista Cristã, termo utilizado para designar o período histórico de expansão dos reinos cristãos na Península Ibérica, concluído com a conquista de Granada em 1492.

O Reconquista tem sido classificado por algumas fontes como um movimento ultranacionalista e supremacista branco. O grupo mantém contactos com o Grupo 1143, associado a Mário Machado, nomeadamente através dos spaces do Twitter. Entre os temas abordados pelo grupo encontram-se a imigração, a identidade nacional, questões relacionadas com os papéis sociais das mulheres e a denominada “ideologia de género”. Segundo Afonso Gonçalves, um dos objetivos do Reconquista é “radicalizar a política em Portugal” e “formar a elite do futuro” de Portugal.

Afonso Gonçalves realizou um ensaio fotográfico no qual aparece com um bigode semelhante ao utilizado por Adolf Hitler, acompanhado da legenda “Weimar conditions require Weimar solutions”, numa referência à República de Weimar e ao período que antecedeu a ascensão do Partido Nazi na Alemanha. Segundo a mesma fonte, Hitler é também uma referência para o Grupo 1143.

Gonçalves descreve o Reconquista como um movimento “sem qualquer filiação partidária” e, por esse motivo, rejeita o seu enquadramento na extrema-direita. Gonçalves tem, contudo, participado em campanhas do partido Chega e manifestado apoio ao partido. O grupo mantém contactos com membros da Juventude Chega, embora também tenham ocorrido divergências entre membros das duas organizações. João Antunes, então dirigente da Juventude Chega de Coimbra, publicou uma fotografia com Gonçalves acompanhada da mensagem “Reconstruir Portugal #Reconquista”. Francisco Araújo, então dirigente da Juventude Chega do Porto, utilizou o seu canal no Telegram para promover um congresso do Reconquista. Outros membros da Juventude Chega participaram em debates e iniciativas com membros do Reconquista.

Algumas declarações de Afonso Gonçalves e Alexandre Gazur relativas às mulheres e aos papéis sociais atribuídos aos sexos foram alvo de críticas por parte de membros da Juventude Chega. Entre as declarações atribuídas a Gonçalves encontram-se a defesa de que as mulheres não deveriam ter redes sociais ou direito de voto e afirmações sobre o valor de mulheres que não chegam virgens ao casamento. Joana Pinto Azevedo, então dirigente da Juventude Chega de Braga, criticou publicamente algumas dessas declarações.

Após as eleições legislativas de 2024, nas quais o Chega elegeu 50 deputados, o Reconquista passou a defender uma política mais restritiva relativamente à imigração e a promover o conceito de “remigração”. Algumas fontes utilizam o termo para descrever propostas de saída ou expulsão de imigrantes, incluindo pessoas não brancas e seus descendentes. A utilização do conceito também foi posteriormente observada entre membros da Juventude Chega nas redes sociais.

Segundo o cientista político Vicente Valentim, autor de O Fim da Vergonha, grupos que defendem posições mais radicais podem manter relações informais com partidos políticos sem estarem formalmente integrados nas suas estruturas. O politólogo Riccardo Marchi considera que Afonso Gonçalves e Mário Machado identificaram no crescimento do Chega uma oportunidade para promover determinadas posições políticas, apesar das diferenças existentes entre esses grupos e o partido. Marchi afirma também que anteriores tentativas de integração de elementos desses grupos no Chega foram rejeitadas pela direção do partido.

Heidi Beirich, investigadora e cofundadora do projeto GPHAE, considera que grupos deste tipo podem representar riscos relacionados com crimes de ódio e terrorismo, bem como influenciar o debate político e os Direitos Humanos. As avaliações de Beirich diferem das de Riccardo Marchi, que considera que estes grupos não constituem, no contexto português, uma ameaça significativa.

Segundo Cátia Moreira de Carvalho, investigadora na área do extremismo e da radicalização, determinados jovens podem apresentar maior predisposição para aderir a movimentos extremistas quando percecionam alterações sociais e culturais como ameaças à sua identidade. A investigadora relaciona este fenómeno com posições de oposição à igualdade de género e à alteração dos papéis sociais tradicionalmente atribuídos às mulheres.

O Reconquista, tal como o Grupo 1143, foi referenciado no Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2023. O relatório refere o aparecimento de projetos e organizações que procuram ampliar a divulgação de mensagens extremistas entre os jovens e menciona projetos com convergência ideológica com a extrema-direita, incluindo posições de natureza patriarcal e misógina.

Fundadores e liderança De acordo com o Global Project Against Hate and Extremism (GPAHE), que em outubro desse ano incluiu a organização no seu relatório sobre o ódio e grupos extremistas de extrema-direita em Portugal, Gonçalves "é um supremacista branco e misógino, que se apresenta como um líder autoritário", descrevendo-se a si próprio como transfóbico, ultranacionalista, racista e xenófobo. Começou militando nas redes sociais em 2022, inspirado pela entrada de André Ventura no parlamento em 2019, estreando o canal de Telegram com um vídeo intitulado “o feminismo é uma doença”. Outra das suas primeiras publicações foi uma foto em que simulava dar uma bofetada na deputada Inês Sousa Real, do PAN. Gonçalves é particularmente conhecido pela sua misoginia, assim como pelas suas críticas ao Sufrágio feminino, sexo casual e mulheres sentadas em público, referindo-se às mesmas como “prostitutas” e “baratas”. Gonçalves argumenta que mulheres que se divorciam não deveriam “ter direito a receber dinheiro/bens” dos maridos, e deveriam ser obrigadas a “pagar pelos danos causados à família”. Considera o aborto um crime contra a humanidade, pedindo que mulheres que realizem esse procedimento recebam a pena de morte. Segundo Gonçalves, “famílias não tradicionais” são uma “aberração”, “80% de todos os divórcios são iniciados por mulheres” e pessoas de ascendência africana estão criando uma “substituição populacional” de pessoas de ascendência europeia. Argumentou que “homens afro-americanos têm 12 vezes mais probabilidade de cometer assassinato do que homens brancos”. Gonçalves afirmou que “a imigração brasileira e as suas consequências são a principal ameaça à sobrevivência de Portugal”, associando frequentemente as mulheres brasileiras à prostituição, assim como qualquer mulher que frequente um ginásio, use as redes sociais ou tenha qualquer opinião. O caráter extremo dos seus preconceitos levou o Twitter a suspender tanto a sua conta principal quanto a secundária, por “comportamento abusivo”, tendo já sido, desde então, restituída.

