miniaturadaimagem|Amor e Psiquê (c. ano 150), estátua helenística de um modelo original do século I a.C. ou d.C. Psiquê possui asas de borboleta. Amor e Psiquê (do latim Amor et PsycheClassificação da Biblioteca do Congresso, 6207.M35), também referidos como Cupido e Psiquê (do latim Cupido et Psyche) ou Eros e Psique, é um par que aparece como antigo motivo iconográfico e literário. Tornou-se um título comum para se referir ao conto presente em Metamorfoses (ou O Asno de Ouro) de Apuleio, a mais antiga versão literária sobrevivente sobre a história do casal, escrita no século II d.C. O conto trata da superação de obstáculos ao amor entre Psiquê (, literalmente "Alma" ou "Sopro da Vida") e Cupido (, literalmente "Desejo") ou Amor (romanização do deus grego Eros, Ἔρως), e sua união final em um casamento sagrado.
Embora a única narrativa extensa da antiguidade seja a de Apuleio, Eros e Psiquê aparecem na arte grega já no século IV a.C. Os elementos neoplatônicos da história e as alusões às religiões de mistério acomodam múltiplas interpretações,Harrison, Stephen (2010). "Cupid". In: The Oxford Encyclopedia of Ancient Greece and Rome. Oxford University Press. p. 338. e foram analisadas como uma alegoria e à luz do folclore, conto de fadas e mito. Além de influências greco-romanas, também são apontadas semelhanças com contos nativos berberes do Norte da África, onde Apuleio residia, e existem diversas hipóteses sobre as possíveis origens folclóricas da narrativa.
É uma das histórias de amor do mundo greco-romano mais populares na cultura ocidental, tendo sido grandemente influente nos dois milênios, interpretada e reelaborada em diversos meios, como a literatura, artes plásticas, música, cinema e psicologia. Foi principalmente a partir da Renascença que se difundiu por toda Europa, mas desde a Antiguidade já era um motivo comum em algumas localidades mediterrâneas, em pinturas, joalheria e relevos funerários.
Panorama geral
Antiguidade miniaturadaimagem|186x186px|Psiquê sentada com um arco à sua frente, aludindo a Eros. Escaravelho etrusco (século V a.C.)|esquerda
Apesar de a história contada por Apuleio não ser sobrevivente em nenhuma fonte literária anterior, há a presença de cenas figurativas de Eros e Psiquê anteriores ao escritor, com algumas semelhanças e variações em relação ao conto. Por exemplo, há um papiro de Oxirrinco contemporâneo ou anterior a Apuleio que retrata Psiquê segurando uma tocha e reconhecendo Cupido por sua luz: isso difere do conto de Metamorfoses, em que Cupido é despertado pelo óleo de uma lamparina, e não pela chama de uma tocha. A iconografia de Psiquê segurando uma tocha aparece em uma terracota do Egito helenizado e em outras do Líbano, de c. do século III a.C.
Há extensa produção figurativa unindo Eros e Psiquê no mundo grego, romano e etrusco desde pelo menos o século IV a.C.; em algumas delas, Psiquê (que, além de "alma", também pode significar em grego "borboleta") é retratada com asas de borboleta. O exemplo mais antigo de Psiquê com asas de borboleta aparece em um escaravelho etrusco do século V a.C., de influência grega, em que ao chão se encontra também um arco, em referência a Eros. O mais antigo exemplo em que aparece o casal é um escaravelho grego do século IV ou III a.C. Esses intaglios podiam ser utilizados também para a magia de amor no mundo greco-romano. Por exemplo, no papiro "Espada de Dardano", entre os Papiros Gregos Mágicos, são dadas as instruções para se gravar sobre uma pedra magnética o seguinte desenho:"Afrodite sentada sobre Psiquê / e com a mão esquerda segurando seus cabelos presos em cachos (...) e abaixo / Afrodite e Psiquê, grave Eros em pé na abóbada do céu, segurando uma tocha ardente e queimando Psiquê" Também há associação entre Psiquê e Eros em um encantamento de outro papiro mágico. Há evidência de que o próprio Apuleio incorporou em sua narrativa esses elementos mágicos eróticos já difundidos em gemas e papiros.
