A língua khatso (em khatso: [kʰa⁵⁵tso³¹tɕʰi³¹]; em chinês: 喀卓语, transl. kāzhuóyǔ), também conhecida como katso ou kāzhuó, é uma língua ngwi-birmanesa do ramo tibeto-birmanês da família sino-tibetana. Com cerca de 5600 falantes, o idioma khatso é predominantemente presente em Xingmeng, uma aldeia localizada no sudoeste da China, na província de Yunnan.
Considerada uma língua relativamente nova, com menos de 750 anos, o khatso surgiu após a invasão mongol de Yunnan em 1253, através do contato entre soldados mongóis e os grupos étnicos locais. No entanto, a sua evolução desde a origem ainda não foi completamente analisada.
O khatso é uma língua ágrafa, sem um sistema de escrita próprio, o que obriga o uso do chinês para placas, anotações e até mesmo listas de compras na aldeia. Como consequência, tal dependência contribui para um declínio intergeracional na habilidade linguística, levando a UNESCO a classificar o idioma khatso como "definitivamente em risco de extinção". Apesar do bilinguismo chinês na aldeia, o khatso ainda é a língua do dia a dia. Na comunidade, é essencial a fluência em khatso caso alguém queira ser reconhecido como um khatso legítimo. Esse forte senso de identidade e as roupas tradicionais das mulheres são as principais marcas culturais que distinguem os khatso de outros grupos étnicos em Yunnan.
A língua khatso exibe características fonológicas, morfológicas e sintáticas típicas das línguas ngwi. Fonologicamente, destaca-se pela ausência de consoantes sonoras e vogais tensas, além de possuir um inventário tonal mais elaborado. Embora tenha alguns empréstimos lexicais do mongol, o khatso permanece como uma língua independente dentro da família ngwi, sem substrato mongol significativo.
Etimologia
O idioma khatso, por ser uma língua ágrafa, não possui uma representação escrita da pronúncia nativa (kʰa⁵⁵tso³¹tɕʰi³¹). Por conta disso, pesquisadores utilizam o seu exônimo chinês, 喀卓语 kāzhuóyǔ, com 语 yǔ indicando que 喀卓 kāzhuó, nome da etnia, refere-se a uma língua. miniaturadaimagem|278x278px|Condado de Luquan, Kunming. Os falantes nativos costumam se referir à sua própria língua como kʰa⁵⁵tso³¹tɕʰi³¹, que poderia ser traduzido como "língua khatso", usando tɕʰi³¹ para designar o termo como uma língua. Sobre a etimologia do endônimo khatso kʰa⁵⁵tso³¹, ainda não existe um consenso entre os pesquisadores sobre a sua origem. A hipótese popular, também defendida pela academia mongol, sugere que o nome evoluiu da palavra mongol médio para "si mesmo, próprio". Entretanto, uma outra teoria concorrente sugere que o nome khatso kʰa⁵⁵tso³¹ compartilha uma origem com kʰa²¹dzo⁵⁵, o nome de uma aldeia ngwi no Condado de Luquan, ao norte de Kunming. Em chinês, o termo significa "aldeia central" e é escrito como 卡柱 kǎzhù, com kǎ representando "aldeia" e zhù "suporte" ou "entre". No entanto, todas as hipóteses sobre a etimologia permanecem inconclusivas.
Distribuição A maior parte dos falantes de khatso são os residentes de Xingmeng, uma aldeia localizada no sudoeste da China, na província de Yunnan. Embora a população da aldeia seja pequena (aproximadamente 5620 em 2006), mais do que 99% dos habitantes são proficientes em khatso. Além disso, todos os residentes são bilíngues em chinês, mesmo khatso sendo a língua usada no cotidiano da vila Na comunidade, é essencial a fluência em khatso caso alguém queira ser reconhecido como um khatso legítimo.
O idioma khatso, por não ter um sistema de escrita nem ser reconhecido oficialmente como uma língua independente, não recebe suporte de mídias ou tecnologias, dificultando sua disseminação.
