miniaturadaimagem|305x305px|Logo da organização WikiLeaks, responsável pelo vazamento dos documentos confidenciais do Exército estadunidense sobre a Guerra do Iraque. Os documentos da Guerra do Iraque vazados pelo WikiLeaks referem-se a um conjunto de 391.832 relatórios de campo confidenciais do Exército dos Estados Unidos, também conhecidos como Registros da Guerra do Iraque, divulgados ao público pela organização multinacional de mídia e biblioteca associada, com sede na Suécia, fundada por Julian Assange em 2006. Esses documentos cobrem o período da guerra entre 2004 e 2009 e foram publicados na internet em 22 de outubro de 2010. Os arquivos registram 66.081 mortes de civis, de um total de 109.000 mortes documentadas. O vazamento levou o projeto a adicionar 15.000 mortes de civis à sua contagem, elevando o total para mais de 150.000, sendo aproximadamente 80% dessas vítimas civis. Esse episódio é considerado o maior vazamento na história militar dos Estados Unidos, superando o vazamento de documentos relacionados à Guerra do Afeganistão, ocorrido em 25 de julho de 2010.

Conteúdo Os registros levaram a relatórios de notícias de eventos anteriormente desconhecidos ou não confirmados que ocorreram durante a guerra.

Baixas civis O projeto Iraq Body Count estimou 15.000 mortes de civis que não haviam sido reconhecidas anteriormente pelo governo dos EUA, com base em uma extrapolação de uma amostra de mortes encontradas em aproximadamente 800 registros. Embora as autoridades americanas e britânicas tenham negado a existência de registros oficiais sobre mortes de civis, os documentos divulgados pelo WikiLeaks revelaram 66.081 mortes de civis, de um total de 109.000 fatalidades registradas entre 1º de janeiro de 2004 e 31 de dezembro de 2009. Até 2 de janeiro de 2013, o IBC havia adicionado 3.334 dessas mortes de civis, anteriormente não documentadas, ao seu banco de dados, como parte de sua análise contínua dos registros de guerra. miniaturadaimagem|Julian Assange, fundador da WikiLeaks. Outro vazamento de grande impacto na mídia foi realizado em 05 de abril de 2010, com o título de "Collateral Murder" (Assassinato colateral), onde um grupo de civis em Bagdá, incluindo dois integrantes da agência de notícias Reuters, foram mortos a partir de disparos realizados de um helicóptero Apache do exército estadunidense, no dia 12 de julho de 2007. No vídeo, é possível escutar os soldados norte-americanos indicando erroneamente o porte de armas AK-47 e RPG, momentos antes de abrirem fogo contra os civis. A Reuters tentou obter o vídeo previamente ao vazamento, filmado através da mira do helicóptero, através do , sem sucesso. Durante a operação, crianças foram atingidas. O exército dos EUA não informaram como os colaboradores da Reuters foram mortos e afirmaram como as crianças foram feridas, sendo realizada então uma investigação pelo próprio exército que concluiu que a ação dos soldados "estavam de acordo com a lei de conflitos armados e suas próprias 'Regras de Engajamento'."

Segundo a Al Jazeera, parte dos documentos vazados descreve como cerca de 700 civis foram mortos por tropas dos EUA por se aproximarem excessivamente de postos de controle. Entre as vítimas estavam mulheres grávidas e pessoas com problemas mentais. Pelo menos seis incidentes envolveram homens iraquianos que transportavam familiares grávidas para hospitais.

O New York Times destacou que os relatórios contêm evidências de diversos abusos, incluindo mortes de civis cometidas por contratantes privados. Um dos relatórios mencionados descreve que, após um ataque com IED (dispositivo explosivo improvisado), uma testemunha relatou que funcionários da Blackwater atiraram indiscriminadamente no local. Em outro incidente, ocorrido em 14 de maio de 2005, uma unidade americana observou um grupo de segurança privada da Blackwater atirar em um veículo civil, resultando na morte de um pai e em ferimentos à sua esposa e filha. miniaturadaimagem|219x219px|"Collateral Murder", vídeo liberado pelo Wikileaks no dia 5 de abril de 2010. Abusos de direitos humanos entre o Iraque e a coalizão ocidental Os registros confirmam alegações anteriores de que as forças militares norte-americanas entregaram diversos prisioneiros à , uma unidade acusada de espancar, torturar com furadeiras elétricas e executar suspeitos. De acordo com o The Guardian, os documentos também revelam que “as autoridades norte-americanas não investigaram centenas de denúncias de abuso, tortura, estupro e até assassinatos cometidos por policiais e soldados iraquianos.” A coalizão mantinha “uma política formal de ignorar tais alegações”, a menos que envolvessem diretamente suas próprias forças.

A revista Wired relatou que os abusos contra prisioneiros ou detidos pelas forças de segurança iraquianas continuaram mesmo após a divulgação do em 2004. Em um dos casos documentados, tropas dos EUA confiscaram um “gerador de manivela manual com grampos de aço” de uma delegacia de polícia em Bagdá, após um detento relatar ter sido brutalizado no local.

Um relatório analisado pelo Bureau of Investigative Journalism indicou que um helicóptero militar Apache dos EUA teria aberto fogo contra insurgentes iraquianos que estavam tentando se render.

Segundo o jornal , soldados dinamarqueses “transferiram a responsabilidade por um número significativamente maior de prisioneiros para a polícia iraquiana do que havia sido divulgado anteriormente”. Essa prática continuou mesmo após a coalizão ter testemunhado e sido repetidamente alertada sobre a tortura generalizada e os maus-tratos de prisioneiros sob custódia da polícia iraquiana.