Porém, a maioria dessas representações anteriores não possui nenhuma ligação com a história apuleiana. Nem há relação entre esta e os epigramas helenísticos que indicam a alma atormentada por Cupido, ou o Cupido acorrentado. Há, no entanto, um grupo de gemas itálicas, datando do final da República Romana ao Primério Império, que os historiadores da arte frequentemente associaram ao conto de Apuleio. Apesar da posição contrária, adotada por exemplo por Carl Schlam, de que as representações monumentais e outras de Eros e Psiquê seriam independentes, há novos debates sobre a possibilidade de que o conto já fora retratado anteriormente à versão de Apuleio.
miniaturadaimagem|162x162px|Conjunto que representa as tarefas realizadas por Psiquê. Gravura em gema romana (século III-II a.C.)Em uma sardônica do século I a.C., há um conjunto em que figura uma menina em uma paisagem rochosa; uma formiga; um vaso para recolher água; uma águia; um bastão e cereais. Essa cena pode ser identificada com as provas e castigos a que Vênus submete Psiquê no conto de Apuleio, no qual todos esses elementos estão presentes, associados a testes distintos. Em outras representações do século I a.C. ao primeiro século, também se repetem detalhes de testes que Psiquê realizou. Nem sempre ela aparece com asas de borboleta, o que pode dificultar sua identificação. Há figuras em que ela aparece em sua representação helenística com asas de pássaro, por exemplo em um mosaico de Antioquia, ou então uma borboleta se encontra à frente de sua cabeça. miniaturadaimagem|Baixo-relevo de Amor puxando Psiquê, no Mitreu de Cápua (século II)|esquerda Em algumas gemas helenísticas do ciclo de Eros-Psiquê, ambas figuras também aparecem empunhando uma enxada de duas pontas, em um motivo frequentemente combinado com grilhões, indicando alguma versão do mito que não aparece na narrativa de Apuleio. Isso pode ser uma das evidências que atrela o mito ao simbolismo dos mistérios; há frequentes alusões dionisíacas na iconografia, por exemplo em uma gema em que o casal aparece junto com uma figura que segura um liknon de iniciação a Dioniso. Também ocorre no Mitreu de Capua Vetere (século II) um relevo em mármore no qual Eros conduz Psiquê, segurando o braço dela e uma tocha. Há possíveis interpretações de sincretismo em que o deus do Amor está no lugar do deus Mitra ou atua como um guia que serve à ascensão da alma, conforme a tradição grega. Não está claro se ele expressa uma busca mitraica pela salvação ou se era simplesmente um assunto que atraía um indivíduo por outros motivos. Psiquê é invocada com a "Providência" (Pronoia) no início da chamada Liturgia de Mitra.R.L. Gordon, "Franz Cumont and the Doctrines of Mithraism," in Mithraic Studies (Manchester University Press, 1975), p. 239.miniaturadaimagem|Sarcófago romano antigo com Amor e Psiquê segurando o retrato da falecida|esquerda
É plausível também que um conjunto de gemas retrate o casamento místico de Cupido e Psiquê, imortalizado no final feliz do conto em Metamorfoses. Esse conjunto de evidência iconográfica sobre trechos da história de Cupido e Psiquê que apareceram posteriormente na versão de Apuleio permite concluir que as narrativas em torno do casal já circulavam por todo o mundo greco-romano desde pelo menos o período helenístico, e que Apuleio teria retomado e elaborado partes dessas tradições em sua fábula, enquanto há iconografia que retrate Cupido e Psiquê em narrativas que não se encontram na versão apuleiana.