O outro membro fundador, Alexandre Lima Gazur, engenheiro informático natural de Viseu, é um YouTuber de extrema-direita, funcionando como coorganizador e promotor dos protestos da Reconquista. É militante do Chega, tendo servido como delegado na 5.ª Convenção Nacional do partido, realizada na sua cidade natal. É conhecido por seu antissemitismo, acreditando no “controle judeu” do mundo. Em resposta à publicação do relatório sobre Portugal da GPAHE, Gazur acusou a organização de ser finaciada por George Soros, um tema recorrente entre grupos antissemitas e conspiracionistas. Gazur é conhecido por comentários racistas e polémicos, como os feitos em resposta a um vídeo no Twitter sobre as políticos Katar Moreira e Ossanda Liber, ou os ataques ao próprio deputado do Chega, Marcus Santos, que descreveu como "preto africano, que fala brasileirês". Tal como Gonçalves, Gazur acredita que há uma “substituição populacional” em andamento do povo português, em referência à teoria da conspiração da “Grande Substituição”, argumentando que “deportar todos os imigrantes” que usam o serviço de saúde “gratuitamente” resolveria 90% de todos os problemas do sistema. Pediu que os jovens que participam de eventos do Orgulho LGBT+ sejam “presos pelo Estado”. No seu canal de Telegram, compartilha regularmente mensagens do supremacista branco americano negador do Holocausto Nick Fuentes e do neonazi Andrew Anglin. Após Elon Musk comprar o Twitter teve a conta restaurada, sendo posteriormente suspensa.

O Antibrasileirismo é um dos conceitos mais disseminados por vários membros do Reconquista. Além de afirmar que a imigração brasileira representa um elevado perigo à preservação da identidade portuguesa, o grupo sustenta, explorando o facto de o Brasil ser um dos países mais violentos do mundo, que os brasileiros, como um todo, são naturalmente mais propensos à violência, com um índice de homicídios per capita 46 vezes superior ao dos portugueses.

Militância A maioria dos adeptos da Reconquista são homens brancos de ascendência portuguesa. Participantes identificados pela GPAHE de seus canais no Telegram incluem Nita, tradwife que participou da manifestação no SEF; Miguel Morato, skinhead nacionalista ligado ao Grupo 1143, e ao canal mantido por Mário Machado, “Racismo contra Europeus”, que compareceu tanto à manifestação antimuçulmana quanto ao protesto no SEF; e Carlos José Martelo Pagará, candidato do partido de extrema-direita Ergue-Te por Évora em 2022, que apareceu na manifestação de 4 de julho. Ricardo Camões Coutinho, descrito pelo GPAHE como supremacista branco, membro do Chega e delegado por Aveiro na 5.ª convenção do partido, também participou da manifestação. A média de idade dos membros é de 23 anos, sendo o alinhamento com a misoginia um dos requisitos.

O grupo alia o ativismo de rua com um grande foco na internet, misturando os dois tipos de ações. As atividades na rua, como protestos e instalação de faixas e autocolantes com frases xenófobas em locais públicos, são filmadas e fotografadas, sendo depois criadas comunicações para as redes como o Telegram e o TikTok, onde atingem uma camada mais jovem da população. Segundo o RASI 2023, o crescimento da extrema-direita entre as gerações mais jovens "deveu-se, em grande parte, ao esforço desenvolvido na esfera virtual, tornando-a o seu principal veículo de disseminação de propaganda e motor de radicalização e contribuindo, assim, para a proliferação das narrativas extremistas, que atingem um público mais alargado e diversificado.”

Com o passar dos meses e o aumento no número de militantes, o grupo profissionalizou-se, com a contratação de um web designer. Os vídeos iniciais, gravados sem microfone e sem edição, deram lugar a produções mais elaboradas, com linguagem padronizada e estratégias de marketing bem delineadas. A estratégia de comunicação passa igualmente pela articulação nacional e internacional entre grupos com ideias semelhantes, como a página Invictus Portucale, com quase cem mil seguidores nas redes sociais, ou a Rádio Genoa, plataforma digital internacional de notícias falsas e descontextualizadas sobre imigração, parceira da Reconquista e do Grupo 1143.

O alcance da narrativa tem sido limitado pelos mecanismos de moderação das plataformas, que levaram o YouTube a derrubar o canal inicial da Reconquista durante as exibições dos primeiros vídeos da série "A Grande Invasão". Os perfis no Twitter/X foram banidos, embora já tenham retornado.

A Grande Invasão