Treinamento estrangeiro e apoio a insurgentes De acordo com a Wired Magazine, “o WikiLeaks pode ter reforçado uma das afirmações mais controversas do governo Bush sobre a Guerra do Iraque: a de que o Irã forneceu muitas das armas mais mortais da insurgência iraquiana e trabalhou ao lado de algumas de suas milícias mais letais. Os documentos indicam que o Irã foi um dos principais envolvidos na Guerra do Iraque, já que sua Força Quds de elite treinou os insurgentes xiitas iraquianos e importou armas letais, como as bombas penetradoras com carga explosiva, para serem usadas no Iraque contra civis, militantes sunitas e tropas dos EUA.”

O Boston Globe noticiou que os documentos mostram agentes iraquianos sendo treinados pelo Hezbollah em sequestros de precisão no estilo militar. Os relatórios também incluíam incidentes de aeronaves de vigilância dos EUA que foram perdidas no território iraniano.

Diversos Segundo o The New York Times, o conjunto de documentos divulgados pelo WikiLeaks em outubro de 2010 “retrata a longa história de tensões entre curdos e árabes no norte do Iraque e revela os temores de algumas unidades americanas sobre o que pode acontecer depois que as tropas americanas deixarem o país no final de 2011.”

Uma análise publicada pelo The Jerusalem Post argumentou que os documentos vazados indicam um padrão duplo na visão da comunidade internacional sobre os direitos humanos em relação à política militar de Israel.

Um editorial do The Washington Post afirmou que o vazamento “demonstra principalmente que a verdade sobre o Iraque ‘já foi dita’, ao mesmo tempo em que ‘complicou, pelo menos temporariamente, as negociações para formar um novo governo’”. O editor também acusou que “alegações como as publicadas pela revista britânica The Lancet de que as forças americanas massacraram centenas de milhares de pessoas são o verdadeiro ‘ataque à verdade’”.

Após as críticas sobre o vazamento dos documentos da Guerra do Afeganistão, o WikiLeaks redigiu mais informações dos documentos da Guerra do Iraque. Julian Assange explicou que isso foi feito para evitar que as pessoas se distraíssem da mensagem contida no material.

Repercussão

Cobertura da mídia O WikiLeaks disponibilizou os documentos sob embargo para várias organizações de mídia, como Der Spiegel, The Guardian, The New York Times, Al Jazeera, Le Monde, o Bureau of Investigative Journalism e o projeto Iraq Body Count. Em outubro de 2010, foi noticiado que o WikiLeaks planejava liberar até 400.000 documentos relacionados à Guerra do Iraque. Julian Assange inicialmente negou os relatos, afirmando: “O WikiLeaks não fala sobre datas de lançamentos futuros; na verdade, com raríssimas exceções, não comunicamos nenhuma informação específica sobre lançamentos futuros, já que isso apenas fornece material para que organizações abusivas preparem suas máquinas de propaganda.” O The Guardian informou, em 21 de outubro de 2010, que havia recebido quase 400.000 documentos sobre a Guerra do Iraque do WikiLeaks.

Após a suspensão do embargo, a cobertura da mídia por esses grupos foi seguida por uma cobertura adicional de outras organizações de mídia. O The Guardian disse que “o New York Times, o Washington Post e outros jornais foram acusados por publicações da web e alguns blogueiros de minimizar a extensão em que os documentos revelaram a cumplicidade dos EUA com a tortura e forneceram evidências de que os políticos em Washington ‘mentiram’ sobre as falhas da missão militar dos EUA”. Glenn Greenwald, do Salon.com, comentou que “os meios de comunicação de todo o mundo deram destaque a essa revelação, mas não o The New York Times”, chamando a cobertura do vazamento de documentos de “subserviente” ao Pentágono. Os jornais do Reino Unido, incluindo The Independent e The Daily Telegraph, chamaram os War Logs de uma acusação da guerra que “deve ser investigada e não ignorada em nome da conveniência política.”

A Slate escreveu que a “maior descoberta” foi que “a maioria das mortes de civis iraquianos foi causada por outros iraquianos” e que “embora alguns guardas americanos tenham se comportado de maneira horrível com os detentos iraquianos na prisão de Abu Ghraib, a polícia e os soldados iraquianos se comportaram de maneira muito pior.” Outros escritores afirmaram que os War Logs destacaram o perigo do Irã no Iraque e “podem muito bem inviabilizar a formação de um governo ao implicar o primeiro-ministro interino Nuri al-Maliki na gestão de esquadrões da morte.” escreveu que os documentos “não nos dizem muito que já não soubéssemos em linhas gerais.”

Organizações internacionais O investigador-chefe da ONU sobre tortura, , afirmou que “se os arquivos divulgados pelo WikiLeaks apontassem para violações claras da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura, o governo Obama teria a obrigação de investigá-los." A convenção, de acordo com Nowak, proíbe os EUA de entregar os detentos ao governo iraquiano, se isso significar que eles poderão ser submetidos à tortura. O Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Navanethem Pillay, disse que “os EUA e o Iraque devem investigar as alegações de abuso contidas nos arquivos publicados no site WikiLeaks”. Além disso, o Relator Especial da ONU sobre Tortura, Manfred Nowak, pediu “uma investigação mais ampla para incluir os supostos abusos dos EUA.”

Hamit Dardagan, cofundador do projeto Iraq Body Count, afirmou que a publicação dos registros da Guerra do Iraque revelou detalhes específicos sobre 15 mil mortes violentas de civis iraquianos não relatadas anteriormente. Dardagan disse que, para algumas das mortes, o WikiLeaks forneceu “detalhes de identificação até então não revelados, inclusive seus nomes - o que não é pouca coisa quando tantas famílias iraquianas ainda estavam procurando desesperadamente por seus entes queridos desaparecidos.”

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