Na antiguidade tardia, a figura do casal Cupido e Psiquê era recorrente como motivo decorativo, em estatuaria e também em contextos funerários, com o significado alegórico de reunião da alma com o deus do Amor. Por exemplo em Roma e Óstia, é muito comum encontrar a imagem de Cupido e Psiquê em sarcófagos de crianças. Tumbas de adultos também eram decoradas com cenas da história. miniaturadaimagem|Trono de Boston, provavelmente uma cópia romana de uma escultura grega antiga, associado ao Trono Ludovisi. Nela ao centro, verifica-se uma figura alada de Eros, que segurava uma balança encaixada à parte no conjunto. Acima de cada um dos pratos da balança, encontram-se duas figurinhas humanas, que são pesadas quanto à vida e morte. Uma outra associação entre Eros e psique, como conceito para alma, poderia ser encontrado na psicostasia grego: segundo Karl Kérenyi, em alguns relatos sobre a "balança das almas", a pesagem poderia determinar tanto o momento da morte, quanto o do nascimento e vida, envolvendo a disputa entre Queres. Em sua interpretação, "Quer" também significava originalmente alma e Eros poderia atuar como um Quer da vida, que determina o destino da alma antes do nascimento e rodeia o momento da concepção.
Folclorística Há quem afirme que a narrativa de Apuleio dependa inteiramente de fontes literárias, ao invés de contos do folclore; ela sem dúvida teria inspirado o surgimento de contos folclóricos posteriores, por exemplo até mesmo contos de fada modernos. Apuleio é devedor do gênero da fábula milésia e as referências literárias de suas obras estão principalmente relacionadas à cultura greco-latina. Mas é igualmente certo que alguns elementos norte-africanos também podem ser encontrados, principalmente de histórias de Cabília e Líbia.Laird, Andrew (2021). «The White Goddess in Mexico: Apuleius, Isis, and the Virgin of Guadalupe in Latin, Spanish, and Nahuatl Sources». In: Bistagne, Florence; Boidin, Carole; Mouren, Raphaële. The Afterlife of Apuleius (PDF) (em inglês). [S.l.]: Institute of Classical Studies, School of Advanced Study, University of London PressMammeri, Mouloud (1986). "Constances maghrébines". In L. Serra (ed.). Gli interscambi culturali e socio-economici fra l'Africa settentrionale e l'Europa mediterranea. Atti del congresso internazionale di Amalfi, 5-8 dicembre 1983, vol. I. Nápoles: Istituto Universitario Orientale. pp. 65-81, em particular pp. 73-74.Brugnatelli, Vermondo (2005). Fiabe del Nordafrica: La fiaba nordafricana come elemento di conoscenza della società. Università degli Studi di Napoli "L'Orientale". Assim, diversos estudiosos acadêmicos levantam a hipótese da utilização de antigos motivos folclóricos por Apuleio a partir de tradições orais,Walsh, Patrick G. The Roman novel: The 'Satyricon' of Petronius and the 'Metamorphoses' of Apuleius. Cambridge: Cambridge University Press, 1970. pp. 193-195. com possíveis origens berberes.
Os folcloristas perceberam a existência de centenas de variantes orais do conto na Europa, Oriente Próximo, Índia, América do Norte e Caribe, e alguns deles levantaram a hipótese da existência de um protótipo antigo comum, no qual Apuleio teria se inspirado. O folclorista sueco Jan-Öjvind Swahn, que escreveu um longo estudo sobre a história, o filólogo alemão Ludwig Friedländer e o folclorista russo Vladimir Propp defenderam a ideia de que ela se originou de uma fonte folclórica legítima.Friedländer, Ludwig. Roman life and manners under the early Empire. Vol. IV. London: Routledge. 1913. p. 102."Some scholars date the tale to this era [2nd century DC]. At the same time, Apuleius’s tale represents the first, most ancient written record of the folktale, but the tale itself is undoubtedly much more ancient. Apuleius’s text is a literary reworking, made by a thinker and philosopher." The Russian Folktale by Vladimir Yakovlevich Propp. Editado e traduzido por Sibelan Forrester. Wayne State University Press, 2012. p. 190. . miniaturadaimagem|Sarcófago da criação do homem por Prometeu (século IV), em Nápoles. Nessa cena central, o corpo do primeiro homem, criado por Prometeu, está estendido e inanimado. Psiquê, solicitada por dois Eros acima dele, lhe dará a vida.