Xingmeng é dividida em cinco aldeias: ȵa³²³ka³⁵ ou Zhongcun, pɛi³²³ko⁵³ ou Baige, kʰa⁵⁵tsɿ³³ ou Xìacun, pɛi³²³pa³²³ ou Jiaoyiwan e sɿ²⁴tsʰɿ³³xo³⁵ ou Taojiazu. Atualmente, quatro delas são contíguas, com apenas sɿ²⁴tsʰɿ³³xo³⁵ ou Taojiazu geograficamente separada. esquerda|miniaturadaimagem|273x273px|Escritório do governo em Xingmeng. Embora tenha um número reduzido de falantes, o khatso não possui um padrão comum de pronúncia. Existe, na verdade, uma quantidade notável de variação fonética por toda a aldeia. Além disso, o vilarejo ȵa³²³ka³⁵ ou Zhongcun é famoso entre os habitantes pelo seu "sotaque distinto". Essas variações, no entanto, não são extensas e envolvem principalmente alternâncias previsíveis de vogais, e essas diferenças não comprometem a compreensão mútua entre os falantes.
Línguas relacionadas
O khatso também contém uma grande quantidade de palavras emprestadas do chinês: quase 40% do vocabulário é de origem chinesa. Esses empréstimos vêm do mandarim do sudoeste, o dialeto da língua nacional que é falado em Sichuan, Yunnan, Guizhou e Hubei. Não surpreendentemente, a maior parte dos empréstimos mais recentes estão associados a novos conceitos nas esferas da tecnologia, política e cultura. Em alguns casos, as palavras emprestadas substituíram completamente as palavras originais, como acontece com os termos para direções e parentesco. Em outros, os termos nativos continuam sendo usados junto com os estrangeiros. Um exemplo disso são os números: os números vindos do hanyu são usados para falar sobre horários e datas, enquanto os números tradicionais do khatso ainda são usados para contar.
Embora o idioma tenha surgido através do contato entre soldados mongóis e grupos étnicos locais em 1253, o khatso possui poucas similaridades com o mongol atual. Existem alguns empréstimos lexicais, mas nenhum elemento mongol significativo. A relação do khatso com o mongol ainda é umas das principais questões envolvidas com a origem da língua.
História
História da língua miniaturadaimagem|302x302px|Xingmeng é uma vila agrícola cercada por campos de cultivo. Há vegetais como repolho em campos abertos e melões em estufas cobertas com plástico. A língua khatso, possivelmente surgida há cerca de 750 anos, tem suas origens vinculadas à histórica invasão mongol em Yunnan em 1253, liderada por Kublai Khan. Com o intuito de conquistar a China partindo do sul, os mongóis tomaram Yunnan, então uma região independente habitada por diversas tribos étnicas e governada por uma dinastia Bai. A conquista rápida de Dali por 100.000 soldados mongóis não só estabeleceu a base para futuras campanhas militares, mas também marcou o início de uma fusão cultural e linguística, à medida que muitos soldados se estabeleceram permanentemente, casando-se com mulheres locais dos grupos étnicos Ngwi, Bai, Hani, entre outras. Com o fim da dinastia Yuan em 1368, os remanescentes mongóis em Yunnan resistiram à nova dinastia Ming até 1381. Após a resistência, muitos se dispersaram ou se esconderam entre tribos locais. Um grupo de Qutuoguan, supostamente parentes do último comandante e suas tropas, fugiu para a margem pantanosa a oeste do Lago Qilu e deu origem a vilas que hoje compõem Xingmeng. Eles são considerados os ancestrais dos khatso. Eventualmente, os ex-soldados mongóis e suas famílias começaram a se dedicar à pesca e à agricultura, sendo conhecidos como "os pescadores". Este isolamento geográfico e cultural ajudou a preservar e desenvolver uma identidade khatso distinta, apesar das influências circundantes.
Durante a dinastia Ming, e mais tarde durante a Qing, a região de Yunnan viu uma intensificação da influência chinesa, com a chegada crescente de Han. Isso forçou muitos grupos ngwi, entre outros, a se deslocarem ou assimilarem aspectos da cultura han. No entanto, os khatso, em sua maioria pescadores e agricultores isolados, conseguiram manter um grau de independência cultural e linguística, em parte graças à prática de endogamia feminina, onde mulheres khatso casavam apenas com homens khatso.miniaturadaimagem|209x209px|Lago Qilu.|esquerdaApesar de não possuírem um sistema de escrita próprio, a memória histórica dos khatso sobre sua herança mongol foi preservada oralmente e por meio de placas memoriais escritas em chinês, erigidas nos séculos XIX e XX. Essas placas ajudaram a manter viva a consciência de suas origens mongóis, especialmente durante a dinastia Qing, quando a etnia mongol não era mais vista com inferioridade, permitindo aos khatso reivindicarem publicamente seu legado mongol.
No século XX, particularmente após a revolução de 1949, a comunidade khatso em Xingmeng experimentou uma série de trocas culturais e educacionais com a Mongólia Interior, fortalecendo laços através de intercâmbios acadêmicos e educacionais que continuam até hoje. A Mongólia Interior até se tornou um destino de férias comum para os khatso.
História da documentação Com nenhum sistema de escrita, os khatso deixaram poucos registros históricos escritos. Entretanto, existem projetos que estão buscando preservar a história e a cultura do povo khatso e a sua língua. Um desses sites é o khatso.net, que inclui diversas fotos, aúdios, vídeos e textos.
Atualmente, ainda não existe nenhuma análise sistemática que determina o caminho evolutivo do idioma khatso. Entretanto, sabe-se que o khatso possui diversas semelhanças fonológicas e morfológicas, bem como similaridades em vocabulário e sintaxe, com as línguas da família ngwi. O consenso entre os linguistas é de que o khatso é uma língua independente dentro da família ngwi.
A primeira pesquisa acadêmica que documentou a língua khatso se chama 云南蒙古族语言初探 Uma primeira exploração da língua mongol de Yunnan, publicada em 1976 pelo acadêmico mongol Hasieerdun.
História do ensino Entre os residentes de Xingmeng, o khatso é a língua usada no cotidiano. Como ela é a língua materna, os falantes preferem usar khatso sempre que possível. Historicamente, a prática da endogamia entre os khatso ajudou a manter a língua dentro da comunidade, pois as mulheres que se casavam com homens khatso eram encorajadas a aprender e usar a língua. Além disso, com os pais e mães khatso frequentemente trabalhando fora por longos períodos, as crianças crescem ouvindo khatso dos avós.
Apesar de todos esses fatores que contribuem para a sobrevivência da língua, o bilinguismo chinês está gradativamente mudando o uso de khatso na aldeia. Com a obrigatoriedade do ensino médio em chinês e a necessidade dos estudantes khatso frequentarem escolas internas fora da aldeia, houve uma mudança gradual para o chinês como língua de uso predominante, especialmente em ambientes formais como escolas e serviços governamentais. Isso levou os pais a priorizarem o chinês como primeira língua de seus filhos, deixando o khatso em um segundo plano, aprendido de maneira mais informal e limitada aos contextos domésticos e de lazer.
A falta de um sistema de escrita próprio dificultou a preservação da língua, limitando a transmissão formal da língua khatso através de livros e filmes, que são predominantemente em chinês. A ausência de tecnologias de comunicação e entretenimento em khatso, como rádios, filmes e televisão, que utilizam o chinês para atingir uma audiência nacional, também contribui para o enfraquecimento do uso da língua nativa.
Fonologia
Consoantes O khatso se destaca pela ausência de agrupamentos de consoantes. Em khatso, todas as consoantes, exceto duas, aparecem apenas como inícios de sílabas e nunca no final. As únicas exceções são as nasais / / e / /, que podem também funcionar como núcleos de sílabas. Isso cria um jeito especial de formar palavras em khatso, sem agrupamentos de consoantes, que é o contrário de algumas palavras que vemos no português, como "prato" ou "transcendental".
Outra particularidade é que as consoantes em khatso não se misturam com todos os tipos de vogais. Por exemplo, as consoantes formadas com os lábios (bilabiais) não são usadas com vogais que soam mais para trás na boca, como o "u" em "tucano", nem com combinações de vogais que começam com esses sons. Similarmente, as consoantes que são pronunciadas com a parte de trás da boca (velares) não acompanham a vogal "i" como em "fita", nem as combinações que começam com esse som.
O inventário consonantal da língua khatso está identificado abaixo: